Todos os posts de André Kfouri

Frustrante

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1 – O Flamengo é o único time brasileiro que tem a intenção – e a capacidade – de controlar todas as partidas negando a bola ao adversário. Uma ideia que deve ser admirada e aplaudida como proposição de futebol, ao invés de ser avaliada impacientemente apenas conforme os resultados que alcança.

2 – A repressão resultadista age contra o crescimento de equipes que optam pelo caminho tortuoso da posse, independentemente do oponente e do local. Os participantes da tomada de decisões no futebol do Flamengo devem ser firmes na continuidade do modo de atuar que pautou os objetivos e a formação do elenco do clube.

3 – É essa maneira de jogar que faz com que o Cruzeiro, em casa, aguarde o Flamengo na linha do meio de campo nos minutos iniciais do jogo. Mas não só isso, é claro. Há também um componente estratégico do time mineiro, configurado para recuperar a bola numa situação em que a defesa adversária tenha boa porção de campo às costas.

4 – Nas ocasiões em que a primeira linha de marcação do Cruzeiro pressionou a origem da saída de bola, o Flamengo não teve nenhuma dificuldade para evoluir até o campo de ataque.

5 – Após duas chances cruzeirenses, uma com exibição dos recursos técnicos de Thiago Neves e outra com um cabeceio de Léo, uma tabela entre Everton e Guerrero ameaçou o gol defendido por Fábio. O que tem separado o Flamengo da validação de seu futebol é a conversão desse tipo de jogada.

6 – Ao final do primeiro tempo no Mineirão, o Cruzeiro foi competente para interromper a circulação do Flamengo nas proximidades da área. A contundência de movimentos ofensivos é crucial ao futebol de posse, algo muito mais complexo de fazer do que de dizer, embora haja quem pense que a capacidade de frequentemente trocar passes até o gol adversário seja uma questão simples.

7 – Essa confusão aparece porque só se enxerga a falta de profundidade e/ou infiltração. Ocorre que outro conceito fundamental do jogo elaborado é a ideia de “viajar junto”, ou seja, quando um time se move e move a bola como um bloco único. Há momentos na maioria das atuações do Flamengo em que a equipe se fragmenta, o que a impede de se impor numericamente e facilita o trabalho de marcação.

8 – Com 32% de posse e razoável presença no ataque, o Cruzeiro jogou como pretendia, pois se defendeu com eficiência e manteve a ameaça que deixou a defesa do Flamengo em alerta constante.

9 – Exemplo: grande passe de Romero para a finalização de Éber na área. Thiago impediu o gol cruzeirense no primeiro ataque da segunda metade, jogada que sugeriu um posicionamento mais avançado do time dirigido por Mano Menezes.

10 – Mas a jogada pelo lado voltou a dar frutos ao Flamengo. Acionado por Guerrero, Rodinei encontrou Everton na segunda trave. O cabeceio raspou no poste e entrou, colocando o Flamengo em vantagem e inaugurando um novo jogo no Mineirão.

11 – O placar durou seis minutos. Outro bom passe, de Diogo Barbosa, criou o empate para Sassá, que tinha acabado de substituir Élber. Com dois lances de infiltração pelo centro da defesa para o passe profundo, o Cruzeiro conseguiu produzir dois gols. Thiago evitou o primeiro.

12 – A chance da virada se materializou no contragolpe em que Sassá ignorou Sóbis, livre, e chutou muito mal. Foi a única oportunidade dessa natureza no trecho final, pois o Cruzeiro se manteve adiantado para tentar ganhar o jogo contra a defesa posicionada.

13 – Empate frustrante para ambos, porém coerente com o que o jogo mostrou. O Cruzeiro soube jogar de duas formas diferentes e ser competitivo com ambas. O Flamengo novamente alternou boas e más versões de seu plano, o que acionará as críticas a Zé Ricardo por parte de quem – às vezes, com claro preconceito por se tratar de um profissional iniciante – acha que a qualidade do elenco exige um técnico “de nome”. Bobagem.

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Perfumaria

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A rodada treze do Campeonato Brasileiro foi o número da sorte para os times visitantes, que venceram oito dos dez jogos. O recorde anterior era de 2014 (trigésima-quinta rodada), com seis vitórias conquistadas fora de casa. O sucesso dos forasteiros em determinada amostra de partidas obviamente se deve a uma coincidência que não precisa ser explicada, mas o fato de todas essas oito equipes terem vencido com menor percentual de posse de bola despertou a velha – e entediante, pois se trata de um debate que não existe – conversa sobre qual estilo de jogo é “melhor”?

