Todos os posts de André Kfouri

A vida anda rápido

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1 – Um gol perdido foi também um sinal postivo. Na jogada que Romero iniciou após um erro de Madson, apareceu a associação dos dois meias, tão importantes para o bom funcionamento da maneira de jogar do Corinthians: Jadson para Rodriguinho, na área. O chute passou perto da trave e enganou muita gente ao tocar a rede por fora.

2 – O Corinthians tinha controle e boa circulação, embora sem o capricho para superar o bloqueio vascaíno diante de sua área. Também se defendia com solidez, permitindo ao Vasco apenas dois chutes de fora da área na primeira meia hora, ambos defendidos por Cássio com certa dificuldade.

3 – Na medida em que o time carioca passou a jogar um pouco mais adiantado, os espaços se tornaram generosos. Mas o plano de fazer a bola chegar por dentro a Jô não teve efeito. É uma jogada vital para o Corinthians, seja com o atacante como destino final ou viabilizador da aparição de companheiros. Tem sido silenciada por marcação competente, ainda que, neste domingo, Jô possa reclamar de um pênalti ignorado.

4 – Rodriguinho teve outra ocasião, de cabeça, dentro da pequena área. O álibi da surpresa – Jô não conseguiu alcançar a bola, que se ofereceu de repente – é válido, mas tocá-la por cima do travessão pareceu o mais difícil. O primeiro tempo começou e terminou com um gol que ele quase marcou.

5 – E o segundo tempo se abriu no mesmo tom: Jô cruzou do lado esquerdo e Rodriguinho concluiu à curtíssima distância de Martín Silva. A defesa no reflexo, com a mão direita, salvou o Vasco.

6 – O atual momento do líder do campeonato é marcado por claros defeitos de execução. O bonito lance de Rodriguinho com Fágner, tabelando pelo lado direito, propiciou um caso exemplar. Jadson aguardava a bola na marca do pênalti para finalizar a jogada treinada e tantas vezes bem sucedida, mas o chute saiu torto.

7 – Com Arana e Jadson, combinação parecida do lado esquerdo. Passe para trás, para a chegada de Maycon. Outro chute com a direção errada, outro gol que ficou no quase.

8 – Há passagens em que um time de futebol dá a impressão de que encontrará um jeito de vencer jogos, mesmo que esteja em um mau dia. Há outras em que, por mais que produza e tente, sugere que não terá sucesso.

9 – O lance do gol é uma ilustração das dificuldades momentâneas do Corinthians. Excelente avanço de Marquinhos Gabriel pelo lado esquerdo, cruzamento desviado que provavelmente tocaria na trave e entraria. Mas Jô, com o braço direito, criou um tento irregular cuja validação é uma lástima.

10 – Cabe um comentário sobre a inutilidade do árbitro que se posiciona ao lado da trave e não vê o toque de mão, ok. Mas, quantas vezes forem necessárias: em um jogo com árbitro de vídeo, um gol como esse jamais veria a luz do dia. Não há justificativas.

11 – Jô era o jogador envolvido no episódio de fair play de Rodrigo Caio, no Campeonato Paulista. A vida anda rápido.

12 – O Corinthians jogou mais do que o Vasco e teve diversas oportunidades para marcar. Terminou por vencer o encontro com um gol ilegal, o tipo de ocorrência que não tem mais lugar no futebol. Enquanto o resultado – somado aos demais, aumentando a vantagem na liderança do campeonato – será visto como prova de recuperação, a atuação voltou a exibir alguns problemas das rodadas recentes.

DIFERENTE

Paulinho se projetou pelo meio da defesa do Getafe, acelerou para pedir a bola a Lionel Messi, recebeu, dominou, travou um adversário no corpo e marcou o gol da vitória do Barcelona, o primeiro dele pelo clube. Um gol muito celebrado em campo, e que pode indicar de que forma o brasileiro será utilizado em um time que pretende voltar a jogar com posse. De todos os nove meiocampistas do elenco, Paulinho é o jogador cujas características mais se distanciam da ideia que o Barcelona tradicionalmente representa. Talvez por isso seja aquele que pode contribuir com um comportamento diferente, inesperado. O começo foi interessante.

