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Casa da sogra já era*

Leia o post original por Antero Greco

Nos tempos de chefatura de polícia, juizado, radiopatrulha, balão chinesinho, Emulsão de Scott, caderneta em empório, palmatória na escola, sanduíche de mortandela – ou seja, bem antigamente –, era comum mandar a seguinte advertência para um sujeito folgado, espaçoso e sem modos: “Pensa que está na casa da sogra?” Dessa forma, se tentava fazê-lo ver que mordomias só em ambientes privilegiados, e anacrônicos.

Pois bem, muitas das coisas citadas no parágrafo acima viraram lembranças para os veteranos – os mais jovens deem um google e confiram o que era. Até as sogras não são mais as mesmas. Felizmente, para elas, ora bolas, que não têm mais de cuidar de marmanjos filhos de outras.

No entanto, no futebol certos hábitos permanecem inalterados, se não piores. O principal deles: um presidente do momento se considera dono do clube. Durante o período em que ocupar a cabeceira da mesa de reuniões, terá sempre a última palavra, quando não também a primeira e a do meio.

Reinará como Rei Sol, senhor absoluto, dono dos destinos da agremiação. O time vai confundir-se com o brilho da imagem dele. Faz e desfaz, contrata e dispensa jogadores ou técnicos, como bem entender. Fecha acordos de patrocínio, publicidade, tevê como considerar melhor. Se houver alguma reação contrária ou esboço de crítica, a resposta estará na ponta da língua: “O regime é presidencialista.” Autoritarismo disfarçado de regra democrática.

O mar de lama em que se atolou o São Paulo, nestes dias, é exemplo acabado dos malefícios do presidencialismo – que, a bem dizer, não se limita ao Morumbi; ao contrário, é prática disseminada e enraizada Brasil afora. Segundo denúncias de ex-colaboradores, o presidente Carlos Miguel Aidar tomou decisões controvertidas, para ficar em termos gentis, que combinam com a outrora postura altiva dos tricolores.

Há acusação de desvio de conduta, e paira no ar a promessa de apresentação de dossiê alentado a respeito de negócios mal explicados conduzidos por Aidar. Não é por acaso que a turma da situação se encolheu e o pessoal da oposição ficou ouriçado. A pressão para a renúncia é forte – e, por mais que tenha prometido resistir, parece a ponto de capitular. Humilhante. Mais desgastante, porém, são as dúvidas. As reticências atingem o cartola e o clube.

Aidar deve explicações, e muitas, a Conselho e torcedores. O pouco que já vazou para a imprensa é suficiente para provocar terremoto numa agremiação séria, tradicional e octogenária. As suspeitas levantadas por Ataíde Gil Guerreiro não podem passar batidas – nem por quem toma decisões no São Paulo, tampouco por Aidar.

Todos precisam esclarecer a fundo as respectivas posições. A decência, a transparência, a honra pessoal e tricolor o exigem. Como vai terminar o episódio não se sabe, oficialmente, embora cresçam os sinais de saída de cena. Aidar procura parecer irredutível na recusa de jogar a toalha, mas o panorama ficou insustentável. Mesmo que deixe o cargo, tem o dever de ir a fundo – e de cobrar quem o acusa.

Acima do caso pontual do São Paulo fica lição maior e óbvia: não se pode mais admitir, em clube algum, que o presidente seja intocável, se coloque acima do bem e do mal, viva e se movimente como um semideus. Bajulação é obsoleta, resquício de coronelismo que o futebol – duro na queda para a modernidade – abriga como se fosse natural.

No Brasil, nenhum presidente é dono de clube, e não pode agir como se não tivesse de prestar contas de seus atos. Escrevi dias atrás, mas vale repetir: dirigentes são escolhidos para administrar bem que não lhes pertence, tesouro cultural e afetivo, imaterial e de valor incalculável, que é de sócios e simpatizantes.

Que os clubes se mirem no vendaval da Fifa e acabem com a figura do mandachuva. Todo-poderoso já era, não apita nem na casa da sogra. Aliás, está na hora de as mulheres terem espaço na cúpula do futebol e botarem ordem nessa bagunça.

*(Minha crônica publicada no Estadão impresso deste domingo, 11/10/15.)

Centroavantes*

Leia o post original por Antero Greco

Centroavantes chamam a atenção – sempre. Nos últimos dias, por uma série de coincidências, a turma acostumada a fazer gols (e a perdê-los) tem atraído holofotes, por situações boas ou complicadas. Vale a pena começar pelo aspecto positivo.

Para abrir a lista, o mais adequado é Ricardo Oliveira. O goleador do Santos e do Campeonato Brasileiro anda numa fase extraordinária, ainda mais por não se tratar de garoto; já dobrou os 30 anos há bastante tempo. A facilidade com que manda a bola para as redes ajudou a equipe dele a conquistar o Paulista, a reagir com vigor na Série A e também a avançar na Copa do Brasil.

