Todos os posts de André Kfouri

Paraíso

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Quem acompanha futebol com atenção sempre soube que a Seleção Brasileira era a caixa registradora da CBF. Há muito tempo a exploração mercadológica da camisa, dos jogadores que a vestem e, em certo ponto, do jogo que se pratica no país parece exagerada, com o distanciamento do público brasileiro em nome de uma agenda semelhante à de estrelas pop adolescentes: pouco importa onde se apresentarão, desde que o cachê seja depositado e todos os intermediários estejam satisfeitos.

Não deveria causar surpresa, portanto, que, no país dos esquemas, as aparições da Seleção tenham servido para enriquecer cartolas. Mesmo porque os indícios de que a coisa funcionava assim já tinham sido publicados, e com fartura de detalhes, pelos setores da imprensa esportiva nacional que não acham que futebol é apenas entretenimento. A ação de autoridades espanholas e americanas que colocou Sandro Rosell na cadeia apenas expôs a extensão da “operação”.

Rosell, ex-presidente do Barcelona, ajudou Ricardo Teixeira a fazer a Seleção Brasileira trabalhar para eles, gerando desvios de milhões de euros que os beneficiaram. Isso significa que os jogadores que atuaram pelo time nacional, por anos, remuneraram os espertos que se aproximaram fazendo negócios na CBF. O mesmo se pode dizer do enorme aparato midiático que sempre acompanhou os amistosos da equipe, colaborando para o sucesso do caixa 2 do Dr. Ricarrrrrdo e do amigo que ele chama de “Sandrinho”.

Rosell foi preso por corrupção e lavagem de dinheiro, após uma investigação que começou com um pedido de colaboração do FBI à justiça espanhola. A polícia federal dos Estados Unidos, responsável pelo famoso “caso Fifa”, encontrou movimentações bancárias suspeitas relacionadas a dirigentes de futebol de diversos países. O ex-presidente do Barcelona era um deles, e sua ligação com a CBF fez parte da “Operação Rimet”, em alusão ao dirigente francês que comandou a Fifa por trinta e três anos. Rosell e Teixeira negociaram e lucraram com os direitos de imagem da Seleção.

A questão agora se apresenta às autoridades brasileiras, que não podem simplesmente acompanhar o noticiário e erguer sobrancelhas como se o conteúdo fosse surpreendente, ou, ainda pior, fazer de conta que não têm providências a tomar. O repórter Martín Fernandez, do globoesporte.com, revelou ontem que o Ministério Público Federal solicitará acesso aos documentos e provas sobre dirigentes brasileiros que constam da investigação espanhola. Mas a falta de uma cooperação produtiva com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos – que mantém José Maria Marin em prisão domiciliar desde novembro de 2015 – não é um sinal animador.

A CBF também deveria estar entre os principais interessados no esclarecimento dos casos. Dirigentes embolsaram recursos de contratos que deveriam beneficiá-la, essencialmente desviando dinheiro do futebol brasileiro. Ou será que o argumento da entidade privada converte em assunto interno o que as justiças da Espanha e dos Estados Unidos chamam de “comissões ilegais”? A prisão de Sandro Rosell em Madri sugere que o Brasil é o paraíso da cartolagem corrupta do futebol mundial.

APITO ELETRÔNICO

A utilização do árbitro assistente de vídeo a partir das quartas de final da Copa Libertadores da América é uma excelente notícia, mas é preciso fazer uma ressalva. Embora a tecnologia para esse tipo de auxílio à arbitragem esteja disponível há muito tempo, os testes para sua correta aplicação ainda não foram concluídos. É preciso minimizar o impacto da tomada de decisões no fluxo do jogo, e nada indica que a Conmebol tenha aperfeiçoado esse aspecto. A pior coisa que pode acontecer para a arbitragem eletrônica, um recurso necessário para a credibilidade do futebol, é a demonstração de que ela mais atrapalha do que ajuda. Como se dá em tantas atividades, fazer direito é mais importante do que fazer primeiro.

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Daquele jeito

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1 – A única dúvida era se Cuca aplicaria à sua estreia na Copa Libertadores o ritmo acelerado que caracteriza seus times, ou se o conforto do regulamento o faria adotar um compasso mais controlado.