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Renovado

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O anúncio da renovação do contrato de Fábio Carille no Corinthians foi um movimento acertado. Relacionar a retomada das conversas entre as partes à recuperação do time no Campeonato Brasileiro, como se cogitou, seria arriscado e, com o perdão da franqueza, pouco inteligente. Ficaria evidente a sugestão de que, se o líder do campeonato não tivesse perdido nove pontos dos últimos doze que disputou, a permanência do técnico já teria sido anunciada. E transferiria a resolução da questão para um momento hipotético: o que seria essa “recuperação”? Vencer os próximos dois jogos? Reestabelecer dez pontos de vantagem para o segundo colocado? E se nada disso acontecer?

Uma coisa é agendar as reuniões sobre a renovação para o fim da temporada, quando os contornos do ano seguinte estão definidos e se pode partir de uma visão concreta. Permite-se que o técnico concentre suas energias no trabalho de preparar e dirigir o time, sem nenhum tipo de distração (embora agentes sirvam exatamente para esse fim: negociar enquanto os representados trabalham). “Congelar” as conversas que se iniciaram com interesse mútuo é algo inteiramente diferente, uma decisão que transmitiria a impressão de dúvida e desperdiçaria a oportunidade de tornar pública a confiança do clube em Carille, justamente no trecho do campeonato em que as coisas não vão bem.

A única explicação aceitável para a suspensão do diálogo – previsto para ser concluído durante o período em que o campeonato ficou paralisado por causa das Eliminatórias – seria uma decisão do próprio treinador, o que revelaria falta de habilidade por parte da diretoria do clube ao permitir um entrave. Pois à exceção de exigências tresloucadas de Carille para prosseguir em sua posição, não haveria justificativa para que o Corinthians falhasse ao alcançar as pretensões profissionais do técnico que conduz o time em uma campanha que, mesmo com a queda recente, merece todos os elogios. Alguns bons resultados não deveriam ser necessários para acertar a sequência do relacionamento.

Ao dar a Carille um novo contrato de duas temporadas, com opção de mais uma, o Corinthians oferece uma demonstração de convicção no trabalho de um técnico que está no clube há muitos anos e já provou que merece a oportunidade que recebeu, ainda que não fosse a escolha inicial para 2017. Mais: reforça que crê na conquista do título brasileiro, embora esse objetivo não seja uma condição para a permanência do treinador. Aliás, a renovação do vínculo faz total sentido mesmo que o Corinthians não seja campeão. A possibilidade da conquista, que não se vislumbrava em janeiro, só é um assunto hoje por causa do desempenho do time sob o comando de Carille.

E até no que diz respeito ao relacionamento entre técnico e jogadores, aparentemente positivo em todos os aspectos, o anúncio feito ontem age para preservar o bom ambiente. Está claro para todos quem dará as ordens no futuro próximo. O Corinthians responde com estabilidade ao primeiro momento instável que experimenta em 2017, e se redime do equívoco que cometeu no começo do ano, quando recorreu, reticente, a Fábio Carille, após ficar sem opções. Carille sempre esteve ali, e ali seguirá, agora com o suporte devido. Ele representa a continuidade das ideias que propiciaram ao clube o que se pode considerar um período sustentável de vitórias.

SELEÇÃO

Não resta dúvida de que o santista Vanderlei merece uma convocação para a Seleção Brasileira. Mas o fato de um dos goleiros suplentes, provavelmente o terceiro, ser o grande ponto de discordância na lista apresentada por Tite revela o suficiente sobre as escolhas feitas. E é curioso que esse tema se sobreponha ao aparecimento de Arthur, jogador de controle, visão e inteligência, da classe que o futebol brasileiro sente falta. Quem o conhece bem afirma que veio para ficar. Tomara.

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Troféu

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A conversa entre “torcedores organizados” e representantes do time, da comissão técnica e da diretoria do São Paulo tem apenas duas consequências: um certificado para a vaidade daqueles que se consideram mais são-paulinos do que os outros, e um aviso bem claro para o time. Ao patrocinar o encontro, as pessoas que comandam o clube se eximiram de suas obrigações e dividiram a responsabilidade – ou assim pensam – sobre o que acontecerá com o São Paulo até o final do Campeonato Brasileiro.

É irônico, e ilustrativo a respeito das decisões tomadas ao longo do ano, que a reunião tenha acontecido um dia depois de um pedido dos jogadores por mais privacidade. A resposta foi uma palestra de torcedores dentro do centro de treinamentos do clube, ocasião sobre a qual o único aspecto positivo que pode se observar é o fato de ter transcorrido sem desrespeito ou violência. Não é algo anormal em um ambiente de futebol mal administrado como o brasileiro, e, claro, nem uma particularidade do São Paulo. É uma confissão de incompetência e fraqueza frequente em nossos clubes quando as coisas não vão bem.

