Todos os posts de André Kfouri

Astrologia

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Philippe Coutinho repetiu a viagem que Cristiano Ronaldo, Gareth Bale e Luis Suárez fizeram. Trocou a Inglaterra pela Espanha, a Premier League pela “liga das estrelas”. Deixando de lado conjecturas sobre os desafios do Liverpool sem o jogador brasileiro, e as possibilidades para o Barcelona com ele, o movimento é significativo para o jogo entre as duas ligas nacionais europeias que geram mais interesse. A decisão de Coutinho não enfraquece a posição do campeonato inglês como o principal produto de futebol que pode ser acompanhado semanalmente, mas reforça a imagem do campeonato espanhol como o lugar onde se encontram os melhores futebolistas do mundo.

Como negócio, não há liga tão bem sucedida quanto a inglesa. O planejamento dos organizadores espanhóis é se aproximar do patamar de receitas da Premier League em dez anos, sinal da distância comercial que os separa. Provavelmente demorará ainda mais tempo para alcançar o nível de reconhecimento que faz com que um jogo do campeonato inglês seja identificado, em poucos segundos, pela televisão. É a padronização da excelência do campeonato mais visto no mundo, que vende tradição, organização, futebol bem tratado e um ambiente característico que se converte em apelo para apreciadores do jogo, independentemente de relações sentimentais com clubes.

Deveria ser o Éden para jogadores. E talvez seja, até o celular tocar e a tela exibir os códigos internacionais das cidades de Barcelona ou Madri. Os dois gigantes espanhóis costumam dominar um campeonato prejudicado pela disparidade financeira, defeitos estruturais e falhas de organização que comovem cartolas sul-americanos, mas exercem um poder de sedução que as virtudes da Premier League – por enquanto – não conseguem combater. Jogar no Barcelona e no Real Madrid representa ascensão na prateleira das percepções, faz crescer o nome e a marca de um futebolista, além de abrir horizontes coletivos e individuais que os principais clubes ingleses – ainda – não permitem.

Coutinho se tornou a segunda contratação mais cara da história do futebol. Na lista das dez maiores transferências, apenas três (Pogba, Lukaku e van Dijk) foram feitas por clubes da Premier League, que desfrutam de invejável realidade orçamentária. Barcelona e Real Madrid foram os compradores em cinco dessas transações (as duas restantes são as de Neymar pelo PSG e Higuaín pela Juventus), colaborando para manter o status do campeonato espanhol. Enquanto nomes como Lionel Messi e Cristiano Ronaldo funcionarem como chamarizes para jogadores que desejem ser seus parceiros e/ou sucessores, a tendência perdurará mesmo que a liga espanhola não se compare à inglesa como produto.

Embora o time encantador no momento seja inglês, o Manchester City, a Premier League, hoje, é a liga das estrelas apenas no âmbito dos técnicos. Esse fator pode interferir no processo de decisão de jogadores consagrados nos próximos anos e contribuir para o desenvolvimento dos que já estão lá. Por ora, a noção de que a transformação de um futebolista em astro mundial passa por vestir a camisa de um grande clube espanhol explica a rota de Philippe Coutinho, justificando o apelido do campeonato que ele disputará. As carreiras e os currículos dos que o precederam oferecem farto material comprobatório.

PAPÉIS

Tite certamente adoraria que um possível experimento de Coutinho no papel de Iniesta desse certo, pelo benefício que a Seleção Brasileira teria em termos de escalação e variação. Mas é obrigatório considerar as diferenças de atributos entre eles antes de imaginar o brasileiro em uma função que lhe exigirá adaptação. Coutinho pode jogar em um trio de meias ou de atacantes, o que ilustra o valor de sua capacidade e o impacto de sua contratação. Será interessante observar como ele se integrará ao modelo de seu novo time.

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Bina

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O ambiente era tão ruim na redação paulistana de um canal de televisão aberta, durante os anos noventa, que um conhecido narrador desenvolveu uma estratégia para não cair em “armadilhas” de colegas – alterações na escala de trabalho motivadas por problemas pessoais, nem sempre verificados – e parou de atender telefonemas originados do prédio. Identificado o número pelo BINA, ele deixava a ligação cair na secretária eletrônica e, dependendo do motivo, não a retornava. A falta de comunicação protegia sua agenda de ataques e sua consciência da sensação de ser feito de tolo por pessoas em quem não confiava. Os contatos só aconteciam quando lhe interessavam.

