O lugar de Lugano

Leia o post original por Mauro Beting

Ele chegou com pouca pelota nos pés e quase nenhuma bola da torcida. A imprensa torceu o nariz por ser “reforço do presidente” Marcelo Portugal Gouveia. Da cota de contratações que o treinador Oswaldo de Oliveira teria de se virar para escalar.

Pelos primeiros minutos e jogos, um bonde pesado. Mas por ser dos primeiros a chegar e dos últimos a deixar o CCT tricolor num clube bem acostumado a Rogério Ceni fazendo o mesmo, o central uruguaio foi ganhando respeito interno e espaço. E mais chances na equipe.

Para tanto, porém, pela técnica limitada, pela velocidade com tacógrafo, o esquema ideal precisava ter dois zagueiros ao lado, ele na sobra. Por dentro. Mais atrás. Um tanto à frente. Por todos os lugares onde houvesse um rival a ser detido. Uma bola a ser recuperada. O São Paulo a ser levado adiante.

Diego foi ganhado espaço e, o Tricolor, jogos. Depois campeonatos. E ele um lugar na história que um jogador com suas limitações só conquistaria se fosse são-paulino de berço e no braço e no berro. E ele parecia tudo isso. Também por ser do Uruguai de Rocha, Pedro para todas as pedreiras. Ferro e fogo como Forlán, Pablo. Eficiência foo Pereyra, Dario. Nessa conexão celeste que o São Paulo estabeleceu com a garra e o espírito charrúa e a estirpe e a classe de Rocha e Pereyra desde a inauguração definitiva do Morumbi.

Difícil entender como essa aura celeste (nem sempre celestial pelas porradas de Forlán e pelo jogo duro de Lugano) deu tão certo em vermelho, preto e branco. Lugano seria ídolo pelo que se jogou em todas e também em todas as cores e credos. Mas foi no São Paulo que ele começou a ser o zagueiro confiável que virou. É no São Paulo que se despede de vez no campo que há anos já não era dele. Na grande área onde poucos entraram sem a permissão do Dios tricolor do lugar: Lugano.

Nunca torci por ele. Mas o respeito que ele conquistou dá uma ponta de inveja de ter um defensor como ele de uma zaga e de uma camisa com a saga que ele conseguiu pelas limitações. A vontade de treinar e de pertencer, a sede de ser mais do que é, a seriedade e inteligência para conquistar tudo isso são admiráveis.

Lugano é exemplo para todas os ofícios. Você não precisa ser bom para ser. Você precisa ser necessário. Sério. Correto. E fazer tudo e falar pouco. Lugano ainda fala como Dario Pereyra. Ainda fala do mesmo jeito com que chegou ao clube. O espanhol é o mesmo. Mas ele é muito diferente. Muito melhor. Apenas fazendo. Não falando. Nunca jogou pra torcida e mídia. Sempre jogou pela torcida e nunca fez média.

É assim que se fez tão querido. É assim que se faz tão respeitado.

Nunca torci por você, Lugano. E sei o que perdi com isso.

Curta suas chuteiras penduradas. Mas não saia de campo