2 – Se dependesse do ambiente no Allianz Parque, o controle ficaria do lado de fora do estádio, mesmo porque um gol inicial aumentaria o conforto a um nível praticamente definitivo.

3 – E de fato não houve jogo até o gol de Mina, aos quinze minutos. Só Palmeiras. A jogada ensaiada de cobrança de falta hipnotizou a defesa do Atlético Tucumán: Zé Roberto, Guerra, Roger Guedes… e o zagueiro colombiano empurrou para a rede. Lance que Cuca retirou do manual ofensivo do ano passado (ver: Palmeiras 2 x 1 Coritiba, BR-16).

4 – Um pouco antes, Guerra – aproximando-se do patamar técnico capaz de torná-lo o principal jogador do time – poderia ter marcado, de voleio, um gol para não esquecer. Havia um zagueiro argentino no meio do caminho.

5 – O Atlético Tucumán surgiu no gramado oito minutos após o gol, quando Barbona foi lançado contra dois marcadores, passou por ambos com um só movimento e bateu forte, na trave. Um ataque isolado, e o jogo poderia estar 1 x 1.

6 – E só não ficou assim porque Rodríguez chutou torto após o rebote de Prass, jogando o gol argentino pela linha de fundo em uma chance clara. O Palmeiras tinha bola e espaço, mas não ameaçava o goleiro Lucchetti.

7 – Ao término do primeiro tempo, a tranquilidade do cálculo da classificação não se traduzia no gramado, onde o jogo era incômodo apesar do placar. O Palmeiras soube criar o cenário para o segundo gol, só não soube encontrá-lo.

8 – Quando o Palmeiras voltou do vestiário em modo “início de jogo”, o time argentino estava vacinado. Não se recolheu como na primeira parte, quis jogar. Um gol de Rodríguez, anulado por impedimento, foi o primeiro aviso. Outro dele, de cabeça, determinou o 1 x 1 que o Tucumán fez por merecer. Rara falha de Prass ao tentar socar a bola e sequer tocá-la.

9 – Gols não eram urgentes, mas necessários. Willian, em campo no lugar de Borja, teve gelo nas veias para preparar o chute dentro da área e evitar um defensor caído à sua frente: 2 x 1, num lance em que a calma do atacante palmeirense criou um efeito de câmera lenta.

10 – A vantagem não trouxe paz. Jean por pouco não marcou contra e Prass impediu novo empate ao defender um chute de Aliendro. Lucchetti negou um gol de cabeça a Michel Bastos, na troca de golpes em um final de jogo franco.

11 – Zé Roberto assinou o terceiro, com categoria, nos acréscimos. Vitória suada, liderança assegurada. O Palmeiras foi campeão brasileiro assim.

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Dividido 

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O encontro entre São Paulo e Avaí, fechamento da segunda rodada do Campeonato Brasileiro, redefine o caráter decisivo de cada jogo em uma competição disputada em pontos corridos. Mesmo em um estágio precoce, em que os resultados influem pouco, a partida desta noite é determinante para que o time comandado por Rogério Ceni volte a gastar energias com o que importa. E para que o próprio Ceni seja visto como um entre tantos treinadores brasileiros, e não como uma figura dividida por duas exigências irreais: o ser que nunca pode errar e o que jamais conseguirá acertar.

Ambos os olhares são dirigidos por quem enxerga Ceni como uma entidade são-paulina e só sabe lidar com as subjetividades que ele gera. Aqueles que se identificam com o ídolo projetam nele a imagem da perfeição. Os que não têm simpatia pelo que ele representa o consideram uma embalagem vazia. Enquanto navegar entre o impecável e o embuste, Ceni não vencerá, pois metade da audiência jamais estará satisfeita, e a outra metade não será convencida a experimentar. Este é um dos aspectos em que ser o “Mito” só o prejudica, pois mitos não treinam times e não precisam apresentar explicações quando as coisas vão mal.

Por baixo da imagem, Ceni é um ex-jogador começando a trajetória como técnico, posição em que um aprendizado se impõe independentemente do nível de sucesso da carreira como futebolista. E diante do que é realmente relevante (todas as facetas do dia a dia e a transição do trabalho para a competição ), sua persona no imaginário são-paulino tem pouca transcendência. O time não jogará bem porque é dirigido por um ícone, e nem jogará mal porque “assim como o goleiro, o técnico Ceni tem dificuldade para fazer autocríticas”. O único cenário em que as percepções se confundem é no ambiente político, conversa diferente.

