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O vício da culpa

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Quando a disputa de pênaltis que decidiria o título da Copa do Brasil estava para começar, na noite de quarta-feira, a primeira pessoa responsabilizada pelo fracasso da temporada do Flamengo provavelmente olhava para a tela da televisão com um interesse distanciado no desfecho das cobranças. Seria natural que Zé Ricardo torcesse pelos amigos que deixou no clube em que trabalhou por tanto tempo, assim como censurá-lo por estar mais preocupado com seus objetivos atuais é injusto. Fato é que outro profissional ocupava sua posição, a minutos de uma frustração que obviamente teria repercussões. A exemplo do Coronel Fábio, em “Tropa de Elite”, o problema não era mais do técnico que hoje dirige o Vasco.

O segundo culpado por um ano desperdiçado estava em campo, no círculo central, ao lado dos companheiros. Alguns já lidavam com o pacote psicológico-técnico da longa caminhada até a grande área para colocar a bola na marca e chutá-la na direção do gol, única situação no jogo de futebol para a qual não existe preparação possível. Márcio Araújo sabia que, exceto no caso da noite se tornar inacreditavelmente longa, tal responsabilidade não pesaria sobre seus ombros. Após assistir a todo o encontro entre os jogadores suplentes do Flamengo, o papel do volante criticado em doses muito além das aceitáveis permanecia o mesmo: apenas torcer.

Outros dois escolhidos para suportar o que deveria ser compartilhado por todos também estavam no gramado do Mineirão, envolvidos diretamente no balanço imprevisível desse tipo de decisão. Um deles seria o autor da terceira cobrança pelo Flamengo. O outro teria ao menos cinco chances para se fazer notar diante dos batedores cruzeirenses. Ambos entrariam pela madrugada processando, cada um a seu modo, os elementos que convertem jogadores que não vencem em párias, vítimas de um julgamento imaturo que projeta neles a satisfação da vaidade alheia. Fábio negou a Diego o único destino que se permite a futebolistas contratados para “fazer diferença”. Todos os pênaltis cobrados pelos mineiros encontraram a rede que Muralha tinha a obrigação de defender com a própria vida.

A noção de que um jogador de futebol deve ser incriminado por uma derrota é tão infantil quanto a tese de que existem vitórias individuais neste jogo. Falhar em compreender as complexidades coletivas que levam a resultados de partidas e competições é se contentar com um dos níveis mais miseráveis de ignorância. O futebol é um confronto de equipes, que, como tais, escrevem seus caminhos de acordo com os próprios comportamentos. A análise deve ser ainda mais sóbria quando se trata de disputas de pênaltis, quando caprichos como um palmo ou um escorregão determinam distâncias gigantescas. Mas essa é a era do desconhecimento, em que opiniões descompromissadas fingem tratar de um esporte que, de perto, é completamente diferente do que se imagina. A discussão precisa se aproximar do que acontece de fato, sob pena de se tornar irrelevante.

CHANCELA

A frase de Mano Menezes após a conquista do Cruzeiro ilustra os problemas de entendimento de futebol que devem ser superados: “A gente precisa coroar o trabalho com um título, se não as pessoas pensam que estamos velhos”. Título é validação de trabalho. Ausência de título não significa, necessariamente, ausência de trabalho.

DISTÂNCIA

Carlo Ancelotti foi o quarto técnico demitido pelo Bayern de Munique, durante a temporada, nos últimos vinte anos. Há quem consiga enxergar o tradicional resultadismo brasileiro na decisão do clube alemão, um equívoco estatístico mesmo sem considerar todos os aspectos de trabalho, ambiente e elenco em questão. De repente, o cinismo foi capaz de notar, em um clube que acredita em formação de grupo e tempo de amadurecimento de equipe, um tipo de administração semelhante ao que tem caracterizado o Atlético Mineiro.

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Azul de novo

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1 – Quando Raniel caiu no gramado castigado do Mineirão, o Cruzeiro teve de lidar com os problemas de mudar de planos por causa de uma surpresa desagradável. De Arrascaeta entrou em campo, mas, até entrar no jogo, o Flamengo deu as cartas. 