O argumento de que torcedores, profissionais ou comuns, têm o “direito” de se reunir com membros do clube que dizem apoiar é pueril. Trata-se de uma moeda cujo outro lado seria o “dever” do clube de permitir tais encontros. Obviamente não é assim, de modo que as reuniões dessa natureza funcionam como atestados da influência externa no dia a dia de clubes de futebol. Ao final, é apenas um troféu, uma conquista da qual esses torcedores podem se orgulhar em suas redes sociais, enquanto reafirmam a condição, neste caso, de “são-paulinos vips”. No evento de ontem, houve até um “acordo” para que nada do que foi discutido chegasse ao conhecimento “da imprensa”.

O time deve se considerar avisado. Haverá apoio e “paz” até que o rebaixamento seja evitado, mas quem sabe o que pode acontecer se o São Paulo cair? O compromisso de um suporte pacífico com prazo determinado traz uma óbvia ameaça embutida, o que eleva a pressão sobre os jogadores, ao invés do efeito contrário. É exatamente o oposto do que uma equipe aterrorizada – no aspecto futebolístico – necessita nos jogos que determinarão o desfecho da temporada. Ademais, não é preciso que se faça uma reunião para que os jogadores sejam comunicados do que os aguarda se o ano terminar mal.

Num futebol em que jogadores são “milionários mimados” que não se importam com o sofrimento da arquibancada, quem não vence deve ser disciplinado. É só uma versão disfarçada do “por amor ou por terror”.

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Do contra

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1 – A resposta do Santos ao problema que o Corinthians apresenta como visitante ficou clara logo no início: reduzir espaços ao máximo e ser cuidadoso com a posse. O nível de eficiência exigido torna essa ideia insustentável por longo tempo, mas a possibilidade de um gol precoce a justifica.

2 – O que só não aconteceu aos sete minutos porque Cássio, quase com todo o corpo dentro do gol, conseguiu tocar na bola desviada por Ricardo Oliveira após o escanteio, alterando o desfecho de uma jogada que normalmente balança a rede.

3 – A iniciativa santista na Vila não apenas era esperada, como fazia parte da dinâmica que o Corinthians utiliza para surpreender. E ainda que não tenha sido competente como queria na criação, o Santos protegeu bem a bola. Em todo o primeiro tempo, só permitiu um contragolpe, quando Alison foi desarmado no campo de ataque.

4 – A articulação rápida do Santos também só foi vista uma vez: ótima combinação entre Zeca e Bruno Henrique, já aos quarenta e três minutos. A Cássio se poderia atribuir um milagre na defesa do chute de Ricardo Oliveira, mesmo que o atacante santista lamente a direção. Reflexo instantâneo do goleiro.

5 – O Corinthians ainda não sofreu gol no primeiro tempo, fora de casa, no campeonato. Neste domingo, a sequência se manteve unicamente por obra de Cássio.

6 – Santos em controle, entre outros motivos, porque o Corinthians não foi capaz de envolver Jô, seu jogador mais importante, em nenhum momento. Nem como finalizador e nem como preparador de jogadas para companheiros.

7 – Aparição decisiva de Vanderlei quando uma associação ofensiva do Corinthians deu certo sem querer. O chute de Romero poderia ser melhor colocado, mas teve força. O goleiro santista estava pronto.

8 – O Santos marcou em um momento de inversão do jogo: contra-ataque permitido por uma bola recuperada na defesa. Bruno Henrique, imparável, atravessou o campo pela lateral e tentou o passe para o centro da área. O desvio de Pablo ofereceu a bola para Lucas Lima finalizar: 1 x 0.

9 – Posição desconfortável para o líder, obrigado a construir diante de um adversário com letal capacidade de responder em velocidade. A permanência do placar tornaria o jogo cada vez mais ao feitio do Santos.

10 – No trecho final, a urgência do Corinthians para buscar o empate fez com que o time abandonasse sua tradicional compostura defensiva. Era tudo o que o Santos precisava para garantir a vitória. Não por acaso, o lance de mais um gol nasceu em um erro corintiano no ataque. Apenas dois passes entre Lucas Lima, Bruno Henrique e Ricardo Oliveira.