O reconhecimento veio ontem, embora por vias tortas. Com o corte de Firmino, por contusão, Dunga resolveu chamá-lo para integrar a seleção que logo mais estreará nas Eliminatórias para a Copa de 2018 contra o Chile e a Venezuela. Lembrança justa do treinador, que recorre a um veterano que se comporta como menino, no fôlego e na disposição com que se apresenta nas divididas. Muito mais sensato do que apelar para algum “estrangeiro”.

Se Ricardo Oliveira dará conta do recado, se continuará no futuro a ser chamado, é outra história. Talvez não tenha pique para chegar ao torneio na Rússia – não se sabe. Vale o momento, e neste quesito a amarelinha lhe cai bem, e merecidamente.

Com a convocação de Ricardo, de novo Alexandre Pato ficou em segundo plano. O goleador do São Paulo curte a etapa mais regular e produtiva da carreira, ainda assim insuficiente para transmitir segurança para a Comissão Técnica da CBF. Antes da chegada de Juan Carlos Osorio, já ensaiava bom desempenho; com o colombiano ganhou espaço, confiança e continuidade. Não se exagera com a afirmação de que, no momento, é o principal nome na trupe tricolor e compensa a instabilidade da equipe.

Pato bate Ricardo Oliveira na idade, o que deveria pesar em favor dele, para trabalho de longo prazo. Talvez não supere o santista em confiabilidade – e Dunga deixa claro que os resultados são para agora. O receio, provavelmente, recaia na condição física de Pato, sujeito a paradas repentinas (agora mais raras). Dunga tem necessida de vitórias. Por aí, a escolha de Ricardo faz sentido.

A propósito de crítica, um parêntese. Em entrevista ontem, ao Sportv, Pato disse que apenas quem esteve no campo, entenda-se ex-jogador, está em condições de fazer críticas no futebol ou atuar como comentarista. Visão distorcida, superficial, preconceituosa e pueril, mas comum entre boleiros.

Nessa linha de raciocínio, vale o inverso: ex-atleta jamais poderia ser jornalista, se nunca estudou para exercer a profissão. Ou, talvez porque muito de seus ex-colegas de vestiário usem o jornalismo como bico ou passatempo à espera de “algo melhor”, ele veja a atividade como divertimento, extensão dos gramados ou Ação entre Amigos. Não tem ideia do que seja, de fato, ser um Jornalista.

Madura foi a constatação de Fred, na volta do Fluminense aos treinos, após o empate com o Grêmio pela Copa do Brasil. O atacante que há semanas não marca foi sincero ao revelar que a luta de sua equipe é contra o rebaixamento no Brasileiro. Verdade. O tricolor despencou, no desempenho e na tabela da divisão de elite, e daqui em diante tratará de salvar a pele e ficará feliz se terminar o ano sem a queda. Poucos têm coragem de tocar na ferida como fez Fred.

Numa semana em que Luís Fabiano foi parar no hospital, por causa de uma caída de mau jeito (no jogo com o Vasco) e em que Lucas Bbarrios perdeu pênalti (no Inter x Palmeiras), quem roubou a cena e fez bonito foi Lewandovski. O polonês do Bayern de Munique saiu do banco de reservas, no início do segundo tempo do jogo com o Wolsfburg, e em nove minutos fez os cinco gols da virada por 5 a 1. Vai ser exagerado assim em Varsóvia!

*(Minha crônica publicada no Estadão de hoje, sexta-feira, dia 25/9/2015.)

CBF e intolerância

Leia o post original por Antero Greco

Desde o final de semana, tenho recebido centenas de mensagens carinhosas, em apoio à minha decisão de não usar mais o Twitter como forma regular de informar, comentar, interagir. Larguei essa rede social (só servirá para divulgar links de meus comentários no blog) por me estufar das ofensas e agressões pelo crime de emitir opinião. Esquivo-me, agora, de um dos tantos meios de intolerância de que se servem as pessoas para impor pontos de vista.

Não imaginava, porém, que viesse a servir de exemplo para a CBF justificar dúvidas que pairam em torno das atividades dela e de seus dirigentes. Nesta terça-feira, surpreendi-me com artigo assinado pelo presidente da entidade, Marco Polo Del Nero, em que cita meu nome e alguns trechos de meu desabafo na mídia virtual, para alicerçar posições oficiais.

Como a referência é respeitosa, não tenho nada a reprovar.  Assim como não tenho nada a ver com a CBF nem qualquer entidade esportiva. Elas lá e eu cá. Mas, como está na minha crônica a ser publicada no Estadão nesta quarta-feira, preferia que a CBF fizesse bem a parte dela nesta campanha por um futebol transparente, profissional e com o mínimo de polêmicas.

Como? Se olhasse com muito cuidado e sensibilidade os jogos que Corinthians, Atlético-MG e Grêmio têm pela frente. O trio postulante ao título merece arbitragens de primeira linha, para que não se dê margem a teorias de conspiração. No entanto, o que faz a CBF? Escala trio mais jovem para apitar o jogo do Galo e coloca para o clássico do Timão com o Grêmio um juiz que já foi pivô de discussão em jogo entre essas equipes anos atrás.

