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Modelo

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Quem pôde ver Chelsea x Barcelona com atenção deve ter se lembrado do encontro entre Itália e Espanha na Euro 2016 (e não pela coincidência de ambos os jogos terem sido apitados pelo turco Cuneyt Çakir, ainda que ele provavelmente tenha tido o mesmo pensamento). Assim como aconteceu anteontem em Stamford Bridge, Antonio Conte conseguiu causar um curto-circuito no jogo do adversário, fazendo a seleção espanhola, então bicampeã continental, se sentir deslocada em um campo de futebol.

Além de Çakir e Conte, oito jogadores envolvidos na partida em Londres estavam no gramado do Stade de France, em 27 de junho de 2016. Todos são espanhóis: Piqué, Busquets, Iniesta e Alba pelo Barcelona; Morata, Fàbregas, Azpilicueta e Pedro pelo Chelsea. O quarteto do time catalão, especialmente Alba e Busquets, experimentou pela segunda vez a sensação de ser vítima de um plano tático desenhado por Conte e aplicado – quase – à perfeição. Não fosse um passe errado que se ofereceu a Iniesta diante da área do Chelsea, origem do gol de empate, o técnico italiano estaria tão exultante quanto na noite em que a Itália venceu por 2 x 0 e seguiu para as quartas de final.

São muitas ocorrências em comum, mas os dois jogos não se diferenciam apenas pelos resultados. A Itália teve 41% de posse de bola e mais finalizações certas (7 x 5) do que a Espanha. Na terça-feira, com a bola por 32% do tempo em seu próprio estádio, o Chelsea gerou mais ocasiões do que o Barcelona: empate em 2 x 2 em conclusões no alvo, mas Willian enviou dois chutes às traves. Enquanto o Chelsea – após uma pressão inicial no campo do oponente – assumiu uma posição recuada para se defender, a Itália exibiu maior interesse em discutir a posse, dado que sugere uma interessante questão a respeito das possibilidades técnicas do time inglês para ser mais ativo nesse tipo de encontro.

Não se discute, porém, que o 1 x 1 foi melhor do que a atuação do Barcelona sugeriu, embora se deva salientar que planejamentos como o de Conte estão sempre sob risco de desmoronar por uma falha na região do campo em que elas são mais graves, justamente porque a maior porção do jogo se desenrola ali. Iniesta e Messi não aguardaram por outra chance de posicionar o confronto a favor do Barcelona, que não precisará construir um resultado no Camp Nou, em 14 de março. Veremos se a vitória sobre a Espanha, talvez o maior momento de Conte por sua seleção, será novamente lembrada.

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De chorar

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A tragicomédia do veto ao árbitro de vídeo no Campeonato Brasileiro, destaque do noticiário da semana passada, parecia o exemplo mais ilustrativo da incapacidade dos clubes de se entender a respeito do que é melhor para todos. Mas não há nada como uma semana após a outra, e já temos uma versão “evoluída” que ajuda a explicar por que as coisas são como são. E aqui não cabe um debate sobre interpretações equivocadas ou informações não confirmadas: o Botafogo afirmou, por meio de uma nota oficial que redefine o amadorismo na gestão futebolística brasileira, que a comemoração de Vinícius Júnior foi o motivo da proibição ao Flamengo de alugar o Estádio Nilton Santos.

Calcule o poder destrutivo desse tipo de mentalidade em reuniões entre dirigentes para tratar de temas institucionais. Como esperar que os interesses que os unem sejam definidos e defendidos com um mínimo de visão modernizadora se o gesto de um jovem jogador, ao celebrar um gol, se sobrepõe a uma questão comercial? E nem se trata de discutir a escolha de comemoração de Vinícius Júnior, porque a direção do Botafogo não tem controle sobre essa percepção. Com efeito, ao supor que pune o Flamengo por isso, o clube multiplica a importância do que considerou um “desrespeito”. O “chororô” agora não só tem preço, como é financiado pelo próprio Botafogo. É verdadeiramente genial.