11 – Resultado merecido para o Santos, primeiro mandante a vencer o Corinthians neste campeonato, praticamente sem correr riscos em toda a tarde. Impiedoso ao penalizar o erro do oponente em uma jogada casual, tranquilo para aguardar a oportunidade decisiva após estar em vantagem. Excelentes atuações dos jogadores mais ofensivos, criadores do segundo gol.

12 – Para o Corinthians, o preço de uma derrota natural fica maior por causa das duas anteriores. Resta ao time de Carille se reagrupar e voltar a fazer bem o que o colocou nesta posição. Por circunstâncias, mesmo uma significativa queda de pontuação não foi suficiente para colocar a liderança sob risco imediato. Mas essa poupança, é claro, não durará eternamente.

IRRELEVANTE

Não deveria haver debate sobre a expulsão de Sadio Mané, na goleada de 5 x 0 do Manchester City sobre o Liverpool, sábado. A regra do jogo de futebol determina cartão vermelho para jogadores que, com os pés altos, colocam um oponente em risco. As marcas da chuteira de Mané estão visíveis no rosto do goleiro brasileiro Ederson, ainda que a ideia do ótimo atacante senegalês – que se desculpou com classe pelo acidente – fosse tocar na bola. Para a regra, a intenção é irrelevante, assim como opiniões que levem em conta o impacto da expulsão em um jogo equilibrado.

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Contágio

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A verdade inescapável sobre o jogo de ida da final da Copa do Brasil é, como na maioria das vezes, incômoda: estivesse em uso o árbitro de vídeo no Maracanã anteontem à noite, o gol do Flamengo não seria validado. Simples, indiscutível e grave. Após o desvio de Willian Arão, Lucas Paquetá está impedido com clareza cristalina. Gol irregular em uma decisão, parabéns. Deve-se lamentar não apenas o ocorrido, mas tudo o que não é feito para evitar esse tipo de atrocidade no futebol de hoje, exposto a um constrangimento, no caso do Brasil, quase tão ridículo quanto o aparecimento de torcedores que adquiriram ingressos falsos em pleno ano de 2017.

É comum o argumento que prefere culpar a qualidade da arbitragem a aceitar a urgência do apito eletrônico. O sujeito se utiliza do replay de vídeo – disponível a toda a Via Láctea, menos a quem tem de decidir no ato – para, descaradamente, dizer que “o impedimento foi tão claro que nem é preciso usar a tecnologia, é um erro inexplicável”. Não, Einstein, o tamanho do equívoco não pode ser usado para desprezar a solução, o caminho é o oposto. E no exemplo do gol de Paquetá, importante salientar, a situação é diferente: a arbitragem humana não tem a menor chance em lances como esse, que lembram o que ocorre com a bola nas antigas máquinas de fliperama.

Há também o apelo ao resultado para minimizar a relevância do absurdo. O Cruzeiro empatou, 1 x 1 é como se fosse 0 x 0, então está tudo ok. Não, não está. O jogo poderia ter tomado outro rumo após a abertura do placar, levando a um desfecho em que o impacto do erro seria amplificado. O que o gol de De Arrascaeta fez foi salvar o confronto de um placar contaminado em sua primeira metade, um cenário horrendo. Felizmente não aconteceu, por nada mais do que sorte. E o pior é que o flerte com o perigo não bastará para que providências sejam tomadas o quanto antes. Prefere-se seguir convivendo com o risco e administrando as suspeitas que erodem a relação do público com o futebol.

Os testes com o sistema do árbitro assistente de vídeo indicam que é necessário diminuir ao máximo sua interferência no fluxo do jogo. Na Liga Italiana, em que a tecnologia está em utilização nesta temporada, uma crítica de Gianluigi Buffon gerou repercussão internacional: “Não é futebol, é polo aquático”, reclamou. Ele se referiu às constantes paralisações (não há VAR no polo) nas partidas, não ao uso do vídeo para corrigir erros e tornar o esporte mais justo. “É algo que, usado com moderação, pode nos dar excelentes resultados e ser uma coisa boa para o futebol”, completou o ídolo na mesma entrevista, em uma declaração menos comentada, embora seja igualmente útil ao debate.

O tipo de ocorrência sujeita à revisão também é uma questão fundamental. Neste âmbito, não deveria haver discussão sobre lances como o gol de Lucas Paquetá, que provocam a sensação desagradável dos produtos com defeito e a esperança de que o jogo encontre, por conta própria, o remédio para neutralizar o dano. A partida de ida da final da Copa do Brasil encontrou, e é só por isso que o título do torneio dependerá unicamente do que Cruzeiro e Flamengo fizerem em campo no dia 27. Desde que, é claro, nada semelhante aconteça no Mineirão.