Não há como responder essa questão de maneira direta ou geral, embora existam trabalhos de análise capazes de mostrar ao menos um caminho. Michael Cox, autor e editor do site zonalmarking.net, compilou os números da temporada 2016/17 em sete ligas (Inglaterra, Alemanha, Espanha, França, Itália, Holanda e Portugal) europeias e encontrou uma correlação inegável entre posse de bola e saldo de gols. O gráfico é praticamente uma seta em diagonal, da esquerda para a direita, apontando para cima. O que não significa que a posse seja uma garantia de vitórias, uma fantasia tão maluca quanto afirmar que ter a bola não quer dizer nada.

De qualquer forma, índices registrados nos campeonatos europeus não podem ser transferidos para a realidade brasileira, em que o futebol reativo prevalece disfarçado como preferência, quando, de fato, é uma contingência. Times que se dispõem a controlar jogos por intermédio da posse demoram mais a se sentir confortáveis e se impor coletivamente, estágio que só se alcança com a manutenção de pessoas, métodos e ideias. Mas a curva de sobrevivência de trabalhos no futebol brasileiro é tão curta que esse nível de sofisticação é arriscado demais. Que o diga Zé Ricardo, técnico do Flamengo.

O risco cresce devido à incompreensão do processo de montagem de equipes, que leva entendidos a determinar um prazo para que certo time “jogue bem”, o que, nesse nível de sabedoria, não passa de um eufemismo para “vencer”. Tais conclusões são alcançadas sem que se troque uma palavra com o técnico/jogadores em questão ou se assista a um treino para conhecer o sistema de trabalho. São fruto de observação muitas vezes contaminada pelo que se gostaria que fosse verdade, uma idealização distante do que se passa no mundo real. O futebol é um bem comum, mas o “fazer futebol” é um mistério para a enorme maioria.

A dificuldade para entender o líder do Campeonato Brasileiro comprova o dilema. Há quem consiga ver o Corinthians como um time que espera e especula, um intérprete do pacote “defesa + sofrimento + bola parada” que se praticava no Brasil dez anos atrás. Confusão que ignora a primeira linha de marcação que acompanha a bola, ou os movimentos coordenados da última linha, de forma a restringir as possibilidades do adversário. E quem não é capaz de notar padrões tão claros, evidentemente não identifica os conceitos ofensivos do sistema com dois meias que alternam posições com os laterais para articular, os triângulos pelos lados ou o trabalho dos atacantes fora da área.

Miopias à parte, a questão do estilo é perfumaria em um ambiente no qual técnicos estão a duas derrotas seguidas do “tem a nossa confiança”, três da “obrigação de vitória” e quatro da “a diretoria entendeu que precisava tomar uma providência”. O futebol elaborado só florescerá no Brasil quando clubes decidirem trabalhar para tê-lo como identidade, e os responsáveis pela tomada de decisão se comprometerem com essa visão, sem desvios de rota por aspectos políticos, vaidade ou pressão externa.

APENAS NÚMEROS

A média de pontos do campeão brasileiro desde 2006, no formato com vinte clubes, é 75,6. Ajustando para 76 como meta, faltariam ao Corinthians 41 pontos para o título. Com 75 ainda em disputa, um aproveitamento de 54,6% a partir de agora seria suficiente. É a campanha do Sport até o momento. 

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Assim foi

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Há um aspecto interessante na demissão de Eduardo Baptista, dispensado do Atlético Paranaense após dirigir o time por apenas treze jogos: o presidente do conselho deliberativo do clube, Mário Celso Petraglia, afirmou que os resultados (46% de aproveitamento nessa mínima amostra) não foram o motivo da decisão. De acordo com Petraglia, o Atlético pediu divórcio de Baptista por um caso de incompatibilidade de ideias e práticas, o que não é comum e, claro, gera um questionamento óbvio: como o clube mais organizado do Brasil cometeu esse equívoco?

A resposta é um surreal emaranhado de eventos. Paulo Autuori corria risco de demissão em maio, quando a classificação na fase de grupos da Copa Libertadores estava por um fio. A corajosa virada sobre a Universidad Católica em Santiago, com o gol da vitória aos 37 minutos do segundo tempo, levou o time às oitavas de final e a um pedido de Autuori para mudar de cargo. Uma semana depois, Eduardo Baptista estava contratado de forma apressada, fruto da disponibilidade do ex-técnico do Palmeiras e da ansiedade de Petraglia para solucionar o problema.

