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“O PF dos caras”

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Alejandro Burzaco, ex-executivo da empresa Torneos y Competencias, declarou na Corte Federal do Brooklyn (Nova York) que distribuiu cerca de cento e sessenta milhões de dólares em propinas a dirigentes de futebol. José Hawilla, ex-proprietário da Traffic, concordou em devolver cento e cinquenta e um milhões de dólares ao governo americano, em troca de uma pena mais branda por seus crimes. Eles eram os verdadeiros donos do futebol sul-americano, as pessoas que pagavam subornos aos cartolas que decidiam com quem negociar direitos de transmissão e exploração de competições.

Apenas entre Burzaco e Hawilla (vamos assumir o valor que deve ser ressarcido, ainda não devolvido integralmente, como um parâmetro do que virou propina), o montante destinado aos usurpadores do jogo no continente supera os trezentos milhões de dólares. É quase um bilhão de reais. Os direitos eram adquiridos por valores muito inferiores ao que se verificariam se houvesse licitações, o que permitia que os operadores pagassem subornos milionários e lucrassem em níveis estratosféricos com marketing e televisão.

No julgamento, Hawilla disse que pagava propina a Ricardo Teixeira para garantir que a Seleção Brasileira disputasse a Copa América com “os melhores” jogadores. Embora seja surreal que alguém deva ser subornado para que uma seleção vá a um torneio com sua versão mais forte, houve quem se escandalizasse com o que seria interferência no trabalho de técnicos, ignorando que a questão principal é o fato de um dirigente enriquecer dessa forma. Certos jogadores da Seleção eram explorados pessoalmente pelo Dr. Ricarrrrrdo. A partir de agora, ao menos o “argumento” de que a CBF é uma empresa privada ficará um pouco mais constrangedor.

De acordo com os depoimentos de Burzaco e Hawilla, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero também foram subornados em contratos relativos à Copa América e à Copa do Brasil. As transcrições de conversas telefônicas revelaram como o dinheiro – “o PF dos caras”, nas palavras de Hawilla; e “essa merda toda”, nas de Marin – era repartido. No caso da Copa do Brasil, é dinheiro que não chegou aos clubes que vivem atrasando salários e reclamando da crise econômica, mas foram/são responsáveis pela dinastia de Teixeira, pela aparição de Marin e pela manutenção de Del Nero.

O atual presidente da CBF não está sendo julgado em Nova York, embora a defesa de Marin tenha se esforçado para incriminá-lo ao apresentar seu cliente como um idoso confuso, incapaz de pedir propinas. Um tolo bem remunerado. Talvez os jurados acreditem.

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Graduação

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O Milan recorreu a Gennaro Gattuso para corrigir uma temporada frustrante e o apelo à autoridade do sanguíneo ex-jogador é quase automático. Em seus dias como volante, Gattuso patrulhava o meio de campo com a diligência de uma sentinela insone e a alergia às derrotas que caracteriza tantos esportistas. É fácil imaginá-lo, como técnico, comandando equipes tal qual um general motivador, a quem não é aconselhável questionar e, muito menos, desobedecer. Pode até ser que ele se utilize da imagem que construiu, mas ela não bastará para sustentar uma carreira que não aceita mais o “faça o que eu estou mandando”.

Em uma entrevista de apresentação que ilustra a realidade do trabalho de treinadores, o assunto surgiu e Gattuso o encerrou de forma, digamos, acadêmica: “É redutivo usarem sempre esse discurso de raça e vontade”, ele disse. ‘Eu passei em Coverciano, eles não me deram a permissão de presente, eu estudei. Viajei para estudar e preciso estudar mais”, completou. Coverciano é a escola de formação de técnicos na Itália, que fica no centro de treinamentos da federação do país e licencia treinadores com as graduações da Uefa. Após um ano de curso, os alunos escrevem uma tese que devem defender diante de técnicos italianos consagrados.

Gattuso tem a mesma certificação de Antonio Conte, Massimiliano Allegri e Carlo Ancelotti, que foram precedidos por Lippi, Capello, Trapattoni, Sacchi e tantos outros, em um curso que se preocupa em acompanhar a evolução do jogo de futebol e preparar técnicos para a atualidade. “Este é um trabalho que a cada ano tem novidades (…). A gente vê muitas mudanças”, declarou Gattuso. “Os jogos precisam ser preparados, não apenas com coração, raça e vontade”, advertiu. A defesa do conteúdo por um retrato da raça não deveria causar surpresa. Seria espantoso, sim, se um técnico em início de carreira quisesse convencer as pessoas do contrário.