2 – A jogada do uruguaio pela esquerda, aos 14 minutos, foi o sinal de normalidade. Bom passe para Thiago Neves chegar batendo, prejudicado por um quique exagerado da bola. O chute teve força e direção, mas subiu demais. 

3 – A dinâmica da decisão era a esperada. Flamengo com a bola e o volume; Cruzeiro com o espaço e a velocidade. Pequena vantagem para os mineiros em ocasiões, em um jogo faltoso que pedia para ser libertado por um gol para qualquer lado. 

4 – Em dois escanteios, o Cruzeiro conseguiu o desvio na primeira trave e viu a bola atravessar a área, intocada. Faltou o complemento que costuma ser tão efetivo em lances dessa natureza. 

5 – Ao final do primeiro tempo, o Flamengo acumulava posse (quase 65%), enquanto o Cruzeiro acumulava lesões. Robinho foi substituído no intervalo por Rafinha. 

6 – A segunda parte trouxe um Cruzeiro mais agressivo, pois, afinal, o desejo de ser campeão pressupõe correr riscos. Um deles é a mínima liberdade concedida a jogadores talentosos que foram muito bem vigiados na metade inicial. 

7 – Quando há luta em excesso, normalmente o jogo sofre. É o caso de uma decisão em que as tentativas de imposição, de lado a lado, não foram bem sucedidas. 

8 – Já no território do “gol fatal”, Muralha quase leva a torcida rubro-negra a um mal súbito. O tapa na bola a oferece a De Arrascaeta, que só não marca porque reagir ao inesperado não é tarefa simples. 

9 – A defesa de Fábio na única chance de Guerrero no jogo foi a senha para os pênaltis, essa fantástica fábrica de heróis e vilões instantâneos. 

10 – Fábio parou Diego. Thiago Neves escorregou, mas a bola entrou e a Copa do Brasil é do Cruzeiro de novo. 

11 – Parabéns ao Cruzeiro e aos cruzeirenses. 

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Revisão

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A propósito do debate sobre a aplicação do árbitro de vídeo no futebol brasileiro, o lance que poderia gerar o segundo gol do São Paulo no domingo passado ilustra uma situação corriqueira, e que, portanto, merece atenção. Há uma confusão sobre o que o International Board (aliás, não existe “protocolo da Fifa”, pois a Fifa não faz as regras do jogo) determinou como ocasiões em que haverá revisão eletrônica das decisões tomadas em campo, agravada pela questão do “lance interpretativo”.

O sistema aprovado prevê que jogadas em que gols aconteceram devem ser analisadas pelo vídeo para que se apure que não houve irregularidades. O texto diz “… determinar se houve uma infração que signifique que o gol NÃO deva ser validado”. Na prática: o árbitro de campo dá o gol e o colega de vídeo verifica se a decisão foi correta. O episódio do clássico no Morumbi não se enquadra nessa situação, uma vez que Wagner Magalhães apitou falta de Pratto em Cássio. Não é lance passível de revisão, independentemente de ser ou não interpretativo.

Suponhamos que a conduta de Magalhães fosse a que universalmente se considerou a correta (pela imagem da televisão), ou seja, não apitar a falta. Com o VAR em ação, o gol seria validado e, como tal, revisado pelo árbitro de vídeo. A análise mostraria que o lance foi normal, confirmando o segundo gol do São Paulo. Ou notaria ação faltosa de Pratto sobre o goleiro do Corinthians, o que levaria à comunicação com o árbitro de campo para anular a jogada. Importante ressaltar que a revisão de gols por vídeo inclui, sim, decisões sobre lances de interpretação.

Críticos do sistema apontam a possibilidade de discordância entre árbitros como um convite ao caos, pois até entre analistas de arbitragem não houve consenso sobre o lance mencionado. No segundo cenário descrito acima (um deu o gol, o outro viu falta), a comunicação teria de ser suficiente para dirimir a questão, até, se necessário, com as imagens disponibilizadas ao árbitro de campo. É dele a decisão final, e é fundamental que seja a decisão certa.

A discussão tem sofrido um processo de infantilização que em nada contribui para o avanço do jogo. O VAR não pretende acabar com os lances interpretativos ou resolver todas as dúvidas que surgem em jogos de futebol. Trata-se de um mecanismo que multiplica as chances de acerto em ocasiões consideradas decisivas para o resultado, aproximando partidas de desfechos coerentes com o que os jogadores fizeram em campo. É difícil sustentar argumentos contrários a este cenário.