Na rotina de preparação da equipe, Rogério é parte de uma estrutura que precisa funcionar e a última semana mostrou que há uma distância considerável entre o que se pensa e o que se passa. A entrevista de Lugano – que não tem jogado, não sabe se assinará um novo contrato e se dispôs a diminuir a pressão ao proteger o técnico – foi ilustrativa no sentido de mostrar que a natureza da narrativa do futebol é problematizar toda e qualquer situação quando os resultados são ruins. A história da “prancheta voadora” é um exemplo apropriado: não se trata de fofoca e nem de notícia de bastidor, apenas um evento corriqueiro cuja leitura varia conforme o placar.

É necessário salientar que a análise do futebol apresentado pelo São Paulo vem sendo corrompida, desde o início do ano, por um tipo de resistência que resvala no desconhecimento. As frequentes comparações com os resultados de equipes que praticam um jogo mais conservador sugerem incapacidade de identificar os objetivos de Ceni e como ele pretende alcançá-los. O que não significa, obviamente, que o técnico não se equivoque ou não tenha responsabilidade sobre o desempenho irregular do time. Pedir um retorno no meio da estrada por causa das eliminações no campeonato estadual e na Copa Sul-Americana é próprio da visão curta que o futebol brasileiro precisa expandir.

Desde a queda para o Defensa y Justicia, verdadeiras listas foram elaboradas com tarefas de conduta para Ceni, da forma como escalar o time à postura em entrevistas, passando por relacionamentos internos. Houve até quem recomendasse – e aqui está provavelmente um recorde de nonsense – a contratação de outro profissional para “treinar a defesa”. Os conselhos podem ter sido sinceros, mas pouco ajudam no que é urgente: uma vitória sobre o Avaí, de preferência com a aparição de sinais que indiquem evolução.

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Reiniciar

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(A sensação de que a caixa de esgoto do país entupiu torna escrever sobre futebol uma tarefa difícil. Não, “difícil” não é um termo apropriado. Inútil, constrangedor talvez. Porque além de aniquilar qualquer ideia de futuro, o que se conhece hoje sobre a classe política brasileira alcança o feito de extrapolar as mais exageradas impressões da realidade. Sempre se imaginou – e em certa extensão, se soube – que o que corria pelas tubulações do poder era grotesco, mas a esse ponto? É material suficiente para abrir uma cratera de esterco de um banheiro em Brasília até o centro da Terra. E o futebol? Céus, o futebol…)

O “fato importante” da semana foi a eliminação do Flamengo na Copa Libertadores, após um colapso absoluto na Argentina. Das três derrotas como visitante que inviabilizaram a classificação, o jogo contra o San Lorenzo foi o único em que o Flamengo se apequenou em campo de tal forma a exigir o gol fatal. A defesa de Muralha após uma cobrança de escanteio pode ter sugerido que a noite terminaria em empate, mas a placa com três minutos de acréscimo foi uma garantia de tempo suficiente para o castigo. Como Carlos Eduardo Mansur escreveu em O Globo, o futebol não costuma perdoar a renúncia ao jogo.

O encontro da expectativa exagerada com a frustração repentina costuma levar a erros de análise, que geram decisões mal informadas. Embora tenha sido recebida com níveis incendiários de indignação, a postura, digamos, sóbria de Eduardo Bandeira de Mello foi a única repercussão relativamente agradável da visita ao Nuevo Gasómetro. Pior do que abandonar a Libertadores em um estágio precoce é transformar a situação em motivo para solução nuclear. Dirigentes, é importante lembrar, têm o dever de controlar a própria temperatura nas ocasiões em que o torcedor quebra o termômetro.

Não é um elogio ao presidente do Flamengo, que exibe a tendência de politizar a discussão futebolística e aqui foi criticado quando se alinhou ao comando da CBF. A questão é que não existe obrigação nesse nível de futebol, independentemente do tamanho do investimento ou da capacidade de um time. O Flamengo teve um resultado que não merecia em Santiago, perdeu com justiça – mas não com vergonha – em Curitiba e fez uma atuação desastrosa em Buenos Aires. A maneira correta de absorver o impacto obviamente não é negá-lo, mas também não faz sentido aumentar seu tamanho. Experiências dessa natureza são valiosas, acima de tudo, para um técnico em início de carreira.