EXAME

O Corinthians não deve querer recuperar, na Vila Belmiro, os pontos que deixou escapar em casa em duas atuações que não foram tão ruins quanto os resultados sugerem. Além de uma impossibilidade matemática, seria um erro estratégico. O maior desafio para as equipes que constroem vantagem na classificação é seguir trabalhando, com base no planejamento de pontos pré-determinado, como se a folga não existisse. No momento em que se começa a pensar na diferença para os perseguidores, deixa-se de pensar no que a permitiu e uma porta se abre para a doença da dúvida. Não é fácil, assim como não é fácil jogar em Santos.

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Entrevista

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Até as primeiras horas da manhã de anteontem, quem estivesse interessado em entrevistar Carlos Arthur Nuzman era obrigado a cumprir o protocolo corriqueiro para esse tipo de ocasião. Dirigentes que se comportam como políticos do esporte – o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro é um modelo dessa figura – se protegem da opinião pública atrás de estruturas destinadas a fazer, digamos, uma curadoria da mensagem a ser transmitida. Nada anormal.

Superado o processo de agendamento, jornalistas dispostos a tratar de temas importantes devem estar preparados para encontrar até quatro funcionários do COB na sala, não apenas para acompanhar a conversa, mas para gravá-la em seus aparelhos celulares. Esse diligente aparato foi utilizado em uma recente entrevista para um canal de televisão, provavelmente porque um dos assuntos adiantados pela reportagem era a corrupção. Nem Jérôme Walcke, ex-secretário-geral da Fifa de Joseph Blatter, tinha o hábito de gravar seus encontros com repórteres.

Na entrevista mencionada, Nuzman olhou para seus colaboradores antes de responder – ou maquiar a resposta – a todas as perguntas relacionadas a temas sensíveis, como que esperando um ok para elaborar sua declaração ou evitar a questão. O clima na sala era de desconforto, indisfarçável no gestual e na expressão do dirigente, comportamento frequente quando o czar do esporte olímpico brasileiro se vê diante de alguém que, de fato, o questiona de forma compatível com a posição que ocupa.

Importante ressaltar que ninguém, nem mesmo o presidente do comitê organizador de uma edição dos Jogos Olímpicos, tem a obrigação de dar entrevistas. Exceto, é claro, quando o encontro é solicitado pela Polícia Federal. Nesse caso, o protocolo de agendamento é diferente: envolve uma visita surpresa bem cedo, a dificuldade de se concentrar na leitura de um mandado de busca e apreensão em um horário como esse, e, após evento tão desconcertante, ser encaminhado ao local determinado pelas autoridades. Dentro da sala, ao invés de assessores obedientes, advogados. Dramático.

Mas ainda não chegou a hora em que Nuzman teve de falar sobre a Olimpíada de 2016 e o legado que o delegado quer ouvir. Como se sabe, e talvez como prefira fazer em entrevistas “convencionais”, o presidente do COB se manteve em silêncio durante o depoimento na superintendência da PF no Rio de Janeiro. O Brasil é tão grande e acolhedor que, apesar da agenda desagradável, Nuzman ainda pôde se considerar um homem de sorte ao celebrar uma derrota: no mesmo dia, um político profissional o superou em dinheiro apreendido. Em cem vezes.

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Simuladores

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Além dos já programados encontros com seleções europeias do primeiro escalão, medida que falta para que o Brasil tenha uma noção mais definida de onde está em termos de competitividade, os jogos restantes das Eliminatórias têm um papel interessante na preparação para a Copa do Mundo. Como simuladores de problemas, os adversários sul-americanos podem apresentar situações que a Seleção encontrará no torneio na Rússia, colaborando para o manual de soluções que Tite terá à mão. A partida de amanhã contra a Colômbia e a do dia 10 de outubro, contra o Chile, se encaixam neste perfil, uma vez que ambos estão em um grupo de quatro times separados por dois pontos na zona de classificação.

Quanto maiores forem as semelhanças desses jogos com a vitória da semana passada sobre o Equador, no aspecto do nível de dificuldade, mais valiosos eles serão para a Seleção Brasileira. Em Porto Alegre, os equatorianos mostraram uma lição de casa feita com capricho, ao travar a saída da bola tanto pelos lados, com Daniel Alves e Marcelo, como também com Casemiro, vigiado com especial atenção. O jogo de associação curta que Tite implantou com notável sucesso depende da construção limpa desde o campo de defesa, o que não se deu com a fluidez necessária e comprometeu as melhores escolhas de passe ofensivo. A impressão de lentidão decorreu desse problema.