Eram os primórdios da telefonia celular, quando a tecnologia engatinhava, as baterias duravam pouco e desaparecer não causava suspeitas imediatas. Na era das mensagens instantâneas, tal expediente não seria possível. Motivo pelo qual não há como crer que um técnico seja capaz de deixar o clube em que trabalha no escuro, mesmo no período de festas, aguardando o momento em que lhe convém retornar os contatos e esclarecer se cumprirá o contrato que assinou. A mentira dá voltas ao mundo antes que a verdade vista as calças, Churchill teria dito, numa época em que não se imaginava algo como o WhatsApp. Não é plausível que o Flamengo seja o marido traído, aquele que sempre é o último a saber, no episódio com Reinaldo Rueda.

Porque se este for o caso, seria não só uma flagrante falta de profissionalismo por parte do técnico, como também uma exibição de inabilidade por parte do clube. Uma combinação na qual é difícil acreditar. Nesses dias misteriosos em que se divulga, no Chile, o acerto definitivo entre Rueda e a federação local, e o Flamengo aguarda pelo retorno de seu treinador para o início da pré-temporada, o cenário mais provável é a tentativa do clube de controlar o que se diz enquanto trabalha para garantir a manutenção do que planejou para 2018. Só isso explica o silêncio de Rueda e a repetição incessante da mensagem enviada pela direção rubro-negra. Isto, é claro, assumindo que a informação da mídia chilena está errada.

Ontem, o site do diário La Tercera informou detalhes do contrato para que Rueda dirija a seleção chilena. Duração, cláusulas, salário. De acordo com a reportagem, o técnico do Flamengo será apresentado na próxima semana, após ir ao Rio de Janeiro para comunicar pessoalmente sua decisão. O Flamengo sustenta que segue em comunicação constante com o treinador colombiano, que não fez qualquer comentário a respeito de uma eventual saída. A realidade provavelmente está no meio do caminho entre dois pontos tão distantes, ou seja: o Chile quer contratar Rueda e o Flamengo quer mantê-lo. São duas negociações paralelas. Rueda não se manifesta publicamente porque não se decidiu, e como não pode afirmar que continuará no Flamengo, o melhor para o clube é que não diga nada.

Um quadro diferente desse seria muito negativo, especialmente na hipótese da negociação com a federação chilena ter sido concluída enquanto o clube olhava para o telefone, ansioso. Pensando nessa possibilidade assustadora, o que poderia levar Reinaldo Rueda, treinador que até agora deu todas as mostras de um relacionamento respeitoso com o Flamengo, a adotar a estratégia do narrador que não atendia os telefonemas da redação?

ERAS

Ronaldo, o Fenômeno, talvez tenha razão sobre a maior concorrência para ser considerado o melhor jogador do mundo na época em que brilhava nos campos. Essa é mais uma questão em que a comparação entre eras é um exercício impreciso, e, como tal, com forte tendência à futilidade. Mas há um exame que pode ser feito apenas por diversão, porque é prejudicado pelas mesmas imprecisões: se Lionel Messi fosse contemporâneo de Ronaldo, a competição por prêmios individuais como a Bola de Ouro seria ainda mais acirrada.

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Jogo autoral

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Fernando Diniz recebeu um telefonema de Mário Celso Petraglia no dia vinte e nove de dezembro. Foi o primeiro contato entre eles. Após cerca de uma hora de conversa, Diniz se sentiu como se tivesse falado com alguém que fizesse parte de seu círculo mais próximo, tal era a sintonia de ideias entre o técnico e o presidente do conselho deliberativo do Atlético Paranaense. Embora não represente nenhuma garantia, essa é a fundação do relacionamento entre eles e o passo definitivo para a contratação anunciada anteontem.

Na aparência, e à distância, é natural a sensação de um compromisso arriscado. O tipo de futebol que Diniz prega exige mais tempo de implantação do que o da maioria dos treinadores, e Petraglia não tem exatamente a imagem de um paciente tomador de decisões. Mas essa é uma impressão decorrente do mínimo acesso a um dirigente que faz questão de controlar o fluxo de informações a seu respeito, um administrador que se incomoda mais com a falta de soluções do que com resultados de jogos. O imediatismo foi um dos temas da conversa, na qual Diniz ouviu que teria a compreensão e a proteção que necessita.