Em última análise, os conceitos e os métodos de Gattuso serão julgados pelos jogadores dirigidos por ele. O futebol também exige que se saiba transmiti-los no campo de treinamentos, local onde equipes são preparadas. Em clubes de diferentes países, em níveis distintos de operação e competição, técnicos se encontram na mesma posição do ex-meiocampista marcador e líder vocal que o Milan trouxe de volta para comandar o vestiário: em um jogo que se tornou muito inteligente e mutante, não é mais possível sobreviver sem ideias atualizadas e uma noção clara de como aplicá-las.

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Dilema

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Entre Abel Braga e Roger Machado, a questão principal não é qual dos dois treinadores é o melhor para o Palmeiras (talvez Roger já tenha sido contratado enquanto você lê essas linhas). O que é mais intrigante é como um clube – e especialmente um clube que demonstrou tantos desvios de convicção durante a temporada que está terminando – considera dois treinadores de perfis tão distintos. Esclarecer esse dilema é mais importante do que escolher um ou outro.

Em qualquer clube organizado, a montagem do elenco precisa ser compatível com o técnico que o comandará, ou vice-versa. O Palmeiras foi reprovado nesse exercício quando dispensou Eduardo Baptista e chamou Cuca para dirigir um grupo que tinha diferenças com o jogo que ele enxergava. A medida passou pela impressão de que Baptista não tinha currículo para se afirmar no dia a dia com os jogadores, mas foi Cuca – que tem – quem se envolveu em problemas de relacionamento. A responsabilidade é de quem toma as decisões.

Um cenário semelhante se apresenta para 2018, e a direção palmeirense se mostra propensa aos mesmos equívocos. O elenco é considerado “difícil”, o que exigiria a contratação de um técnico experiente, capaz de administrar jogadores voláteis. Assumindo que essa é uma leitura correta (não é), a opção por Roger não faria sentido. O argumento da falta de estatura seria lançado na primeira sequência de resultados ruins, levando à necessidade de uma “correção de rota”, como se viu no episódio da demissão de Eduardo. Tudo embalado pela ladainha de que “futebol é resultado” e/ou “infelizmente é a nossa cultura”.

A supervisão de um grupo de jogadores não é tarefa exclusiva do técnico. A autoridade que essa posição demanda emana de diversos aspectos profissionais e pessoais, mas também do nível de suporte interno que o treinador recebe daqueles que estão acima dele. A noção de que o técnico deve comandar sozinho, sob pena de perder o lugar se as coisas não andarem bem é muito confortável para quem participa da tomada de decisões. Permite que se erre à vontade, porque o preço sempre será pago com a cabeça alheia e o discurso atrasado que apenas simula eficiência (mas ilude os fanáticos).

O Palmeiras precisa definir quais são as características do jogo com o qual pretende alcançar os objetivos de 2018, uma vez que o elenco não foi montado por um treinador específico, o que seria o ideal. Depois, estabelecer qual é o perfil de técnico mais apropriado para essa ideia de futebol, e aí tratar de nomes. Mas, acima de tudo, precisa fazer o oposto do que fez neste ano: sustentar as próprias escolhas.

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Campeão de novo

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1 – Eram dois adversários para o Corinthians na noite do xeque-mate no Campeonato Brasileiro: o Fluminense e os pensamentos que se colocam entre uma equipe e aquilo que ela precisa fazer. O título vem sendo comemorado desde sábado passado, o que só aumentou a ansiedade por confirmá-lo.

2 – No primeiro ataque, outro adversário surgiu: a bola aérea. Após duas rodadas de descanso, o líder voltou a exibir um de seus principais defeitos no returno, permitindo a Henrique cabecear sozinho diante de Caíque e preocupar Itaquera antes que todos no estádio estivessem atentos ao jogo.

3 – A questão trazida pelo gol do Fluminense era psicológica. A desvantagem geraria mais precipitação ou faria com que o time de Carille se concentrasse na tarefa necessária? Era também uma questão estatística: o Corinthians não venceu nenhum jogo no campeonato em que sofreu o primeiro gol.

