Algumas histórias de amor num domingo de clássicos

Leia o post original por Mauro Beting

Guilherme é são-paulino como o pai Carlos.

O pai do Gui virou tricolor quando o avô o levou para ver um amistoso do São Paulo em Ourinhos, nos anos 1940. Época da Máquina Tricolor que arrebatou mais um coração. E não só a alma. Também os pés: quando veio morar na capital, Carlos jogou pelo clube. Jogava bem, nas equipes de base. Mas preferiu estudar. Na faculdade de Direito, conheceu a bela Leila, italiana de Castell’Arquato, região de Piacenza. Palestrina de coração como a belíssima filha Silvana, uma das três irmãs mais velhas do Gui.

O são-paulino Guilherme que casou neste domingo com a corintiana Nathalia.

O pai e o irmão dela são daqueles que sempre estavam no Pacaembu e sempre estarão em Itaquera. De metrô, de trem, de ônibus, eles vão com o Corinthians. Quase sempre levando a irmã que virou tão fanática pelo futebol como o pai e o irmão. E, também, como o marido.

Tudo que Nathalia faz barulho pelo Timão dela, o Gui fica na dele pelo Tricolor.

Não sei qual será o time do filho deles.

Como tio, adoraria que o time da irmã do Guilherme, a minha Silvana, fosse o mesmo do filho desse novo amor.

Mas eu professo a fé de uma regra que não muda: time de coração são os pais de sangue que definem.

Neste caso, com tamanha paixão de mãe pelo Corinthians e de pai pelo São Paulo, lavo as mãos.

(Torço apenas para que os filhos sejam tão bacanas quanto os pais. Tão amorosos. Tão queridos. E sei que serão).

Mas, lá no fundo, você sabe, esfrego as mãos para que torçam por uma terceira via…

(Só torcida, caros cunhados. Só torcida…)

Até por entender e respeitar a paixão e o amor.

Durante a festa de casamento no domingo de sol em Cotia, falei ao meu cunhado que o Rogério Ceni havia aberto o placar no Morumbi no jogaço contra o Cruzeiro. Ele abriu o sorriso pela dupla alegria daquele domingo inesquecível.

Quando falei ao pai da noiva que o Flamengo vencia o Corinthians dele no Maracanã com um gol irregular, só a alegria de entregar a filha a um cara de uma família tão legal sustentava o domingo que, em outro caso, sem casamento, seria de tristeza. Raiva. Aquela sensação de todo jogo quando se perde.

Mas esse domingo era especial. Era de família. Era de ganhar o jogo da vida com mais gente para gritar  junto. Cornetar junto. Brigar junto por causa de futebol. O melhor caso de amor de família.

Jogaço pelo Brasileiro no Morumbi e eu não estava trabalhando. Pela primeira vez em 24 anos de ofício. Estava com meu amor Silvana, nossos cinco filhotes que têm quatro pais, minha mãe, meus sogros. Vivendo um felicíssimo domingo de sol e amor. Dos mais felizes em 48 anos de vida.

Sem pesar pelo meu time que, quando joga razoavelmente bem, perde feio para um rival, no sábado.

Sem lamentar mais um ano sem títulos e apenas batendo palmas para rivais que têm jogado tão bem quanto o São Paulo (e o Cruzeiro).

Sem celebrar a derrota do outro rival em mais um jogo de arbitragem ruim não para este ou aquele – para todo o futebol brasileiro.

Não trabalhei no domingo por conta do meu amor que me trouxe nova família e novos amores.

E vi quanto é bom ficar um pouco de fora da rodada e do futebol só para ver como o futebol a cada rodada é o que nos une. Por vezes até desune pelas paixões.

Mas é o amor de família que faz com que uma vitória do rival seja entendida com felicidade por ver a alegria do meu cunhado tricolor com o sucesso do time dele.

Tenho desde que casei em 2013, na minha casa, um filhote são-paulino como o avô, e um corintiano, como o pai.

Minha casa é ainda mais verde por ter mais gente de outras cores. Mais amores para a gente torcer a favor.

As vitórias são ainda mais doces ao lado dos meus filhos, da minha mulher e da filhota, todos palmeirenses. As derrotas, menos amargas, pelas alegrias quem chegam a quem a gente gosta.

O futebol é uma bênção.