Enquanto foi técnico do Audax, Diniz recusou dezoito propostas para sair. Ao contrário do que se imagina, não foi por desconfiança em seus métodos ou receio em relação a seu temperamento que um grande clube não o contratou. Diniz deu sua palavra a Mário Teixeira, proprietário do clube de Osasco, de que não o abandonaria. Nove meses sem trabalhar o convenceram a não mais fazer promessas dessa natureza, decisão mencionada ao presidente do Guarani, Palmeron Mendes Filho, na ocasião do acerto. Havia acordo, por escrito, que uma oportunidade na Série A poderia levá-lo do Brinco de Ouro, como aconteceu.

Nenhum clube brasileiro possui estrutura semelhante ou investiu tanto em conhecimento científico aplicado ao futebol como o Atlético Paranaense. O salto que falta é a conversão dessa excelência para dentro do campo, o que dificilmente acontecerá com a reprodução pura e simples do que se pratica nos clubes de vanguarda na Europa. O Atlético deve utilizar o aprendizado para desenvolver uma maneira particular de fazer futebol, o que dá sentido à contratação de Diniz. Um técnico que propõe jogo autoral em um clube no qual as condições para respaldá-lo estão presentes.

A conversa telefônica entre Petraglia e Diniz precisará ser exercitada no dia a dia e lembrada nos momentos difíceis, que sem dúvida estarão no caminho. O teste que está para começar não vale só para o técnico, mas para todos os envolvidos, especialmente o torcedor atleticano.

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Futebol mágico

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O tweet do ex-atacante norueguês Jan Aage Fjortoft (jogou a Copa de 1994 e foi parceiro de Juninho no Middlesbrough) surgiu na timeline na última quarta-feira, gerando, como é frequente, uma torrente de admiração e dramas de interpretação: “Era uma vez um campeonato chamado Bundesliga. Torcedores ingleses a chamavam de ‘liga do Mickey Mouse’, porque um clube chamado Bayern, com o rei Pep, disparou para ganhar o troféu antes do Ano Novo. Agora, o rei Pep do Manchester City dispara na Premier League antes do Ano Novo. O que aconteceu com o Mickey Mouse?”, provocou Fjortoft, hoje comentarista em seu país. Os quinze pontos de vantagem do City na liga que é considerada a mais competitiva do mundo têm se mostrado um desafio para as concepções de tanta gente que gosta de se ocupar com o futebol.

Uma parte significativa das respostas ao tweet tratou de lembrar seu autor que o Bayern conquista o Campeonato Alemão “em quase todos os anos” – o clube caminha para o sexto título seguido, que seria o oitavo nas últimas onze temporadas -, um cenário que não se aplica à Premier League. Também houve menções automáticas, e tolas, ao poderio financeiro do Manchester City. Como se o argumento do que foi escrito tivesse qualquer relação com esses aspectos. Neste caso, aconteceu o encontro do analfabetismo voluntário que caracteriza as redes antissociais com o analfabetismo futebolístico que impede o debate. E estamos falando de uma audiência predominantemente europeia, o que poderia causar uma sensação de alívio, mas, na verdade, apenas aumenta o desânimo.

Fjortoft se refere ao “como”, não ao “o quê”. E o fato de algo tão óbvio escapar a tantos revela a incapacidade de enxergar o verdadeiro presente do futebol. Como já se escreveu, as pessoas sem ideais são quantitativas; podem apreciar o mais e o menos, mas nunca distinguem o melhor do pior. Por essa razão, o Manchester City apresenta um quadro que não lhes diz nada além de pontos conquistados em sequência, o que só pode ser explicado pelo tipo de devaneio que levou José Mourinho, técnico do clube mais rico do mundo, a reclamar mais dinheiro para poder competir com um adversário que ele quase não consegue ver. Às vezes, a maneira menos incômoda de conviver com um problema é atribui-lo a razões que julgamos conhecer, ainda que a solução pareça inalcançável. Mesmo assim, não deve ser fácil.

