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O nosso jogo, e o jogo deles

Leia o post original por Odir Cunha

Enquanto o povo do Pará pedia saúde e educação, a presidente Dilma Roussef sorria e defendia os “benefícios” de se gastar fortunas com os estádios da Copa.

Dilma discursa na inauguração do estádio Mané Garrincha, mas não fala do preço. Terceiro mais caro do mundo, o estádio foi construído em uma cidade que não tem futebol e já nasceu fadado a ser um elefante branco.

A presidente inaugurando a Arena Pantanal, que tem dado o maior prejuízo dentre todas construídas para a Copa. Dilma ressalta a “beleza” do estádio.

Sábado, às 19h30, serão dia e hora de ir ao Pacaembu e levar as crianças para ver o Santos contra o Água Santa. A semana que começou com uma vitória tranqüila contra o maior rival, pode terminar com uma bela exibição no maior estádio santista. Vamos lá. Esse é um jogo que depende da gente. Pena que haja outros, tramados nos gabinetes, dos quais não tivemos a mínima possibilidade de intervir.

Nesses dias o blog discutiu se deve abordar assuntos políticos, ou apenas se restringir ao nosso Santos. Bem, no dia em que a política não interferir no Santos, ou no esporte, ou no País em que vivemos, talvez possamos ser tão especialistas. Mas é impossível silenciar diante do que ocorre. Agora mesmo estamos às portas dos Jogos Olímpicos e é certeza que nos depararemos, assim como ocorreu com a Copa do Mundo, com casos de corrupção e malversação do dinheiro público.

Abaixo reproduzirei uma matéria escrita por Adriano Belisário e publicada portal Terra em 1º de julho de 2014 que já mostrava que as construtoras Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez, todas condenadas na operação Lava Jato, se revezavam e ainda se revezam nos contratos para as grandes obras da Copa e da Olimpíada.

Portanto, há dois anos essa relação promíscua do Governo com essas empreiteiras era tão evidente que foi exposta, em detalhes, pela matéria do Adriano Belisário. Lembro, ainda, que a própria Fifa, menos gulosa do que o Governo brasileiro, sugeriu que o País reformasse estádios apenas nas maiores capitais do futebol – São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre –, mas os articuladores da Copa no Brasil, entre eles Lula e Dilma Roussef, fizeram questão de que fossem erguidas arenas suntuosas e caríssimas em cidades com pouca tradição no futebol.

No longínquo abril de 2012, o repórter Rodrigo Durão Coelho, do UOL, já reproduzia uma análise do Instituto Dinamarquês de Estudos do Esporte pela qual quatro estádios construídos para a Copa do Mundo no Brasil, justamente aqueles não previstos pela Fifa, mas erguidos pela insistência do Governo brasileiro, se tornariam elefantes brancos. Dizia a matéria:

Todos os 12 estádios a serem usados na Copa do Mundo de 2014 devem ter, após o evento, público menor que as médias internacionais, e quatro deles estão condenados a se tornarem “elefantes brancos” – expressão popular usada para designar arenas esportivas quase sempre vazias. É o que diz levantamento feito pelo IDEE (Instituto Dinamarquês de Estudos do Esporte), que criou um índice mundial de estádios.

Os quatro estádios apontados pelo IDEE como os mais problemáticos da Copa 2014 são o Nacional, em Brasília, projetado para comportar mais de 70 mil pessoas, a Arena Amazônia, em Manaus, a Arena Pantanal, em Cuiabá, e o Estádio das Dunas, em Natal, todos com cerca de 42 mil lugares.

O IDEE afirma que a grande capacidade desses estádios contrasta com as médias de público das séries B, C e D do Campeonato Brasileiro, torneios habitualmente disputados pelos clubes que irão usar os candidatos a “elefante branco”. As divisões inferiores do Brasileirão têm médias que oscilam entre 2.100 mil a 4.500 mil torcedores.

Dois anos depois, em abril de 2014, Andre Carvalho, do site da Editora Abril, mostrava como, além de supérfluos, alguns estádios construídos para a Copa estavam entre os mais caros do mundo:

O custo total dos estádios (sete novos e cinco reformados) ficou orçado em R$ 8,005 bilhões, segundo a Matriz de Responsabilidades consolidada, divulgada pelo Ministério dos Esportes em setembro de 2013. Em 2007, uma semana antes de o Brasil ser confirmado como sede, a previsão era de que os gastos com obras em estádios fossem de R$ 2,2 bilhões. Houve, então, um aumento de 263% em seis anos!

Comparando com os gastos em estádios realizados nas Copas da Alemanha, em 2006, e da África do Sul, em 2010, o Brasil tem os assentos mais caros, na média. São R$ 8,005 bilhões investidos em 664 mil lugares, o que dá um valor de R$ 12.005 para cada cadeira instalada nas arenas. Na Alemanha o valor médio de cada assento foi de R$ 6.412 e na África do Sul, R$ 7.021.