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São Paulo joga, Corinthians soma

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1 – Uma espécie de “manual do mandante”, com orientações sobre a melhor maneira de receber e enfrentar o Corinthians, foi oferecido pelo Santos há duas semanas. Consiste, basicamente, em levar o jogo a ser disputado no campo de defesa corintiano pelo maior tempo possível, em busca do gol que retira o líder do campeonato da posição em que prefere atuar.

2 – De modo que a postura inicial do São Paulo, em controle quase total das ações no Morumbi com ambiente inteiramente favorável, era uma certeza. Assim como a chegada daquele momento em que se nota o jogo passar a uma marcha abaixo, porque é necessário dosar energias. Por volta dos dez minutos, o São Paulo respirou um pouco. Na metade do primeiro tempo, já havia dois times em campo.

3 – E duas dinâmicas eram evidentes: o São Paulo tinha mais entusiasmo e agressividade; o Corinthians tinha uma noção mais definida do que pretendia fazer. Reflexos diretos da “idade” de cada equipe e das posições que ocupam na classificação do Campeonato Brasileiro.

4 – Na queda de desempenho do líder desde o início do returno, um dos defeitos mais notáveis é uma certa permissividade defensiva. Já não é mais necessário um esforço tão grande para criar ocasiões. O gol são-paulino, aos vinte e sete minutos, desenhou essa situação. A bola chegou fácil a Petros na lateral da área, criando a dúvida entre cruzamento e finalização que congelou Cássio.

5 – Mais do que a coerência com a diferença de iniciativa entre os dois times, o gol estabeleceu o início de um enfrentamento diferente. O São Paulo poderia alternar entre pressão e recuo, obrigando o oponente a sair de sua característica na procura do empate. Uma situação inédita para o time de Carille, que não tinha sofrido gol no primeiro tempo em doze atuações como visitante no campeonato.

6 – Para contexto: no melhor momento do Corinthians no Brasileirão, um dos temas de análise era a longa sequência de jogos em que o time não permitiu ao adversário fazer o primeiro gol. No início do segundo tempo no Morumbi, o São Paulo estava muito bem posicionado – em jogo e em resultado – para conseguir uma vitória valiosa.

7 – A vantagem permitiu ao time de Dorival Júnior se dedicar a minimizar riscos, sem deixar de jogar. No lance em que o segundo gol saiu, a falta que parece clara, ao vivo, não é clara no replay (que o árbitro ainda não tem). Ficaram evidentes, uma vez mais, as dificuldades de construção do líder diante de defesas posicionadas, cenário agravado pelo acúmulo de decisões erradas – outro problema recente – de determinados jogadores.

8 – Um deles é Rodriguinho, errático contra o Vasco, expulso contra o Racing, e criador do gol de empate em uma ocasião que reuniu astúcia, dedicação e técnica. O lance próximo à linha de fundo era amplamente favorável a Júnior Tavares, que preferiu esperar a bola sair a jogar. Rodriguinho não apenas conseguiu evitar a saída, como, com um drible seco, abriu espaço para cruzar. Sidão defendeu o chute de Romero, mas não o de Clayson.

9 – O 1 x 1 inverteu as características do encontro, obrigando o São Paulo a se expor para tentar evitar a sensação de derrota que se aproximava. O Corinthians só ameaçou em um contragolpe, enquanto Cássio se esticou para negar um gol de cabeça a Jucilei. Haverá discussão sobre a atuação do goleiro corintiano na abertura do placar, mas não na manutenção de um empate que ficou mais agradável para o líder.

PERIGOSO

Não deveria haver lugar no futebol para atitudes como a de Gabriel, com gestos obscenos em provocação à torcida do São Paulo durante a comemoração do gol corintiano. Mesmo se fosse o autor do gol, em um momento de explosão, a conduta não pode ser tolerada. Gabriel estava no banco de reservas e agiu como um torcedor irresponsável, o contrário do que se espera de jogadores profissionais que têm a obrigação de saber quais podem ser as consequências desse tipo de comportamento. O posterior pedido de desculpas fica registrado, mas é pouco diante do papel que futebolistas devem exercer em uma sociedade violenta.