A distância do primeiro para o sexto colocado na Premier League é de vinte e um pontos. Do sexto para o décimo-sétimo, dezenove. Ao construir o melhor desempenho (dezenove vitórias, um empate) nas primeiras vinte rodadas em toda a história das cinco maiores ligas da Europa, o Manchester City é o time que mais fez gols (61) e o que menos sofreu (12) na Inglaterra. Novamente, quase todos conseguem detectar números, mesmo que não possam identificar o jogo que os produz. Disse-se, sobre o tipo de futebol pregado por Pep Guardiola, que ali não se poderia vencer sem concessões às virtudes de um campeonato superior. Algo na linha paródica de “será que Messi seria capaz de jogar em um campo enlameado, numa noite fria em Newcastle?”. As fantasias terão de ser reescritas junto com os registros de recordes.

Voltando ao tweet de Fjortoft, qualquer campeonato está arriscado a ser a ‘liga do Mickey Mouse’ diante de um time capaz de reduzi-la. A ignorância está em querer reduzir campeonatos por causa da existência de um ou dois grandes clubes. E não se trata de quem será campeão, ou quantas vezes, porque todas as ligas do mundo são vencidas por alguém em todos os anos. A questão é como se vence, com quais argumentos, e que sensações ficam ao longo do caminho. Nesta temporada, torcedores em Manchester estão descobrindo o que já se conhecia em Barcelona e em Munique: o inesquecível sabor de ter uma ‘liga do Mickey’ para chamar de sua.

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Amigos rivais

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Neymar foi entrevistado pelo site “The Players’ Tribune”, projeto editorial que dá voz a esportistas de diversas modalidades. O entrevistador foi Gerard Piqué, zagueiro do Barcelona, ex-companheiro do atacante brasileiro. A conversa teve a Copa do Mundo como assunto principal, desde as primeiras lembranças de Neymar relacionadas aos mundiais, passando pelo que houve em 2014 até a perspectiva para o torneio do ano que vem, na Rússia. Piqué considera a Seleção Brasileira a principal favorita ao título.

“Creio que vocês estão um degrau acima dos demais”, opinou o zagueiro da seleção espanhola. “Nós, Alemanha, Argentina, França, estamos todos em um nível bastante igual, e vocês estão um pouco acima. Vocês têm muita pólvora no ataque…”, acrescentou. Piqué mencionou Coutinho, Gabriel Jesus e o próprio Neymar para ilustrar suas ideias, além de Paulinho e o fato de o Brasil ser um bom time no aspecto defensivo. “Estão muito completos”, disse. Neymar concordou: “Sim, estamos bem estruturados, de verdade. Conseguimos encontrar nosso jogo”.

De todos os times citados, a comparação mais coerente em termos de estágio de construção de equipe é entre Brasil e Espanha. Enquanto a França de Didier Deschamps (2012) e especialmente a Alemanha de Joachim Low (2006) são trabalhos muito anteriores, e a Argentina passou ao comando de Jorge Sampaoli em junho, Tite e Julen Lopetegui têm trajetórias semelhantes na direção de suas seleções nacionais. Ambos foram nomeados na metade de 2016 e estrearam exatamente no mesmo dia: primeiro de setembro daquele ano. A Espanha venceu um amistoso contra a Bélgica; o Brasil derrotou o Equador, pelas Eliminatórias.

Guardadas as distâncias óbvias, as tarefas de cada um também são parecidas. Lopetegui substituiu Vicente del Bosque com o objetivo de restaurar o futebol que marcou a época mais gloriosa da seleção da Espanha, com dois títulos europeus e um mundial entre 2008 e 2012. Tite assumiu o lugar de Dunga para dotar o Brasil do jogo coletivo que sempre se pediu a uma geração que não se resume a Neymar. Até na classificação para a próxima Copa do Mundo há similaridades: a Seleção Brasileira concluiu as Eliminatórias com dez pontos de vantagem sobre o Uruguai; a Espanha dominou seu grupo com nove vitórias e um empate em dez jogos.

Ao final da entrevista, Piqué quis saber se Neymar toparia uma hipotética final entre Brasil e Espanha com empate em 3 x 3 e todos os gols brasileiros marcados por ele, mas com vitória espanhola nos pênaltis. “Não, não, não… quero ganhar!”, respondeu o brasileiro.