Daí, não adianta falar que os ânimos estão exaltados, que o fanatismo impera, etc e tal. Também não fará efeito algum elencar jornalistas (além de mim, foram lembrados outros colegas) que tiveram dificuldade por causa de posições extremadas de torcedores.

De minha parte, posso garantir apenas o seguinte: as trincheiras habituais que tenho para combater o bom combate continuam intactas. E são o Estadão impresso, o blog que o site do jornal abriga e o trabalho na ESPN Brasil. Essas são minhas tribunas, e às quais devo obrigações e reconhecimento pela liberdade que me concedem.

O Twitter era um “divertimento” que virou pesadelo. Sem contar, claro, que não me dava conta de que trabalhava de graça e ainda era insultado! Não tenho tendência masoquista.

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Para ou continua*

Leia o post original por Antero Greco

O quarteto dos principais clubes paulistas entra em campo hoje, e a única certeza é a de que um deles certamente irá adiante na Copa do Brasil. Claro, por causa do duelo entre Corinthians e Santos. Mas as atenções se voltam para a dupla São Paulo e Palmeiras, pelo momento particular que vivem na temporada.

Ambos estimulam dúvidas no lugar de entusiasmo. No Brasileiro têm desempenho parecido – 31 pontos –, estão a 12 de distância da liderança e, com os resultados do final de semana, viram diminuir muito a possibilidade de brigar pelo principal título nacional. Dependem de reviravolta espetacular, a começar por eles mesmos e por infindáveis tropeços de corintianos, atleticanos e gremistas, que estão à frente.

Resta-lhes a Copa do Brasil como alternativa para não amargar outro ano de jejum de taças. Chegou, portanto, o momento do pare ou continue, do vai ou racha. E, mesmo com as diferenças nos placares da semana passada, têm como ponto de convergência a instabilidade. A sutileza, no papel, fica para o fato de o Palmeiras jogar por empate contra o Cruzeiro em BH (ganhou por 2 a 1 em casa), enquanto o São Paulo precisa bater o Ceará, em Fortaleza, pois caiu no Morumbi por 2 a 1.

Nenhuma das duas equipes é confiável, e o torcedor tem consciência disso. A interrogação maior vai para o São Paulo, um poço de indefinições. A equipe de Juan Carlos Osorio lembra o governo federal, imprevisível nos movimentos e ilhado por críticas e restrições. Nunca se sabe se dará bola dentro.

Até os desmentidos de praxe não convencem muito. Após o clássico com o Flamengo, aumentou o zunzum em torno de eventual saída do treinador colombiano por causa de oferta para assumir o comando da seleção do México. Hipótese afastada por Osorio e cartolagem tricolor, que o teria convencido a ficar porque em 2016 surgirá um São Paulo forte, poderoso e letal.

Tomara. A questão maior se refere à convicção de dirigentes, gente muito sensível à pressão das arquibancadas e volúvel como pluma ao vento (obrigado, Giuseppe Verdi). Se o time cair fora da Copa do Brasil e cambalear repetidamente, como tem ocorrido na Série A, será uma prova de palavra e resistência incomum a manutenção de apoio a Osorio. E vice-versa as juras de apreço que ele fez pelo atual empregador.

O São Paulo padece com as infindáveis modificações – sejam motivadas por baixas forçadas como contusões, convocações, suspensões e sobretudo negociações, sejam como consequência da inquietação do professor. A folhinha aponta agosto pronto para ir embora, e alguém sabe declamar a equipe tricolor titular? Não, pois não há.

Nem se discute a dinâmica do futebol. Sabemos que as coisas mudam, os desafios exigem alterações, etc. e tal. O nó está no fato de que não se imagina o que sairá da cabeça de Osorio e o que produzirão os pés dos jogadores. Fato que tem gente a negar fogo na equipe – e não é de agora. Resumo da ópera: trata-se de um São Paulo tão estranho, mas tão esquisito, que pode até voltar de Fortaleza com uma goleada a favor. Ou a eliminação.

O Palmeiras envereda por caminho semelhante – e não por baixas tão acentuadas quanto as do vizinho de centro de treinamento. Apesar da enfermaria lotada, Marcelo Oliveira tem pessoal à beça; o problema é a qualidade. Nem todos que desembarcaram no Palestra, nas baciadas de contratações, dão conta do recado.

As limitações ficaram evidentes no jogo com o Galo, buracos no meio-campo e na defesa desfalcados. Além disso, o Palmeiras sofre com o vício de encolher-se tão logo alcance vantagem, ainda mais se joga como visitante. Daí se repete o filme de pressão insistente e Fernando Prass a fazer defesas ou pênaltis (que os árbitros têm relevado). Qual será o roteiro esta noite?

Alvinegros  – Corinthians e Santos engataram subida no Brasileiro, o que significa que não sentirá o baque aquele que for desclassificado.

*(Minha crônica publicada no Estadão de hoje, quarta-feira, dia 26/8/2015.)