É lógico que oponentes mais capazes do que o Equador usarão expedientes defensivos semelhantes, por isso a mudança provocada pela entrada de Philippe Coutinho como meia centralizado estimula a comissão técnica. Especialmente diante de adversários que recuam para fazer marcação baixa, a opção com Coutinho entre William e Neymar começa a se reforçar como mecanismo de superação desse bloqueio. No movimento do segundo gol, o meia-atacante do Liverpool exibiu arranque, passe e finalização, virtudes que explicam sua cotação no mercado de futebolistas na Europa e nas anotações do técnico da Seleção. Jogadores que podem ser utilizados em papeis diferentes são um luxo.

E não é apenas a introdução de um elemento novo ou a alteração de sistema que ele representa. A possibilidade de ter William, Neymar, Philippe Coutinho e Gabriel Jesus, juntos, oferece uma assustadora quantidade de problemas para os times que terão de controlá-los. Um potencial ofensivo com o qual apenas argentinos e franceses poderiam discutir. A procura de variantes na montagem da equipe e na elaboração da forma de atuar é central neste momento em que já se pensa no Mundial. A definição do elenco definitivo também passará pelas opções de escalação que se mostrarem úteis nos próximos jogos.

Embora o discurso – “a Copa do Mundo já começou” – tenha o evidente objetivo de manter a intensidade e a ambição em níveis elevados, a classificação assegurada carrega uma tranquilidade natural. Não será necessário injetar espírito de competição na equipe quando o adversário for, por exemplo, a Alemanha em amistoso. Mas as Eliminatórias, em que até o primeiro lugar já é inalcançável para os demais participantes, adquiriram contornos de formalidade. Tite insistirá no estímulo em encontros como o desta terça-feira, fontes de caminhos que podem não parecer importantes agora, mas certamente serão quando o resultado não valer apenas para o adversário.

MAGNÍFICO ISCO

Quem teve a chance de ver Espanha x Itália, no sábado, pôde aplaudir uma atuação espetacular de Isco, na vitória dos espanhóis por 3 x 0. Dois gols (embora no primeiro, em cobrança de falta, a bola parecesse defensável para Buffon), um recital de passes e interações. Sem falar em uma caneta e um lençol em Verrati, no segundo tempo. Tão impressionante quanto a exibição de Isco foi o fato de a Itália utilizar uma escalação que não se importou em ceder o controle do meio de campo. Logo contra a Espanha? O resultado poderia ser mais dramático.

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Separado

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No início da década de 1970, havia na televisão brasileira uma série infantil chamada “O Elo Perdido”, contando a saga de um guarda florestal que saiu para um passeio de barco com seus filhos e, atravessando um portal no tempo, chegou a um mundo pré-histórico em que conviviam seres de diversas eras. Na vitória do Brasil sobre o Equador, anteontem, o comportamento de Neymar fez uma parcela da audiência – a faixa de público que era criança há cerca de cinquenta anos – se lembrar das aventuras da família Marshall naquele ambiente estranho.

Talvez a maior transformação que se deu na Seleção Brasileira desde o jogo contra o mesmo Equador, há um ano, tenha sido a atuação de seu jogador mais famoso e decisivo. Do papel de super-herói a quem o time recorria em situações de desespero sob Dunga, Neymar, com Tite, passou à posição de definidor das diferenças construídas pelo sistema que se desenvolve antes dele. De líder técnico irritadiço e figura a ser contida para fazer o Brasil se desintegrar, o camisa 10 foi convertido no maior causador de danos de um time ordenado e capaz. Até voltar no tempo na Arena do Grêmio.

É curioso, porque esse “antigo” Neymar da Seleção foi visto em campo no ano passado, como astro solitário de um time disfuncional. Não faz tanto tempo assim. A questão é que as distâncias entre aquele jogador e o que se associou aos companheiros – especialmente Gabriel Jesus – a partir de setembro de 2016 são tão dramáticas que causam a impressão de que eles estão separados por épocas. Na noite de quarta-feira, em Porto Alegre, o craque pareceu um enviado do passado na companhia de parceiros que não conseguiram reconhecê-lo ou encontrar uma forma de se comunicar com ele.

