Todos os posts de André Kfouri

Classificado

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1 – A Copa do Brasil deixou lições. Para o São Paulo, a necessidade de abrir o campo e articular por dentro que deu resultado no Mineirão, aliada à maior intensidade para recuperação após a perda da bola. Para o Corinthians, o risco do cálculo matemático aplicado ao futebol, em situações de administração de vantagem.

2 – O chute cruzado e perigoso de Lucas Pratto simboliza a maior presença inicial do São Paulo no campo ofensivo. Carille intervém à frente do banco para orientar linhas um pouco mais adiantadas, e o Corinthians tenta distanciar a bola de sua própria área.

3 – O jogo disputado primordialmente na metade corintiana do gramado é a configuração normal do clássico nos dias atuais. Seria assim mesmo se o Corinthians não estivesse vencendo a eliminatória por 2 x 0, por uma questão de ideias e posicionamento. A luta do São Paulo contra o relógio apenas acentua essa dinâmica.

4 – É o básico confronto criação versus exploração do espaço. O gosto pessoal permite a escolha entre cada proposta; a análise impõe a compreensão dos objetivos. O futebol caminha para a necessidade do manejo de ambas, com o mesmo nível de competência, e de preferência com os mesmos jogadores. É um grande desafio.

5 – Romero chuta na trave, ao final de uma exibição clássica do jogo que o Corinthians deseja: desarme na região do meio de campo, poucos toques para chegar à área, finalização. Gabriel e Maycon na recuperação, Jadson e Rodriguinho no transporte da bola a Romero.

6 – Corinthians na frente, após a bola se apresentar a Jô dentro da pequena área. Quinto gol em cinco clássicos no ano para ele, em posição de impedimento no instante do lançamento, habilitado pelo toque de Pratto no meio do caminho. Lance tremendamente difícil para árbitro e assistente, que precisam decidir sem o replay que você tem em casa. Crédito quando há merecimento. (e quem é contra a implantação do árbitro assistente de vídeo não pode reclamar…)

7 – A ínfima possibilidade do São Paulo empatar o placar agregado praticamente encerrou a dúvida sobre o resultado. O clássico passou a ser uma questão de tempo para o Corinthians, orgulho para o São Paulo. A lógica indicava uma porção ainda maior de gramado à disposição do time de Carille. A rivalidade sugeria um segundo tempo disputado em temperatura mais alta em Itaquera.

8 – Neste tipo de ambiente, a expressão “duelos individuais” ganha outro sentido, pela disposição geral para não praticar futebol e competir de maneira supostamente valente. Sim, o jogo também é feito dessas interações. E sim, há jogadores que se preocupam e se ocupam demais com elas.

9 – Thiago Mendes contribui com um grande passe para o gol de Pratto, mas é excluído do jogo por excesso de violência, três minutos depois, já no trecho final. O São Paulo conclui o clássico com mais motivos para lamentar os próprios defeitos durante o primeiro tempo no Morumbi, período que essencialmente decidiu a vaga na final do campeonato.

10 – O segundo 1 x 1 em casa em cinco dias termina com sabor bem diferente do que o Corinthians sentiu diante do Internacional. O time foi mais seguro, mas também criou menos do que na noite de quarta-feira. Na leitura da atuação deste domingo, claro, é preciso considerar a diferença de gols construída na partida de ida. Quarenta anos depois de um título icônico na história do clube, é quase poético que Corinthians e Ponte Preta se reencontrem na decisão do Campeonato Paulista.

A PONTE

A final será um choque de equipes com planos semelhantes. E não é nenhum exagero avaliar que, nas ideias que compartilham, a Ponte Preta tem mostrado uma execução mais confiável do que o Corinthians. As disputas de títulos levam muitas circunstâncias para dentro do campo e tendem a equilibrar as coisas, mas certamente não falta confiança a um time que passou por Santos e Palmeiras no trajeto para a decisão.

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Jogo real

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Um fetiche da crítica superficial a equipes de futebol é a responsabilização do “sistema” por atuações e resultados frustrantes. Não no sentido utilizado por Capitão Nascimento, como uma força superior contra a qual nada se pode fazer. No jogo, trata-se da forma de atuar escolhida por um técnico ao treinar seu time e determinar como pretende ser bem sucedido. E ao contrário do que sugere o personagem de Wagner Moura em “Tropa de Elite”, culpar o sistema, no futebol, é sintoma de miopia.