Cara e coroa*

Leia o post original por Antero Greco

Caro leitor, pode ser apenas atitude espírito de porco, para contrariar e espicaçar a maioria. Ou tentativa de dar um chega pra lá no baixo astral generalizado, que estraga o dia já no café da manhã. Ou sintoma de cuca lesada. Ou um pouco de cada coisa. Portanto, em nome de amizade, ou caridade cristã, tenha uma pitadinha de paciência com o teor desta crônica.

Por quê? Porque novamente este nobre espaço carrega uma dose de otimismo com o futebol daqui. Sim, senhor, anda divertida a temporada doméstica, já que no plano internacional (entenda-se Libertadores) o vareio foi total. Pegue o Brasileiro e a Copa do Brasil, a rolar paralelamente. Tão semelhantes e distantes ao mesmo tempo, cara e coroa da mesma moeda, indicam caminhos opostos para os participantes, mas os unem no essencial: a imprevisibilidade. Tanto numa quanto noutra competição está difícil cravar favoritismo para qualquer um.

Tome como exemplo as oitavas de final da Copa do Brasil, que começaram quarta-feira, continuaram ontem e terminarão na semana que vem.

Time que está por cima na Série A levou tranco, equipe que sofre com a pindaíba na divisão de elite surpreendeu, ganhou fôlego e fez estrago graúdo no rival. Clube que é modelo de eficiência tática voltou para casa com a pulga atrás da orelha.

Pegue o caso emblemático do Vasco. Apanha mais do que boi ladrão no Brasileiro, tem medo danado de ser trirrebaixado (se permitem o termo) e chamou Jorginho para atuar como salvador da pátria, técnico e pastor de almas à deriva. Topa com o Flamengo e vence por 1 a 0, com desempenho diferente daquele habitual, de gente grande.

Como desdobramento, botou ponto final na aventura de Cristóvão Borges na Gávea. O treinador se segurava por um fio, rompido depois da atuação anêmica no Maracanã. A cartolagem não perdeu tempo e fez a troca no vapt-vupt: antes do almoço saiu um, na hora da sobremesa apresentou outro. Dá até o que pensar tamanha agilidade.

O Corinthians lidera o Brasileiro e Tite tem dado de lambuja em concorrentes, com a estratégia de tirar o máximo de eficiência com o mínimo de oportunidades. Leva a rapaziada para a Vila Belmiro e toma uma surra tática de Dorival Júnior, nos 2 a 0 para o Santos, o mesmo Santos que só agora dá sinais de recuperação no Brasileiro.

O Galo luta pelo título maior, recebe o Figueirense e se salva do vexame com gol aos 48 do segundo tempo. O Grêmio visitou um Coritiba afundado na Série A e suou para fazer 1 a 0. O São Paulo pega o Ceará desesperado na Série B e passa vergonha e toma vaias. Isso é bacana. As vagas estão abertas, mesmo que no fim prevaleça a lógica.

Até a arbitragem teve comportamento distinto. O rigor espalhafatoso do Brasileiro, a sanha de dar pênalti em toda dividida ou ralada de bola na mão na área, foram substituídos por complacência e tolerância. Os senhores do apito não carregaram nas tintas. Nem por isso os jogos tiveram mais polêmica do que o habitual. Ao contrário, diminuíram episódios de choras, lamúrias e maldições.

Há algo bom no ar – e isso tem de ser sentido e transformado em ações positivas para todos. Sem jamais baixar a guarda, nem abdicar do senso crítico, que tal abrir espaço para a emoção? O futebol brasileiro mexe com a gente; não tem a grana dos gringos, mas possui charme. Basta uma trégua. Desarmar espíritos seria bom esporte nacional…

A fila anda. Oswaldo de Oliveira nem precisou de auxílio-desemprego e já achou colocação. A missão no Flamengo não será simples: cobram-se resultados imediatos. A não ser que arrebente a banca e promova reviravolta sensacional, é empreitada só até o final da Série A. Tomara que não. A conferir.

Na torcida. Luciano cavou espaço no Corinthians com gols e velocidade. Agora, por acidente de trabalho, ficará meses parado. Pena, mas é jovem e logo se recupera. Boa sorte.

*(Minha crônica no Estadão impresso desta sexta-feira, dia 21/8/2015.)

Conspiração no ar*

Leia o post original por Antero Greco

É batata: todo ano, à medida que se aproxima o final do Brasileiro, árbitros e eventuais decisões polêmicas que venham a tomar se transformam em tema central de discussões. Superam até os debates em torno dos méritos dos candidatos ao título e dos pecados cometidos pelos atingidos pelo descenso. Os homens do apito concentram as teorias da conspiração, sempre presentes no futebol daqui.

Desta vez, o bafafá começou cedo, mais precisamente no domingo passado, na antepenúltima jornada da primeira metade do campeonato. A largada da temporada de boatos sobre mutretas veio com o pênalti – indiscutível, por sinal – não assinalado para o São Paulo no clássico com o Corinthians (1 a 1). E ganhou força, no meio da semana, com a penalidade marcada para os corintianos em cima da hora, e que lhe garantiu vitória difícil e importante diante do Sport.