Há quem enxergue a presença saudável da paixão em posturas pueris dessa natureza. Ok, vejamos se o Botafogo será capaz de contratar jogadores e honrar seus salários com paixão. Porque a decisão tomada neste caso não faz nada além de enfraquecer a capacidade de investimento do clube, algo que não se justificaria nem se o Botafogo estivesse em condições de recusar recursos. Sem falar na obrigação negligenciada de ocupar o estádio, uma fonte de receitas crucial para o modelo em que o esporte está baseado. O futebol é pródigo em converter sensatez em desequilíbrio, mas aqueles que aceitam a tarefa de conduzir clubes não podem permitir tal transformação. O Botafogo é apenas o último a exibir o traço imaturo que está presente em tantos outros.

A nota oficial é especialmente constrangedora, uma admissão pública de irresponsabilidade. Diz que o gesto de Vinícius Júnior foi “um desrespeito à instituição Botafogo, que é representada pelos seus atletas, sócios e torcedores”. Está errado. O Botafogo é composto por seus atletas, sócios e torcedores. Quem os representa, no entanto, são dirigentes que precisam estar à altura do trabalho que assumiram.

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VARgonha

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A maior piada do futebol brasileiro é o secretário-geral da CBF, Walter “Neroboy” Feldman falar sobre “compliance” em uma discussão sobre o árbitro de vídeo, como se deu ao vivo na ESPN Brasil. É enorme a curiosidade sobre o que as regras de governança da confederação dizem sobre um presidente indiciado pelo FBI e suspenso temporariamente pela Fifa, embora o assunto seja o custo da arbitragem eletrônica, novidade que Del Nero quis implantar de uma rodada para outra em 2017, mas agora é cara demais para o principal campeonato do país.

Outro motivo de riso histérico é a declaração do presidente do Vasco, Alexandre Campello, questionando a falta “de um estudo que comprove” o benefício do sistema. Não faz muito sentido dar importância ao que diz alguém que fez o que fez nas eleições presidenciais vascaínas, mas teria Campello esquecido do gol de mão que o Vasco sofreu na Arena Corinthians no ano passado? Qual seria o valor de um ponto no Campeonato Brasileiro? Entre tantas explicações cômicas para dizer não ao recurso de vídeo, os clubes que votaram contra simplesmente fugiram das próprias responsabilidades.

Claro que há quem compre o discurso de pobreza daqueles que afirmam não ter um milhão de reais por ano para investir na lisura do campeonato, ainda que seja constrangedor ouvir esse tipo de alegação justamente de quem sustenta a CBF desde sempre. Mas a questão não é essa. É inadmissível a incapacidade dos clubes de se abraçar em torno de um tema tão importante, dizer à confederação que não aceitam esse custo e que exigem – sim, exigem – um orçamento razoável. É o campeonato deles, clubes, que está diante de um avanço crucial para resultados mais justos. À mesquinharia da CBF se juntou o oportunismo de quem vetou o VAR e depois gritará por causa de erros verdadeiramente caros.

Que não se perca de vista que, em abril de 2014, Marco Polo Del Nero foi eleito com quarenta e quatro de quarenta e sete votos possíveis. Houve dois votos em branco e uma abstenção (Figueirense). Os clubes têm a CBF que desejam e jamais ganharam tanto dinheiro quanto neste momento. Quando fica evidente que a confederação despreza o campeonato e os clubes desvalorizam o produto que lhes pertence, reclamar não é uma opção, mas uma vergonha. Esta CBF, a CBF do “compliance”, é uma criação dos clubes. E este campeonato, o campeonato que não quis ter o VAR, é a competição que eles deveriam ser capazes de organizar.

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Tratamento

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Não deixa de ser confortante ler/ouvir, após a estreia de um clube da Série A em umas das competições de futebol do Brasil, que tal equipe “precisa de tempo” para se desenvolver. Pode parecer uma leitura surreal, e é, mas este é o mesmo ambiente em que treinadores iniciam temporadas com o status de “pressionado”, e os programas especializados alertam que a massa de torcedores de determinado time – não importa qual – “não terá tanta paciência neste ano”. A indústria da espuma se retroalimenta, a audiência compra e o jogo sofre.

Este ciclo defeituoso estará protegido enquanto o processo de construção de times de futebol permanecer um mistério para a maioria. Um estado de coisas que não é exclusivamente produto da ausência de interesse em explicá-lo, mas, também, da ausência de interesse em conhecê-lo. Opiniões que se situam distantes do trabalho feito nos clubes ganham tração porque são recebidas e aceitas como relevantes, quando na verdade são apenas barulho, detritos, má utilização de espaços que não passam de perda de oportunidade e tempo. Um dos subprodutos da observação desinformada é a ilusão de que se pode tratar profissionalmente de um assunto sem saber do que se passa. Outro é a ideia de que é possível analisar trabalhos de comissões técnicas a partir do simples acompanhamento de jogos.