Autuori tinha consciência de que havia sido salvo pela classificação inesperada, mas, seríssimo que é, foi a Campinas e conversou com Eduardo para acertar os parâmetros da contratação. Apesar de não concordar com a celeridade do processo, assumiu na coletiva de apresentação de Baptista, já como diretor de futebol, a posição de deixar o Atlético caso o trabalho do novo técnico fosse interrompido. As vitórias iniciais sugeriram uma transição suave, mas internamente o cenário não era tão simples.

As diferenças entre a maneira como Baptista conduzia o dia a dia e o sistema de trabalho multidisciplinar implantado no Atlético logo ficaram claras, e os resultados ruins – especialmente no jogo de ida da Libertadores, derrota para o Santos na Vila Capanema – fizeram com que Petraglia acionasse novamente o botão em que está escrito “trocar técnico”. O dirigente sabia que a substituição de Baptista (Fabiano Soares foi apresentado ontem) resultaria na saída do diretor, como se deu na tarde de segunda-feira.

A correção do erro no processo de escolha por Baptista cobrou seu preço com a perda de Autuori, algo que o clube tenta reverter com manifestações de funcionários. Ele também coordenava a formação de jogadores no Atlético e não pretende trabalhar novamente como técnico no Brasil. Paulo Autuori contempla seu futuro considerando diversas opções.

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O manual do déspota

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O produto do fracasso de Roberto Dinamite como presidente do Vasco não é apenas o desencanto de quem gostaria de ver ex-jogadores envolvidos na administração de clubes de futebol. Tampouco é a comprovação de que não basta ter sido esportista para almejar uma carreira em gestão esportiva, algo tão evidente que não carece de ilustração. O verdadeiro perigo moral gerado por Dinamite é a ideia de que só um tipo específico de dirigente pode sobreviver no futebol brasileiro, o que, no Vasco da Gama, é o equivalente a pintar o rosto de Eurico Miranda nos muros de São Januário.

É irônico, ou mesmo trágico, que os defeitos do formidável ex-centroavante como administrador tenham permitido o retorno da figura que representa um passado do qual o Vasco – ou qualquer outro clube que tenha convivido com personalidades semelhantes – deveria querer se distanciar. Porque Eurico Miranda voltou como uma vingança, como um rei deposto determinado a recuperar seu trono e mostrar aos que ousaram enfrentá-lo o equívoco que cometeram. A imagem de seu rosto nos contornos do clube certamente agradaria a quem pretende ser a face, a voz, os neurônios e intestinos de uma entidade que não lhe pertence.

Esse é o grande problema do modelo estabelecido no país. A estrutura política dos clubes proporciona a aparição de mandatários que sequestram a coletividade e aplicam a ela os valores que bem entendem. A cada manifestação pública do atual presidente, nota-se um “eu sou o Vasco” repetido em respostas sobre os mais variados temas, como se fosse uma questão de honra não ser questionado em nenhuma decisão, nenhuma posição, nenhum desejo. Aí está outra faceta da tragédia, pois o Vasco não é uma pessoa, e, se fosse, certamente não gostaria de ser Eurico Miranda.

Ocorre que simplesmente não é possível comandar uma instituição por intermédio do silenciamento de opiniões. O que tem acontecido no estádio de São Januário é a debacle de um dirigente retrógrado que acha que o clube deve personificá-lo. Não é surpreendente que as práticas sejam as mais condenáveis, com o uso de baderneiros para sufocar críticas a qualquer custo, mesmo que seja necessário afugentar quem apenas quer torcer pelo Vasco, aterrorizar crianças e depredar o que é de todos. Diante disso, sustentar a narrativa de que tudo não passa de ações com motivação política é previsível. São páginas do manual do déspota.

Fechar São Januário para quem não pensa como ele sempre foi um recurso de Eurico Miranda. Vale para jogadores, técnicos, veículos de comunicação. A derrota para o Flamengo marca – não como o início, mas como o retrato principal – o momento em que a torcida do Vasco também passou a sofrer essa restrição. Menos mal que a inevitável interdição evitará, por algum tempo, que o estádio se converta em um lançador de morteiros sempre que o time não vencer, pois essa é a noção de mando de campo que prevalece entre partidários do presidente. A disseminação do ódio não se importa nem mesmo com a morte.