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Sqn

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Em um evento sobre gestão esportiva, na última quarta-feira, em São Paulo, o secretário-geral da CBF teve a ousadia de defender Marco Polo Del Nero durante um debate cujos temas eram a integridade e a transparência nas práticas de entidades ligadas ao esporte. Quem esteve no “Seminário Nacional do Esporte” pode ter ficado com a impressão de que o presidente da CBF é uma espécie de mártir das cartolas do futebol brasileiro, uma vítima de perseguição internacional que deve ser aplaudida por conduzir a confederação com o mais alto nível de responsabilidade. Não era a intenção dos organizadores, claro, mas a participação de Walter Feldman ofereceu uma experiência de realidade virtual, com uma releitura do que se sabe a respeito de Del Nero.

É difícil selecionar as pérolas mais valiosas proferidas por Feldman no encontro realizado pelo Lide Esporte e Atletas pelo Brasil (as aspas mencionadas pela coluna estão na reportagem de Bruno Grossi, do portal Uol). Talvez mereça maior destaque a tentativa de minimizar o processo que Del Nero enfrenta na Justiça dos Estados Unidos: “Sim, [o presidente da CBF] sofre um processo de investigação de uma agência chamada FBI”, admitiu. Atenção ao uso de “uma agência…”. É inacreditável que o secretário pretenda qualificar a polícia federal americana como um organismo que não justifica maiores preocupações, como uma associação de bairro. É por consequência do trabalho do FBI que ex-dirigentes de futebol lidam com restrições de liberdade desde a operação no Baur au Lac, no final de maio de 2015.

Colegas estão em situação mais penosa, é fato, mas o próprio Del Nero teve de ajustar sua rotina às repercussões do chamado “escândalo Fifa”. Embora seu passaporte não tenha sido confiscado, o efeito prático é o mesmo. O presidente da CBF não embarca em um avião com destino internacional porque sabe quais serão as implicações. Uma vez mais, nota-se o esforço de Feldman: “Por isso ele não viaja, por pura orientação dos advogados, para evitar constrangimentos”. Que sensacional peça de ficção. Para “evitar constrangimentos”, é possível que as irmãs Kardashian deixem de ir a um local público, por exemplo. Del Nero não vai ao exterior porque será preso. Não se trata de uma opção, ou zelo exagerado, mas de uma situação imposta pela investigação de corrupção no futebol feita pelo Departamento de Justiça dos EUA.

O que impede que Del Nero saia do país para uma simples viagem turística e represente os interesses do futebol brasileiro em jogos da Seleção ou reuniões da Conmebol e da Fifa, como exige o cargo que ocupa (importante lembrar que Carlos Arthur Nuzman, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro que possui passaporte russo, também está impossibilitado de passar por nossas fronteiras). Feldman sugere que seu chefe não tem conhecimento das acusações que pesam contra ele e não pode contra-argumentar: “Não temos maiores informações e, logo, possibilidade de defesa. (…) É apenas uma dificuldade de formular uma defesa por sua inocência sem saber do que ele é julgado”. Não, não é apenas isso. A dificuldade é tratar do assunto com franqueza.

Eis um trecho de um documento que se tornou público há dois meses: “O governo vai provar que, assim como Marin, outros dirigentes de futebol – incluindo Teixeira e Del Nero – receberam propinas relacionadas à compra e à venda de direitos de transmissão e de marketing da Copa do Brasil”. Como revelou o repórter Martín Fernandez, do Globoesporte.com, à época, a peça dos promotores americanos tem quarenta páginas e informa que provas serão apresentadas durante o julgamento de José Maria Marin, no início de novembro, em Nova York. As informações podem servir como ponto de partida para a defesa de Del Nero, a não ser que, resultantes da investigação de “uma agência chamada FBI”, não mereçam consideração.

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Gato

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O sistema de árbitro de vídeo foi autorizado pelo International Board, organismo que cuida das regras do jogo de futebol, em junho de 2016. Anunciou-se um planejamento de testes do equipamento em diversos países, com vistas à aplicação na Copa do Mundo de 2018. Desde agosto do ano passado, portanto, profissionais conduziram experiências com o VAR nos Estados Unidos, na Austrália, na França, na Alemanha, na Itália e em Portugal. A própria Fifa usou o sistema nas últimas edições do Mundial de Clubes e da Copa das Confederações.