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Guilty

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Os vereditos foram anunciados quando já se imaginava que o dia terminaria no Tribunal Federal do Brooklyn, em Nova York, sem que o julgamento do “caso Fifa” tivesse um desfecho antes do Natal. Mas, ao que parece, os doze jurados não estavam dispostos a passar as festas pensando em mafiosos do futebol sul-americano. Pelo menos não em relação aos réus sobre os quais pesava o maior número de acusações feitas pelo governo dos Estados Unidos. Ontem, na conclusão dos trabalhos, ainda faltava a decisão sobre o peruano Manuel Burga, acusado de apenas um crime (conspiração para formação de organização criminosa). O júri voltará a se reunir na próxima terça-feira.

Para o paraguaio Juan Ángel Napout e o brasileiro José Maria Marin, o julgamento chegou ao fim com a certeza de que passarão os próximos anos encarcerados em uma prisão federal americana. As sentenças serão anunciadas apenas em 2018. Napout foi considerado culpado de três crimes (eram cinco acusações); Marin, de seis (sete). Ao se declarar inocentes e enfrentar o Departamento de Justiça dos EUA diante de um júri popular, ambos sofreram uma goleada muito mais penosa do que jamais experimentaram em suas carreiras como dirigentes de futebol, mesmo porque, como restou provado, o jogo sempre foi para eles apenas um mecanismo de enriquecimento pessoal. Na prisão, descobrirão que as fortunas que amealharam não lhes proporcionará conforto.

Marin e seus advogados levaram 6 x 1 dos promotores do caso: condenações por conspiração para formação de organização criminosa, fraude financeira (Copa América, Copa Libertadores e Copa do Brasil) e lavagem de dinheiro (Copa América e Copa Libertadores). Os jurados absolveram o ex-presidente da CBF do crime de lavagem de dinheiro relativo à Copa do Brasil. Embora a derrota no tribunal tenha sido humilhante, a defesa de Marin merece ser condecorada pelas consequências de sua estratégia: a caracterização do ex-político e ex-cartola como um fantoche de Marco Polo Del Nero não só colaborou para sua prisão, como também complicou a situação de seu sucessor, suspenso pela Fifa. Um desempenho histórico.

Del Nero e Ricardo Teixeira são acusados dos mesmos crimes que levaram Marin ao encarceiramento imediato (apesar dos argumentos da defesa, a juíza Pamela Chen ordenou o transporte dos condenados ao presídio). A diferença entre eles é que Marin foi preso em Zurique, em maio de 2015, enquanto o Marco Polo que não viaja e o Dr. Ricarrrrrrrrrdo não saíram do Brasil, país que não extradita seus cidadãos. A conclusão do julgamento em Nova York obriga a Fifa a banir Del Nero do futebol e deixa a Justiça brasileira em posição extremamente desagradável. A inédita condenação de um alto cartola do futebol brasileiro foi obra de investigadores, promotores, juízes e doze membros do público de outra nação.

Fosse o final de um desses filmes de tribunais, a imagem de Marin sendo retirado do recinto por dois policiais seria uma das poucas sequências lógicas de um enredo quase inverossímil. Del Nero, o cartola hoje impedido de entrar no prédio que tem o nome de um hóspede do sistema carcerário americano, elegeu-se na CBF prometendo “continuidade administrativa” após uma gestão criminosa. Protegido por uma legislação desprovida das normas anti-máfia que vigoram nos Estados Unidos, ele segue sendo tolerado pela estrutura do futebol brasileiro, formada, de maneira geral, por réplicas disseminadas nos clubes e federações. Não há perspectiva de mudança.

Marin pediu para voltar a seu apartamento na Trump Tower e ir à missa no dia de Natal. A juíza Chen concordou com os argumentos da promotoria de que havia risco de fuga. Pouco mais de dois anos e meio depois da operação do FBI no Baur au Lac, o fim da linha chegou, mas só para ele. Tudo segue rigorosamente igual no futebol no Brasil, exposto ao ridículo no dia em que a justiça venceu.

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Espera

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As informações que chegavam de Nova York, no início da noite desta quarta-feira, indicavam que os jurados do “Caso Fifa” ainda deliberavam a respeito do que viram e ouviram sobre os três únicos dirigentes envolvidos que se declararam inocentes. Não há previsão para o anúncio de um veredito e nem prazo máximo para que o paraguaio Juan Ángel Napout, o peruano Manuel Burga e o brasileiro José Maria Marin conheçam seus destinos. O júri tem solicitado documentos e transcrições de depoimentos, o que sugere que uma decisão não está próxima.

