COLUNA DA TERÇA

Leia o post original por André Kfouri

(publicada ontem, no Lance!)

CHATEADOS

A crise administrativa no futebol brasileiro chegou a tal ponto que um dirigente, devedor e sonegador confesso, não tem vergonha de repreender publicamente um jogador que criticou sua gestão. Aconteceu na edição de ontem no jornal Extra, em entrevista concedida por Maurício Assumpção à jornalista Marluci Martins.

Na conversa, o presidente – de saída – do Botafogo se disse “muito chateado” pelas declarações do goleiro Jefferson, que saudou a proximidade do fim do mandato do cartola que não paga salários e acha que seus funcionários devem trabalhar de graça e quietos. Os argumentos de Assumpção são hilários. Ele enxerga ingratidão na posição de Jefferson, pois “foi essa diretoria que o trouxe (da Turquia, em 2009). Foi essa diretoria que lhe deu oportunidade de ser duas vezes campeão carioca e que montou o time que o levou à Libertadores”.

Perceba o nível de alucinação: Assumpção quer que Jefferson lhe seja grato por exercer sua profissão, como se o Botafogo fosse o único clube do Brasil em que isso é possível. E ainda se apropria de conquistas dos jogadores, como se eles ficassem em casa enquanto clones se esforçam em campo. Esse tipo de devaneio só pode sair da mente de quem perdeu a capacidade de identificar o ridículo.

Para a desgraça do futebol no Brasil, ideias como essas estão disseminadas entre os pares de Assumpção. Há cartolas que as levam ao extremo da prática autoritária em seus feudos, perseguindo jogadores que ousam agir contra a falta de profissionalismo e o descumprimento de leis. O que houve no Grêmio Barueri na semana passada deveria chamar a atenção da Justiça do Trabalho, do Ministério Público e da CBF, como salientou o Bom Senso Futebol Clube em nota divulgada na última quinta-feira.

No dia anterior, o Grêmio Barueri havia expulsado os jogadores que, de acordo com dirigentes, lideraram o boicote ao jogo contra o Operário-MT, em 15 de agosto, pela Série D do Campeonato Brasileiro. O time matogrossense venceu a partida por W.O., porque o Barueri não entrou em campo. O motivo: atraso de dois meses de salário e quatro meses de direitos de imagem.

Dos cinco jogadores expulsos, um morava no próprio clube e três em apartamentos custeados pelo Grêmio Barueri, cujos aluguéis estão atrasados. A falta de pagamento afetou também as cozinheiras e outros funcionários. Não há material para treino, o que obriga os jogadores a usar equipamento próprio.

Em conversas sobre como solucionar o problema, a postura dos dirigentes do Barueri mudou após o boicote no jogo contra o Operário. Houve ameaça de não pagar os salários devidos caso os jogadores insistissem com os protestos. O presidente Alberto Ferrari deve estar “muito chateado” com os atletas.

Estamos falando de um clube da Série D, e de jogadores que (não) ganham cerca de R$ 2 mil por mês. Alguns estão sob risco de prisão por não pagamento de pensão, algo que a Justiça brasileira não perdoa. Os cartolas que não os remuneram, e sonegam impostos, estão por aí concedendo entrevistas, chateados.

DEMOROU

O trecho animador da entrevista de Maurício Assumpção ao Extra: “Não volto nunca mais. Não participo da vida política do Botafogo nunca mais”. Em breve, Jefferson e seus companheiros terão maiores chances de receber um tratamento profissional no clube em que trabalham.

HOLOFOTE

Ao dispensar Maicon sem explicar as circunstâncias do corte, a comissão técnica da Seleção Brasileira deixa claro que pretende “preservar” o jogador da repercussão de sua falha disciplinar. O que só aumenta a atenção e a curiosidade em relação ao episódio. Eventualmente, o que aconteceu chegará ao conhecimento público. Se a ideia é preservar Maicon, teria sido melhor abafar o problema e deixar de convocá-lo.

PASSO

Na Copa do Mundo de basquete, o Brasil venceu a Argentina, e bem. Não é mais a geração dourada que conquistou os Jogos Olímpicos, mas superar os argentinos é mais um sinal de que a seleção brasileira está a caminho de atingir seu potencial em um Mundial.