A ideia de que o clube sofre de alguma patologia que o impede de ser bem sucedido na Libertadores tampouco ajuda. Qual seria o remédio para esse mal? Times que jogam bem o futebol costumam ter maiores possibilidades de sucesso em competições de características diversas, ainda que não seja simples atingir esse patamar e não haja garantias. O pote de ouro não está ao final do arco-íris para todos os que trabalham bem. Nesse contexto, o diagnóstico de Zico sobre o risco de contaminação do ambiente pela “narrativa do cheirinho” deve ser considerado com a autoridade de seu nome. É uma influência que terá de ser administrada, pois o Flamengo seguirá no papel de candidato a cada vez que entrar em campo.

COMÉDIA

Ano: 2017. Assunto: suspensões na Copa Libertadores. Procedimento: a Conmebol envia email para a Confederação Brasileira de Futebol, que envia email para a Federação Catarinense de Futebol, que envia email para a Chapecoense. É cômico, não? Em plena era de mensagens instantâneas entre telefones em pontos distantes do planeta, a Conmebol não é capaz de divulgar jogadores suspensos em uma página de seu site.

FICÇÃO

A propósito: as punições ao Palmeiras e ao Peñarol corrompem a noção de que existe uma “nova” Conmebol.

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Modelos

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Roger Machado ofereceu um presente a quem prestou atenção à entrevista coletiva após a vitória do Atlético Mineiro sobre o Godoy Cruz, na terça-feira: “Construir um modelo de jogo demanda mais tempo do que construir um time”, disse o técnico, ao ser questionado a respeito do momento de sua equipe. Talvez seja o maior dilema do futebol no país.

Ele prosseguiu explicando a importância de estabelecer esse modelo (o conjunto de comportamentos individuais e coletivos com os quais um time de futebol compõe sua maneira de atuar), um trabalho quase artesanal que não tem prazo mínimo ou máximo para frutificar: é essa construção que possibilita a manutenção do caráter de jogo com peças diferentes.

A compreensão da dinâmica de formação de equipes é um dos temas mais complexos do futebol. O assunto é ainda mais relevante em países como o Brasil, em que treinadores trabalham com a corda no pescoço, do que em centros onde a convicção e a paciência têm sobrevidas um pouco maiores. Um paradoxo alimentado por defeitos estruturais e equívocos na tomada de decisão.

É raro ver um clube brasileiro manter seu elenco de um ano para outro, ou até dentro da mesma temporada. Aquele que “ousar” dar à comissão técnica o tempo necessário para a confecção de um modelo de jogo estará preparado para seguir competindo – e evoluindo – a partir de uma ideia instalada, que terá maiores possibilidades de gerar um período sustentável de bons resultados, em vez de conquistas esporádicas.

Roger, ao que parece, está no processo de superar as dificuldades iniciais que tantas vezes condenaram trabalhos promissores, em meio ao falso debate sobre “jovens estudiosos” versus “experientes preguiçosos” que se tenta criar no âmbito dos técnicos. Como disse Pep Guardiola, em entrevista a João Castelo Branco, na ESPN Brasil, dirigentes precisam entender e avaliar o que os futebolistas comentam sobre quem os comanda.

No caso do Atlético Mineiro, a atuação sem a bola de jogadores consagrados, como Robinho, vem dizendo o suficiente. Embora o crescimento ofensivo seja mais fácil de perceber, a alteração radical em curso é em relação à forma como o time se defende com movimentos sincronizados, algo inalcançável sem o envolvimento de todos. Essas características sugerem uma placa de “técnico trabalhando” ao lado do campo de treinos.

Há modelos de jogo em construção em vários clubes brasileiros. O que os diferencia não é o nível de sucesso apresentado até agora, mas o nível de respeito com que são tratados, abaixo e acima de quem os propõe.

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No mesmo lugar 

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Seria cômico se, ao final de uma dessas entrevistas coletivas em que os temas passam a ser a cor da calça e urgências semelhantes, Cuca revelasse que o verdadeiro motivo de seu afastamento em dezembro passado foi dar um chapéu no Campeonato Paulista: saltar o trecho do calendário que atrapalha a vida da maioria dos técnicos e retornar ao trabalho no início do Campeonato Brasileiro, com a passagem de fase na Copa Libertadores praticamente assegurada e um time que tem muito a crescer.

