Amor de Palmeiras para filhos

Leia o post original por Mauro Beting

Acabou o jogo do Palmeiras. Mais uma partida, logo, derrota. Por tabela, rabeira dela. Lanterna centenária.

Apresentando o Central Fox no mesmo horário, dando entrevista a respeito do centenário para o Esporte Interativo no início do jogo no Recife, não deu para ver tudo. Mas, uma vez mais, vi pouco de Palmeiras no time de Gareca – e nos tanto antecessores.

Outra falha de goleiro, muitas falhas de marcação, méritos do Sport para vencer. Deméritos do Palmeiras para perder. E se perder de novo psicologicamente.

Fim de programa na TV, fim de jogo, telefonema para meus filhos, na casa da mãe deles. O maior está desgostoso. Há um péssimo tempo. O menor acredita. Na base do crer por ser Palmeiras. Mas, também, descrer por ser palmeirense.

Depois eu falo mais. Embora tenha vontade de falar cada vez menos.

Parece até horário político:

“Luto pelo Palmeiras! No sentido de vibrar, vote Tonhão! ‘Luto’ como ‘brigo’, vote Edmundo! Mas, na acepção fúnebre, vote Mustafá”.

É por aí. E tem descido ladeira e tabela abaixo com os sucessores de cargo ou de política…

Na semana do aniversário, o palmeirense merecia o passado como presente. E não apenas o passado.

Assim como o Victorino, faz mais ou menos uns dois anos que o Palmeiras não joga.

Continuo acreditando sempre no Palmeiras. Mas cada vez menos creio em alguns palmeirenses.

Agora, no sábado, e até o final do campeonato (e não da picada), o torcedor precisa ganhar no grito o que o time se perde calado. É encher o estádio e de esperança o time. Ou melhor: o clube. Ou ainda melhor: o palmeirense.

A diretoria precisa fazer a parte dela, alguma dela: primeiro é dever encher o Pacaembu e, depois, se der, o cofre. Reduzir o preço do ingresso e aumentar o número de palmeirenses no estádio é o começo da virada. Embora ainda seja muito pouco. Mas já será melhor para muitos palestrinos.

Torcendo para sábado ser um dia à altura da festa que apresento na Praça da Sé, a partir do meio dia.

Hoje é dia de pensar e orar e lembrar 100 anos de Palestra. Os 72 anos de Palmeiras. E os maravilhosos 47 anos que eu tive por ser tudo isso.

Compensam os últimos anos.

Mas a vida é assim. E assim escrevi o texto que esta na contracapa do LANCE! desta quinta-feira:

 

Eu não estaria aqui se não fosse Palmeiras.

Não seríamos todos nós se fossemos outra coisa, outro credo, outras cores.

Eterno é o amor que temos pelos pais que me fizeram Palmeiras, logo gente. Tutti buona gente que se ama e se desentende pelo nostro Palestra Italia centenário, pelo Palmeiras que nasceu campeão há 72 anos.

Não precisa ser o time que mais venceu títulos nacionais no país que mais venceu títulos mundiais. Preciso é o Palmeiras, ainda que tão errado por estes anos.

Nada precisa ser decantado para quem não fica contando quantos canecos incontáveis na galeria de troféus, quantas cabeças passaram pelas catracas dos campos, quantos corações pulsaram pelo Alviverde inteiro.

O Palmeiras é o amor de pai para filho. Passa para os netos com a categoria de Romeu. Repassa para bisnetos que nem nasceram com a classe dos dois Djalmas de todos os Dias. Crianças verdes de esperança que já são palmeirenses impagáveis da linhagem dos Imparatos. Herança genética e estética: na nossa casa, pode tudo porque só pode Palmeiras.

Clube de colônia que não renega raiz e planta Palmeiras pelo Brasil. Era bianco, verde e rosso como a Itália do Palestra. Azzurro como a squadra. É verde, branco, pardo, negro, amarelo, vermelho, cafuzo, confusa aquarela do Brasil que o esquadrão abraçou. Do país que foi Palmeiras em 1951. Do Palmeiras que foi Brasil em 1965. Do meu time que é de todos nós.

Tanto quanto um passe de Ademir da Guia, o que nos ganha é um toque do hino imponente. Tanto quanto seguir o que ensina o Pai da Bola Waldemar Fiúme é ser filho da mesma fé que nos faz acreditar e cornetar na mesma frase, na mesma fase. Tanto quanto um carrinho de Junqueira é o carinho do toque da nossa camisa em nossa pele. Tanto quanto uma espalmada do anjo guardião Marcos são as mãos dadas com nosso filho na arquibancada do Palestra. Tanto quanto uma penalidade máxima guardada por Evair é a alma molhada e lavada na alegria máxima de um 12 de junho dos Namorados.

Tanto quanto um drible de Julinho é a finta e a ginga para ouvir pelo rádio o que nossos olhos não creem pela TV. Tanto quanto perder a respiração e ganhar um jogo num lance de Luís Pereira é ler o minuto a minuto de uma partida pela Internet e a cada segundo se sentir mais torcedor.  Tanto quanto honrar e encharcar a camisa como Djalma Santos é chegar e encher a nossa casa de espetáculos que não têm cabimento para tanta paixão.

O Stadium Palestra Italia dos devotos de São Marcos, dos filhos do Divino Ademir que nos dá Guia. Ponto de encontro de almas e desencontros de opiniões de periquitos e porcos. Festa no chiqueiro de Perdizes, no poleiro da Água Branca. No Parque Antarctica da Turiaçu. No Jardim Suspenso do Allianz Parque. Na nossa casa. Onde todos berram e todos têm alguma razão. E toda a emoção sem noção na nação palmeirense de Felipão, Luxemburgo, Filpo e Brandão. Da torcida que canta por Leivinha e vibra por Rivaldo. Do palmeirense que faz parte de uma sociedade que não precisa de carteirinha para ser fã. Do sócio que só precisa do SEP no endereço. No berço.

Filhos de periquitos que são porquinhos que cresceram ouvindo milagres de Marcos, divindades de Dudu e da Guia, chapéus de Alex, canetas de Edmundo, louros de Césares Sampaio e Maluco, loucos pazzi de tantos Palmeiras. A escola que nos acolhe. A Academia que o mundo aprendeu a respeitar. Palestra que nos ensina a amar. Sem condição. Só com Palmeiras. Cem anos.

Palestra nos ensina sempre. Palmeiras é nossa sina eterna.

Cent´anni, Palestra!

Obrigado, Palmeiras!

 

20140821-151929.jpg