O sistema não é o problema nem mesmo quando há total incompatibilidade entre a maneira de jogar e os futebolistas disponíveis. Neste caso, o equívoco está na eleição do modelo, não no modelo em si. E afirmar que um determinado treinador cometeu uma falha tão básica, sem conversar com ele e observar o que faz – e como faz – durante a semana é uma falha ainda pior. Times de futebol em formação têm defeitos de execução, ou seja, estão mais ou menos distantes da aplicação competente do sistema escolhido. A solução é continuar trabalhando, errando e acertando, se permitirem.

Outra reclamação na moda é sobre a insistência em um modelo específico de atuação, como se times de futebol pudessem ser seres camaleônicos, irreconhecíveis de uma semana para outra, ou até dentro do mesmo jogo. Ficção. Nenhuma equipe tem mais de uma personalidade futebolística, e não porque não queira, mas porque não é viável. O que existe são variações e ajustes necessários, com e sem substituição de jogadores, conforme circunstâncias, necessidades e adversários. Alguém já criticou o Atlético de Madrid por ter “apenas uma maneira de jogar”?

A questão, portanto, é a proximidade entre o que se planeja para um determinado encontro e o que se alcança em campo. É como uma nota de saída, a ser confrontada com o desempenho ao final da partida. Não é possível analisar futebol sem essa consideração, embora o jogo seja caracterizado pela imprevisibilidade e pela intervenção, às vezes decisiva, das vontades do acaso. O diagnóstico de que o Corinthians foi eliminado da Copa do Brasil porque não soube variar estilos no jogo contra o Internacional é falso; o que levou a decisão aos pênaltis foi o desempenho ofensivo abaixo do necessário.

Para um time primordialmente defensivo, como o de Fábio Carille, sofrer apenas um gol – em um lance no qual a bola sairia pela linha de fundo, bateu em Fagner e entrou – é um resultado plenamente aceitável. O Corinthians sobreviveria a esse gol se não tivesse falhado em quatro ocasiões cristalinas (duas com Jô, uma com Rodriguinho e uma Clayton) para se colocar em ótima situação. Daí se origina a leitura da comissão técnica de que não foi uma apresentação ruim. Pedir que o time se comporte na maior parte do tempo como fez após o 1 x 1 é uma descaracterização que causaria desequilíbrio e apresentaria mais problemas do que os atuais.

Pode-se gostar ou não da maneira como o Corinthians joga, ainda que seja difícil sustentar que outro modelo deveria ter sido escolhido por Carille diante das pressões com as quais precisa lidar. O que não faz sentido é reclamar a ausência de “outra cara” após uma eliminação, quando a causa foi a execução defeituosa de um aspecto fundamental para o sucesso da ideia. Ainda mais surreal é ouvir Carille falar sobre o “pior momento” de uma carreira que não completou quatro meses, exemplo máximo do desrespeito ao trabalho que marca a realidade do futebol no Brasil.

A pré-temporada é o único período em que um técnico pode transmitir os conceitos de atuação que deseja e, de fato, treiná-los. A partir do início das competições, é possível apenas relembrar o que os jogadores absorveram em maior ou menor extensão. Se já é difícil estabelecer uma ideia de jogo dentro do sistema preferido, estimulando comportamentos individuais e coletivos que não são assimilados da noite para o dia, pensar em outra maneira de atuar é uma missão para o Capitão Nascimento.

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Errático 

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1 – A abordagem conservadora para receber o Internacional em Itaquera seria diminuir riscos ao nível mínimo até o time gaúcho inevitavelmente se expor. A postura arrojada seria pressionar em busca do gol que aumentaria, e muito, as possibilidades de classificação.

2 – Nenhuma das opções foi necessária. Jô só conseguiu tocar de leve na bola arremessada por Fagner, direto para a área. Enquanto a defesa do Internacional olhava, Maycon finalizou cruzado e o Corinthians se viu em vantagem quando o jogo ainda esquentava.

3 – E se Jô, acionado por Rodriguinho, não falhasse ao procurar o canto esquerdo do gol de Marcelo Lomba, a eliminatória estaria em 3 x 1 para o Corinthians antes dos dez minutos. Sem grande esforço ou comportamento dominante em campo.

4 – De certo modo, o gol libertou o time de Zago. Se com o zero a zero era permitido manter certa prudência, em desvantagem não havia outra saída a não ser dar vários passos à frente e lidar com as consequências. Por um razoável trecho do primeiro tempo, o Inter foi perigoso em bolas aéreas, enquanto o Corinthians se colocou em seu “conforto defensivo”.