Nenhuma das ligas europeias em que o VAR está em funcionamento nesta temporada tomou a decisão de introduzi-lo de repente, com o campeonato em andamento e sem um período intensivo de treinamentos. Em Portugal, como informou Sálvio Spinola, comentarista de arbitragem da ESPN, foram duzentas horas de prática com árbitros, testes em mais de cinquenta partidas e reuniões técnicas com todos os clubes para que a ideia fosse explicada e compreendida. E mesmo assim o sistema ainda gera discussões e exige aprimoramentos.

Também não se cogitou, como aconteceu no Brasil desde o último domingo, utilizar o árbitro de vídeo em apenas alguns estádios em uma determinada rodada do campeonato. Na Itália, um dos primeiros países a adotar também a tecnologia na linha do gol, foi necessário fazer ajustes na programação de jogos para que todos os estádios providenciassem uma sala para os árbitros de vídeo e o correto posicionamento para as câmeras. O Cagliari atuou como visitante nas duas primeiras datas justamente para adaptar a Sardegna Arena, local onde manda seus jogos nesta temporada.

De acordo com o comunicado emitido ontem pela TV Globo, os experimentos com o árbitro de vídeo no futebol brasileiro se resumiram a testes off-line – sem interferência no jogo – nas finais do Campeonato Carioca de 2016 e apenas uma aplicação para valer, na final do Campeonato Pernambucano deste ano, que serviu para aumentar a polêmica em torno do resultado final. Mas a CBF tentou acelerar o plano de adotar o sistema apenas em 2018, como se fosse algo semelhante a instalar câmeras de segurança na entrada da sede da entidade, para que Marco Polo Del Nero possa notar a aproximação de carros pretos.

O que tinha todos os contornos de uma ideia estapafúrdia não era nada mais do que isso. E a ironia é que a CBF tem sorte por não poder mandar uma versão beta do VAR a alguns campos neste fim de semana, evitando o risco de constrangimentos e até resultados perigosos para Campeonato Brasileiro. É preciso trabalhar mais e melhor.

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A vida anda rápido

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1 – Um gol perdido foi também um sinal postivo. Na jogada que Romero iniciou após um erro de Madson, apareceu a associação dos dois meias, tão importantes para o bom funcionamento da maneira de jogar do Corinthians: Jadson para Rodriguinho, na área. O chute passou perto da trave e enganou muita gente ao tocar a rede por fora.

2 – O Corinthians tinha controle e boa circulação, embora sem o capricho para superar o bloqueio vascaíno diante de sua área. Também se defendia com solidez, permitindo ao Vasco apenas dois chutes de fora da área na primeira meia hora, ambos defendidos por Cássio com certa dificuldade.

3 – Na medida em que o time carioca passou a jogar um pouco mais adiantado, os espaços se tornaram generosos. Mas o plano de fazer a bola chegar por dentro a Jô não teve efeito. É uma jogada vital para o Corinthians, seja com o atacante como destino final ou viabilizador da aparição de companheiros. Tem sido silenciada por marcação competente, ainda que, neste domingo, Jô possa reclamar de um pênalti ignorado.

4 – Rodriguinho teve outra ocasião, de cabeça, dentro da pequena área. O álibi da surpresa – Jô não conseguiu alcançar a bola, que se ofereceu de repente – é válido, mas tocá-la por cima do travessão pareceu o mais difícil. O primeiro tempo começou e terminou com um gol que ele quase marcou.

5 – E o segundo tempo se abriu no mesmo tom: Jô cruzou do lado esquerdo e Rodriguinho concluiu à curtíssima distância de Martín Silva. A defesa no reflexo, com a mão direita, salvou o Vasco.

6 – O atual momento do líder do campeonato é marcado por claros defeitos de execução. O bonito lance de Rodriguinho com Fágner, tabelando pelo lado direito, propiciou um caso exemplar. Jadson aguardava a bola na marca do pênalti para finalizar a jogada treinada e tantas vezes bem sucedida, mas o chute saiu torto.