Sabe-se que a ideia não era essa e, não, troll, aqui não se pretende suspeitar das razões pessoais de Cuca. É apenas uma licença para constatar, com leveza, que, se a estratégia fosse eliminar o estadual e se envolver apenas com a parte nobre da temporada, teria sido um plano brilhante. Férias não remuneradas até maio, chamado quase que unânime para reassumir o Palmeiras, recepção com clima de solução para todos os problemas. Nem os roteiristas de “House of Cards” pensariam em um movimento tão magistral.

As diferenças em relação ao ano passado são gritantes. Cuca substituiu Marcelo Oliveira em março, quando a distância entre o potencial dos jogadores disponíveis e o time que se via em ação era grande e a eliminação na Libertadores, irreversível. Exceto o sofrimento inicial, o ano transcorreu com poucas passagens tensas até a conquista do título brasileiro, o primeiro do Palmeiras desde 1994. A decisão de não prosseguir gerou um problema para o clube e para o técnico que estivesse em seu lugar, especialmente alguém que ainda precisa escrever sua história com letras maiores, como Eduardo Baptista.

Já o Palmeiras que Cuca reencontrou na semana passada é um clube que lida com a exigência de sucesso que o próprio Cuca ajudou a criar. Provavelmente não há outro técnico mais indicado para a posição, pois, além da imagem associada ao torcedor, ele volta a dirigir os mesmos jogadores que conduziu ao troféu, reforçados pelas contratações feitas para esta temporada. Não haverá um período de adaptação mútua ou dificuldades para moldar a equipe conforme seus desejos. Sem falar que o cenário no torneio sul-americano é muito melhor. De certo modo, é como se Cuca jamais tivesse deixado o Palmeiras.

A estreia no Campeonato Brasileiro reforçou essa sensação. Cuca recebeu tratamento de jogador predileto no Allianz Parque antes do encontro com o Vasco, cujas carências constituíram a situação ideal para que o Palmeiras iniciasse a defesa de seu título com notas positivas. E provavelmente não foi por acaso que Dudu e Tchê Tchê, destaques do ano passado, tenham feito boas atuações na goleada por 4 x 0, que ainda veio com o bônus de dois gols marcados por Borja, ansioso por melhores momentos. No clube em que a demanda por vitórias está no nível mais alto do país, o campeonato começou de forma a temporariamente saciar o monstro.

COMEÇOU

A maravilha do Campeonato Brasileiro: unir a paixão do torcedor por seu clube em uma decisão a cada rodada à oferta de opções para aqueles que querem apreciar partidas atraentes. Um prato sempre cheio para quem só se interessa pelo próprio time e para quem gosta de futebol pela televisão. Após meses de torneios estaduais esticados a um tamanho muito além do que merecem, é notável a diferença de expectativa na primeira rodada do Brasileirão. É fundamental que esse nível de interesse seja mantido, o que só será possível com organização de primeira classe para cultivar o produto mais importante do futebol no país, cuja relevância no aspecto esportivo deveria estar acima da Copa Libertadores.

DISTÂNCIA

Em campo, e à esta altura, Palmeiras, Flamengo e Atlético Mineiro parecem à frente da concorrência. O Brasileirão é uma maratona, mas investimento e elenco forte geralmente fazem diferença em campeonatos de pontos corridos.

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Futebol premium

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Tite abriu sua palestra no evento da CBF com os vídeos de dois gols marcados pela Seleção Brasileira na Copa de 1982: Sócrates, contra a Itália, e Júnior, contra a Argentina, ambos com passes de Zico. A narração de Luciano do Valle colaborou para contagiar a plateia com o arrepio de todos os pelos do corpo, o tipo de sensação que faz lembrar por que o futebol existe e do que ele é capaz, apesar dos derrotados que só – dizem que – sabem vencer. Ao prosseguir com a apresentação, com menção à “essência do futebol brasileiro”, o técnico da Seleção chamou a exibição de mais um gol: Marcelo, contra o Paraguai, no último jogo das Eliminatórias Sul-Americanas. Mensagem enviada.