5 – Mas a jogada construída mais incisiva quem fez foram Rodriguinho, Fágner e Romero, nos acréscimos: sequência de passes na área adversária que terminou em um chute fraco do atacante paraguaio, defendido por Lomba.

6 – O Inter não tinha opções estratégicas para o segundo tempo. O Corinthians, sim. A julgar pela forma como o time tem se comportado em 2017, mesmo em casa, seria seguro apostar em um posicionamento que chamasse o oponente e o convidasse a errar. Proteção e reação.

7 – Na primeira ocasião para contragolpe, Romero dominou um lançamento de Jadson com notável categoria. O cruzamento do lado esquerdo encontrou Rodriguinho desmarcado e com tempo para escolher o melhor cabeceio. A bola passou muito perto da trave direita do gol gaúcho.

8 – Era evidente a dificuldade do Internacional para superar o bloqueio, assim como o sofrimento da zaga corintiana pelo alto. Após escanteio originado por uma bola perdida por Jadson à frente da área, Cássio defendeu o cabeceio de Carlos. No rebote, o chute de Nico López passaria à frente do gol, se Fagner não o desviasse para a própria rede: 1 x 1.

8 – Na medida em que o jogo se aproximava do território do erro fatal, o Corinthians teve três ocasiões para vencer: um cabeceio que Jô e Pablo “dividiram”, um gol inacreditavelmente perdido por Clayton, e um chute de Jô que Lomba pegou. Do outro lado, Cássio impediu um gol de Carlos.

9 – Nos pênaltis, Lomba defendeu duas cobranças e o chute de Arana voou para longe gol. O Inter segue.

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Reverência ao jogo

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Há um ponto sendo espetacularmente perdido nos debates sobre a atitude de Rodrigo Caio no clássico de domingo: os elogios ao gesto do zagueiro são-paulino procuram ampliar sua relevância para fora do âmbito do futebol, ignorando que a essência do comportamento em questão está diretamente relacionada ao jogo e o que se quer dele.

A conexão que tem sido feita entre o fair play no gramado e o avanço da sociedade está na mão contrária. O futebol é reflexo do mundo, não o inverso. De modo que a multiplicação de posturas como a de Rodrigo provavelmente não teria efeito transformador no Brasil de todos os dias, pois uma das maravilhas – e tragédias – do futebol é justamente distanciar as pessoas de suas rotinas.

No Japão, apenas como exemplo aleatório e sem entrar em pormenores, o que Rodrigo Caio fez não geraria discussão. Não porque o esporte japonês é mais “puro” do que em outros países, mas porque o povo japonês o é. Uma questão de escala de valores e respeito a eles.

O gesto de Rodrigo Caio se deu em campo e deve ser discutido neste ambiente, pois tem um valor brutal para o futebol. É um oferecimento de respeito ao jogo que, isto sim, pode carregar uma esperança de progresso na forma como futebolistas agem quando estão competindo.

Em sua passagem pelo São Paulo, Juan Carlos Osório costumava dizer que Rodrigo tem “caráter de jogador de rúgbi”, em referência à maneira como o zagueiro se conduz em relação aos companheiros, os adversários e à arbitragem.

O rúgbi tem muitas aulas a dar ao futebol nessa área, em particular na dinâmica atleta-árbitro. Embora pratiquem um esporte de contato físico muito mais agressivo, jogadores controlam seus hormônios e nervos em nome de uma conduta respeitosa acima de qualquer circunstância. Brigas são raras e a arbitragem trabalha com total tranquilidade para tomar decisões sem qualquer tipo de pressão.

Rodrigo Caio trata o futebol com essa reverência, essa admiração, essa gentileza. O que ele fez é nobre, é alto, é louvável e é invejável. E infelizmente há muita gente que não consegue conviver com esse tipo de relação com coisa alguma. A repulsa de quem o critica revela a incapacidade de agir como ele.

O aspecto mais importante de ser honesto em um campo de futebol é o impacto no trabalho do trio de arbitragem, que precisa administrar não só a aplicação das regras do jogo, mas também a tendência prevalente de desrespeitar as regras para vencer. A situação, por si só, já é uma covardia. Além de haver pouquíssimos exemplos no futebol brasileiro de qualquer tentativa de colaboração com a arbitragem, o que se vê são atos deliberados para influenciar decisões para um lado ou outro.