Para engrossar o caldo, o Atlético-MG lamentou que lhe tenha sido negado pênalti no jogo em que perdeu para o Grêmio por 2 a 0, em BH. A combinação dos placares, no Mineirão e no Itaquerão, colocou o Corinthians na liderança, um ponto à frente do Galo.

Pronto, armou-se o circo. Ainda nos vestiários do estádio dos 7 a 1 para a Alemanha, o técnico Levir Culpi mordeu a isca, em perguntas que insinuavam estranhas coincidências em benefício corintiano, e largou dúvidas no ar. O coro engrossou com questionamentos na crônica esportiva e, em todas as entrevistas, não faltaram referências às falhas dos árbitros em lances letais.

A conspiração entrou em cena. Para o senso comum, sem meias palavras, tudo armado para levar Tite e a rapaziada dele a mais um título nacional. Uma estreiteza de visão, para dizer o menos e não perder a elegância. Uma indigência esportiva sem tamanho.

Para corroborar a tese da mutreta, na campanha pró-alvinegra, sobram ponderações, que transitam de interesses da televisão, a interferência do ex-presidente Lula! Há quem lembre do escândalo do apito, aquele do Edilson Pereira, em 2005, que obrigou a repetição de várias partidas e teve o Corinthians afinal como campeão. E, logicamente, não pode ficar de fora a CBF.

Que o futebol não é terreno fértil para bem-intencionados, isso até o papa sabe. Que histórias cabeludas se repetem, já intuía o beato José de Anchieta, cinco séculos atrás. Que uma dose de ceticismo faz bem, até Cândido, o otimista padrão de Voltaire, aceitaria.

Muito bem, não se deve mesmo acreditar em muita coisa no mundo da bola. Daí a alardear picaretagem explícita em favor de um time, vai distância, a ser respeitada pela decência e pela sensatez. Até se compreende que o torcedor papagueie o que quiser, fale em roubalheira sem a menor cerimônia. Está no papel dele, não tem responsabilidade alguma; o único compromisso se resume à paixão pelo próprio time.

Chato é ver formador de opinião vir com papo furado de “apito amigo”, em nome de audiência, cliques, bairrismo. Populismo barato e irresponsável, pois alardeia desonestidade sem provas. Antes de sugerir má fé, que se cobre eficiência dos juízes, como o de ontem, no Morumbi, que ignorou pênalti escandaloso do goleiro do São Paulo em favor do Goiás.

Nisso a CBF deve ser apertada. Se bem que pouco se importa com a bolinha doméstica. O negócio é seleção. Tanto que, por causa de amistosos caça-níqueis, diversas equipes ficarão sem titulares por três rodadas. Pois a Série A não para, enquanto a amarelinha sai por aí para ganhar uns trocos. Acha que a CBF vai se preocupar em armar esquemas para o Corinthians – por acaso time de André Sanchez, desafeto de carteirinha de Del Nero. Mais lógico seria que atuasse contra os corintianos…

Gasta-se energia demais com questões que deveriam ser secundárias e se passa por alto pelo trabalho de técnicos e jogadores. Tite recuperou o equilíbrio da equipe, que tem possibilidade real – e méritos – para concluir a fase na ponta. Basta não baixar a guarda na visita ao instável Avaí, na tarde de hoje em Floripa.

*(Minha crônica publicada no Estadão impresso deste domingo, dia 16/8/2015.)

Sarna pra se coçar*

Leia o post original por Antero Greco

Sabe o sujeito que tenta, mas não consegue safar-se de confusões? Procura fazer as coisas direito até que, num momento, pisa na bola? Pois se pudesse ser personificado em uma entidade, seria a CBF. O Brasileiro deste ano vai bem, com maior interesse de público e interessante disputa pelo topo. Há, mesmo, bons jogos, acima da média de Séries A anteriores.

Daí, no tal do sorteio, aparece a indicação de Luís Flávio Oliveira para apitar o jogo que Corinthians e Sport fizeram anteontem em Itaquera. Nada contra o rapaz, absolutamente; leviandade tola suspeitar da lisura dele. Porém, desde o primeiro instante se falou na inconveniência, para não dizer sandice e estranheza, de escalar um juiz que atua na mesma federação (no caso a Paulista) que um dos times envolvidos na disputa. Pior: num duelo pela parte de cima da classificação, luta direta pela liderança.

Dito e feito! Teve celeuma, e em lance que decidiu o jogo. Para tornar mais delicado, ainda, em cima da hora, e depois de reação espetacular do Sport. O Corinthians vencia por 3 a 1, cedeu empate até que, numa jogada de linha de fundo, Guilherme Arana tentou o cruzamento e a bola bateu no braço de Rithely, que tentava o corte de carrinho. Luís Flávio apontou a marca da cal, Jadson bateu e fez o gol da vitória.

Os pernambucanos chiaram, com razão, pois a interpretação é no mínimo polêmica. Para complicar, em jogada similar, no clássico entre Cruzeiro e Flamengo, em BH, pela 5.ª rodada, o mesmo apitador viu lance normal e ignorou apelo de pênalti pros cariocas.
Nem considero equivocada a atitude de Luís Flávio; a tendência dos árbitros tem sido justamente a de marcar pênalti, por recomendação pra lá de discutível da Fifa.