FORMAÇÃO

Levir Culpi, novo técnico santista, aparentemente caiu na armadilha de que qualquer pessoa pode dirigir craques. Em entrevista à Folha de S. Paulo deste domingo, Levir disse que “no Barcelona você fica com o Messi, o Iniesta e o Neymar trabalhando cinco anos juntos. Pode colocar um técnico da segunda divisão do Brasil que a chance de ganhar é grande”. A história recente do Barcelona, porém, mostra que não é verdade. Para conduzir craques ao sucesso, é necessário ter condições de treiná-los todos os dias, uma tarefa que obviamente não está ao alcance de alguém que não possua a devida capacitação. Não é por outro motivo que treinadores precisam se qualificar para poder trabalhar no futebol europeu de elite. 

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Fila

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A Alemanha recentemente conquistou dois torneios com jogadores abaixo dos vinte e cinco anos, relembrando o mundo do futebol de que a fila de futebolistas para vestir a camisa da seleção continua andando. Ou, de forma mais simplista, de que o plano que atingiu o auge no Maracanã não se encerrou naquela tarde de domingo em julho de 2014. E além das campanhas vitoriosas na Copa das Confederações e no Campeonato Europeu Sub-21, deve-se citar também os Jogos Olímpicos de 2016, quando os alemães levaram o Brasil de Rogério Micale, Rodrigo Caio, Renato Augusto, Gabriel Jesus e Neymar aos pênaltis.

Não, esta coluna não pretende “aborrecer” ninguém com pormenores sobre o que aconteceu no futebol da Alemanha a partir da derrota para a Seleção Brasileira na final da Copa do Mundo de 2002. Há ótimos livros escritos sobre o tema, com conteúdo mais do que suficiente para explicar as transformações no processo de geração e educação de jogadores e capacitação de treinadores naquele país. Tão interessante quanto, o resultado desse trabalho é algo que se pode ver, expondo verdades incômodas até para o expert em futebol em rede social, aquela figura afeita a tolices como “eles praticam um futebol chato”.

Nesta semana, em entrevista ao diário argentino Olé, César Luis Menotti resumiu em algumas linhas o caminho que os alemães percorreram durante longos anos: “Antes te atropelavam fisicamente, colocavam sempre um 9 grandão e muito jogo aéreo. Na defesa, faziam perseguições e sair jogando era uma exceção, salvo na época de Beckenbauer, que por sua classe era o único que sabia fazer. Mas nas mãos de Klinsmann e Low, a Alemanha matou o líbero, os stoppers e tudo isso. Começou a juntar jogadores de bom pé, a respeitar uma ideia de ter a bola, e seguiu ganhando, mas de outra forma. Veja, não mudou porque antes não ganhava. Mudou porque esses dois loucos queriam fazer outro futebol”, disse.

Menotti recordou o dia em que foi convidado para almoçar na concentração da seleção alemã, durante a Copa de 2006. Algumas horas antes de enfrentarem a Suécia, Klinsmann – que foi dirigido pelo argentino na Sampdoria – e Low o entrevistaram sobre o que a Alemanha mostrava naquele mundial em casa, e que sugestões ele teria para oferecer. Klinsmann lhe disse que gostaria que “o povo alemão se identifique com esta equipe, que as pessoas se divirtam ao nos ver jogar”. Eram estágios ainda tímidos de uma ideia que teria de lidar com frustrações (semifinais nas Copas de 2006 e 2010 e Euro 2012; final da Euro 2008) antes da alcançar a glória no Rio de Janeiro.

O sucesso da seleção alemã – melhor seria dizer: das seleções alemãs – é o triunfo indiscutível do jogo coletivo em sua máxima expressão, embora não disponha de um megacraque planetário. “Eles têm grandes futebolistas, alguns excelentes como Kroos ou Hummels, mas nenhum craque”, disse Menotti, na conversa com o Olé. A carência, se é que há algum sentido no emprego do termo, é um motivo a mais para aplaudir, não para criticar. Se já fazem o que fazem com posição e circulação, calcule do que seriam capazes se tivessem ao menos um jogador dotado de brilho individual para ser uma ameaça, no um contra um, nas proximidades da grande área.