Quando Marcelo Bielsa assumiu o palco e defendeu o futebol de ataque que seu nome representa, os laterais do time de Tite foram citados como exemplos do papel da capacidade ofensiva na construção de equipes. Marcelo e Daniel Alves não se caracterizam pelo desempenho de marcação que se poderia esperar de jogadores da posição, mas se tornaram referências mundiais – há muitos anos – justamente por transcender o manual: são tão formidáveis como atacantes pelos lados que não podem ser ignorados. O benefício dos dilemas que propõem ao adversário supera, com distância, qualquer necessidade de ajuste que tenha de ser feito para acomodá-los.

Mas tudo é uma questão de visão. Bielsa falava sobre a importância da polivalência dos laterais – ele entende que todo jogador deve ser formado para cumprir pelo menos duas funções em campo, pois isso permite ao treinador alterar seu time sem fazer substituições – quando foi interrompido por Fabio Capello, sentado ao lado de Tite. O técnico italiano provavelmente não resistiu aos impulsos da escola em que se formou e manifestou sua discordância. “Você está certo”, disse Bielsa, não no sentido de dar razão a Capello, mas de forma a enfatizar que os técnicos que enxergam o jogo como gerador de emoções compõem uma honrosa, e necessária, minoria.

Eles sempre existirão e serão admirados pela coragem de praticar o tipo de futebol mais sofisticado que se conhece, por causa do período de maturação que exige e o nível de compreensão coletiva do qual depende. Pois quando as forças conspiram e essa classe de jogo triunfa, times se convertem em expoentes, o futebol avança e as pessoas não esquecem. Embora o equívoco de acreditar na eficiência de propostas negativas seja frequente, a bola sempre percorre ciclos de influência determinados pelos treinadores que formulam perguntas e pelos jogadores que são capazes de interpretá-las. Quanto mais castrador for o ambiente, maior é a importância de questionar.

Tite falou sobre o casamento entre a beleza e o sucesso como um objetivo no futebol de hoje, em que o envolvimento permanente de todos os jogadores em campo é uma condição inegociável. Recorreu a ilustrações que voltaram trinta e cinco anos no tempo para oferecer gols que hoje seriam classificados como “modernos” e sentimentos que parecem confinados ao passado. O universo de escolhas faz dele um privilegiado cada vez mais distante da realidade do esporte no Brasil, marcada pela valorização da mediocridade e pelo encerramento precoce de trabalhos que não vencem de imediato.

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Mestrado

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A menção ao nome de Marcelo Bielsa em qualquer rede antissocial costuma gerar o equivalente ao relincho quando o assunto são os técnicos de futebol. “Ganhou o quê?”, proclamam os especialistas, analisando o jogo de trás para frente e assim determinando quem tem mérito e quem não tem. É só mais um sinal de que vivemos uma realidade de cabeça para baixo, em que, por exemplo, se aceita que um ex-jogador conhecido pela baixa contagem neuronal excrete opiniões sobre jornalismo e temas que desconhece. E a vida segue.

O pecado de Bielsa não são os títulos que ele não conquistou, mas viver o futebol com as emoções de um apaixonado e não se dobrar a todos os mecanismos que repelem esse tipo de relação com o jogo. Fundamentalmente, Bielsa faz pensar, um estímulo cada vez menos reconhecido – não apenas no sentido da valorização, mas da mínima percepção – em sociedades nas quais o símbolo do sucesso é o rei do camarote. A inversão é compatível com a crítica do treinador argentino aos meios de comunicação, que “pervertem o ser humano de acordo com a vitória e a derrota”.

O grande Ezequiel Fernández Moores escreveu ontem, no diário La Nación, a propósito da palestra de Bielsa no evento organizado pela CBF: “Além de conhecimento, Bielsa é paixão pura. Esse é seu modo de entender o futebol. Sua credibilidade é à prova de balas. Não há outra personalidade como a sua na elite superprofissionalizada do futebol mundial”. Não há mesmo, e essa personalidade tem se mantido intacta em um ambiente que a rejeita justamente pelos princípios que ele não negocia, um dos motivos que o converteram em uma espécie de oráculo para técnicos que se orientam pelos valores do esporte.