O conceito de tempo no futebol é complexo e ainda não foi decifrado, embora seja um aspecto determinante na trajetória de equipes. Quando se relaciona a duração da montagem de um time e o que ele apresenta em campo, é necessário oferecer argumentos que revelem o nível de informação que sustenta essa afirmação e as premissas nas quais ela se baseia. Motivo pelo qual dizer que um técnico “já teve tempo suficiente para mostrar resultados” é uma alegação quase sempre arriscada, especialmente se trouxer como base o desempenho de outro treinador, em outro clube, que trabalha com outras pessoas, em outras condições. A sugestão de que o jogo é um software e futebolistas são equipamentos instantaneamente programáveis é um enorme equívoco.

A disseminação do desconhecimento não interessa a ninguém no ecossistema do futebol. É danosa aos clubes, aos componentes das comissões técnicas, aos jogadores de todos os níveis, e, ainda que a impressão seja outra, até aos dirigentes responsáveis pela tomada de decisões. Não deveria interessar a quem consome futebol por qualquer via, mesmo que pareça um passatempo divertido com temas sem importância. O jogo ocupa um espaço nobre na vida de muita gente, e, como tal, merece um tratamento melhor.

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Jogo autoral

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Fernando Diniz recebeu um telefonema de Mário Celso Petraglia no dia vinte e nove de dezembro. Foi o primeiro contato entre eles. Após cerca de uma hora de conversa, Diniz se sentiu como se tivesse falado com alguém que fizesse parte de seu círculo mais próximo, tal era a sintonia de ideias entre o técnico e o presidente do conselho deliberativo do Atlético Paranaense. Embora não represente nenhuma garantia, essa é a fundação do relacionamento entre eles e o passo definitivo para a contratação anunciada anteontem.

Na aparência, e à distância, é natural a sensação de um compromisso arriscado. O tipo de futebol que Diniz prega exige mais tempo de implantação do que o da maioria dos treinadores, e Petraglia não tem exatamente a imagem de um paciente tomador de decisões. Mas essa é uma impressão decorrente do mínimo acesso a um dirigente que faz questão de controlar o fluxo de informações a seu respeito, um administrador que se incomoda mais com a falta de soluções do que com resultados de jogos. O imediatismo foi um dos temas da conversa, na qual Diniz ouviu que teria a compreensão e a proteção que necessita.

Enquanto foi técnico do Audax, Diniz recusou dezoito propostas para sair. Ao contrário do que se imagina, não foi por desconfiança em seus métodos ou receio em relação a seu temperamento que um grande clube não o contratou. Diniz deu sua palavra a Mário Teixeira, proprietário do clube de Osasco, de que não o abandonaria. Nove meses sem trabalhar o convenceram a não mais fazer promessas dessa natureza, decisão mencionada ao presidente do Guarani, Palmeron Mendes Filho, na ocasião do acerto. Havia acordo, por escrito, que uma oportunidade na Série A poderia levá-lo do Brinco de Ouro, como aconteceu.

Nenhum clube brasileiro possui estrutura semelhante ou investiu tanto em conhecimento científico aplicado ao futebol como o Atlético Paranaense. O salto que falta é a conversão dessa excelência para dentro do campo, o que dificilmente acontecerá com a reprodução pura e simples do que se pratica nos clubes de vanguarda na Europa. O Atlético deve utilizar o aprendizado para desenvolver uma maneira particular de fazer futebol, o que dá sentido à contratação de Diniz. Um técnico que propõe jogo autoral em um clube no qual as condições para respaldá-lo estão presentes.

A conversa telefônica entre Petraglia e Diniz precisará ser exercitada no dia a dia e lembrada nos momentos difíceis, que sem dúvida estarão no caminho. O teste que está para começar não vale só para o técnico, mas para todos os envolvidos, especialmente o torcedor atleticano.

