Não é papo do Aranha. Nem Grêmio pode ser culpado de tudo

Leia o post original por Mauro Beting

As vaias são do jogo. Vaiar um atleta adversário é do futebol. Perseguir um rival que o eliminou de uma competição é compreensível. Enervar um jogador de outro time com palavras de baixíssimo calão não é bacana. Mas faz parte de nossa cultura de jogo, muitas vezes incultura de civilização.

Enorme parte da torcida do Grêmio vaiar o goleiro do Santos aconteceria provavelmente se as camisas fossem trocadas. Aconteceriam vaias na Vila Belmiro, Allianz Parque, Maracanã, onde fosse. É do torcedor. É do futebol.

É uma pena.

Mas o Grêmio precisa lamentar oficialmente o ocorrido. Precisa ter o discernimento, equilíbrio, retidão e coragem de Aranha. Ainda que correndo o risco de extrapolar e afirmar que todas as vaias foram racistas.

Precisa veemente distinguir o que é do futebol e o que pode ser preconceito.

Se não quer e não pode ser bode expiatório o clube e ótima parte de seus torcedores de boa vontade, não pode a instituição tolerar burrice de animais irracionais e que discriminam raças zurrando e urrando contra um goleiro negro como uma das três cores do clube.

Não é esparrela de Aranha. Nem papo do Aranha.

É o horror.

Aranha não se calou contra o baixo calão e contra alguns que são do pior escalão da humanidade desumana.

O Grêmio precisa berrar contra o racismo. Como fez Aranha. Como o mundo precisa ser um pouco mais humano.

Eu sei que o clube não apoia. Sei que a maioria não gosta.

Mas é preciso fazer o mesmo barulho para dizer não ao racismo.

O mesmo barulho para não ser o clube discriminado por algo intolerável. O Grêmio foi punido severamente por atos de alguns intolerantes. O Grêmio precisa punir os próprios intolerantes raciais.

Louvável muitas das iniciativas que o clube vem tendo contra as manifestações racistas. Inclusive o modo como parte da direção está estendendo a mão a Aranha. Ainda que ele não queira entender. Ou entende, mas não quer. E todas as partes precisam ser respeitadas. Sobretudo a que primeiro foi desrespeitada.

Não foram apenas vaias do jogo.

Foram vaias que vão acabando com todo o jogo.

Mas, reitero. A briga do Brasil não pode ser com o Grêmio. É contra o racismo.

O Grêmio não pode pagar pelos pecados do mundo. Mas tem de arcar com os débitos de débeis intolerantes. Estão todos pagando preço muito acima por algo impagável. Por crime inafiançável.