Neymar não só se permitiu enervar pela marcação por vezes violenta dos equatorianos, como entrou na perigosa dinâmica de procurar a agressão e a elevação da temperatura do jogo. Ao exagerar nas ações individuais, comprometeu movimentos coletivos que poderiam dar frutos. E quando se deslocou despreocupadamente por todos os setores do ataque, facilitou a vigilância do adversário. Gestões típicas de quem confunde protagonismo – que ele não apenas merece, como precisa exercer para que a maneira de jogar funcione – com a necessidade de estar envolvido em todas as etapas do jogo.

É fácil, até lógico, relacionar a postura personalista à mudança profissional que levou Neymar de Barcelona a Paris. Parece natural que, alçado ao posto de jogador-alfa em seu novo clube, ele tenha intensificado a posição – em termos de categoria, frise-se – que sempre ocupou na Seleção e extrapolado limites, para prejuízo próprio e da equipe. Mas, amostra insuficiente, pode ter sido uma noite equivocada de um futebolista que sempre quer fazer mais. Em qualquer dos casos, Tite providenciou a correção quando injetou Philippe Coutinho em uma linha de três meias e limitou a maior parte das ações de Neymar ao setor do campo em que ele é mais perigoso.

Se Coutinho por dentro provou ser uma alternativa estimulante para solucionar problemas de circulação e contundência (veja nota abaixo), o que conduz ao luxo de tê-lo ao lado de três jogadores ofensivos, a noite de Neymar deve ser compreendida e reajustada para o futuro. A Seleção Brasileira precisa de um Neymar associado, paciente e confortável para ser acionado no momento preciso. Explosões individuais diminuem as possibilidades de sucesso na Rússia no ano que vem, até em relação aos reconhecimentos pessoais que possam fazer parte de seus planos de carreira.

BRILHOU

Questões de transferência à parte, o período em inatividade não pareceu atrapalhar Philippe Coutinho. Sua entrada como distribuidor resolveu a partida para a Seleção Brasileira, acelerando o jogo e envolvendo os companheiros de ataque. A maravilhosa jogada do segundo gol, iniciada e concluída por ele, com formidável colaboração de Gabriel Jesus, foi o ponto alto da noite.

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Mais alguém?

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Em participação no programa “Bem Amigos” (SporTV), na semana passada, Jorginho admitiu uma dose de remorso por não ter levado Neymar para a Copa do Mundo de 2010. O auxiliar de Dunga na comissão técnica da Seleção Brasileira explicou que o treinador resolveu não convocar nenhum jogador não testado durante o ciclo de preparação, o que fechou as portas para o futuro astro, então com dezoito anos. Embora a escolha pareça terrível em retrospecto, foi uma questão de critério estabelecido por quem não pode fugir de decisões difíceis.

O caso remete às convocações de Ronaldo (17 anos) e Kaká (20) para os mundiais de 1994 e 2002, respectivamente. Duas histórias de jogadores incluídos na chamada final como “talismãs técnicos”, capazes de apresentar soluções em situações específicas de um torneio de curta duração. Nenhum dos dois chegou a ser um fator nas campanhas que terminaram em conquistas, o que pode ter sido um argumento considerado em 2010 para não levar Neymar à África do Sul. Ele teria sido útil contra a Holanda? Nunca se saberá.

A cerca de dez meses para a Copa da Rússia, agora é Tite quem lida com a dinâmica do “grupo fechado, disputa aberta” na Seleção. E a prova de que tudo pode acontecer, inclusive nada, é a escalação do encontro de logo mais contra o Equador: Alisson, Daniel Alves, Marquinhos, Miranda e Marcelo; Casemiro, Paulinho, Willian, Renato Augusto e Neymar; Gabriel Jesus. Quase que há exato um ano, este foi o time que derrotou o mesmo Equador por 3 x 0, na estreia do técnico. Tite fez apenas uma substituição naquele primeiro de setembro, Phillipe Coutinho no lugar de William no segundo tempo, alteração que poderia aparecer no time titular atual caso Coutinho estivesse em atividade.

Gabriel Jesus, que terá 21 anos quando o mundial russo começar, foi o último jogador brasileiro a “exigir” um lugar na Seleção com uma carreira precoce. É possível que a comissão técnica anterior demorasse mais a chamá-lo, mas custa crer que sua trajetória seria muito diferente da que se conhece: estreia em setembro de 2016, titular desde então. Se a Copa do Mundo fosse um ano antes, Gabriel teria estado não apenas no grupo, mas no time, e com todo o mérito. Tite não pode declarar o fim das possibilidades para os que não são frequentes nas convocações, mas a aparição de um fenômeno é improvável.