Um pouco antes da publicação da matéria do Andre Carvalho, em março de 2014, nosso polêmico Cosme Rímoli já denunciava o enorme elefante branco que seria a arena de Manaus:

A inauguração do mais puro elefante branco da Copa no Brasil. A Arena Manaus. Estádio que custará mais de R$ 670 milhões dos cofres públicos. E que não terá a menor utilidade depois do Mundial. Triste capricho dos políticos brasileiros… O estádio custou cerca de R$ 670 milhões. Todo dinheiro público. O estado do Amazonas pagará por ele. O BNDES emprestou R$ 400 milhões com taxas abaixo do mercado.

Finalmente, em 1º de julho de 2014, no portal Terra, em matéria extensa e pormenorizada de Andre Belisário, escancara-se a relação suspeitíssima entre as construtoras chamadas quatro irmãs- Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez – com a construção não só dos estádios, mas das obras todas prometidas para a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016.

Com o título “Jogo para poucos: 4 construtoras se revezam em obras da Copa”, a matéria começava começava alertando: Levantamento do Reportagem Pública mostra como as “quatro irmãs”, Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez, se revezam nos contratos para as grandes obras da Copa e Olimpíadas no Rio de Janeiro. E prosseguia:

Nas maiores intervenções urbanas no Rio de Janeiro em função da Copa e Olimpíadas mudam os objetivos das obras, os valores, os impactos e as suspeitas de ilegalidade na condução dos projetos. Só não mudam as empresas beneficiadas. Por meio de consórcios firmados entre si e com outras empresas, Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e OAS se revezam nos dez maiores investimentos relacionados aos Jogos.

De acordo com um levantamento feito pela reportagem, chega a quase R$ 30 bilhões o valor oficial das dez maiores obras. São elas: a Linha 4 do Metrô; a construção do Porto Maravilha; a reforma do Maracanã e entorno; os corredores expressos Transcarioca, Transolímpica e Transoeste; a Vila dos Atletas e o Parque Olímpico; o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT); e a Reabilitação Ambiental da Bacia de Jacarepaguá.

A Odebrecht é a grande campeã: está presente em oito dos dez projetos. Já a OAS e a Andrade Gutierrez dividem o segundo lugar, com participação em seis projetos cada uma. Em 7 dos 10 projetos a licitação foi ganha por consórcios com presença de duas ou mais das “quatro irmãs”, como são conhecidas. Em dois destes, a concorrência pública foi feita tendo apenas um consórcio na disputa.

Nem sempre a participação das “quatro irmãs” se dá diretamente através das construtoras. Participam também empresas controladas por elas como a CCR e a Invepar. Os acionistas da primeira são Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez, aliadas ao o Grupo Soares Penido (Serveng-Civilsan), com 17% de ações cada um. No Rio de Janeiro, a CCR detém o monopólio das travessias na Baía de Guanabara, administrando ao mesmo tempo os serviços das barcas e da Ponte Rio-Niterói. (As duas concessões responderam por quase 5% da receita operacional bruta da empresa, em 2013).

A Odebrecht, que também era sócia na CCR, vendeu sua participação para criar sua própria empresa no ramo de mobilidade urbana, a Odebrecht Transport, que hoje administra o serviço de trens na região metropolitana do Rio de Janeiro através da Supervia. Já a gestão do metrô carioca fica por conta da Invepar, cujos controladores são a OAS e os fundos de pensão da Caixa Econômica (FUNCEF), Petrobras (PETROS) e o Fundo de Investimento em Ações do Banco do Brasil.

Na história recente dessas empresas acumulam-se obras que mereceram a atenção das autoridades – dentro e fora do pacote da Copa. Executivos da Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez já foram investigadas pelo Ministério Público de São Paulo no chamado “cartel do metrô”, que envolveria o acerto de preços para licitações de obras, fornecimento de carros e manutenção de trens e do metrô em São Paulo. O órgão exige uma indenização aos cofres públicos de R$ 2,5 bilhões. Empresa da Camargo Corrêa, a Intercement também aparece em investigações do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) sobre cartel no setor de cimentos.

Clique aqui para ler a matéria completa sobre o monopólio das “quatro irmãs” nas obras da Copa e da Olimpíada.

O que se depreende dessas matérias? Que já se previa que esses estádios da Copa dariam um prejuízo imenso à nação, que o dinheiro estava sendo usado de forma irresponsável. Constate que o sagrado dinheirinho dos fundos de pensão da Caixa Econômica (FUNCEF), Petrobras (PETROS) e o Fundo de Investimento em Ações do Banco do Brasil entraram no rolo. Por isso hoje o Governo fala em recriar o IPMF e diminuir a pensão de milhões de aposentados. Isso é zelar, é cuidar da vida do povo brasileiro?

Tudo isso prova que além dos casos da Petrobras, que está sendo esmiuçado, e de outros, que logo estourarão, é evidente que a insistência do Governo brasileiro para fazer a Copa do Mundo e a Olimpíada em nosso País não tinha qualquer interesse no desenvolvimento do esporte nacional. Esses dois megaeventos serviram e ainda servirão para se gastar um dinheiro que os cofres do tesouro não suportam mais e para enriquecer pessoas que superfaturaram em cima das obras.