4 – O encontro se assentou na dinâmica que mais incomoda ao Corinthians; ter de construir seu caminho por entre uma defesa fechada, com o relógio como inimigo. O Fluminense farejava as ocasiões inevitáveis em que teria campo para correr, liderado por uma atuação elogiável de Henrique Dourado, saindo da área para se associar e conservar a bola.

5 – Em jogo construído, muito pouco. Apenas uma trama de Romero com Fágner, cujo chute rasteiro cruzou a pequena área sem ser tocado por Jô. Antes, Arana defendeu com o rosto um cabeceio de Scarpa, na principal chegada do Fluminense.

6 – No primeiro minuto do segundo tempo, o gol precoce mudou de lado. Rara jogada que chegou à esquerda, fez a bola chegar a Clayson, e dele, com perfeição, à cabeça de Jô. Em segundos, o Corinthians fez o que não se viu durante todo o primeiro tempo.

7 – E não parou. Clayson apareceu na direita no ataque seguinte, mas desta vez errou o cruzamento para a área. Alguém dirá, com convicção, que foi um acerto, pois a bola bateu no travessão e se ofereceu para Jô cabecear e marcar o segundo. No retorno em que o Corinthians pareceu ser outro time, não é coincidência a aparição de seu jogador mais importante.

8 – A aceleração inicial logo se converteu em cadência e em uma compreensível cautela por causa das circunstâncias. Abel mexeu para tornar seu time mais ameaçador na jogada aérea, enquanto o Corinthians seguiu controlando o jogo e os próprios nervos.

9 – Dois minutos depois de mandar uma bola rasteira e caprichosa na trave, Jadson deu o OK para a festa com um chute cruzado, na rede lateral: 3 x 1. Não houve mais jogo em Itaquera, mesmo porque, em relação ao título, não havia mais campeonato.

10 – Parabéns ao Corinthians e aos corintianos.

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Droga social 

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Para que uma substância seja incluída na lista da Agência Mundial Anti-Doping (WADA), é necessário que se enquadre em ao menos dois dos seguintes cenários: elevar o desempenho esportivo; representar risco à saude do atleta; violar o espírito do esporte. Em relação à cocaína, cujo principal metabólito foi encontrado no exame de Paolo Guerrero, a ameaça à saúde é evidente, mas os demais critérios podem ser discutidos.

A cocaína aparece na relação de substâncias proibidas como um estimulante, em um contexto de ganho de performance. Embora não haja comprovação científica de que um atleta tem vantagem sobre outros quando sob efeito da droga (de fato, os indícios apontam no sentido oposto), agências como a WADA a tratam da mesma forma que a anfetamina, esta, sim, associada à melhora de rendimento em diversas modalidades esportivas.

Especialistas afirmam que o efeito estimulante da cocaína tem duração irrelevante para representar qualquer tipo de vantagem física para um jogador de futebol. A questão da “competição desleal” ficaria por conta da ação da droga no sistema nervoso central, provocando a sensação de euforia que, num campo absolutamente subjetivo, poderia gerar um bônus psicológico. Um atacante mediano, sentindo-se o Super Homem, seria capaz de jogar como Messi?

Resta claro que a “violação ao espírito esportivo” é um tema determinante. Trata-se de um exercício moral que leva em conta o papel de esportistas como “modelos de comportamento” e/ou representantes de atividades ligadas ao que se possa chamar de vida saudável. De maneira mais simples, um mau exemplo. Por outro lado, esse raciocínio não é considerado quando um atleta consagrado se torna garoto propaganda de uma marca de bebidas alcoólicas.

A cocaína é uma droga social. No passado, um tenista que testasse positivo para a substância, sem que estivesse disputando um torneio, não sofria qualquer punição. Se fosse flagrado em competição, como se deu em 2009 com o francês Richard Gasquet, uma longa suspensão se seguiria desde que não houvesse explicação convincente. Os beijos de uma dançarina chamada Pamela, durante uma noitada em Miami na véspera do exame, foram aceitos como possível causa da contaminação da urina de Gasquet, que ficou apenas dois meses banido.

Há ainda dois aspectos que não deveriam ser ignorados pelo sistema atual: a etiqueta de “viciado” que é colada em quem cometeu um erro de julgamento; e a violência das suspensões que impedem os dependentes de trabalhar, agravando seus dramas pessoais.