Suponha que Rodrigo tivesse ficado em silêncio e o cartão para Jô fosse mantido. A televisão mostraria o erro de Luiz Flávio de Oliveira, que seria responsabilizado pela ausência do atacante do Corinthians no jogo de volta. E teríamos mais um encontro decisivo desequilibrado por um equívoco do apito.

A educação, no sentido mais profundo, de Rodrigo Caio, evitou tal cenário, e é esse o ponto que deve ser amplificado para que se possa imaginar como o futebol seria se a maioria dos jogadores se comportasse assim.

Aplaudir a postura de Rodrigo é necessário, especialmente para quem acredita que o árbitro deve ser menos autoridade e mais condutor do jogo, permitindo que a dinâmica dos jogadores dirija as ações. Na realidade utópica em que todos os futebolistas fossem Rodrigos Caios, árbitros não seriam necessários.

Censurar Rodrigo por ser respeitoso com o futebol é o maior dano que se pode fazer ao jogo. O espírito de competição – evocado por quem o acusa de ser bobo – precisa ser cada vez mais limpo, em nome da própria sobrevivência do futebol como algo que ocupa um lugar especial na vida das pessoas.

O jogo está acima de tudo e de todos.

Valores como classe, honra e coragem não se compram. São adquiridos por formação ou por exemplo, e geralmente causam uma tremenda inveja em quem não os possui.

Por mais jogadores como o zagueiro são-paulino nos campos de futebol do Brasil.

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A grande barreira

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Prosseguindo com a pregação no deserto de conceitos no qual uma faceta do futebol brasileiro caminha, já cambaleante, tentando alcançar o oásis que jamais chegará: será possível que não se percebe o nonsense que é podar o trabalho de treinadores em início de carreira, especialmente quando propõem um tipo de jogo que vai além do pacote “defesa-transição-bola parada”? Qual é o ponto de criticar a carência de novas ideias e não compreender que todo processo de mudança exige prazo e paciência? Reclamar de jogos desinteressantes e perpetuar o imediatismo de resultados não é um evidente contrassenso?

O encontro entre São Paulo e Cruzeiro, na última quinta-feira, se transformou em uma espécie de simulado de um choque de estilos, como se um jogo fosse capaz de apresentar qualquer tipo de diagnóstico sobre times, sistemas, modelos. Os planos de Rogério Ceni foram criticados pelo pecado da ingenuidade diante de um oponente sagaz, Mano Menezes, que lhe deu corda até que enrolasse o próprio pescoço e amargasse o 0 x 2 no Morumbi. Pergunta: não é obviamente natural que um time que engatinha, dirigido por um técnico novato, seja superado por um adversário mais crescido, comandado por um treinador experiente?

Mano é um ótimo técnico. Vivido, bem formado, atualizado. Seus times costumam marcar muito e ter ideias claras do que pretendem, o que é confundido com defensivismo por quem vê o jogo sem profundidade. O Cruzeiro – que pressiona em posições adiantadas e mantém posse no campo de ataque – e seu excelente elenco caminham para ser um produto bem acabado de ocupação de espaços e alta produtividade ofensiva, um time construído com métodos modernos de treinamento para controlar jogos de diferentes maneiras. A vitória sobre o São Paulo foi fruto de leitura estratégica perfeita, atuação competente e um pouco de sorte.

Sim, porque um gol contra marcado pelo centro-avante adversário é o encontro do acaso com uma defesa propensa a falhar na bola aérea. Uma ocorrência que não tem absolutamente nenhuma relação com sistema de jogo. Mano, que trabalha com análise de desempenho e estudo minucioso do rival, identificou os mecanismos imperfeitos de um time que está longe da sua melhor versão e os explorou de maneira quase cruel. São inúmeros os casos em que times “de posse”, estabelecidos e bem sucedidos, são derrotados pela soma de seus erros e das virtudes do oponente. O São Paulo de Rogério ainda está nos primeiros degraus da escada.

Pedir a Ceni que possua uma “outra forma de atuar” quando ele se dedica, desde a pré-temporada, a desenvolver uma equipe de posse, posição e pressão, é supor que treinadores comandam atletas com controles remotos e o jogo de futebol é uma simples questão de ordens enviadas do banco de reservas. Mesmo se fosse assim, essa opção não estaria disponível com três meses e meio de atividade. É bastante provável que outras derrotas semelhantes aconteçam antes do aperfeiçoamento conduzir o time a uma situação em que todas as condições para vencer estarão presentes. Isto, claro, se o trabalho seguir evoluindo com tempo, peças e confiança.