Como conseqüência, haverá menos dinheiro para saúde, educação, moradia, transporte, geração de empregos. E depois esse governo ainda se diz popular e preocupado com o trabalhador. Mentira das mentiras! Fico espantado de perceber como ainda tem gente que acredita nessa demagogia populista e criminosa.

Por isso é que o esporte, o futebol, e o nosso Santos não podem ser analisados separadamente da conjuntura política do Brasil, hoje imerso na maior onda de corrupção que já o afligiu. Corrupção que sempre existiu, concordo, que não é privilégio do PT, nem do PMDB ou do PSDB. Na verdade, é difícil citar um único partido que não esteja ligado a ela. Corrupção que muita vez nem chegou a ser investigada, mas que agora ganhou proporções gigantescas e contamina todas as áreas da vida nacional. Ou o Brasil acaba com ela, ou ela acabará com o Brasil.

Garanta o seu ingresso. E leve seu filho

Quer saber os valores e onde comprar os ingressos para o jogo de sábado, entre Santos e Água Santa, no Pacaembu? Está bem. Dessa vez está mais barato do que contra o Mogi Mirim. As arquibancadas amarela, verde e lilás (portão 21) custarão 40 reais a inteira e 20 a meia. O tobogã custará 20 reais a inteira e 10 reais a meia. Idosos com 60 anos ou mais e crianças até 12 anos não pagam. E é muito importante levar as crianças santistas nesses jogos! Há ainda a cadeira especial laranja (80 a inteira, 40 a meia), a cadeira descoberta manga (100 e 50) e a cadeira coberta azul, a mais cara (120 e 60).

Percebe-se que o Santos ouviu os reclamos da torcida e diminuiu o preço dos ingressos. Ótimo. Mas ainda não solucionou a questão dos raros postos de venda em São Paulo. São apenas três e só funcionam em dias úteis e das 11 às 17 horas: Estádio do Pacaembu: Praça Charles Miller s/n – São Paulo – Bilheteria principal (próxima do portão principal). Ginásio do Ibirapuera – Av. Manoel da Nóbrega, 1361 – Guichê 1. Sub-sede do Santos FC/SP – Av. Indianópolis, 1.772 – Planalto Paulista – São Paulo – Tel.: (13) 3257-4000 / Ramal 5000.

Para quem mora no ABCD, o posto de venda de ingressos mais próximos é o do Estádio Anacleto Campanella (São Caetano) – Av. Thomé, 64 – São Caetano do Sul. O curioso é que a maioria dos lugares de venda estão em Santos, onde até chaveiro e loja de calçados vendem as entradas para os jogos do Santos, enquanto na Capital regiões enormes, como as Zona Leste, Norte e Extremo Sul, não têm um posto sequer (já falei que se venderem ingressos na Cidade Dutra vão ter uma surpresa bem agradável. Lá tem mais santistas do que são-paulinos e palmeirenses).

Roma pedirá o adiamento de três jogos do Santos

Como o Santos tem cinco jogadores, todos titulares, convocados para as Seleções nacionais: Lucas Lima e Ricardo Oliveira para a principal, e Gabriel, Zeca e Thiago Maia para a Olímpica, o presidente Modesto Roma solicitará à presidência da Federação Paulista de Futebol que três dos jogos do time sejam adiados. Muito justo.

Time reserva uma ova
Para desmerecer a vitória santista, tem jornalista escrevendo que o alvinegro perdedor do clássico usou um time reserva na Vila Belmiro. É mentira. Nada menos do que oito jogadores atuaram contra o Santos e também contra o Santa Fé, da Colômbia, em jogo pela Copa Libertadores. Foram eles: Cássio, Fágner, Yago, Bruno Henrique, Lucca, Willians, André, Edilson (Danilo, Luciano e Romero).

E você, o que acha disso?


Mais do mesmo*

Leia o post original por Antero Greco

Muita gente ficou surpresa – até indignada – com o anúncio de Gilmar Rinaldi para o cargo de coordenador de seleções. O tom dos comentários na mídia e em redes sociais, logo após a entrevista de José Maria Marin, no final da manhã de ontem, oscilou entre a indignação e a desconfiança. Esperava-se nome de impacto para função tão delicada, e não o de ex-goleiro e, pelo menos até a quarta-feira, representante de jogadores.

Pois, sem ser esnobe, não me abalou nem chocou a opção da CBF. A escolha de Marin e de Del Nero, o sucessor que só toma posse em 2015 mas anda pra cima e pra baixo com o presidente, é coerente e tem lógica. Reconfirma o perfil administrativo e filosófico (ops!) da cúpula do futebol brasileiro. E a falta de tato, de feeling – pra ficar em expressão mais fina – da dupla.