Na segunda-feira, Bielsa se pôs a analisar a Seleção Brasileira conforme todos os sistemas táticos que existem (são dez, segundo ele), mas não sem antes pedir licença a Tite – sentado na primeira fila – e se desculpar de antemão por algum equívoco de observação. Na era da ofensa compulsória, passou despercebida a extrema generosidade de preparar uma palestra com este tema para ser apresentada no Rio de Janeiro, provavelmente porque é necessário cultivar certos valores para detectá-los. A autenticidade de Bielsa também o impediu de posar para fotos com uma camisa do Brasil, após uma explanação de mais de uma hora em que sua admiração pelo futebol brasileiro ficou evidente.

O pecado de Bielsa, de fato, é falar pouco. Entrevistas não fazem parte de sua rotina e aparições em congressos não são frequentes. Ele vive muito ocupado assistindo a jogos, pensando e rindo dos que relincham.

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Outro mundo

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1 – A Ponte Preta inicia o jogo com mais posse e mais iniciativa, como qualquer time que amarga o saldo de menos três está obrigado a fazer. Como consequência direta, o Corinthians prepara o contragolpe dentro de seu próprio estádio, um cenário que não se repetirá com frequência.

2 – Minuto 16: em 13 de outubro de 1977, Rui Rei foi expulso pelo árbitro Dulcídio Wanderley Boschilia à esta altura, deixando a Ponte em inferioridade numérica no Morumbi. Quase quarenta anos depois, em Itaquera, o 0 x 0 é o mesmo, mas com igualdade de forças.

3 – Se bem que Pablo correu sério risco de ver um cartão vermelho por uma falta excessivamente bruta sobre Nino Paraíba.

4 – Dinâmica esperada. A Ponte não encontra campo para jogar quando se aproxima da área de Cássio, recorrendo a bolas aéreas que apenas mantêm o goleiro corintiano aquecido. O Corinthians exibe o que pretende com o centro de Jadson para Romero e o chute de Maycon, na trave, lance que resultou de um erro na saída do time de Campinas.

5 – Minuto 39: Geraldão quase marcou para o Corinthians em 1977, após cruzamento de Vaguinho. Jô deveria ter marcado para o Corinthians em 2017, após cruzamento de Fagner.

6 – A decisão chega ao intervalo com o mesmo 0 x 0 que interessava ao Corinthians há quatro décadas (mais a prorrogação, embora houvesse uma discussão sobre interpretação do regulamento), mas com um significado radicalmente diferente. O time dirigido por Oswaldo Brandão não tinha o conforto de poder sofrer dois gols e ainda sim ser campeão. À época, ser corintiano era um exercício de dúvida permanente.

7 – Naturalmente lembrada nos últimos dias, a escalação do Corinthians campeão após vinte e três anos tinha Moisés na zaga. A deste domingo também teve um, o lateral-esquerdo reserva. É a única coincidência de nomes entre todos os envolvidos nos dois times.

8 – Em outro passe interceptado no campo de defesa da Ponte, Fagner faz a bola chegar a Jadson, que encontra Romero, desmarcado. Ele perde o gol, mas o reencontra no rebote de Aranha, estabelecendo o placar que estava evidente desde a metade do primeiro tempo.

9 – Ravanelli, de fora da área, manda um chute no travessão quando o segundo tempo já passa da meia hora. Principal ocasião da Ponte Preta em toda a tarde.

10 – Minuto 36: o instante do “gol da libertação” de Basílio, em 1977. A partir dele não houve mais jogo no Morumbi, dominado por um transe coletivo que só quem lá esteve tem alguma possibilidade de explicar. Em Itaquera, Pablo cabeceia por cima do gol de Aranha.

11 – A Ponte Preta empata com Marllon, completando o cruzamento de Ravanelli. Gol que premia uma atuação séria, diante de uma tarefa quase impossível.

12 – Oscar e Geraldão se desentenderam e foram expulsos por Boschilia, pouco antes do apito final, naquela noite de quinta-feira. Neste domingo, não houve motivo para algo semelhante até o árbitro Leandro Marinho encerrar o Campeonato Paulista, com o mesmo vencedor. Então, eram dezesseis títulos. Agora são vinte e oito.

13 – Parabéns ao Corinthians e aos corintianos, que devem saber compreender o significado de conquistar o campeonato estadual em 2017. Em 1977, o mundo era outro.

