Perigo

Leia o post original por André Kfouri

Alan Shearer, o homem que marcou mais gols na história da Premier League, produziu e participou de um documentário que irá ao ar amanhã, na Inglaterra. O filme não é sobre gols ou títulos, mas a respeito de um tema que carece de mais conhecimento e merece mais importância: a relação entre o futebol e a demência, especificamente entre o ato de cabecear e o desenvolvimento de problemas neurológicos. Shearer se interessou pelo tema após assistir “Concussion” (no Brasil, “Um Homem Entre Gigantes”), que investiga os danos cerebrais em jogadores de futebol americano aposentados. Ele conversou com ex-futebolistas ingleses afetados pela doença e seus familiares, e se voluntariou para que seu próprio cérebro fosse analisado por pesquisadores. O trabalho levou pouco mais de um ano.

“Como alguém que jogou por mais de vinte anos e chegou a cabecear a bola até cem vezes por dia nos treinos, eu sabia que, se houvesse perigo, eu estaria entre aqueles que correram riscos”, disse Shearer ao site da BBC, que exibirá o documentário. “Quando me envolvi com o futebol, eu sabia que, no final da minha carreira, eu provavelmente teria alguns problemas físicos, e os tenho: joelhos, costas e tornozelos pouco confiáveis”, prosseguiu. “Mas o que eu jamais contemplei por um segundo naquela época foi que cabecear a bola poderia afetar meu cérebro”, explicou o ex-centroavante, hoje com quarenta e sete anos, que jogou no Southampton, no Blackburn, no Newcastle e marcou trinta gols pela seleção inglesa. Shearer pretende aumentar a conscientização da necessidade de diagnóstico e chamar a atenção para um campo que precisa de investimento e pesquisa.

Como ele disse à BBC, onde trabalha como comentarista, a indústria do futebol tomou providências nos últimos anos para tratar de situações relacionadas ao jogo. De desfibriladores disponíveis ao lado do campo para atender jogadores com problemas cardíacos a programas de tratamento aos que sofrem com álcool, drogas e apostas, clubes e associações evoluíram na assistência a atletas. “Mas muito pouco foi feito para investigar os efeitos de cabecear uma bola, e acho isso assombroso”, afirmou. Nos encontros com parentes de ex-jogadores que enfrentam a demência e suas consequências nas mais simples atividades diárias, Shearer percebeu a indignação de quem se sente ignorado e não recebeu qualquer tipo de auxílio das chamadas “autoridades do futebol”. Há quem esteja em posição de apenas obter respostas, mas evidentemente há, e haverá, aqueles que podem ser beneficiados por soluções.

Nas pesquisas envolvendo o futebol americano e doenças neurodegenerativas como a encefalopatia traumática crônica, descobriu-se que os choques violentos contra a cabeça não representam a principal ameaça. São os traumas leves, porém repetidos com muita frequência, que levam a problemas de cognição, coordenação, fala, memória, tremores e alterações de comportamento. Não é necessário um raciocínio complexo para supor que uma vida de cabeceios em treinos e jogos conduz a uma exposição que não pode ser desprezada, o que coloca o futebol diante da obrigação de compreender os riscos e encontrar maneiras de evitá-los. Ao falar sobre o documentário, Alan Shearer menciona a impressão de que as pessoas que governam o jogo na Inglaterra estão conscientes da situação. Terá de ser assim não só lá, mas no mundo inteiro.

LEVE

Se a ideia de enfrentar o Japão era apresentar à Seleção Brasileira um nível maior de exigência, não funcionou. O Brasil fez um trote suave em Lille, deixando claras as distâncias técnicas e coletivas em relação ao adversário. O terceiro gol, após o envolvimento de vários jogadores até a projeção de Danilo por trás de Willian e o passe para Gabriel Jesus, levou Tite a dizer que “não dá para marcar ultrapassagem” durante a comemoração. Satisfação por mais uma jogada trabalhada que terminou na rede.

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