A alternativa encontrada para iniciar o processo de reconstrução canarinha foi, no mínimo, desajeitada. O momento requeria alguém com forte aceitação popular e com alguma experiência na área. Especulou-se, ou imaginou-se, a contratação de personagem do calibre de Falcão, Zico, Júnior, Raí, Leonardo, Zinho. Qualquer um deles atuaria, neste momento, como apaziguador da opinião pública. Seria crédito e escudo para os cartolas desgastados.

Não é o caso de Gilmar. Antes de mais nada, e que fique bem claro, não se trata de julgamento pessoal, de preconceito, prevenção, cisma e quetais. A lembrança que guardo dele, dos tempos de atleta e mesmo do início da carreira de agente, é positiva. Polidez nunca lhe faltou. Ainda bem.

Tampouco coloco em primeiro plano a função que tinha até o meio da semana e da qual, garante, se desligou para evitar choque de interesses. Digamos que, por princípio, se dá crédito à veracidade da informação oficial. Mas Gilmar sabe que terá dificuldade para desvincular a imagem de empresário do trabalho de coordenador técnico. Terá de conviver com a sombra, sobretudo ao soltar listas de convocações.

O entrave está no fato de que Gilmar há tempo não atua diretamente com o futebol – seja como cartola, comentarista ou técnico. Não está nas frentes de batalha, com olhar crítico. O negócio dele era ajustar carreiras, discutir contratos, definir agendas dos clientes, tratar com os patrões, com patrocinadores. Eventualmente dar explicações para a imprensa sobre o futuro deste ou daquele profissional.

De uma hora para outra, salta de lado do balcão para descascar abacaxi espinhoso. Para azedar o fruto, a conversa, na coletiva no Rio, não esparramou entusiasmo. O lugar-comum pautou o encontro. Marin choveu no molhado, pra variar. Como não se desvencilha dos cacoetes de político, falou, respondeu, tergiversou e não disse nada. Del Nero, ao lado, referendou tudo.

Gilmar também apelou para frases feitas e deu ênfase ao coletivo. Ao contrário de Gallo, responsável pelas categorias de base, que ressaltou a busca pelo talento individual. Já há aí um ponto a ser afinado em conjunto.

O novo dirigente da CBF fechou portas para treinador de fora, e assim nega a possibilidade de se tentar algo diferente, ousado, com o que carrega de perspectivas e riscos. Da mesma forma, mandou recado para quem assumir o time principal: deverá ter como referência o que faz Gallo. Alto lá: sintonia é desejável, mas o [ITALIC]professor[/ITALIC] da equipe nacional hierarquicamente está acima. Sei não…

Está com cara de mais do mesmo. Haverá um técnico – Tite, Muricy ou um terceiro menos cogitado –, que chegará com a tarefa de montar time para Copa América e Eliminatórias. Manterá boa parte do que fez Felipão, com novidades, para marcar território, e pedirá união geral. O Brasil se classificará para o Mundial da Rússia – com folga ou no sufoco, pouco importa, mas estará lá. E tudo continuará como sempre.

Como escrevi na crônica de anteontem, não se espere guinada em campo, se fora dele a mentalidade permanecer enferrujada. E, com a turma que está no poder, pode tirar o cavalo da chuva, que ele se resfria.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sexta-feira, dia  18/7/2014.)

Eu vi o que vocês fizeram em 1978

Leia o post original por Odir Cunha

O Campeonato Brasileiro vai recomeçar e está na hora de voltarmos às nossas paixões particulares. Antes, uma palavra sobre a ensaiada decepção argentina pela euforia brasileira com a vitória alemã. Ora, que reação esperavam nossos vizinhos?

De apoio, carinho, afeto? Sim, seria ideal. Vivemos lado a lado, compartilhamos parte de nossas histórias, dividimos o mesmo pedaço do mundo. Eu, particularmente, adoraria ter motivos para preferir a Argentina, no futebol, a qualquer nação européia.

Mas o amor, para ser sincero e duradouro, exige reciprocidade. Quando a brincadeira, mais do que ironia, se torna um desrespeito crônico apoiado por seus principais jornais esportivos; quando os costumes, o povo e os ídolos brasileiros são insultados regularmente e boa parte dos argentinos confunde rivalidade com desprezo e ódio, fica muito difícil dar a outra face.

No meu caso, é mais difícil, pois ainda me lembro bem do que fizeram na Copa de 1978, uma Copa armada para que os donos da casa vencessem, burlando as regras do jogo e a ética, destratando os visitantes com o único objetivo da vitória a todo custo, como se isso fosse transformar a Argentina em um país melhor.

Agora, no Brasil tivemos, sim, contato com povos, com civilizações melhores. Nada mais justo e alentador, para o futebol, do que apreciar uma dessas nações vencer a Copa.

Alegrar-se com o título da Alemanha, mesma equipe que goleou o Brasil, mostra, simplesmente, que o brasileiro começa a colocar o mérito esportivo acima do rancor, da inveja e do jogo sujo que sempre caracterizou o futebol sul-americano.