Com mais uma frase brilhante, Menotti afirmou que a Argentina está distante do nível de futebol apresentado pela Alemanha, e será assim enquanto Messi não atuar em algo que possa ser descrito como um time: “Você pode se meter no mar e ser salvo por um salva-vidas, se estiver se afogando a cem metros da beira. Mas se estiver a dez mil metros, mar adentro, ninguém vai te salvar. E a Argentina hoje está assim, muito longe para que Messi a salve”. Há pouco tempo, podia-se dizer essa mesma frase, substituindo Argentina por Brasil e Messi por Neymar.

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Matadouro

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Corinthians, Grêmio, Botafogo e Fluminense são os únicos clubes da Série A em que a esquizofrenia da troca de técnicos não se instalou em 2017, e talvez fosse conveniente, apenas por segurança, incluir um “ainda” nesta sentença. Nos casos dos dois primeiros, Fábio Carille e Renato Portaluppi comandam campanhas elogiáveis e desfrutam da sustentação dos resultados. Jair tem conseguido manter o time em um nível de desempenho acima do que o elenco sugere, enquanto parece consenso que exigir de Abel muito mais do que sua equipe tem feito não é razoável.

No Flamengo, Zé Ricardo já esteve por um fio em ao menos duas ocasiões, e, infelizmente, não há motivos para crer que a impaciência não voltará a ameaçá-lo. O Palmeiras demitiu Eduardo Baptista em maio, mesmo com a classificação na fase de grupos da Libertadores praticamente assegurada. O Santos dispensou Dorival Júnior em junho, embora ele tivesse um aproveitamento acima de 64% na direção do time. O Vasco devolveu Cristóvão Borges ao mercado em março. Roger Machado administra pressões no Atlético Mineiro desde o início da temporada, suavizadas pela conquista do campeonato estadual.

O Coritiba foi o primeiro a sucumbir, mostrando a porta a Paulo César Carpegiani em fevereiro, após a eliminação na Copa do Brasil. O mesmo aconteceu com Felipe Moreira na Ponte Preta, no mês seguinte. Em maio, o Sport encerrou o trabalho de menos de sessenta dias de Ney Franco. Mano Menezes ainda não teve quinze dias corridos de sossego no Cruzeiro, e a derrota no clássico mineiro voltou a acordar os movimentos de sempre. Imagina-se que o Atlético Paranaense seja um ambiente diferente, mas o “fora Eduardo” pôde ser ouvido com clareza na noite de ontem, na Vila Capanema, após a derrota para o Santos.

Até a Chapecoense, de quem poderia se esperar uma condução um pouco mais racional em virtude da tragédia de novembro passado, não resistiu: Vágner Mancini perdeu o emprego anteontem. O Bahia está em uma situação particular, por ter perdido Guto Ferreira por decisão do próprio, mas a proximidade da zona do rebaixamento obviamente é um problema para Jorginho. Na segunda-feira, o São Paulo mandou seu maior ídolo para casa após seis meses e vários jogadores negociados, mas o presidente Leco quer que você acredite que não tem responsabilidade nenhuma. O Vitória dispensou Argel Fucks em maio.

Claudinei Oliveira chegou ao Avaí em agosto de 2016, e talvez não estivesse mais trabalhando não fosse a vitória sobre o Botafogo, na décima rodada. Encerrando a lista, o Atlético Goianiense mandou Marcelo Cabo embora no mês passado. Vai piorar, ainda é julho.

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Jô és ley

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1 – De todos os problemas apresentados por visitantes a Itaquera, o Botafogo trouxe o pacote mais perigoso. A marcação baixa determinada por Jair Ventura comprimiu o campo de defesa e obrigou o Corinthians a trabalhar diante de um bloco de jogadores vestidos de preto. E cada passe interceptado era um contragolpe em potencial.

2 – Um teste duplo para o líder, instalado no campo oposto desde o primeiro minuto: desgastar a parede até perfurá-la, sustentando o posicionamento organizado que permite a recuperação rápida da bola e a proteção do passe longo.

3 – A exemplo do que o Corinthians faz quando atua fora de casa, o Botafogo se mostrou confortável ao se defender com todos os jogadores. Comportamento de equipe treinada mesmo com escalação diferente e – um traço evidente desde o início da temporada – disposta a jogar próxima ao limite de sua capacidade. Pura competição.

4 – Na altura da meia hora de jogo, o Corinthians teve a bola por 73% do tempo, mas nenhuma finalização certa na direção do gol de Gatito Fernández. Em encontros dessa natureza, a exigência de concentração é semelhante para os dois lados. Um time procura se ordenar com a bola; o outro, sem ela. Ninguém pode errar.