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Ilustração

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O épico – sim, a palavra está banalizada, mas não deve ser descartada quando cabe – jogo de volta entre Lanús e River Plate, pelas semifinais da Copa Libertadores, deu origem a um novo tipo de reclamação a respeito do árbitro de vídeo. Para juntarem-se aos amantes-do-erro-humano-enquanto-fator-de-interesse-pelo-futebol, aos guardiões da “essência do jogo” e aos torcedores de cronometragem, surgiram os maus perdedores dispostos a responsabilizar o recurso eletrônico pelos erros que deveriam assumir.

É um expediente que não conhece a vergonha. Especialmente no caso dos membros e dos simpatizantes do River Plate, pouco incomodados com o papel desempenhado pelo time em um jogo como o de anteontem. Após vencer o encontro de ida por 1 x 0 e abrir 2 x 0 na casa do rival, a equipe dirigida por Marcelo Gallardo poderia sofrer até três gols sem comprometer a classificação para a decisão. Sofreu quatro num intervalo de vinte e cinco minutos e se pôs a acusar o VAR por uma eliminação absolutamente merecida sob qualquer aspecto.

Não só o pênalti – que possibilitou o quarto gol – marcado para o Lanús com a ajuda do replay foi indiscutível (puxão na camisa), como as críticas pela não utilização do sistema no lance em que o River Plate pediu um toque de mão na área não têm mérito. O brasileiro Wilson Seneme, chefe da arbitragem na Conmebol, explicou ao diário argentino La Nacion que “é uma jogada interpretativa. O árbitro principal interpretou que não foi mão e os assistentes de VAR interpretaram que não havia erro claro”. Seneme acrescentou que, se considerasse necessário, o árbitro Wilmar Roldán poderia solicitar a revisão, mas isso não significa que o pênalti seria marcado.

A questão extrapola a discussão se foi ou não foi pênalti. Culpar o VAR por atuar apenas para um lado, como se o sistema tivesse desequilibrado o resultado do jogo, é um equívoco que revela desconhecimento sobre a forma como o recurso deve colaborar com a arbitragem de futebol. Além, é evidente, de uma tentativa de transferir responsabilidades. Um time que permite quatro gols legais em tão pouco tempo, evaporando a posição privilegiada em que se encontrava, tem muito mais problemas a contemplar do que o apito eletrônico.

A propósito: no debate mais amplo sobre o árbitro assistente de vídeo, jogadores, técnicos, dirigentes e jornalistas já se posicionaram com diversas opiniões. Na chamada comunidade da arbitragem, o apoio ao sistema é maciço. Jogos como Lanús x River Plate ilustram incontáveis vitórias legítimas impedidas por erros que hoje podem ser revistos. Como ser contra?

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Doente 

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Pat Riley, técnico do Los Angeles Lakers da época do “showtime” (a década de 1980 lhe parece muito longe?), tem um método pessoal para identificar os diferentes estágios pelos quais passam muitos times bem sucedidos. A inocência que vem antes do sucesso, caracterizada pelo senso de colaboração e sacrifício que possibilita o alcance de objetivos coletivos. E a atenção que cresce à medida que se vence, corroendo as alianças internas e cultivando insatisfações alimentadas por egos e avaliações equivocadas da importância de cada um.
Riley batizou o primeiro momento de “escalada inocente” e o segundo de “doença do eu”. Etapas de uma trajetória que quase sempre se verifica, alteração de rota da qual nenhuma equipe está livre. É importante frisar que ele se refere a times que são campeões e não conseguem evitar os danos que a coroa causa individualmente, destruindo os pilares que sustentaram a caminhada vitoriosa. O diagnóstico passa, portanto, pelos efeitos da conquista de um título. Não há como saber se o ex-jogador e técnico lendário na NBA (cinco troféus) possui qualquer informação sobre a campanha do Corinthians neste Campeonato Brasileiro. Se tivesse, ele diria que o raciocínio também vale para times que não ganharam nada.
Porque a questão principal é a forma como jogadores se percebem, e, no caso de um mal contagioso, como uma equipe se enxerga coletivamente. Só há uma coisa pior do que a deterioração de um conjunto vencedor por personalidades infladas e o súbito esquecimento do que o fez, por um momento, forte: a deterioração de um conjunto que se julgou vencedor antes de sê-lo. Do primeiro para o segundo turno do campeonato, o Corinthians oferece sinais da antecipação dos sintomas identificados por Pat Riley, não por se contentar com o aproveitamento irreal da primeira parte, mas por imaginar que a segunda era uma garantia. Nota-se no comportamento do time uma desmobilização tão dramática que custa crer que são os mesmos jogadores.
Existem explicações para o declínio do líder em vários aspectos do jogo de futebol. São todas reais e exercem papéis importantes no desempenho irreconhecível em quase todas as partidas do returno. Mas, se a leitura de alguém como Riley está correta (não é fácil construir um argumento contrário), são sintomas decorrentes de uma drástica – e precoce – alteração de percepção. Antes de jogadores, equipes são formadas por pessoas, e cada pessoa é um organismo propenso à “doença do eu”. Só há um atenuante: a precocidade traz tempo, e o tempo é sempre uma oportunidade.