7 – Com Arana e Jadson, combinação parecida do lado esquerdo. Passe para trás, para a chegada de Maycon. Outro chute com a direção errada, outro gol que ficou no quase.

8 – Há passagens em que um time de futebol dá a impressão de que encontrará um jeito de vencer jogos, mesmo que esteja em um mau dia. Há outras em que, por mais que produza e tente, sugere que não terá sucesso.

9 – O lance do gol é uma ilustração das dificuldades momentâneas do Corinthians. Excelente avanço de Marquinhos Gabriel pelo lado esquerdo, cruzamento desviado que provavelmente tocaria na trave e entraria. Mas Jô, com o braço direito, criou um tento irregular cuja validação é uma lástima.

10 – Cabe um comentário sobre a inutilidade do árbitro que se posiciona ao lado da trave e não vê o toque de mão, ok. Mas, quantas vezes forem necessárias: em um jogo com árbitro de vídeo, um gol como esse jamais veria a luz do dia. Não há justificativas.

11 – Jô era o jogador envolvido no episódio de fair play de Rodrigo Caio, no Campeonato Paulista. A vida anda rápido.

12 – O Corinthians jogou mais do que o Vasco e teve diversas oportunidades para marcar. Terminou por vencer o encontro com um gol ilegal, o tipo de ocorrência que não tem mais lugar no futebol. Enquanto o resultado – somado aos demais, aumentando a vantagem na liderança do campeonato – será visto como prova de recuperação, a atuação voltou a exibir alguns problemas das rodadas recentes.

DIFERENTE

Paulinho se projetou pelo meio da defesa do Getafe, acelerou para pedir a bola a Lionel Messi, recebeu, dominou, travou um adversário no corpo e marcou o gol da vitória do Barcelona, o primeiro dele pelo clube. Um gol muito celebrado em campo, e que pode indicar de que forma o brasileiro será utilizado em um time que pretende voltar a jogar com posse. De todos os nove meiocampistas do elenco, Paulinho é o jogador cujas características mais se distanciam da ideia que o Barcelona tradicionalmente representa. Talvez por isso seja aquele que pode contribuir com um comportamento diferente, inesperado. O começo foi interessante.

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Renovado

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O anúncio da renovação do contrato de Fábio Carille no Corinthians foi um movimento acertado. Relacionar a retomada das conversas entre as partes à recuperação do time no Campeonato Brasileiro, como se cogitou, seria arriscado e, com o perdão da franqueza, pouco inteligente. Ficaria evidente a sugestão de que, se o líder do campeonato não tivesse perdido nove pontos dos últimos doze que disputou, a permanência do técnico já teria sido anunciada. E transferiria a resolução da questão para um momento hipotético: o que seria essa “recuperação”? Vencer os próximos dois jogos? Reestabelecer dez pontos de vantagem para o segundo colocado? E se nada disso acontecer?

Uma coisa é agendar as reuniões sobre a renovação para o fim da temporada, quando os contornos do ano seguinte estão definidos e se pode partir de uma visão concreta. Permite-se que o técnico concentre suas energias no trabalho de preparar e dirigir o time, sem nenhum tipo de distração (embora agentes sirvam exatamente para esse fim: negociar enquanto os representados trabalham). “Congelar” as conversas que se iniciaram com interesse mútuo é algo inteiramente diferente, uma decisão que transmitiria a impressão de dúvida e desperdiçaria a oportunidade de tornar pública a confiança do clube em Carille, justamente no trecho do campeonato em que as coisas não vão bem.

A única explicação aceitável para a suspensão do diálogo – previsto para ser concluído durante o período em que o campeonato ficou paralisado por causa das Eliminatórias – seria uma decisão do próprio treinador, o que revelaria falta de habilidade por parte da diretoria do clube ao permitir um entrave. Pois à exceção de exigências tresloucadas de Carille para prosseguir em sua posição, não haveria justificativa para que o Corinthians falhasse ao alcançar as pretensões profissionais do técnico que conduz o time em uma campanha que, mesmo com a queda recente, merece todos os elogios. Alguns bons resultados não deveriam ser necessários para acertar a sequência do relacionamento.