5 – O Botafogo ameaçou aos trinta e cinco minutos, com a aparição de Bruno Silva pelo lado direito. Bom passe para a conclusão de João Paulo para fora. No desenho de Jair Ventura, uma vitória do Botafogo em Itaquera passava pelo aproveitamento de jogadas como essa.

6 – No intervalo, eis o número de defesas de Cássio e Gatito:

7 – O Corinthians fez uma blitz inicial no segundo tempo, forçando o goleiro do Botafogo a interferir em três ocasiões. A primeira, em um chute de Rodriguinho que teve força, mas não a melhor direção.

8 – Um grave erro de arbitragem colocou o jogo sob risco de contaminação. Marcelo fez falta em Arana fora da área, mas Rodolpho Marques marcou pênalti. Para a sorte dele, Gatito defendeu a cobrança de Jô e protegeu o resultado da interferência do apito.

9 – Lembrete: a falta aconteceu, no mínimo, um passo fora da grande área. Os críticos do árbitro assistente de vídeo certamente consideram que esse tipo de falha “é coisa do jogo”.

10 – A entrada de Marquinhos Gabriel incrementou a circulação do Corinthians, que cercou a área botafoguense em uma pressão intensa. A bola ficou confinada não apenas ao campo, mas à intermediária do time carioca. Um exercício de ataque contra defesa, porém sem gol.

11 – A posição recuada da última linha do Botafogo era perigosa, mas dificultava a jogada pela lateral da área. Não é possível criar profundidade quando o movimento de ataque já está tão perto do limite do campo.

12 – A não ser no caso de uma jogada individual com a de Pedrinho, segundos após entrar no jogo: matada no peito, lençol em João Paulo, outra no peito, projeção contra o marcador e passe para trás. Gatito, enorme, defendeu dois chutes antes de Jô marcar um gol pelo qual o Corinthians teve de trabalhar muito.

13 – Pedrinho é privilegiado no aspecto técnico, mas fisicamente frágil para as demandas do futebol de alto nível. O Corinthians o imagina um jogador com capacidade para desequilibrar partidas. Este domingo serve como ilustração.

14 – Vitória merecida, especialmente considerando um segundo tempo em que só houve jogo em metade do gramado. O brilho particular de um jovem meia foi definitivo para que o Corinthians extraísse três pontos em sua casa.

TEMPO

O Flamengo cresce e caminha para o nível de desempenho coletivo que a qualidade de seus jogadores pressupõe. Nada acontece antes do tempo no futebol, como comprova a manutenção de Zé Ricardo no comando do time. Uma mudança de rumo no momento de crise teria sido um tremendo equívoco.

NO FUNDO

São Paulo no Z-4: resultado do desmantelamento do time pela política de negociação de jogadores do clube. E quem não tomou essas decisões terá de resolver o problema.

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Imposição

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No intervalo do espetacular 3 x 3 da última quarta-feira, o vestiário do Palmeiras não podia fugir de uma verdade desconfortável: se quisesse prosseguir na chave da Copa do Brasil, o time estava obrigado a marcar ao menos quatro gols, sem sofrer mais nenhum, em cento e trinta e cinco minutos de futebol. Os primeiros quarenta e cinco desses minutos traziam o bônus de transcorrer nas condições mais favoráveis, com o Allianz Parque lotado e – como tem sido notável – disposto a apenas ajudar.

Neste cenário, as providências que se impõem a um time que pretende continuar competindo passam longe de conjecturas posteriores como “fizemos um segundo tempo digno” ou “suavizamos o vexame”, pois imagem tem pouco valor na autópsia de uma campanha. O sistema de dupla eliminatória considera o frio cálculo de gols marcados e sofridos (no caso da Copa do Brasil, onde esses gols aconteceram também importa) para determinar quem permanece em pé, de modo que essa matemática é o único aspecto do confronto que pode ser controlado. O Palmeiras tinha de fazer gols, e tinha de começar logo.

A vantagem parcial também significava uma tarefa para os jogadores dentro do outro vestiário do estádio. Defender-se por três quartos de hora é uma proposta pouco inteligente até para times que se especializam em fingir que o campo de ataque não existe. A manutenção de um 3 x 0 construído pela ótima interpretação do futebol reativo dependia de seguir jogando, ameaçando, valorizando o percentual da bola que fosse possível extrair da inevitável pressão do Palmeiras. Porque até alguém que estivesse assistindo ao primeiro jogo de futebol de sua vida sabia que o Cruzeiro seria acossado por algo como vinte minutos de terror.