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Amigos rivais

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Neymar foi entrevistado pelo site “The Players’ Tribune”, projeto editorial que dá voz a esportistas de diversas modalidades. O entrevistador foi Gerard Piqué, zagueiro do Barcelona, ex-companheiro do atacante brasileiro. A conversa teve a Copa do Mundo como assunto principal, desde as primeiras lembranças de Neymar relacionadas aos mundiais, passando pelo que houve em 2014 até a perspectiva para o torneio do ano que vem, na Rússia. Piqué considera a Seleção Brasileira a principal favorita ao título.

“Creio que vocês estão um degrau acima dos demais”, opinou o zagueiro da seleção espanhola. “Nós, Alemanha, Argentina, França, estamos todos em um nível bastante igual, e vocês estão um pouco acima. Vocês têm muita pólvora no ataque…”, acrescentou. Piqué mencionou Coutinho, Gabriel Jesus e o próprio Neymar para ilustrar suas ideias, além de Paulinho e o fato de o Brasil ser um bom time no aspecto defensivo. “Estão muito completos”, disse. Neymar concordou: “Sim, estamos bem estruturados, de verdade. Conseguimos encontrar nosso jogo”.

De todos os times citados, a comparação mais coerente em termos de estágio de construção de equipe é entre Brasil e Espanha. Enquanto a França de Didier Deschamps (2012) e especialmente a Alemanha de Joachim Low (2006) são trabalhos muito anteriores, e a Argentina passou ao comando de Jorge Sampaoli em junho, Tite e Julen Lopetegui têm trajetórias semelhantes na direção de suas seleções nacionais. Ambos foram nomeados na metade de 2016 e estrearam exatamente no mesmo dia: primeiro de setembro daquele ano. A Espanha venceu um amistoso contra a Bélgica; o Brasil derrotou o Equador, pelas Eliminatórias.

Guardadas as distâncias óbvias, as tarefas de cada um também são parecidas. Lopetegui substituiu Vicente del Bosque com o objetivo de restaurar o futebol que marcou a época mais gloriosa da seleção da Espanha, com dois títulos europeus e um mundial entre 2008 e 2012. Tite assumiu o lugar de Dunga para dotar o Brasil do jogo coletivo que sempre se pediu a uma geração que não se resume a Neymar. Até na classificação para a próxima Copa do Mundo há similaridades: a Seleção Brasileira concluiu as Eliminatórias com dez pontos de vantagem sobre o Uruguai; a Espanha dominou seu grupo com nove vitórias e um empate em dez jogos.

Ao final da entrevista, Piqué quis saber se Neymar toparia uma hipotética final entre Brasil e Espanha com empate em 3 x 3 e todos os gols brasileiros marcados por ele, mas com vitória espanhola nos pênaltis. “Não, não, não… quero ganhar!”, respondeu o brasileiro.

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Espera

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As informações que chegavam de Nova York, no início da noite desta quarta-feira, indicavam que os jurados do “Caso Fifa” ainda deliberavam a respeito do que viram e ouviram sobre os três únicos dirigentes envolvidos que se declararam inocentes. Não há previsão para o anúncio de um veredito e nem prazo máximo para que o paraguaio Juan Ángel Napout, o peruano Manuel Burga e o brasileiro José Maria Marin conheçam seus destinos. O júri tem solicitado documentos e transcrições de depoimentos, o que sugere que uma decisão não está próxima.

Burga, ex-presidente da federação peruana de futebol, é o único dos réus que foi acusado de apenas um crime. Napout, ex-presidente da federação paraguaia e também da Conmebol, teve de se defender de cinco acusações. Marin, de sete: conspiração para recebimento de dinheiro ilícito e conspiração para fraude e lavagem de dinheiro relacionadas à Copa do Brasil, Copa Libertadores e Copa América (duas acusações por torneio). Os jurados devem considerar cada acusação individualmente e chegar a conclusões unânimes. Nos casos de Napout e Burga, é possível que sejam absolvidos de certos crimes e condenados por outros.

Há um aspecto fundamental em relação às condenações: o governo americano não precisa provar que esses dirigentes receberam propina. Se os jurados se convencerem de que os acusados planejaram embolsar dinheiro ilícito, será suficiente para punir. A acusação é de “conspiração para…”, ou seja, o planejamento para cometer ilegalidades, o que em si é um crime nos Estados Unidos. Bancos americanos foram usados para transferências de valores, há gravações de reuniões realizadas em solo americano, assim como provas de que servidores de email e telefones celulares daquele país foram usados pelos acusados em suas comunicações.