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Acordo

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1 – A presença de Luan não significa apenas um acréscimo de qualidade técnica ao Grêmio. É um reforço de personalidade, que devolve ao time de Renato Gaúcho o que às vezes lhe falta em termos de caráter de jogo.

2 – Por isso, também, os visitantes se sentem tranquilos em Itaquera, sabedores de que é preciso jogar para alcançar objetivos. A capacidade de ser a mesma equipe, independentemente do local e do adversário, é um dos desafios do futebol.

3 – Os movimentos iniciais mostram os dois times fiéis ao que sabem e pretendem fazer. O Grêmio é mais elaborado e construtor; o Corinthians tenta dosar a necessidade de ser ofensivo com a obrigação de se proteger.

4 – Cássio defende uma finalização que não saiu como Edílson gostaria. Jô cabeceia para fora uma bola que Itaquera supôs que entraria. Em ocasiões, o primeiro tempo é igual, embora o Grêmio (58% de posse de bola) tenha sido levemente superior.

5 – O Corinthians retorna do vestiário adotando uma posição um pouco mais adiantada, assumindo os riscos que acompanham quem pretende vencer pelas próprias virtudes. O perigo é que o Grêmio é plenamente capaz de punir esse avanço.

6 – Carille lança a carta Clayson, de participação decisiva em rodadas recentes, antes dos vinte minutos. A saída de Jadson é o sinal de que, uma vez mais, o meio de campo corintiano não fez seu papel. Esse é um dos maiores problemas do segundo turno do líder.

7 – O encontro ganha em temperatura e rispidez, algo natural pelo que está em disputa. Mas nunca é aconselhável confundir jogo com luta, por isso o momento de tendência à brutalidade dura pouco.

8 – Ao cobrar uma falta – que Fágner não deveria ter cometido – na lateral da área, Edílson mira o gol de Cássio e manda a bola no travessão. A chance mais evidente de um gol no segundo tempo é um susto para o Corinthians, que não conseguiu se aproximar de uma vitória tranquilizadora.

9 – É possível que se qualifique a partida com termos como “estudada”, o que com frequência é uma tentativa de disfarçar defeitos. Sob qualquer ótica, o encontro entre líder e vice decepcionou por não entregar o mínimo que se esperava. Mais do que empatar, não perder parece ser o objetivo que Corinthians e Grêmio compartilhavam.

10 – O Grêmio tem o “álibi” da Copa Libertadores, especialmente no que diz respeito ao foco. O Corinthians dá todas as mostras de já ter começado a eliminar rodadas, estratégia que revela confiança na vantagem na classificação e valoriza qualquer ponto somado, em qualquer circunstância.

11 – A questão que se apresenta é se não é cedo demais para tal expediente.

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Sozinho

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A última partida oficial em que um jogador que não se chama Lionel Messi marcou um gol pela Argentina aconteceu há quase um ano. Foi em dezesseis de novembro de 2016, quando a Colômbia foi derrotada por 3 x 0, pela décima-segunda rodada das Eliminatórias. Lucas Pratto e Angel Di Maria aparecem na súmula como autores do segundo e terceiro gols, respectivamente. Messi inaugurou o marcador em cobrança de falta e fez duas assistências, mas esses são detalhes que se perdem dependendo da forma como se analisa o desempenho do melhor jogador do mundo com a camisa de seu país.