Apontar as falhas defensivas do time mineiro nos três gols sofridos é um exercício de obviedade que gera a mais equivocada das conclusões sobre o jogo: a de que, para o Cruzeiro, o resultado dependia da própria capacidade de se defender. Como se fosse possível imaginar que Mano Menezes ordenou um recuo profundo a partir do primeiro minuto do segundo tempo, com o propósito de fazer o tempo passar aguentando a tempestade. Ou que, como zumbis caminhando em fila para o abismo, os jogadores tomaram essa decisão por vontade própria. O Cruzeiro simplesmente não encontrou as saídas que utilizou no primeiro tempo, porque o Palmeiras não permitiu.

O futebol é um jogo de imposição de uma equipe sobre outra. Por intervalos de tempo variáveis, é perfeitamente razoável que um time exerça absoluto controle sobre o oponente, de forma a fazer parecer que se trata de um encontro entre categorias desiguais. Foi o que se deu durante dezenove minutos, em um vendaval físico-técnico-mental que produziu o empate. “Recuar” e “não conseguir sair” são duas coisas distintas. A primeira, um equívoco; a segunda, um problema. O grande drama do Cruzeiro no segundo tempo foi não ser capaz de retirar a bola de seu campo e mantê-la distante, o que, evidentemente, não constitui uma falha defensiva e não é uma questão de escolha.

Ademais, se fosse simples ir ao estádio de um dos melhores times brasileiros, estabelecer um placar de 3 x 0 e sustentá-lo até o final, episódios semelhantes aconteceriam com frequência. Especialmente em torneios como a Copa do Brasil, em que a diferença de gols orienta comportamentos, cada jogo pode ser vários em um. Falta um gol para a conta do Palmeiras fechar, desde que não sofra nenhum no Mineirão, onde o Cruzeiro terá apoio popular e todos os motivos do mundo para alcançar uma classificação que continua mais próxima dele, apenas não tão próxima quanto no intervalo da partida de ida.

COMOVENTE

Um aplauso ao caráter de Walter Montillo, que se recusou a roubar o futebol. E uma lágrima por sua tristeza, que demonstrou tanto amor pelo jogo.

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Quatro ações

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Uma das célebres frases de Johan Cruyff diz que “jogar futebol é muito simples, mas jogar futebol simples é a coisa mais complicada que existe”. Zidane aplicava essa teoria ao jogo com as decisões mais óbvias possíveis a cada vez que tocava na bola, ensinando que a genialidade está na simplicidade que só os escolhidos podem alcançar. Menotti explica o jogo com a lógica que deveria ser evidente a todos, mas ocorre apenas a quem consegue enxergar.

“O futebol tem quatro ações: defender, recuperar a bola, gerar jogo e definir. Não há mais do que isso. Cada treinador tem uma ideia de como utilizar essas quatro ações e como coordená-las entre si”, escreveu o pensador argentino, em um artigo recente publicado no diário espanhol Sport. É exatamente essa coordenação, dependendo da ênfase em cada ação, que determina a personalidade de uma equipe e a forma como pretende superar as outras.

A cronologia mencionada por Menotti não é um acaso. Até as equipes com intenções mais ofensivas planificam suas atuações escolhendo como se defenderão diante de um adversário. Pode-se dar alguns passos à frente para impedi-lo de jogar em seu campo e tomar a bola perto do gol. Pode-se recuar alguns metros e alternar a maneira de pressionar. Pode-se sentar sobre a linha da própria área para atrair o oponente e explorar a extensão do gramado que ele terá de defender. A maneira como um time se protege indica como procederá quando tiver a bola.

Todas as etapas do processo são complexas e dependentes de treinamento. Mas os modelos em que se utiliza marcação adiantada, recuperação rápida e elaboração são os que exigem mais trabalho, mais sincronia e, claro, mais tempo. O que expõe os treinadores que escolhem atuar com alguma combinação dessas ideias ao constante embate com o imediatismo, quase sempre alimentado por críticas desprovidas de conhecimento. Observação rasa à distância convertida em tese.