A Copa ficou com os que praticaram o futebol mais vistoso e eficiente e, além disso, se mostraram mais amigáveis, educados e respeitosos. Os jogadores alemães demonstraram carinho com a gente simples do Brasil e seus torcedores não deixaram um rastro de destruição por onde passaram.

O Brasil já tinha provado, por cinco vezes, que sabe ganhar uma Copa. Agora, repetindo 1950, prova que também sabe perde-la; que apesar de amar tanto o futebol, não comete a estupidez de colocar a vitória ou a derrota no mesmo patamar da vida e da morte. Vejo isso como um mérito, uma qualidade que o vizinho sul-americano ainda não tem.

E você, acha que havia motivo para torcer para a Argentina?

Persistência e simpatia premiadas*

Leia o post original por Antero Greco

Os estereótipos abarrotam nossa mente. Um deles define alemão como frio, contido, sem graça. Enfim, gente insossa e intragável. Conversa fiada. A alegria de criança que os jogadores da seleção da Alemanha esbanjaram, ao comemorar o quarto título mundial, destruiu preconceitos e serviu como fecho de ouro para o comportamento extraordinário, dentro e fora de campo, que tiveram durante a aventura no Brasil.

Os germânicos trabalharam e se divertiram na Copa. Não se enclausuraram, interagiram com o povo, seja em Santa Cruz Cabrália – a base da concentração –, seja nos deslocamentos pelo País. Não empinaram o nariz, apreenderam o espírito da terra, relaxaram com o sol. Foram felizes.

A felicidade da trupe de Joachim Löw refletiu-se no futebol que exibiu em sete desafios. Nem sempre impecável como no atropelamento contra o Brasil, mas regularmente eficiente. Sóbrio sem ser maçante, solto sem flertar com o desleixo, criativo sem beirar a insolência, duro sem exaltar a violência e a covardia.

A conquista consolidou-se na bacia das almas, com alemães e argentinos esbaforidos, as pernas a pesar toneladas, o raciocínio lento. O 1 a 0 deu a medida da pequena diferença na decisão, pois os hermanos apresentaram valentia e controle que faltaram à moçada de Felipão. Higuaín, Messi e Palacio tiveram chances de gol. Falharam, porém incomodaram Neuer. Estavam vivos até o último sopro no apito. No todo da competição, se valeram mais da técnica e da garra do que da tática.

O título alemão, ao contrário, não caiu do céu, não foi desejo dos “deuses do futebol”, imagem tão desgastada quanto a de meninos a chorar nas arquibancadas. A quarta estrela será cosida na camisa como prêmio ao planejamento e a ideias arejadas.

Os alemães há quase uma década preparam guinada na maneira de jogar. Se antes era pragmática, agora é também bonita. A habilidade, a ousadia, os passes bem feitos, os dribles foram levados em conta. A opção deu o ar da graça em Mundiais e Eurocopas, com chegada frequente às semifinais. Só que batia na trave…

Na África do Sul, em 2010, a reviravolta chamava a atenção. Já na primeira rodada, escrevi que a Alemanha parecia o Brasil de outrora e o Brasil de então lembrava a Alemanha de antes. Papéis invertidos. O afastamento das origens acentuou-se: os alemães mais soltos e os brasileiros, contidos. Quem está no rumo certo?

A razão me leva a cumprimentar os alemães, que têm feito bem para o futebol e são perseverantes. Sentimento sul-americano e admiração por Messi (que não considerei o melhor do torneio) me fazem lamentar a queda da Argentina, que amarga o próprio Maracanazo.
Pra fechar: que linda Copa!

Família desfeita. A CBF aceitou pedido de demissão de Felipão, informou a Globo no início da madrugada. Desenlace inevitável. Fosse o treinador, teria entregado o cargo em público, e de maneira peremptória, no sábado.

(*Minha crônica publicada no Estado de hoje, segunda-feira, dia 14/7/2014.)

Como está, fica*

Leia o post original por Antero Greco

A brincadeira é clássico da infância, e a meninada, ainda hoje, se diverte com o “Como está, fica!”. Um garoto mais esperto ordena que outros se imobilizem do jeito em que se encontrarem, como estátuas. Voltam ao normal só com o “Licença!”, palavra de ordem que, às vezes, demora…

A CBF, pelo visto, incorporou o espírito do joguinho de criança e pretende aplicá-lo ao futebol daqui, sobretudo no que se refere à seleção. O presidente eleito da entidade, Marco Polo Del Nero, engrossou o coro puxado por Parreira, Felipão, outros integrantes da comissão técnica, jogadores e tomou como ligeira falha de estratégia o desastre ocorrido em BH. Ora, detalhezinho besta levou à hecatombe diante dos alemães.