A questão é a falta de coerência do juiz e, acima de tudo isso, a confusão grátis arranjada pela Comissão Nacional de Arbitragem, braço da CBF. Luís Flávio poderia não ter dado nada, e levantaria lamentação por parte dos corintianos. Em resumo: havia temor de episódio controvertido – e ele apareceu. E era sarna evitável.

Meio por cento. Por falar em árbitros: curiosa a manifestação reivindicatória antes dos jogos da rodada de meio de semana. Em todos os estádios, o apito inicial veio após os quartetos se alinharem no centro do campo e levantarem a plaquinha luminosa com os números 0 e 5 para protestar contra o veto à proposta de que 0,5% do valor arrecadado com as transmissões pela televisão fosse para a entidade da categoria, para posterior redistribuição. A alegação é a de que a soma pagaria o direito de imagem do pessoal e constava da redação da Lei de Responsabilidade Fiscal do Futebol levada para aprovação da presidente Dilma Rousseff.

O gesto seria normal, como expressão livre de anseios de trabalhadores (embora questionável o direito a tal quantia). Até aí, tudo bem. Mas por que foi tolerada a conduta dos árbitros, se nas “arenas” são proibidas a torcedores e jogadores manifestações políticas ou de qualquer natureza? A mando de suas senhorias, faixas foram retiradas pela polícia das arquibancadas por fazerem alusão à CBF e atletas foram coagidos a não exibirem apoio ao Bom Senso FC.

E agora? Serão punidos os juízes? Ou prevalecerá o peculiar conceito que temos por aqui de liberdade de expressão: é legítima a minha reclamação; já a sua é abusiva?

Filme velho. O torcedor do Palmeiras tem pavor de assistir nos gramados a fita mais repetida do que Rei dos Reis na Sexta-feira da Paixão: o time ameaça embalar, empolga, desencadeia corrente positiva até que… começa a desandar. O roteiro apareceu nas últimas rodadas, com três derrotas consecutivas, a mais recente delas para o Coritiba. Oscilações em torneios longos ocorrem, e não seria diferente com os palestrinos. Mas perder para o lanterna é coisa de que pode virar fogo de palha de uma hora para outra. O teste de resistência virá no domingo pela manhã contra o Fla em casa.

*(Minha crônica publicada no Estadão impresso de hoje, sexta-feira, 14/8/2015.)

Um ídolo, por favor!*

Leia o post original por Antero Greco

Embaixadinhas e rodas de bobinho nem podem ser consideradas treinos. Trata-se no máximo de diversão para aquecimento, momento relaxante para boleiros antes de pegarem no batente. Mas atividades tão triviais viram atração para centenas de torcedores se, dentro de campo, está um fora de série do quilate de Ronaldinho.
Pois a cena se repetiu nas Laranjeiras algumas vezes, durante a semana, quando as lendárias arquibancadas locais foram invadidas por crianças, jovens e veteranos afoitos por ver o astro, recém-contratado como a pérola do grupo. A presença do gaúcho fez brilhar os olhos das pessoas, que se concentraram nele e se esquecerem de Fred, até então o senhor absoluto da adoração tricolor.
O público pouco se lixou para o fato de Ronaldinho ter 35 anos e há muito ter deixado de ser protagonista das equipes que defende. A imagem  construída no auge da carreira, uma década atrás, é tão forte que leva as pessoas a relevarem limitações físicas e técnicas para enxergar apenas o mito. Por isso, a corrida por camisas número 10, a busca por ingressos no dia da apresentação oficial (derrota no clássico com o Vasco) e a expectativa para o jogo de amanhã contra o Grêmio, numa dessas ironias do destino o time que o projetou e que o perdeu para o PSG.
Ronaldinho talvez não corresponda às exigências do Campeonato Brasileiro, provavelmente nem tenha participação intensa ao longo da competição. A tendência indica aproveitamento parcial, em situações apropriadas Há mais marketing do que estratégia de jogo no novo repatriamento do craque.
Não tem problema. Para a plateia interessa  ver um ícone do futebol a vestir a camisa do Flu. Os fãs esperam efeitos especiais, dribles, lançamentos sutis, chutes certeiros. Firulas. Coisas que os íntimos da bola sabem fazer – e bem.
A volta de Ronaldinho tem um quê de nostalgia. O sujeito sabe que ele não apresentará a desenvoltura  da juventude, ainda assim arrancará aplausos se mostrar um de seus “números”. Equivale a lotar estádio para assistir a show de  Paul McCartney, para citar assíduo visitante. A febre  dos Beatles ocorreu há meio século; no entanto, o carisma permanece. Basta ouvi-lo recordar antigos sucessos para que todos saiam satisfeitos. Ok, no futebol há os três pontos em disputa. Mas, que diabos, é Paulo no palco, é Ronaldinho no gramado!
A euforia tricolor prova como anda reprimida a demanda por estrelas em nosso futebol doméstico. Faltam referências nos times, jogadores que atraiam multidões, que fascinem e funcionem como chamarizes. Não é à toa que o são-paulino se angustia com a proximidade da aposentadoria de Rogério Ceni, assim como o palestrino ficou desnorteado quando Marcos anunciou que não dava mais para jogar. O santista não esquece Neymar e perdoou as idas e vindas de Robinho.
O solista é imprescindível, por mais que tenhamos ciência do futebol como conjunto etc e tal. O artista se destaca, aglutina sonhos – e também decepções – das torcidas. Convivem com a glória e a cobrança. Por que se pega tanto no pé de Ganso? Porque despontou como o fora de série e, como tal, deve corresponder a expectativas. Pelo mesmo motivo, Valdivia dividiu opiniões no Palmeiras.
Um dia, talvez, os dirigentes brasileiros se darão conta da necessidade – e sobretudo dos benefícios – de ter ídolos nas equipes. E descobrirão maneiras de impedir que batam asas tão cedo seduzidos pelos europeus. Sonho, claro, mas não custa sonhar.
 Por isso, que seja feliz o Flu enquanto Ronaldinho estiver por lá. Mesmo que em lances esporádicos.
CBF. A propósito de sonho, assino embaixo o que escreveu aqui, ontem, Luiz Antonio Prósperi: o Brasil deveria romper o preconceito e apoia  experiência de ex-jogadores no comando de federações, CBF e até Fifa. Mas que sejam nomes como Raí, Alex, Marcos, César Sampaio, Zinho e não gente comprometida com cartolas e altos interesses. Chega de raposas a tomar conta do galinheiro.
*(Minha crônica publicada no Estadão impresso de hoje, sexta-feira, dia 31/7/2015.)