Usa-se aqui o São Paulo como exemplo porque a intenção de uma nova proposta foi esclarecida desde o início e a trajetória de Ceni começou em janeiro. Mas a resistência a entender circunstâncias e objetivos é do mesmo tipo que ameaça os projetos atuais de Dorival Júnior, Roger Machado, Zé Ricardo e Eduardo Baptista. A ideia de formar equipes com características próprias e permanentes – única forma de garantir possibilidades de sucesso por temporadas em sequência – nunca florescerá nos clubes brasileiros enquanto esta barreira, que é essencialmente de conhecimento, não for superada.

(Esta coluna foi escrita antes dos jogos de domingo. Se pudesse ser escrita depois, os resultados não fariam diferença.)

(publicada em 17/4/2017, no LANCE!)

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Lava esporte

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A tempestade de lama das delações da Odebrecht atingiu de novo o esporte, para a surpresa de exatamente ninguém. O ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, aparece nas planilhas da empresa sendo pago para facilitar contratos relacionados aos Jogos Olímpicos de 2016. O deputado federal Vicente Cândido, diretor da CBF, é acusado de receber dinheiro para colaborar com o financiamento da Arena de Itaquera. O colossal rolo do estádio corintiano também fez surgirem verbas “não contabilizadas” para a campanha do deputado federal Andrés Sanchez (ex-presidente do clube e responsável pela obra), com envolvimento de André Negão, seu assessor e atual vice-presidente do Corinthians.

É desgraçadamente lógico que o ambiente esportivo brasileiro seja tão sujo quanto qualquer outra área de atividade no país, sem a necessidade de qualquer estímulo. Ou mais. O que se assiste agora foi cortesia da Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada de 2016, quando os políticos profissionais, os políticos do esporte e as empreiteiras se reuniram para aproveitar duas oportunidades que não se repetirão. A festa da corrupção exposta é um recado especial para quem, durante tanto tempo, destilou ignorância opinativa contra as vozes que alertavam para os esquemas que enriqueceriam ladrões de terno em nome do “legado”. É seu caso? Boa Páscoa.

Metade dos estádios utilizados na Copa do Mundo do Brasil será investigada por irregularidades relatadas pelos delatores: Maracanã, Mané Garrincha, Arena Pernambuco, Arena Castelão, Arena da Amazônia e Arena Corinthians. E é obrigatório frisar que esse é o saldo de momento dos depoimentos de executivos e ex-executivos de apenas uma das empresas que mandam no país há décadas. O legado da Copa das Copas? Em seis arenas do Mundial, o público médio não chega a cinco mil pessoas, conforme levantamento feito na semana passada pelo jornal O Globo. Avisos neste sentido foram tratados como “vira-latismo” de pessimistas incorrigíveis ou preconceito da “imprensa do Sul”.

Um dos efeitos práticos da enormidade da Operação Lava Jato é o redirecionamento de recursos e membros do Ministério Público que estavam envolvidos em outras investigações. A colaboração da Justiça brasileira com autoridades americanas e suíças, a propósito do escândalo na Fifa, por exemplo, se desacelerou. Enquanto os donos do futebol no país saboreiam um período de calmaria – a ponto de executarem um plano de permanência no poder à custa da covardia dos clubes – , imagina-se o que poderia acontecer com os monarcas olímpicos se as apurações pós-Rio 2016 estivessem com o pé embaixo. Quantas confederações estariam na pele da CBDA? Quantos cartolas, na de Coaracy Nunes?

Por ora, a podridão do esporte chega à superfície como efeito colateral de exames que tinham propósitos distintos. Ou, em outros casos, mais lentamente do que se pretendia. Faz todo o sentido calcular o que resultaria de uma versão esportiva da Lava Jato, uma vez que o dinheiro que circula nesta indústria só aumenta e os mecanismos de regulamentação e fiscalização são, com gentileza, tímidos. Empresas estatais investem verbas públicas no esporte de alto rendimento há vários ciclos olímpicos, em montantes na casa dos bilhões de reais. Considerando apenas o que se sabe hoje, seria “pessimismo” (ou vira-latismo?) duvidar que a gestão desses recursos é honesta?