Burga, ex-presidente da federação peruana de futebol, é o único dos réus que foi acusado de apenas um crime. Napout, ex-presidente da federação paraguaia e também da Conmebol, teve de se defender de cinco acusações. Marin, de sete: conspiração para recebimento de dinheiro ilícito e conspiração para fraude e lavagem de dinheiro relacionadas à Copa do Brasil, Copa Libertadores e Copa América (duas acusações por torneio). Os jurados devem considerar cada acusação individualmente e chegar a conclusões unânimes. Nos casos de Napout e Burga, é possível que sejam absolvidos de certos crimes e condenados por outros.

Há um aspecto fundamental em relação às condenações: o governo americano não precisa provar que esses dirigentes receberam propina. Se os jurados se convencerem de que os acusados planejaram embolsar dinheiro ilícito, será suficiente para punir. A acusação é de “conspiração para…”, ou seja, o planejamento para cometer ilegalidades, o que em si é um crime nos Estados Unidos. Bancos americanos foram usados para transferências de valores, há gravações de reuniões realizadas em solo americano, assim como provas de que servidores de email e telefones celulares daquele país foram usados pelos acusados em suas comunicações.

Evidentemente também há os depoimentos das testemunhas da acusação, as pessoas responsáveis por distribuir o dinheiro. O argentino Alejandro Burzaco e o brasileiro José Hawilla concordaram em colaborar com a Justiça dos EUA, por intermédios de acordos de delação que perderiam a validade se mentissem no julgamento. Neste caso, além de não terem suas penas reduzidas, Burzaco e Hawilla responderiam por outros crimes. Marin segue em prisão domiciliar em seu apartamento em Nova York, de onde poderá sair para um presídio federal americano. Não é uma perspectiva agradável para “um homem rico, que não precisaria pedir propinas”, como sua defesa argumentou no tribunal.

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Coleta

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A diferença de investimento, tão gritante quanto a distância técnica entre o campeão da Europa e o campeão da América, é um argumento automático antes, durante e depois do momento em que se encontram. Antes, para justificar a postura de pequeno contra grande em campo. Durante, para encontrar satisfação em qualquer detalhe. Depois, para explicar o que se deu. A partida se converte em uma experiência na qual se pretende acreditar na fábula do futebol, em que sempre haverá uma chance para quem a perseguir com fé, embora tudo se resuma a como se joga este jogo.

No caso de Real Madrid e Grêmio, a fábula está na incompatibilidade entre o relatório de estatísticas e o trabalho dos dois times. A ficha sugere que não houve jogo: 20 x 1 em finalizações, 7 x 0 nas que foram no alvo. O que há para se estranhar é o fato desses números terem produzido apenas um gol, e em cobrança de falta que passou por uma fresta na barreira e decidiu o Mundial de Clubes da Fifa a favor do conjunto espanhol. Mas a bola em movimento sempre conta a verdade, e o que se viu foi uma disputa por controle. Do Real Madrid para com o Grêmio e do Grêmio para com a forma como seria visto quando tudo terminasse.

Seis anos atrás, o Barcelona ofereceu aos pretendentes sul-americanos o retrato do que deve ser evitado a qualquer custo. Uma “decisão” que não alcança meia hora, um choque de praticantes de modalidades diferentes exposto ao mundo como um espetáculo bizarro. Desde então, aquele jogo tem sido o parâmetro para uma calibragem sarcástica: olha-se para o encontro da vez com teses sobre a possibilidade de acontecer de novo. E por mais que os envolvidos lidem com aspectos totalmente distintos, essa percepção os acompanha durante todo o tempo. Um a zero, com um gol de bola parada, permite um sentimento de dignidade ao Grêmio e a qualquer time que estivesse nessa posição. Mesmo sem preencher a coluna das finalizações certas.

De fato, permite até a ousadia de pensar que se Lucas Barrios não tivesse se mexido, o zero a zero sobreviveria até os últimos minutos, quem sabe até o final da prorrogação, e o futebol puniria o Real Madrid com um desses gols em que a bola parece ter olhos para encontrar seu caminho. Não, não seria assim, mas a certeza do torcedor está sempre acima da discussão razoável, aquela em que se nota como Casemiro, Kroos e, especialmente, Modric, determinaram tudo. Neutralizar o Grêmio não exigiu uma atuação brilhante do bicampeão europeu, um time que ilustra perfeitamente o valor do talento.