O herdeiro de Marin não vê motivo para alarme nem para alterações precipitadas, tomadas no calor da emoção. Pra quê? Tudo foi preparado em minúcias, a pressa é inimiga da perfeição e há tempo para a aventura na Rússia, em 2018. Desde que a seleção supere as Eliminatórias. Como?! Você acha moleza? Foi, meu amigo, foi. Em outros tempos. Depois de 7 a 1 na corcova, não custa optar por reserva nos prognósticos. Muita cautela.

A CBF cuida do futebol e tem direito de escolher executivos e gestores que lhe aprouverem. Isso significa que, se estiver satisfeita com os resultados, mantém a toada e não troca de colaboradores. Em teoria, não há o que contestar, por se tratar de entidade privada, autônoma. O de sempre.

Na prática, deve explicações públicas, por lidar com um patrimônio cultural do País. Esse esporte mexe demais com o imaginário popular, sem contar que virou negócio que movimenta bilhões. Portanto, a CBF não deve atuar como se pairasse acima de tudo. Negar o peso da derrota significa referendar a realidade paralela que os envolvidos no vexame ergueram. É a pior maneira de se comportar, uma vez que estimula o imobilismo, o “Como está, fica!”.

O tema é sério e envereda por terreno escorregadio, porque o governo ensaia entrar em cena. O ministro Aldo Rebelo admite que se buscam brechas para presença maior do Estado na gestão do esporte. Considera-se necessário seguir de perto as pegadas da cartolagem, mas falta respaldo legal para tal. Ok, claro.

Isso dá pano pra manga pra mais de metro, renderá batalhas de bastidores e de juristas. Pra ser sincero, coloco um pé atrás com palavrório oficial – tanto de CBF quanto do governo. Ainda mais quando se segue a catástrofes de repercussão estrondosa. Tende-se a falar demais e a agir de menos.

À espera de desdobramentos, imagino que papel representarão Felipão e Parreira no processo. Correto seria abrirem mão dos cargos, num gesto de inteligência e à altura da biografia de ambos. Não podem apegar-se a algo de que não necessitam. Muito menos devem sujeitar-se a servir de escudo para a CBF. Não merecem ser manipulados como fantoches.

P.S.: Quase esquecia: a seleção entra em campo contra a Holanda. Jogo inútil. Terceiro ou quarto lugar é igual.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sábado, dia 12/7/2014.)

 

O grande castigo*

Leia o post original por Antero Greco

O dia nublado, coroado por chuva forte, combinou à perfeição com o astral de Teresópolis e da Granja. Tanto a cidade quanto o local da concentração da seleção ficaram esvaziados, retomaram ritmo arrastado, agora com jeito de fim de festa. Evaporaram os símbolos de apoio à tropa que lutaria pelo hexa. Ainda assim, houve torcedores à porta e ao redor do condomínio Comary, além de resistentes jornalistas com a tarefa de acompanhar os últimos passos da turma de Felipão. Até a segurança relaxou. Malditos para sempre os 7 a 1!

Os treinos brasileiros não foram marcados por intensidade, quando a disputa pegava fogo. Não há como exigir empolgação neste momento. E o que se viu, no meio da tarde, foi um bloco de jovens profissionais submetidos a sessão de tortura e enfado. Porque não passa de punição adicional a obrigação de preparar-se para a disputa do terceiro lugar.

Louis van Gaal abordou o tema logo após a Holanda ter sido eliminada pela Argentina, na semifinal decidida nos pênaltis. O holandês criticou a penúltima partida no calendário da Copa. Ele a considera inútil, desnecessária, abusiva.

Pois estou com o gringo. Não há, em Mundiais, jogo mais desalentado, desenxabido e triste do que esse. Por quê? Óbvio e simples. Reúne equipes que viram truncado o sonho do título, caíram no penúltimo degrau, estão com feridas abertas e hematomas espalhados pelo corpo. Entram em campo destroçadas pelo peso da frustração. Se pudesse, qualquer uma arrumava as malas e saía do estádio direto para o aeroporto tão logo tenha escapado o lugar na finalíssima.

Cadê ânimo para cumprir o ritual de treinar, viajar, concentrar-se, ir ao estádio, perfilar-se na hora do hino e, como complemento, correr atrás da bola? O sujeito no campo sabe que, nas arquibancadas, haverá milhares de pessoas igualmente enfadadas, pois imaginavam a respectiva equipe na decisão. E, no entanto, lá está ela, supostamente atrás de uma medalha de bronze. Em Olimpíada, cabe o esforço suplementar. Em Copas, dá vontade de o jogador entregar a comenda aos cartolas. (E alguns a embolsariam com satisfação e sem pensar duas vezes.)

No caso do Brasil, então, fica muito pior. O time foi o anfitrião da competição, chegou cheio de prosopopeia, cercado do maior otimismo, de expectativa nas alturas. Levou trombada da Alemanha, desconjuntou-se, cada atleta doido de desejo de pegar uns dias de férias. Jogar o terceiro lugar é castigo, é expor-se a nova e derradeira humilhação. O negócio é torcer para que os holandeses estejam com menos disposição.