Ao dar a Carille um novo contrato de duas temporadas, com opção de mais uma, o Corinthians oferece uma demonstração de convicção no trabalho de um técnico que está no clube há muitos anos e já provou que merece a oportunidade que recebeu, ainda que não fosse a escolha inicial para 2017. Mais: reforça que crê na conquista do título brasileiro, embora esse objetivo não seja uma condição para a permanência do treinador. Aliás, a renovação do vínculo faz total sentido mesmo que o Corinthians não seja campeão. A possibilidade da conquista, que não se vislumbrava em janeiro, só é um assunto hoje por causa do desempenho do time sob o comando de Carille.

E até no que diz respeito ao relacionamento entre técnico e jogadores, aparentemente positivo em todos os aspectos, o anúncio feito ontem age para preservar o bom ambiente. Está claro para todos quem dará as ordens no futuro próximo. O Corinthians responde com estabilidade ao primeiro momento instável que experimenta em 2017, e se redime do equívoco que cometeu no começo do ano, quando recorreu, reticente, a Fábio Carille, após ficar sem opções. Carille sempre esteve ali, e ali seguirá, agora com o suporte devido. Ele representa a continuidade das ideias que propiciaram ao clube o que se pode considerar um período sustentável de vitórias.

SELEÇÃO

Não resta dúvida de que o santista Vanderlei merece uma convocação para a Seleção Brasileira. Mas o fato de um dos goleiros suplentes, provavelmente o terceiro, ser o grande ponto de discordância na lista apresentada por Tite revela o suficiente sobre as escolhas feitas. E é curioso que esse tema se sobreponha ao aparecimento de Arthur, jogador de controle, visão e inteligência, da classe que o futebol brasileiro sente falta. Quem o conhece bem afirma que veio para ficar. Tomara.

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Troféu

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A conversa entre “torcedores organizados” e representantes do time, da comissão técnica e da diretoria do São Paulo tem apenas duas consequências: um certificado para a vaidade daqueles que se consideram mais são-paulinos do que os outros, e um aviso bem claro para o time. Ao patrocinar o encontro, as pessoas que comandam o clube se eximiram de suas obrigações e dividiram a responsabilidade – ou assim pensam – sobre o que acontecerá com o São Paulo até o final do Campeonato Brasileiro.

É irônico, e ilustrativo a respeito das decisões tomadas ao longo do ano, que a reunião tenha acontecido um dia depois de um pedido dos jogadores por mais privacidade. A resposta foi uma palestra de torcedores dentro do centro de treinamentos do clube, ocasião sobre a qual o único aspecto positivo que pode se observar é o fato de ter transcorrido sem desrespeito ou violência. Não é algo anormal em um ambiente de futebol mal administrado como o brasileiro, e, claro, nem uma particularidade do São Paulo. É uma confissão de incompetência e fraqueza frequente em nossos clubes quando as coisas não vão bem.

O argumento de que torcedores, profissionais ou comuns, têm o “direito” de se reunir com membros do clube que dizem apoiar é pueril. Trata-se de uma moeda cujo outro lado seria o “dever” do clube de permitir tais encontros. Obviamente não é assim, de modo que as reuniões dessa natureza funcionam como atestados da influência externa no dia a dia de clubes de futebol. Ao final, é apenas um troféu, uma conquista da qual esses torcedores podem se orgulhar em suas redes sociais, enquanto reafirmam a condição, neste caso, de “são-paulinos vips”. No evento de ontem, houve até um “acordo” para que nada do que foi discutido chegasse ao conhecimento “da imprensa”.

O time deve se considerar avisado. Haverá apoio e “paz” até que o rebaixamento seja evitado, mas quem sabe o que pode acontecer se o São Paulo cair? O compromisso de um suporte pacífico com prazo determinado traz uma óbvia ameaça embutida, o que eleva a pressão sobre os jogadores, ao invés do efeito contrário. É exatamente o oposto do que uma equipe aterrorizada – no aspecto futebolístico – necessita nos jogos que determinarão o desfecho da temporada. Ademais, não é preciso que se faça uma reunião para que os jogadores sejam comunicados do que os aguarda se o ano terminar mal.