As alternativas*

Leia o post original por Antero Greco

O prestígio da CBF anda tão em baixa quanto o da Fifa, o que não surpreende, porque as duas entidades têm profundas afinidades e se confundem. A popularidade de ambas despencou da altura dos Alpes suíços por investigações do FBI que levaram à prisão de alguns dirigentes por suspeita de envolvimento em corrupção.

Na organização maior, a nave-mãe, a cabeça da família, já houve pedido de renúncia de Joseph Blatter e a convocação de eleições para fevereiro de 2016. Por aqui, Marco Polo Del Nero se fechou em copas, com o cuidado de avisar, antes, que não pensa em abrir mão do cargo.

A situação desconfortável de Del Nero caiu na boca do mundo da bola e, aqui e ali, surgem sinais de interessados em herdar o trono. Dois nomes despontaram – Andrés Sanchez e Ronaldo Não chegam a ser surpresa; na verdade, se falou deles em algum momento, desde a batida em retirada de Ricardo Teixeira e no processo sucessório de José Maria Marin, no momento hóspede de prisão suíça. Novidade seriam se se cogitasse de Alex, Zico, Raí, Marcos…

Sanchez jamais escondeu intenção de tomar para si o controle do futebol nacional. Era voz corrente que Teixeira o preparava para sucessor quando o convidou para ser o diretor de seleções. Como precisou cair fora do barco num piscar de olhos nem se preocupou com requintes eleitorais e, na emergência, chamou os amigos Marin e Del Nero para segurarem o rojão. E bye-bye.

Sanchez manteve o propósito mais alto, mesmo depois de romper com os novos mandachuvas. Até ensaiou candidatura, mas se viu obrigado a recuar por não conseguir apoio necessário. Voltou à carga, agora, ao admitir em entrevista ao Diário de S. Paulo, que não tirou a presidência da CBF da cabeça.

Outro que estaria de olho no filão é Ronaldo, ex-empregado e parceiro de Sanchez no Corinthians. O experiente e muito bem informado Luiz Antonio Prósperi, editor de Esportes do Estado, escreveu dias atrás, no blog que mantém no portal da casa, que o ex-astro dos gramados e hoje ágil empresário e jogador de pôquer, teria apoio de patrocinadores da CBF e da Globo, detentora de direitos de transmissão dos principais campeonatos domésticos. Serviria para acalmar os mercados, para usar linguagem familiar à Economia.

O que Sanchez e Ronaldo representariam de ruptura e modernidade dá o que pensar. Incógnita a contribuição deles para o fortalecimento dos clubes. A interrogação aumenta se for levada em conta a trajetória de ambos, ao menos no que se refere a bastidores da própria CBF, à política esportiva, e à relação que mantêm com o poder.

Sanchez ganhou espaço no Corinthians na sociedade com a MSI, aquela do iraniano Joorabchian e do russo Berezovski que deu o que falar e teve rompimento estranho. Assumiu a presidência do clube e estreitou laços com Teixeira. Teve participação fundamental na implosão do Clube dos 13 e caiu nas graças do ex-todo-poderoso.

A proximidade ajudou o Corinthians no projeto de ter estádio, porque Teixeira o escolheu como sede paulista do Mundial de 14. Sanchez ainda foi colaborador de Marin. A ascensão dele significaria guinada que se espera nos métodos da CBF?