Mas o futebol é business, meu amigo – e essa partida representa quota de publicidade, ingressos, transmissão por tevê e etc. etc. Vende-se a ideia de que faz parte do fair-play os caídos nas semifinais se encontrarem, confraternizarem e brindarem os torcedores com o recital do adeus.

“Cascatolândia”, cravaria Toninho Cazzeguai, saudoso filósofo da várzea do Bom Retiro. No fundo, tal jogo é atitude impiedosa da Fifa.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sexta-feira, dia 11/7/2014.)

Felipão para ou continua na seleção?

Leia o post original por Antero Greco

Há possibilidade de a CBF manter a atual comissão técnica, pelo menos até o final do ano. Neste segundo semestre, há três amistosos marcados e, para não acelerar a troca de comando, a entidade ficaria sem mexer em nada. Deixaria tudo para 2015. A informação foi divulgada pelo jornalista Paulo Vinicius Coelho, da ESPN.

Eis um equívoco, num momento delicado do futebol brasileiro. A CBF tem direito de reconfirmar o grupo que trabalhou no Mundial, desde que chegue à conclusão de que funcionou e merece continuar o projeto para a próxima Copa. Da mesma forma, pode optar por mudança, parcial ou total, se considerar que se vê diante do fim de um ciclo.

O que não pode fazer é ficar no meio-termo e apelar para o imobilismo. Pedir para Felipão ficar só para quebrar o galho não faz bem a ninguém – nem à CBF, nem ao treinador, muito menos ao futebol do país. A postura tem de ser profissional, transparente e respeitosa.

Felipão também não pode submeter-se a pedido vexatório, se perceber que não passa de mandato-tampão até vir um substituto. Ele não é novato inseguro, nem paraquedista na profissão. É campeão do mundo, tem autonomia. Não há motivo algum para subserviência. Nem pode alegar fidelidade. A relação é de trabalho, e a imagem dele está em jogo. Já basta o arranhão com a desclassificação nas semifinais com os 7 a 1 para a Alemanha.

Na minha opinião, Felipão deveria descansar um tempo, passear, distrair-se. Deixar seleção de lado. Tem uma conquista, que não lhe será tirada. Fica com uma mancha, também. Melhor retornar, depois, de novo com um clube, ou com uma seleção estrangeira.

Com qual astral?

Leia o post original por Antero Greco

A seleção volta a treinar, daqui a pouco, dois dias após a maior surra em 100 anos de história. Os jogadores folgaram ontem e se reúnem para ensaiar a última apresentação na Copa que pretendia ter encerramento de ouro, com a conquista do hexa. Agora, no máximo, virá o terceiro lugar. Se ficar o quarto, tanto faz…

Imagino qual deva ser o astral para todos – aí incluída a Comissão Técnica – descer para o campo principal de treinamentos da Granja Comary. Quer dizer, se descerem, porque começa a desabar um temporal e tanto…

O que passa na cabeça deles, qual o peso de submeter-se a mais três dias para disputar uma partida absolutamente dispensável? Deve ser chato pra caramba. Já parecia um peso treinar quando havia chances. Agora, então, soa inútil.

Garanto que prefeririam estar bem longe, em casa, junto com parentes, para esquecer o que houve no Mineirão. Mas não creio que consigam superar tão já o trauma dos 7 a 1! O torcedor também não. Caramba, não chegar à decisão frustra. Mas cair com resultado de tal calibre dói.

360 segundos*

Leia o post original por Antero Greco

Rapaz, ficou atordoado com a lavada de anteontem? Não se preocupe, não há nada de anormal, pois se trata de fenômeno nacional. O Brasil amanheceu sem entender direito o que houve no Mineirão, com ressaca futebolística que se refletiu até na desanimada tentativa de secar a Argentina contra a Holanda.

A comissão técnica da seleção também continua chocada, em estado catatônico. Parece não ter se dado conta do significado dos 7 a 1 em Belo Horizonte. Por causa do enorme trauma que viveram à beira do campo, personagens importantes desse episódio negativo criaram realidade paralela, recorreram a escudo hipotético para defender-se e segurar o baque. Optaram por negar o tamanho do estrago, como se assim não tivesse existido, não passasse de um pesadelo momentâneo.

Fiquei triste (sem ironia) de ver o esforço de senhores com currículo venerável a responderem, ontem, perguntas com muitas evasivas. Estavam acuados, magoados, amargurados e tiveram reações distintas. Felipão acusou o golpe e ensaiou explicações mais espontâneas. Porém, foi sistematicamente interrompido por um Parreira irônico, impaciente e impermeável à estupefação. Pelo menos na aparência.

“O futebol brasileiro continua forte como sempre”, teve coragem de comentar. E, para provar que a imagem permanece inabalável, leu e-mail de uma senhora que se derramou em elogios a Felipão. A plateia de jornalistas esteve atônita diante da cena inusitada. Até Felipão ficou sem graça.