Num futebol em que jogadores são “milionários mimados” que não se importam com o sofrimento da arquibancada, quem não vence deve ser disciplinado. É só uma versão disfarçada do “por amor ou por terror”.

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Do contra

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1 – A resposta do Santos ao problema que o Corinthians apresenta como visitante ficou clara logo no início: reduzir espaços ao máximo e ser cuidadoso com a posse. O nível de eficiência exigido torna essa ideia insustentável por longo tempo, mas a possibilidade de um gol precoce a justifica.

2 – O que só não aconteceu aos sete minutos porque Cássio, quase com todo o corpo dentro do gol, conseguiu tocar na bola desviada por Ricardo Oliveira após o escanteio, alterando o desfecho de uma jogada que normalmente balança a rede.

3 – A iniciativa santista na Vila não apenas era esperada, como fazia parte da dinâmica que o Corinthians utiliza para surpreender. E ainda que não tenha sido competente como queria na criação, o Santos protegeu bem a bola. Em todo o primeiro tempo, só permitiu um contragolpe, quando Alison foi desarmado no campo de ataque.

4 – A articulação rápida do Santos também só foi vista uma vez: ótima combinação entre Zeca e Bruno Henrique, já aos quarenta e três minutos. A Cássio se poderia atribuir um milagre na defesa do chute de Ricardo Oliveira, mesmo que o atacante santista lamente a direção. Reflexo instantâneo do goleiro.

5 – O Corinthians ainda não sofreu gol no primeiro tempo, fora de casa, no campeonato. Neste domingo, a sequência se manteve unicamente por obra de Cássio.

6 – Santos em controle, entre outros motivos, porque o Corinthians não foi capaz de envolver Jô, seu jogador mais importante, em nenhum momento. Nem como finalizador e nem como preparador de jogadas para companheiros.

7 – Aparição decisiva de Vanderlei quando uma associação ofensiva do Corinthians deu certo sem querer. O chute de Romero poderia ser melhor colocado, mas teve força. O goleiro santista estava pronto.

8 – O Santos marcou em um momento de inversão do jogo: contra-ataque permitido por uma bola recuperada na defesa. Bruno Henrique, imparável, atravessou o campo pela lateral e tentou o passe para o centro da área. O desvio de Pablo ofereceu a bola para Lucas Lima finalizar: 1 x 0.

9 – Posição desconfortável para o líder, obrigado a construir diante de um adversário com letal capacidade de responder em velocidade. A permanência do placar tornaria o jogo cada vez mais ao feitio do Santos.

10 – No trecho final, a urgência do Corinthians para buscar o empate fez com que o time abandonasse sua tradicional compostura defensiva. Era tudo o que o Santos precisava para garantir a vitória. Não por acaso, o lance de mais um gol nasceu em um erro corintiano no ataque. Apenas dois passes entre Lucas Lima, Bruno Henrique e Ricardo Oliveira.

11 – Resultado merecido para o Santos, primeiro mandante a vencer o Corinthians neste campeonato, praticamente sem correr riscos em toda a tarde. Impiedoso ao penalizar o erro do oponente em uma jogada casual, tranquilo para aguardar a oportunidade decisiva após estar em vantagem. Excelentes atuações dos jogadores mais ofensivos, criadores do segundo gol.

12 – Para o Corinthians, o preço de uma derrota natural fica maior por causa das duas anteriores. Resta ao time de Carille se reagrupar e voltar a fazer bem o que o colocou nesta posição. Por circunstâncias, mesmo uma significativa queda de pontuação não foi suficiente para colocar a liderança sob risco imediato. Mas essa poupança, é claro, não durará eternamente.

IRRELEVANTE

Não deveria haver debate sobre a expulsão de Sadio Mané, na goleada de 5 x 0 do Manchester City sobre o Liverpool, sábado. A regra do jogo de futebol determina cartão vermelho para jogadores que, com os pés altos, colocam um oponente em risco. As marcas da chuteira de Mané estão visíveis no rosto do goleiro brasileiro Ederson, ainda que a ideia do ótimo atacante senegalês – que se desculpou com classe pelo acidente – fosse tocar na bola. Para a regra, a intenção é irrelevante, assim como opiniões que levem em conta o impacto da expulsão em um jogo equilibrado.

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