BR-17

Vem aí o Campeonato Brasileiro, principal competição do futebol no país, momento para o qual os estaduais deveriam servir como preparação. Por formato e nível de exigência, é o exame que revela a verdade a respeito de todos os participantes, cada um com suas ambições e limitações. Provavelmente é um exagero dizer que se trata de um dos “melhores campeonatos do mundo”, por diversos motivos, mas é fato que em nenhum outro país existem tantos confrontos entre times do mesmo nível. Apesar dos avanços dos últimos anos, ainda é necessário que o padrão de organização esteja à altura da qualidade dos times, e que o árbitro de vídeo seja implantado o quanto antes.

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É do Carille

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A esmagadora maioria das pessoas que diz gostar de futebol ignora a complexidade do trabalho de treinadores, por dois motivos principais: 1) jamais conversou com um, e 2) mesmo assim, cultiva a presunção de conhecer o funcionamento de um clube, pois julga que o jogo é puramente uma questão de observação. A distância entre o que o futebol é e aquilo que se supõe é brutal, e um dos picos desta curva de desconhecimento é justamente a avaliação do desempenho de técnicos.

Se tudo acontecer normalmente e o Corinthians conquistar mais um título estadual neste domingo, o troféu não só deveria ser erguido por Fábio Carille (sem nenhum dirigente por perto, diga-se), como ele merece receber uma réplica de presente. E mais: caso a Ponte Preta seja corresponsável por uma das maiores surpresas da história do campeonato paulista e comemore uma alegria inédita, Carille deveria ser reconhecido da mesma forma. A conquista é tão somente a validação competitiva de um trabalho, não sua essência.

Lembremos – e isso é algo que precisa ser repetido todos os dias – que Fábio Carille não era o profissional que as pessoas que comandam o Corinthians desejavam ver no comando do time. Negativas de quatro treinadores obrigaram os dirigentes a olhar para alguém que sempre esteve ali, sentado no mesmo lugar, dentro do vestiário. Os sorrisos que hoje aparecem ao lado de Carille nada mais são do que expressões de alívio pelo bom andamento das coisas, próprias de quem sabe que foi agraciado pela sorte ao tomar uma decisão por força da conjuntura. É o tipo de pensamento que, no fundo, faz subir um frio pela espinha.

De modo que, além das dificuldades que acompanham todo técnico de um clube como o Corinthians, Carille ainda precisou administrar os fatos de não ser o escolhido e, obviamente, dar os primeiros passos na carreira. Cenário pronto para que ele fosse visto com desconfiança interna/externa e se convertesse em alvo no primeiro resultado desagradável, como se deu na noite em que o Corinthians foi eliminado da Copa do Brasil pelo Internacional. Na entrevista após a derrota nos pênaltis, Carille foi questionado sobre “o pior momento” de uma trajetória que ainda não completou seis meses.

Se o debate a respeito de times e técnicos precisa passar pelo tipo de futebol praticado, é obrigatório considerar que a situação à qual Carille foi submetido reforçou suas convicções sobre o caráter de equipe que pretendia. O jogo de segurança que conduziu o Corinthians à decisão estadual é a receita de um técnico em modo de sobrevivência e o caminho mais rápido para ser competitivo em um trecho do calendário que oferece treinadores ao sacrifício público. E ele só chegou até aqui porque tem vencido, não porque se compreende que a formação de times demanda tempo.

Após um período em que as ideias eram tão evidentes quanto os defeitos de execução, o Corinthians de Carille foi capaz de superar o estágio do receio e passou a se comportar como um time com objetivos claros em campo. Jogos de ida como visitante contra São Paulo e Ponte Preta foram benefícios estratégicos, por permitirem o encaixe da postura na qual a equipe se sente mais à vontade com o posicionamento do adversário, aproximando o Corinthians de um resultado que poderá adicionar vidas à comissão técnica e proporcionar a evolução da maneira de atuar a um patamar compatível com a exigência do Campeonato Brasileiro.

Independentemente de como o domingo termine, Carille venceu. Ele é aquele atleta que não deveria se posicionar na largada, não deveria suportar o ritmo da prova e muito menos estar em vantagem nos últimos metros. O mínimo que os dirigentes que o expuseram à máquina moedora de técnicos têm de fazer é deixá-lo saborear essa satisfação e pensar no futuro com ambição, jamais com temor. O futebol prossegue ensinando.

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