CRUEL

Se o árbitro que apitou Vitória x Paraná Clube tivesse personalidade, não mostraria cartão amarelo a um jogador que tirou a camisa para homenagear um irmão morto no acidente da Chapecoense. Se a CBF estivesse preocupada com o futebol, anularia o cartão aplicado a Guilherme Biteco. Todas as características de um caso excepcional estão presentes, até como prestação de solidariedade às vítimas – que não são apenas as pessoas que perderam a vida – de uma tragédia do futebol.

(publicada em 15/4/2017, no LANCE!)

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Desumanizados

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DESUMANIZADOS

Um time de futebol foi alvo de um atentado a bomba a caminho do estádio, e teve de disputar um jogo da Liga dos Campeões vinte e quatro horas depois. O que aconteceu com o Borussia Dortmund é uma propaganda da insensibilidade disseminada no mundo de hoje, e mais um sinal da redução de futebolistas a seres inanimados, responsáveis pelo entretenimento alheio sem que se deva considerar nenhuma outra circunstância.

“Todo jogador, todo ser humano, e este foi um ataque a nós como humanos, pode ficar paralisado por isso”, disse o técnico Thomas Tuchel após a derrota de ontem para o Monaco, como crítica ao tratamento que seu time recebeu da Uefa. “Fomos tratados como se tivessem jogado uma lata de cerveja no ônibus”, prosseguiu. Tuchel informou que não foi consultado sobre as condições de seus jogadores para entrar em campo, revelando desconforto com a decisão tomada, à distância, de adiar a partida para o dia seguinte.

Eram três os explosivos colocados em uma esquina do trajeto do ônibus do Dortmund, logo após a saída do hotel em que o time se concentra, no caminho para o Signal Iduna Park. Havia pregos nas bombas que estilhaçaram os vidros do veículo, uma clara intenção de matar. Um dos pregos foi encontrado encravado em um encosto de cabeça, prova de que o ataque poderia ter produzido mais vítimas e casos mais graves que o do zagueiro Marc Bartra. Uma fratura na mão direita e pedaços de vidro retirados cirurgicamente do braço são ferimentos leves diante do risco envolvido.

“Não vou esquecer as expressões nos rostos [dos companheiros] por toda a minha vida”, declarou o meiocampista Nuri Sahin, mencionando o que se passou no ônibus após as explosões. O fato de o atentado não ter atingido seu objetivo mais cruel provavelmente foi levado em conta para que a roda continuasse em movimento após um breve intervalo. Não há manuais para esse tipo de situação, mas é infantil imaginar que um dia é suficiente para que pessoas processem uma tentativa de assassinato e estejam aptas a fazer seu trabalho.

Mas a desumanização de atletas é uma faceta do esporte visto apenas como espetáculo, em que interesses, prejuízos, cláusulas e logísticas falam mais alto. O bestialógico – repetido por ignorantes com microfones – que despreza a ciência ao sugerir que jogadores de futebol podem atuar mais de uma vez por semana, sem queda de desempenho ou risco de lesão, simboliza essa visão desrespeitosa. Daí a se achar normal que uma mensagem enviada da Suíça determine que vítimas de um atentado a bomba estejam em campo após uma noite mal dormida. 

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Torneios de ensaio

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Há um problema mais grave do que o número de datas do calendário reservadas aos torneios estaduais, o impacto negativo dessas competições no planejamento dos principais clubes brasileiros, ou mesmo a longa etapa constituída por jogos irrelevantes – independentemente do nível de ridículo dos formatos de disputa, que acompanha o nível de vergonha dos cartolas – até que o interesse aumente com o inevitável encontro de camisas rivais: a importância que se dá aos resultados obtidos, especialmente daqueles dos quais mais se espera, em um momento do ano que deveria ser dedicado a ensaios.

Já é antigo o raciocínio de que os estaduais servem para envenenar trabalhos muito antes do prazo mínimo de análise. Seja porque a derrota em um “clássico decisivo” se transforma em um motivo para fazer mudanças, seja porque a vitória causa a impressão errada sobre o real potencial de um time. A supervalorização desses torneios é adversária de todas as comissões técnicas, as que começaram seus projetos na pré-temporada e as que conseguiram o feito de permanecer empregadas de um ano para outro. Mas essa realidade tem um aspecto ainda mais cruel.

Os torneios estaduais existem para manter a influência das federações, os cartórios do futebol que sobrevivem nos dias atuais por causa do casamento entre a incapacidade dos clubes e a política imposta pela CBF. Mesmo com o declínio de sua importância esportiva cada vez mais notável, as competições organizadas pelas federações ainda têm valor do ponto de vista orçamentário, no que se apresenta como uma troca de futebol desinteressante por cotas sedutoras. A manutenção do status dessas entidades – e de seus dirigentes – tomou o lugar do jogo, e esse é problema.