A necessidade de âncora era evidente. Tanto que campeões de outrora se agarraram à observação feita por um repórter a respeito “dos seis minutos de apagão” que resultaram em quatro dos sete gols alemães. Sete gols numa semifinal de Copa sofridos pelo time da casa! E, como se ali estivesse a essência da explicação para o desastre, lamentaram a pane, a inexperiência, a sofreguidão dos rapazes jogados às feras.

Eis o mal. Não digerir a frustração e vendê-la como ligeiro arranhão em  ”campanha de sucesso”, como procurou defini-la Parreira. Beirou a soberba. Do ponto de vista psicológico, compreensível o toque de arrogância, porque a paulada foi enorme e deixou zonzos a todos. Mas é sempre um mal transformar um tsunami – termo que Felipão usou – em mero acidente de percurso.

O Brasil não teve só seis minutos de blackout que resultaram na eliminação mais doída de sempre. A seleção viveu o Mundial em tilt, e os momentos de naturalidade foram exceção. Inútil rechaçar, não há como convencer o público do contrário. Foram 7 a 1! Sei, é duro engolir.

Espero que, superada a fase da devastação, da incredulidade, Felipão, Parreira, Paixão e demais recorram à larga experiência que acumularam em décadas e botem o bisturi no centro da ferida. Vai doer, mas fará bem a eles e ao futebol brasileiro.

Não se lida com 7 a 1 na cacunda com a ligeireza de governante a explicar malversação de verbas. O povo cai na lábia de político, mas não tente fazê-lo crer que 7 a 1 não pesam! Aí, amigo, não tem Cristo que convença.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, quinta-feira, dia 10/7/2014.)

PS. No texto original, saiu escrito “três dos setes gols alemães”. Foram quatro, com a devida correção aqui. Ou seja, também fiquei atordoado com a surra… 

Indigestão bem-vinda*

Leia o post original por Antero Greco

Dia desses, escrevi que o futebol precisa de superlativos, sobretudo em Copa, que não é torneio que se contente com pouco. Isso mesmo. Há ocasiões nas quais o excesso cai bem, pois torcedores têm necessidade de emoção alguns pontos acima do normal, para dar um bico no marasmo do cotidiano. Desejo que se torna maior agora, com o Mundial a disputar-se em casa; não se aceita qualquer merreca.

Dito isto, meu amigo, admito a premissa de que hoje espero Brasil exagerado no desafio com a Alemanha. Não basta desempenho funcional, eficiente, dentro de padrões rotineiros. Sei, está em jogo vaga para a decisão e o triunfo é obrigatório. Não vamos discutir por tal motivo. Mas deve ir além.

Não se trata de intolerância, mania de grandeza ou picuinha besta. Muito menos torcer contra. Nada disso. Ao contrário, significa constatação. Qual? Vamos lá. Uma seleção cinco vezes campeã do mundo não pode passar um campeonato do qual é a anfitriã a oferecer aos fãs feijão com arroz, com uma farofinha por cima. Tá certo, o básico alimenta, porém neste momento vale a adição de torresmo, couve, tomate, ovo, batata e banana fritas e um filezão de meio quilo.

Taí: a rapaziada de Felipão deve uma indigestão de alegria ao público para alcançar o degrau final na caminhada para o hexa. As cinco partidas anteriores quebraram o galho, serviram para o gasto. Só que não deliciaram. Sem metáforas: o time tomou sufoco contra Croácia, México, Chile, Colômbia. Só não teve muito trabalho diante de Camarões.

A alegação para dificuldades no clássico no Mineirão está na ponta da língua e faz sentido: os alemães entendem do riscado. Claro, não é de hoje. Nenhuma seleção atinge 13 semifinais em 18 Mundiais. Tem outra: faltam Neymar e Thiago Silva, duas baixas de peso. Mas adianta lamentá-las para sempre? Não, e podem ser compensadas pelo conjunto. Também soa inútil insistir na tecla de instabilidade emocional, pressão, etc e tal. Desafinou.

Felipão matuta alternativas para compensar os desfalques e soltou pistas no treino de ontem pela manhã em Teresópolis. Há dúvida entre optar por formação tradicional, com o retorno de Luiz Gustavo ao meio, Dante no lugar de Thiago e Willian na vaga de Neymar. Além deles, Maicon permaneceria na lateral-direita.

A variante viria com Paulinho no meio-campo, para ajudar Fernandinho e Luiz Gustavo na marcação, com auxílio repartido entre Oscar e Hulk. E Fred continuaria na frente, à espera de bolas que não têm chegado. Ou de aproveitar as que se oferecem para ser chutadas a gol.

A Alemanha coloca o Brasil em alerta, pela regularidade, qualidade de gente como Müller, Neuer, Schweinsteiger, Lahm, Hummels. E pelo toque de bola e esquema tático consolidado, testado e aprovado. Pessoal, os alemães têm um quê de favoritismo. Mas podem ser batidos. Por que não com garra, dedicação, suor – aquelas coisas todas –, e principalmente com futebol soberbo? Está na hora da congestão de prazer.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, terça-feira, dia 8/7/2014.)