Ronaldo despachou com velocidade fenomenal a imagem de goleador. Em brevíssimo tempo, após pendurar as chuteiras, assumiu a condição de homem de negócios. Cuida de carreiras de atletas e de ações de marketing. Nas horas vagas, diverte-se como comentarista.

Topou no ato o convite de Teixeira para dar prestígio ao Comitê Organizador da Copa e surgir como “homem forte”, que nunca foi. Mas andou pra cima e pra baixo com Marin e Del Nero, justificou gastos oficiais e circulou com a turma da Fifa.

Em cima da hora da Copa, saltou de banda, fez críticas pesadas ao governo, aliou-se ao candidato de oposição. Recentemente, criticou escândalos na CBF e na Fifa, porém apareceu lépido e fagueiro no sorteio das eliminatórias na Rússia. Seria um camaleão à frente da CBF?

*(Minha crônica publicada no Estadão impresso de hoje, quarta-feira, 29/7/2015.)

Alegria sem preço*

Leia o post original por Antero Greco

O Brasil faz bonito no Pan-Americano de Toronto. As disputas são movimentadas, mas pena que, desta vez, estejam um tanto escondidas na tevê aberta. A Record enviou excelente equipe ao local, porém não abriu espaço generoso na programação como em 2011 e na Olimpíada de Londres. Deve ter seus motivos, tema para a competente Cristina Padiglione abordar com maestria e elegância na coluna “Sem Intervalo”.
A delegação nacional voltará do Canadá com a bagagem abarrotada de medalhas de todos os matizes; corre risco de excesso de peso ou de enfrentar problemas na Alfândega por importação de valores. A rapaziada terá de declarar bens na chegada, se não quiser pagar multas salgadas.
Brincadeira à parte, tanto faz se a rapaziada tem penduradas no pescoço medalhas de ouro, prata ou bronze. Interessam a satisfação da conquista, a lembrança material de momentos inesquecíveis, a experiência esportiva e de vida obtida no período passado fora de casa. Para cada um dos que subiram ao pódio, o Pan servirá como episódio para ser contado sempre. Tenha certeza de que os troféus ficarão expostos em casa em lugar especial, de destaque, como prova de superação, e juventude…
Claro, alguém vai alegar que a exigência técnica do evento continental fica aquém daquela de muitos mundiais de cada modalidade e abaixo de marcas de Olimpíadas. Tem razão. Sempre haverá quem observe a presença de equipes de segunda ou terceira linhas de americanos e canadenses, que vão para o festival para ganhar cancha e estão distantes das proezas dos “titulares”. É fato.
Tampouco falta a ressalva de que a centena de medalhas não deve nos iludir com a falsa ideia de nos termos transformado em potência olímpica. Só ingênuos ou mal-intencionados embarcam nessa onda. O País infelizmente deixa escapar excelente oportunidade para descobrir o esporte como meio de educação, saúde, integração social.
A escolha do Rio como sede dos Jogos de 2016 não nos fez avançar em direção a tal avanço. Para inflar o quadro de medalhas, na festa em casa, se despeja muito dinheiro em esportes nos quais há grande chance de sucesso. Bobagem, que servirá para que cartolas e dirigentes apregoem uma realidade forjada e se crie clima de euforia. O Brasil só será nação poliesportiva, quando quadras, piscinas, pistas brotarem como mato em escolas, universidades e centros municipais, estaduais e federais.
Enquanto não chega esse dia, sobressairão os valentes, sonhadores, brigadores e fenômenos de sempre, que irão adiante, em suas modalidades, na base da raça. Tanto faz se têm ou não patrocínio, visibilidade, reconhecimento, badalação. Se sumirão do vídeo, dos jornais, dos portais de internet assim que acabar a cerimônia de encerramento.
E é essa gente que conta, ao se falar de Pan. O entusiasmo, o riso, as lágrimas de moças e moços ao ouvirem seus nomes nos alto-falantes, ao verem a bandeira hasteada, ao cantarem o Hino Nacional são legítimos. Ninguém tem direito de diminuir-lhes o orgulho, nem desdenhar de seus feitos.
Quem sabe quanto custa de suor, tensão, esforço físico e mental praticar esporte, competir, perder, ganhar? Como julgar o que é mais gratificante para quem faturou um troféu? Quem garante que meu critério de avaliação de entusiasmo é correto e se aplica às demais pessoas?
Quantos de nós não guardamos medalhas, tacinhas, diplomas por participação em campeonatos escolares, de associações de bairro ou de classe, de clubes, de disputas da “firma”, de desafios de várzea? Objetos com valor inestimável, porque de cada um, por carregarem histórias. Que os atletas brasileiros, e de todas as outras nacionalidades, curtam suas lindas vitórias. Merecem.
Dúvida.  A seleção fará amistoso com o time dos EUA em setembro, em Massachusetts. Curioso para saber como será composta a delegação, no setor oficial, de cartolas e etc. Um leitor propôs que se mande a Dona Lúcia, a da cartinha após os 7 a 1 para a Alemanha, para chefiar.
* (Minha crônica publicada no Estadão desta sexta-feira, dia 24/7/2015.)