Evidentemente também há os depoimentos das testemunhas da acusação, as pessoas responsáveis por distribuir o dinheiro. O argentino Alejandro Burzaco e o brasileiro José Hawilla concordaram em colaborar com a Justiça dos EUA, por intermédios de acordos de delação que perderiam a validade se mentissem no julgamento. Neste caso, além de não terem suas penas reduzidas, Burzaco e Hawilla responderiam por outros crimes. Marin segue em prisão domiciliar em seu apartamento em Nova York, de onde poderá sair para um presídio federal americano. Não é uma perspectiva agradável para “um homem rico, que não precisaria pedir propinas”, como sua defesa argumentou no tribunal.

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Relíquia

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O tesouro descoberto pelo diário Marca é capaz de encantar e, ao mesmo tempo, desafiar a imaginação: uma conversa boêmia entre Telê Santana e Johan Cruyff, que incluiu um pacto de fair play e futebol jogado com honra na decisão da Copa Intercontinental de 1992, entre São Paulo e Barcelona. Na memória do ex-árbitro argentino Juan Carlos Loustau, foi um encontro de dois defensores do jogo, no sentido mais puro. “Falavam de futebol como se fosse algo sagrado. Diziam que interromper um jogo por causa de lesões fingidas, esconder a bola ou fazer uma substituição para ganhar segundos não era válido”, disse Loustau ao jornal espanhol.

Telê deveria ser lembrado como o maior nome da história do São Paulo. Sim, mais importante do que os jogadores, sejam quais forem, que surgem em sua mente ao ler essas linhas. Mas é compreensível que um técnico, embora seu impacto na vida de um clube seja imensurável, não gere a idolatria que merece. Cruyff é a figura mais relevante do futebol mundial nos últimos quarenta anos, incomparável em biografia e serviços prestados à evolução do jogo. Naquela noite, há vinte e cinco anos, as obras de ambos não estavam concluídas, o que não diminui em nada a riqueza da conversa que tiveram diante de um observador privilegiado. “Foi a coisa mais enriquecedora que o futebol me deu”, contou Loustau.

Sobre o que mais eles falaram durante quatro horas de papo no lobby de um hotel de Tóquio? Só Loustau, talvez o maior beneficiário do acordo de cavalheiros entre os dois treinadores, pode dizer. Telê morreu em abril de 2006; Cruyff, em março do ano passado. Loustau tem setenta anos e ao que tudo indica jamais falou publicamente sobre um encontro que não seria possível nos dias atuais, ou ao menos não aconteceria sem diversas testemunhas e repercussão quase imediata. As delegações dos clubes e o trio de arbitragem de uma decisão internacional, hospedados no mesmo hotel, aos olhos e ao alcance de todos. Em 1992, será que alguém fez uma foto de dois Yodas combinando um jogo limpo na disputa de um título?

Loustau se lembra que Telê e Cruyff usaram as mãos direitas para celebrar como seria o comportamento de cada time na partida, e o brasileiro lhe pediu que também participasse da ocasião. No primeiro tempo, uma entrada mais bruta de Ronaldão deixou Hristo Stoichkov deitado no gramado por alguns minutos. O lance é tido como o propulsor da vitória do São Paulo por 2 x 1. Cruyff reclamou da dividida limítrofe, Telê não aprovaria se fosse falta. Loustau não precisou apitar.

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“O PF dos caras”

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Alejandro Burzaco, ex-executivo da empresa Torneos y Competencias, declarou na Corte Federal do Brooklyn (Nova York) que distribuiu cerca de cento e sessenta milhões de dólares em propinas a dirigentes de futebol. José Hawilla, ex-proprietário da Traffic, concordou em devolver cento e cinquenta e um milhões de dólares ao governo americano, em troca de uma pena mais branda por seus crimes. Eles eram os verdadeiros donos do futebol sul-americano, as pessoas que pagavam subornos aos cartolas que decidiam com quem negociar direitos de transmissão e exploração de competições.