Ao final, em um jogo com explicações preconcebidas, a indagação sobre a ausência de um plano para ganhar é respondida com o temor do que tal devaneio pode causar. E conduzir a noite até os limites do acaso passa a ser não só uma estratégia defensável, mas talvez a única maneira de sair desses encontros em pé, como Keylor Navas, que só encostou na grama para defender um cruzamento no segundo tempo. A cada ano, o Mundial de Clubes se afasta mais da disputa de um título. É um evento em que um dos times apenas aparece para coletar o troféu.

VOTO DE POBREZA

Enquanto o Manchester City segue exibindo um tipo de futebol jamais visto na Inglaterra e reduzindo adversários a rascunhos de equipes, o cômico argumento do “voto de pobreza” de Pep Guardiola ganha tração. Além de ser o único treinador do mundo de quem se exige a Liga dos Campeões todos os anos, pede-se que Guardiola dirija um clube de baixo orçamento para provar sua capacidade. É mais ou menos como querer que Lewis Hamilton seja campeão na Fórmula 1 guiando uma Sauber. Ou que Michael Phelps ganhe medalhas de ouro olímpicas nadando de calça de moletom e galochas. Em qualquer modalidade, os melhores trabalham com as melhores condições e em parâmetros semelhantes. A questão é o que, e como, cada um faz com o que tem.

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Invasões bárbaras

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Foi Márvio dos Anjos, editor de esportes do jornal O Globo, quem melhor descreveu a terrível viagem da Copa Sul-Americana no intervalo de um ano: “(…) saiu do espetáculo de humanidade de Medellín para com a Chape e chegou na canalhice pela vitória-a-qualquer-custo no Rio.”, escreveu o jornalista em seu perfil no Twitter. A mensagem, anterior aos horrores que se apoderaram do Maracanã antes e depois do empate entre Flamengo e Independiente, referia-se ao foguetório diante do hotel onde o time argentino se hospedou. “Não se aprende nada”, concluiu Márvio. Fato. Não se chega nem perto de aprender qualquer coisa.

O sujeito de baixa contagem neuronal – independentemente de origem, ocupação, nível educacional e time escolhido -, aquele que sabe utilizar as redes antissociais, mas tem enormes dificuldades para pensar, sempre cospe uma resposta cretina para tudo. No caso, tratou-se de um rastejante argumento de “reciprocidade” ao que se passa com clubes brasileiros quando jogam na Argentina e com seus torcedores nos estádios daquele país. Foge a esse tipo de “raciocínio” a noção de que nada é pior do que ser igual ao que deploramos. E que qualquer pessoa que deseje ser respeitada tem a obrigação de ser superior ao desrespeito. Certamente são conceitos complexos.

As invasões ao Maracanã em jogos do Flamengo são eventos recorrentes, e, como tais, não podem ser interpretadas como manifestações do destino. Há inúmeras circunstâncias em ação, a falência do Estado entre elas, mas – assim como no foguetório – a ideia de que o futebol é um território em que não existem normas está evidente. Não é tolerável que se pense que todos os tipos de comportamentos são permitidos em estádios, começando por quem diz a crianças que ali se pode ofender, mas não em outros lugares. Ademais, o Maracanã recebeu a final da última edição da Copa do Mundo, o que exclui a desculpa de que há defeitos estruturais que impedem operações para controle de acesso, obrigatórias em jogos como o da última quarta-feira.

O futebol exacerba a violência de uma sociedade doente, em que ganhar é mais importante do que tudo. O Flamengo não foi capaz de ser um time (porque a diretoria impediu a construção) durante todo o ano, mas tem de ganhar. Reinaldo Rueda está trabalhando há quatro meses, mas tem de ganhar. Os jogadores mais capazes fazem parte de um coletivo que não funciona, a linha defensiva joga muito próxima à própria área, os adiantados se distanciam demais… Mas o Flamengo tem de ganhar porque o alto investimento ilude quem não compreende como o jogo funciona, em um processo que garante a frustração, a eleição de culpados, as mudanças que atrasam projetos.