A não ser que Vinicius Júnior decole no Flamengo. Ele não irá para o Real Madrid antes de completar 18 anos , em julho do ano que vem. Pode entrar no avião para Moscou quando o embarque estiver quase concluído. 

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Necessário

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A derrota para o Atlético Goianiense foi a primeira partida do Campeonato Brasileiro em que o Corinthians atuou sem Jô. Até esta altura, o líder tinha conseguido resolver de maneira satisfatória os problemas de escalação que afetam todos os times em um campeonato longo, ao compensar as ausências de figuras importantes com atuações de bom nível no aspecto coletivo. No sábado, em Itaquera, ficou evidente que o centroavante é o jogador imprescindível do elenco dirigido por Fábio Carille, aquele cuja substituição simplesmente não é possível.

Na formação ideal do Corinthians, a presença de seis jogadores é fundamental em termos de desempenho ofensivo: os dois laterais, os dois meias e os dois atacantes titulares. O fato de o time ter sofrido para controlar boa parte dos jogos contra o Cruzeiro (sem Fágner e Rodriguinho), Flamengo (sem Jadson e Romero) e Vitória (Arana se machucou e Jadson estava limitado), todos em casa, não é coincidência. Com a bola, o Corinthians depende das associações pelos lados e da movimentação de Jô e Romero (também ausente, assim como Arana, no encontro com o time goiano).

O artilheiro do Corinthians não faz apenas gols. Jô fixa um defensor adversário, é a referência que retém a bola no campo de ataque, que a distribui após o domínio ou com desvios pelo alto. Ele tem também um papel defensivo importante nas jogadas de bola parada do oponente. No gol do Atlético Goianiense, Gilvan cabeceou na primeira trave após a cobrança de escanteio do lado direito. Kazim, substituto de Jô, foi superado no lance. Essa não é a única razão da segunda derrota no campeonato, claro. Falhas de finalização, outra área em que o centroavante titular fez falta, impediram ao menos um empate.

Jô é desfalque mais sensível, mas os circuitos de jogo do Corinthians terão problemas maiores ou menores a cada vez que este grupo de seis jogadores estiver incompleto. As dificuldades são mais notáveis nas partidas em Itaquera, seja quando é preciso construir o resultado com posse no campo ofensivo, ou quando, já em vantagem, o Corinthians retrocede para atrair e surpreender. Como visitante, embora o time invista inicialmente em sua capacidade de se defender, os dois atacantes titulares são necessários para manter a ameaça e, principalmente, a eficiência ofensiva.

Não é razoável esperar que uma equipe sustente um alto nível de atuação durante todo o Campeonato Brasileiro. O aproveitamento anormal do Corinthians no primeiro turno tem dois resultados práticos: o conforto que lhe permite navegar por momentos como o atual com menos pressão, e a menor distância para a pontuação que deve significar o título. Mesmo assim, é a qualidade do desempenho do time, em relação ao que se propõe, que o manterá ou não como favorito ao troféu. O que colocou o Corinthians nesta posição foi o hábito de praticar bem o tipo de futebol que escolheu, tarefa afetada por desfalques em posições específicas.

DESCONTROLE

Números interessantes – exceto para o torcedor são-paulino, claro – levantados por Rodolfo Rodrigues, no portal UOL: em cinco das últimas seis rodadas do Campeonato Brasileiro, o São Paulo sofreu dois gols em intervalos curtos de tempo. Contra Botafogo (aos 18 e 25 minutos do primeiro tempo), Coritiba (11 e 22 do segundo tempo), Bahia (40 e 43 do primeiro), Cruzeiro (5 e 11 do segundo), e Palmeiras (35 e 38 do primeiro). O mesmo problema aconteceu em jogos do campeonato estadual.

PARABÉNS

A Seleção Brasileira se reúne em Porto Alegre, quase no aniversário de um ano do primeiro jogo (1 de setembro de 2016, 3 x 0 no Equador) sob a direção de Tite. De lá para cá: bom jogo, vitórias em sequência, classificação assegurada para a Copa do Mundo do ano que vem e uma completa transformação na relação com o público. É muito, ainda mais em tão pouco tempo. E pode ficar melhor até o mês decisivo na Rússia. 

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