Apenas entre Burzaco e Hawilla (vamos assumir o valor que deve ser ressarcido, ainda não devolvido integralmente, como um parâmetro do que virou propina), o montante destinado aos usurpadores do jogo no continente supera os trezentos milhões de dólares. É quase um bilhão de reais. Os direitos eram adquiridos por valores muito inferiores ao que se verificariam se houvesse licitações, o que permitia que os operadores pagassem subornos milionários e lucrassem em níveis estratosféricos com marketing e televisão.

No julgamento, Hawilla disse que pagava propina a Ricardo Teixeira para garantir que a Seleção Brasileira disputasse a Copa América com “os melhores” jogadores. Embora seja surreal que alguém deva ser subornado para que uma seleção vá a um torneio com sua versão mais forte, houve quem se escandalizasse com o que seria interferência no trabalho de técnicos, ignorando que a questão principal é o fato de um dirigente enriquecer dessa forma. Certos jogadores da Seleção eram explorados pessoalmente pelo Dr. Ricarrrrrdo. A partir de agora, ao menos o “argumento” de que a CBF é uma empresa privada ficará um pouco mais constrangedor.

De acordo com os depoimentos de Burzaco e Hawilla, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero também foram subornados em contratos relativos à Copa América e à Copa do Brasil. As transcrições de conversas telefônicas revelaram como o dinheiro – “o PF dos caras”, nas palavras de Hawilla; e “essa merda toda”, nas de Marin – era repartido. No caso da Copa do Brasil, é dinheiro que não chegou aos clubes que vivem atrasando salários e reclamando da crise econômica, mas foram/são responsáveis pela dinastia de Teixeira, pela aparição de Marin e pela manutenção de Del Nero.

O atual presidente da CBF não está sendo julgado em Nova York, embora a defesa de Marin tenha se esforçado para incriminá-lo ao apresentar seu cliente como um idoso confuso, incapaz de pedir propinas. Um tolo bem remunerado. Talvez os jurados acreditem.

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Graduação

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O Milan recorreu a Gennaro Gattuso para corrigir uma temporada frustrante e o apelo à autoridade do sanguíneo ex-jogador é quase automático. Em seus dias como volante, Gattuso patrulhava o meio de campo com a diligência de uma sentinela insone e a alergia às derrotas que caracteriza tantos esportistas. É fácil imaginá-lo, como técnico, comandando equipes tal qual um general motivador, a quem não é aconselhável questionar e, muito menos, desobedecer. Pode até ser que ele se utilize da imagem que construiu, mas ela não bastará para sustentar uma carreira que não aceita mais o “faça o que eu estou mandando”.

Em uma entrevista de apresentação que ilustra a realidade do trabalho de treinadores, o assunto surgiu e Gattuso o encerrou de forma, digamos, acadêmica: “É redutivo usarem sempre esse discurso de raça e vontade”, ele disse. ‘Eu passei em Coverciano, eles não me deram a permissão de presente, eu estudei. Viajei para estudar e preciso estudar mais”, completou. Coverciano é a escola de formação de técnicos na Itália, que fica no centro de treinamentos da federação do país e licencia treinadores com as graduações da Uefa. Após um ano de curso, os alunos escrevem uma tese que devem defender diante de técnicos italianos consagrados.

Gattuso tem a mesma certificação de Antonio Conte, Massimiliano Allegri e Carlo Ancelotti, que foram precedidos por Lippi, Capello, Trapattoni, Sacchi e tantos outros, em um curso que se preocupa em acompanhar a evolução do jogo de futebol e preparar técnicos para a atualidade. “Este é um trabalho que a cada ano tem novidades (…). A gente vê muitas mudanças”, declarou Gattuso. “Os jogos precisam ser preparados, não apenas com coração, raça e vontade”, advertiu. A defesa do conteúdo por um retrato da raça não deveria causar surpresa. Seria espantoso, sim, se um técnico em início de carreira quisesse convencer as pessoas do contrário.

Em última análise, os conceitos e os métodos de Gattuso serão julgados pelos jogadores dirigidos por ele. O futebol também exige que se saiba transmiti-los no campo de treinamentos, local onde equipes são preparadas. Em clubes de diferentes países, em níveis distintos de operação e competição, técnicos se encontram na mesma posição do ex-meiocampista marcador e líder vocal que o Milan trouxe de volta para comandar o vestiário: em um jogo que se tornou muito inteligente e mutante, não é mais possível sobreviver sem ideias atualizadas e uma noção clara de como aplicá-las.

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