Respeitadas as diferenças entre cada caso, Rogério Ceni, Roger e Zé Ricardo têm sofrido as consequências por acreditarem na evolução quase artesanal de suas equipes, enquanto a validação dos resultados – para muitos, o único critério que importa – insiste em uma agenda própria. Quando times custam a atuar em bom nível da forma a que se propõem, a impaciência prevalente questiona convicções e sugere caminhos traiçoeiros.

Voltando a Menotti, o time que melhor coordena as quatro ações do futebol, neste momento, é o Corinthians. A era “Adenor Carille de Menezes” criou um padrão de comportamento defensivo coletivo que confere identidade e confiança. Só parece simples.

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Indecifrado

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1 – Natural domínio inicial do Grêmio, o time mais confiante do futebol brasileiro, que se empenha em condicionar jogos independentemente do local e do adversário. Não se esperaria outro comportamento, em casa e com maciço apoio popular, na partida que vale a liderança do campeonato.

2 – Mesmo sob ameaça e com dificuldade para afastar o jogo de sua própria área, o Corinthians não se desconcentra ou comete o equívoco de abandonar sua maneira de atuar. Prova de compostura de uma equipe confortável ao se defender, que não se deixa levar pela presunção.

3 – Paulo Roberto por pouco não converte em gol uma bola recuperada na intermediária. Após iludir dois marcadores, ele aparece diante de Grohe, que desvia o chute cruzado e salva o Grêmio. A jogada exemplifica a punição ao erro do oponente em uma região sensível do gramado, algo básico no futebol de hoje.

4 – Geromel quase marca, acionado por Luan em jogada ensaiada de escanteio. Desmarcado e habilitado para finalizar, o zagueiro desvia a bola na pequena área e lamenta a grande oportunidade perdida. É o tipo de ocasião que a defesa do Corinthians não pode tolerar.

5 – O primeiro tempo chega ao final de forma a satisfazer os dois times. O Grêmio, pela iniciativa, o volume e a pouca exposição. O Corinthians, pela solidez, a concentração e o controle. Bom jogo, compatível com o que se imaginava que Grêmio e Corinthians apresentariam, cada um de acordo com suas características e ideias.

6 – O Corinthians faz o primeiro estrago, aos seis minutos da segunda parte. Nova aparição de Paulo Roberto na área gremista, com leve colaboração de Luan ao tentar desarmá-lo e facilitar sua projeção. O passe para trás chega a Jadson (corta-luz ou falha no domínio de Jô?), que bate rasteiro. A bola passa entre as pernas de Grohe antes de entrar.

7 – Gol de Cássio, ao negar a Luan o empate que a Arena já gritava. A conclusão do jovem astro gremista poderia ter sido mais bem colocada, mas foi praticamente à queima-roupa, sobre a linha da pequena área. Grande defesa, ao final de um ótimo movimento ofensivo do Grêmio.

8 – O encontro entra em um período de testes para a capacidade de elaboração do Grêmio (alterado duas vezes por Renato Portaluppi, sempre para frente), contra um sistema defensivo que parece ter gelo nas veias. E ao invés de retroceder para atrair, o Corinthians opta por marcar mais adiante do que fazia antes de ficar em vantagem.

9 – Uma irresponsabilidade de Marquinhos Gabriel abre a porta para o empate. Não há como explicar o puxão na camisa de Geromel em uma cobrança de escanteio, à frente do árbitro, com a defesa posicionada. Pênalti bem marcado, mal cobrado por Luan e defendido por Cássio, caindo para o canto direito sem precisar se esticar.

10 – A atuação decisiva do goleiro corintiano ainda teria a defesa de um chute de Fernández, nos acréscimos, quando o Grêmio era só pressão. A primeira vitória do Corinthians na Arena tem as impressões digitais de Cássio.

11 – Num encontro em que qualquer resultado seria normal, a vitória do visitante talvez fosse o placar em que menos se apostasse. Muito mais pela campanha e pelas qualidades do time de Portaluppi do que por qualquer outra razão. O que se viu foi mais uma resposta de um time que ainda não foi decifrado na temporada, especialmente fora de casa.

12 – O Corinthians evolui de forma semelhante às declarações públicas de seu treinador. No início, exageradamente tímidas, defensivas, reticentes até. Aos poucos, surgiu uma personalidade sóbria, controlada, em que se notava a valorização da simplicidade. Hoje se percebe a ambição para continuar crescendo, mas sem vaidades ou distrações.

13 – Necessário registrar: elogiável tarde de Wilton Pereira Sampaio, na condução de um jogo que poderia ter sido muito mais complicado para a arbitragem.

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