Porque o jogo é produto do que se trabalha no dia a dia no campo de treinamentos, com objetivos pré-determinados para todas as vertentes da construção de equipes. Quando resultados alcançados em uma fase tão precoce ganham o peso de avaliações quase que definitivas, a porção do calendário que de fato interessa fica imediatamente comprometida. É inacreditável que, para satisfazer a uma pretensa necessidade de opiniões periódicas a respeito do estado de times de futebol, julgamentos sejam feitos no terceiro mês do ano. E é deprimente que tais julgamentos tenham repercussão no destino de quem faz o esporte diariamente.

Os torneios estaduais devem ser vistos como uma extensão da pré-temporada, o estágio em que ideias são testadas em competição – algo absolutamente necessário – e os diversos relacionamentos que existem dentro das equipes começam a se formar. Dessa maneira, ainda se trata de um período experimental em que a prioridade é observar desempenhos e verificar efetividades. Em outros termos, enxergar os estaduais como laboratórios é a única forma de conferir a eles o papel que merecem na formação de times, evitando que esse processo seja corrompido por resultados que não importam.

ESTÁ BEM

Um exemplo cristalino: o Palmeiras de Eduardo Baptista, criticado ferozmente nas primeiras SEMANAS do ano, e que agora começa a mostrar as associações ofensivas que não podem ser aceleradas conforme a vontade alheia. É necessário que se respeite o trabalho.

FOI MAL

Neymar, elogiado neste espaço há uma semana por seu jogo exuberante e sinais de amadurecimento, teve uma recaída na derrota do Barcelona para o Málaga, no sábado. Expulso por dois cartões amarelos incontestáveis em um encontro que poderia levar seu time à liderança do Campeonato Espanhol, o astro brasileiro passou a um comportamento ainda mais prejudicial ao sair de campo: aplaudiu ironicamente o quarto árbitro. O regulamento disciplinar do futebol espanhol é claro em relação a “atitudes de menosprezo ou de desconsideração”, com previsão de suspensão de dois a três jogos. Neymar pode perder o clássico com o Real Madrid.

(publicada em 10/4/2017, no LANCE!)

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O czar das piscinas

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Pedido de licença para uma coluna off-futebol. Os fatos se impõem e expõem o esporte olímpico brasileiro ao conhecimento público de um escândalo da mais alta gravidade, com as prisões resultantes da investigação na Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos. A Operação Águas Claras revela que é mais do que urgente a reforma das estruturas de poder das entidades esportivas no país, todas elas baseadas no mesmo modelo permissivo que as transforma em propriedades pessoais de “dirigentes” que se servem das modalidades, ao invés de servi-las.

Entre os detidos pela Polícia Federal, anteontem, no Rio de Janeiro, não está apenas um cartola brasileiro que há décadas serve de matriz para quem veio depois dele. Coaracy Nunes, 78, é o czar da natação nacional, um dos donos – sim, donos – do esporte no Brasil. Desde 1988, nada acontece nas piscinas de competição sem que represente sua vontade, como se ninguém mais, ao longo de quase trinta anos, tivesse capacidade para administrar a CBDA. No presépio do olimpismo brasileiro, Nunes é uma figura perene, antigo aliado do poder que o sustentou por tanto tempo, em um ciclo que se retro-alimenta sem se preocupar com mais nada.

Dono de um discurso folclórico, pretensamente cômico, e de atitudes espalhafatosas como se atirar na piscina para comemorar feitos – de atletas, não dele – da natação, Nunes passou a carreira contando histórias, prometendo estrutura, sugerindo profissionalismo e, de acordo com as acusações que levaram à sua prisão, roubando a CBDA e os nadadores brasileiros. Ele simboliza o protótipo do velho político do esporte, que utiliza as conexões de sua posição para manter o gabinete e lucrar ao máximo durante o processo, beneficiando os participantes da pirâmide. E o resto que se dane.

Reinados como o de Nunes sempre terminam mal. A investigação do Ministério Público que começou após os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (ciclo para o qual a CBDA captou R$ 123 milhões em verbas públicas, sem produzir uma única medalha em sua própria piscina) teve a contribuição de cerca de vinte atletas valentes, que não suportaram ficar em silêncio e contaram o que sabiam sobre a quadrilha de dirigentes que roubava até a premiação de quem, de fato, entra na água. Mais vocal e corajosa crítica da CBDA, a nadadora Joanna Maranhão pode finalmente se sentir um pouco menos solitária.