A obsessão pela vitória é tamanha que um goleiro permaneceu em campo após perder a consciência e houve quem aplaudisse, incapaz de perceber o risco. E não, que não se responsabilize o médico, porque a decisão não pode ficar nas mãos de alguém sob todas as pressões – mais ainda em uma final – para que o espetáculo prossiga, e rápido. É imperativo que se estabeleça a regra em vigor na Premier League inglesa, obrigando a substituição imediata de um jogador que perde os sentidos. É a única forma de proteger futebolistas de acordo com as atuais regras do jogo. César teve sorte, felizmente. Mas, como escreveu Márvio, não se aprende nada.

SUSPENSÃO

Marco Polo Del Nero é um fenômeno. Alcançou o feito de ser julgado em Nova York sem sair do Brasil e foi suspenso por noventa dias pela Fifa. Agora não pode nem entrar na sede da CBF, que tem o nome de seu antecessor, acusado de sete crimes pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos e aguardando a decisão dos jurados. Enquanto isso, o coronel Nunes lidera o futebol brasileiro, sob o silêncio dos clubes e o som do esfregar das mãos dos presidentes de federações. Os políticos do esporte no Brasil são insuperáveis.

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Flamengo 1 x 1 Independiente

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1 – Flamengo em controle nos primeiros quinze minutos, com Diego navegando entre o início dos movimentos e o centro do ataque. O Independiente não se incomodava com a pouca posse, mas tinha muitos problemas para manter a bola distante de sua área.

2 – Grande passe de Vizeu para Everton se desmarcar e finalizar. Após fazer a defesa, Campaña reclamou da posição do meia do Flamengo, que de fato era irregular.

3 – Na altura da metade do primeiro tempo, Meza passou a criar problemas pelo lado direito da defesa rubro-negro. Foram as duas primeiras investidas argentinas no jogo, quando as ações já estavam mais equilibradas.

4 – O Independiente começava a se sentir um pouco mais confortável no Maracanã, quando o Flamengo fez o gol. Cobrança de falta de Diego, desvio de Juan e depois de Réver, quase na linha de fundo. Paquetá foi o autor do último toque, para dar ao Flamengo metade do necessário para o título.

5 – Pênalti para o Independiente, aos trinta e seis minutos. Meza desequilibrado por Cuéllar, em lance confirmado pelo árbitro de vídeo. Barco empatou, e o Flamengo voltou a precisar de dois gols.

6 – Como é comum em bons times argentinos, o Independiente não se afastou de seu plano após sofrer o gol. O sistema de marcação com perseguição individual sobre Diego permaneceu atento, sem descontrole. Seria exagero afirmar que a igualdade no intervalo premiou a atuação do time argentino, que pouco construiu. Mas o 1 x 1 não teria sido possível se o gol de Paquetá tivesse provocado desordem, como já se viu tantas vezes em encontros desse tipo.

7 – Vinicius Junior no lugar de Trauco, aos dez minutos do segundo tempo. Rueda não tardou a ordenar ofensividade.

8 – Gol de Juan ao impedir o que seria um golaço de Gigliotti, em lance pessoal. Ganhou de Cuellar e tocou por cima de César. A bola ia entrando no canto esquerdo quando surgiu o pé direito do zagueiro. Salvador.

9 – À medida que o Flamengo se adiantava, deixava gramado para correr riscos. Natural. Barco, de apenas dezoito anos, jogava no Maracanã lotado como se fosse simples. E para complicar as coisas, o Flamengo era mais vigor e vontade do que organização no ataque.

10 – Momento assustador com César, desequilibrado no ar por Gigliotti. Na queda, o choque de cabeça no gramado o deixou brevemente desacordado. O fato de ter seguido em campo é um risco que o futebol não pode permitir.

11 – Everton Ribeiro (Cuéllar) aos trinta e três minutos, e Lincoln (Paquetá), aos trinta e nove. Em busca do gol que determinaria a prorrogação, o Flamengo seria só ataque.

12 – Última chance para Réver, com Campaña fora do gol em uma jogada confusa na área. O chute saiu muito alto.

13 – O Flamengo não soube trabalhar o segundo tempo com a calma e a inteligência que a ocasião exigia. Quem esteve mais próximo do gol da vitória foi o Independiente, justo campeão da Copa Sul-americana.

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