Há um gol argentino anotado no mês passado, no empate em 1 x 1 com a Venezuela, sem participação de Messi. Mas foi contra, cortesia do defensor Rolf Feltscher, ilustração ainda mais clara do tamanho do desequilíbrio que Messi representa. Quando a Argentina faz um gol que não é dele, trata-se de uma infelicidade do adversário. Com três treinadores na mesma campanha, um futebol com os jogadores que a Argentina possui não foi capaz de produzir uma equipe ao redor de um gênio. A não ser que a pérola de Dybala (“é difícil jogar com Messi”) seja a expressão de uma verdade aterrorizante, algo está muito errado.

Ver Messi jogando por sua seleção exige capacidade de compreender o futebol e, especialmente para argentinos e brasileiros, capacidade de admirar um futebolista sem similares. Uma coisa está intimamente ligada à outra, já que a falha ao captar a grandiosidade do 10 argentino é sintoma claro de uma relação fraturada com o jogo que ele pratica. No Brasil, esse tipo incurável de miopia quase sempre está relacionado ao que se julga ser rivalidade, mas é ódio com outro nome. O que de certa forma explica a derrota humilhante e definitiva de quem pensa que gosta de futebol, mas desgosta de Messi.

Até Jorge Sampaoli, um apaixonado declarado, se deixou levar pela insanidade em que o futebol argentino está submerso (embora seja difícil crer, a AFA provavelmente converte a CBF em uma instituição exemplar). O treinador encarregado de não permitir que a Copa do Mundo escapasse declarou que sua conversa com o time, antes de enfrentar o Equador, teve a mensagem para que “todos levassem Messi ao Mundial”. Em campo, na altitude, e perdendo desde o primeiro minuto, o que se viu foi o inverso: Messi levando seu país à Rússia. O caso é tão grave que talvez ele seja o único jogador argentino que mereça estar no avião, mas – e isso os curiosos jamais entenderão – o futebol pertence às equipes.

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Posse 

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Em uma entrevista coletiva recente, Juan Manuel Lillo comentava as qualidades defensivas de seu time, o Atlético Nacional de Medellín, quando disse uma dessas frases conceituais que elevam o valor de conversas com treinadores de futebol: “Recuperar a bola é tirá-la de um [adversário] e dá-la a outro [companheiro], com vantagem. Até que isso aconteça, a bola não foi recuperada”. É lógica a conclusão de que, se a bola não foi recuperada, a posse não se iniciou, uma questão central nos debates sobre formas de jogar futebol.

Já se avançou suficientemente no assunto para que esteja claro que a posse é uma ferramenta, não um objetivo. Exceto em situações muito específicas, a simples conservação da bola não aproxima um time da vitória, de onde se origina a ideia de que o importante é o uso da posse. Lillo, um dos intérpretes do “jogo de posição” consagrado no Barcelona, oferece uma informação crucial para este sentido de utilização. As duas palavras mais relevantes da declaração mencionada acima são “com vantagem”.

De maneira simplificada, a essência do “jogo de posição” é a geração de superioridades em certas áreas do campo, com o estabelecimento dessas “vantagens”. O conceito de “superioridade numérica”, por óbvio, consiste em ter mais jogadores do que o adversário em uma determinada situação. Mas é possível ter vantagem mesmo em inferioridade de jogadores. A “superioridade posicional” se dá, por exemplo, quando dois zagueiros observam o jogador que vai cruzar a bola, sem a devida atenção ao atacante situado entre eles, em posição privilegiada para finalizar.

Há outros tipos, como a “superioridade temporal” (quando um jogador de ataque sabe onde receberá a bola de um companheiro, antes que os adversários percebam), ou a “qualitativa” (situação de um contra um, em que o atacante é mais capaz do que o defensor), que não se definem pelo número de futebolistas envolvidos na jogada, mas podem estabelecer a “vantagem” destacada por Lillo. Outros treinadores que propõem o “jogo de posição” só consideram que um time tem posse após dar ao menos três passes, o que nos leva a um momento aparentemente contraditório: é possível ter a bola, mas não ter a posse.

A entrega da bola a um companheiro “com vantagem” supõe o início de um movimento em que superioridades são procuradas continuamente, por intermédio de posicionamento e circulação, até chegar ao gol do oponente. É fundamental compreender essa dinâmica – mais importante do que percentuais ou cronometragens – para avaliar equipes que jogam “com posse”.

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