Enquanto os medalhistas olímpicos da natação brasileira pedem “eleições democráticas e legítimas” na confederação, as prisões de quinta-feira apresentam algumas questões imediatas: Coaracy Nunes seria o único cartola desse nível a praticar crimes de gestão? A CBDA é a única entidade do esporte olímpico em que esquemas de desvio de dinheiro foram implantados? Após quase trinta anos na cadeira de uma modalidade tão importante, o quão explosiva poderia ser a delação premiada do czar das piscinas? Que novas operações continuem acordando dirigentes corruptos antes do sol nascer. Os que já estão sem dormir demorarão menos tempo para abrir a porta.

O CORINTHIANS E A POSSE

Como dizem os especialistas em metodologia de futebol, a posse de bola é uma ferramenta para a implantação de uma forma de jogar. Jamais pode ser um objetivo, pois não está entre os critérios para que se determine vencedor e vencido. Em trabalhos baseados em conceitos claros, ter a bola passa, também, pela maneira como um time pretende se defender. O Corinthians dirigido por Fábio Carille se protege formando um cinturão móvel à frente de sua área, uma herança da época em que Tite trabalhava no clube. É natural que essa ideia conduza à postura de convidar o adversário a se aprofundar no campo de ataque, para aproveitar o espaço após a recuperação da bola. O desequilíbrio no elenco em relação às características dos jogadores sugere que, assim, o time fica mais seguro, algo que já se notou. Mas será necessário evoluir, como Carille já declarou.

(publicada em 8/4/2017, no LANCE!)

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Saldão no Timão

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Clubes interessados em inacreditáveis oportunidades de negócios não podem perder mais tempo: procurem o Corinthians o mais rápido possível, antes que a promoção termine. O estoque de jogadores é limitado e, pelo ritmo da liquidação, quem não se apressar terá de lidar com um tremendo arrependimento. Não é sempre que se vê uma tentativa tão evidente de reforçar rivais a qualquer custo, até com “operações casadas” do tipo perco dois e não contrato nenhum.

O constrangedor episódio com a Ponte Preta, no começo do ano, foi um valioso ensinamento ao departamento comandado por Flávio Adauto. O caso em que o Corinthians cedeu Lucca ao clube de Campinas em troca de um William Pottker que jamais foi entregue se converteu em um mapa seguido à risca nesta semana, na negociação com o Internacional por Valdívia. E deu certo: o Corinthians não contratou ninguém e ainda perdeu Giovanni Augusto. Sucesso!

Sim, porque o plano de “recuperar” um jogador que foi envolvido em uma transação mal sucedida por sua recusa em mudar de clube certamente terminará bem, não? Talvez haja quem acredite que Giovanni, que já não era utilizado, passou a se sentir melhor como jogador do Corinthians agora que se sabe que Valdívia não vem. Ou quem queira que as pessoas entendam que, de alguma forma, Giovanni “escolheu” ficar no clube. Na era do fake news e da pós-verdade, a falta de princípios e de compromisso – sem falar na mais absoluta falta de capacidade – elimina a preocupação em passar vergonha.

Pode-se criticar a diretoria de futebol do Corinthians de tudo, menos de não aprender com os próprios erros: tudo o que deu errado com a Ponte Preta também deu errado com o Inter, cem por cento de aproveitamento. Até mesmo os equívocos de posicionamento público, que prejudicam a imagem do clube pela exposição, foram religiosamente repetidos. Os bastidores do futebol não são um ambiente muito higiênico e é difícil saber precisamente quem está falando a verdade, mas estamos no terceiro mês da temporada e dois clubes já acusaram a diretoria corintiana de mentir. Seria um complô?

Se for, neste caso, será um exemplo de sabotagem interna. A área de Flávio Adauto, convertido por Roberto de Andrade em dirigente sem o mínimo preparo, só pode estar trabalhando contra o Corinthians. Há um saldão de jogadores em pleno andamento enquanto Fábio Carille tenta construir um time. A cada negociação, duas perdas em troca da ilusão de uma contratação. Foi Adauto quem disse que o #valeudrogba foi um caso de amadorismo. Ele deve saber do que fala.

(publicada em 6/4/2017, no LANCE!)

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