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Heróis acidentais*

Leia o post original por Antero Greco

Treinador em geral exalta o espírito coletivo, pois futebol é conjunto, solidariedade, reciprocidade, camaradagem, etc e tal. Mas, no fundo, torce para que o talento individual resolva, sobretudo se a parada estiver dura. Por isso, com frequência faz apostas arriscadas, em substituições ou em convocações, na esperança de desatar nós. E se sente abençoado, quando a escolha dá certo.

Tite e Cesare Prandelli provaram nestes dias o gostinho da descoberta da pólvora. O brasileiro resolveu, em cima da hora, levar para Buenos Aires o novato Romarinho, autor dos gols da vitória do Corinthians no clássico de domingo com o Palmeiras. O moço ficou no banco, anteontem, em La Bombonera, à espera de oportunidade para enfrentar o temível Boca, o bicho-papão. Entrou minutos antes do encerramento, ignorou a mística do estádio, a pressão da torcida local e, na primeira bola que pegou, deu uma cavadinha e marcou o gol de empate. Gol que mantém a equipe na rota do título e iluminou Tite.

O técnico italiano foi tão peitudo quando o colega de cá, senão mais: tempos atrás, avisou que Cassano e Balotelli, dois doidos de pedra, imprevisíveis, temperamentais e encrenqueiros, teriam oportunidade de defender a Squadra Azzurra na Eurocopa. A escolha deixou torcedores e críticos com cabelos em pé. Ter um matusquela no elenco passa. Mas dois?! Era para internação.

Pois ambos estão na turma dos responsáveis, junto com Buffon e Pirlo, por levar a Itália à final da Eurocopa de 2012. Cassano se comportou taticamente muito bem, enquanto Balotelli tem feito os gols decisivos, como os dois de ontem diante da Alemanha. Há sempre o temor de que uma hora vão aprontar – até o momento têm alarmado os adversários com ousadia e autoconfiança.

O futebol vive desses heróis, das estrelas solitárias, por mais que se ressalte o caráter comunitário. A perfeição está na combinação do equilíbrio entre os setores que compõem um time e o talento. O sujeito que torna tudo diferente é imprescindível, mesmo em tempos de politicamente correto. O Santos dos anos 60 era gigante, mas se tornava monstruoso porque tinha Pelé. O mesmo ocorria com o Cruzeiro da época de Tostão, o Palmeiras de Ademir, o Flamengo de Zico e assim sucessivamente até o Barcelona atual, que tem Messi como a síntese da qualidade. O toque do gênio, mesmo que seja fugaz, fascina.

Não é por acaso que Romarinho tenha sido o jogador mais citado do Corinthians – como você pode comprovar abaixo, nesta página mesmo. Não será injusto que Balotelli esteja nas manchetes dos jornais italianos de hoje. O futebol cultua os protagonistas da hora, tão necessários quanto os atores principais no teatro ou no cinema, as primas donas na ópera, os solistas nas orquestras e nas bandas.

Tanto melhor se tiverem o respaldo dos colegas e de um sistema sólido, que lhes deem sustentação. Algo que Corinthians e Itália mostraram nos campeonatos de que são finalistas. O campeão brasileiro voltou da Argentina com a justificada esperança de proeza inédita. Ok, o ideal teria sido vencer, mas o 1 a 1 caiu bem. Só que terá de jogar mais, diante de seu público e não pode perder de vista a tradição e o currículo do adversário. A disputa permanece aberta.

Raciocínio semelhante se aplica à surpreendente Itália, que abandonou a retranca nos campos da Polônia e da Ucrânia, e com autoridade almeja o troféu. Trata-se de desafio e tanto furar o iceberg defensivo espanhol.

Ora, Romarinho e Balotelli neles!

*(Minha crônica no Estado de hoje, dia 29/6/2012.)

Itália supera a Alemanha no melhor jogo da Euro-12

Leia o post original por Antero Greco

A quarta-feira futebolística tinha me deixado com indigestão, depois de ver a chatice de 180 minutos de Espanha x Portugal e do jogo amarrado entre Boca x Corinthians. Fui recompensado nesta quinta, com Itália 2 x Alemanha 1. Não sei como será a final entre italianos e espanhóis, mas esta foi a melhor partida até agora da Euro-12.

A Azzurra e a Alemanha fizeram um espetáculo gostoso de se ver, um prazer pra quem curte o joguinho de bola. Houve marcação de ambos os lados, mas houve sobretudo vontade de jogar, de criar, de ir à frente. Consequência disso: movimentação do começo ao fim. Nada a ver com a sonolência que têm sido as apresentações que envolvem a Espanha.

A Alemanha teve a primeira chance com cinco minutos, em lance que Pirlo salvou a pele de Buffon e da Itália, em arremate de Khedira. Passado o susto, os italianos se assentaram e, aos poucos, impuseram o ritmo que têm apresentado na competição – incluindo a fase inicial do clássico em que empataram com os espanhóis.

A classificação da Itália começou a se tornar real aos 20 minutos, numa jogada de Cassano pelo lado esquerdo, na linha de fundo, que terminou em cabeçada certeira de Balotelli. Os alemães responderam, arriscaram, mas pararam em Buffon. Assim como Ozil e Khedira brecaram perderam o duelo no meio-campo, regido pelo maestro Pirlo.

Itália mais tranquila, mortal nos contragolpes, consolidou a proeza com um lançamento longo, que Balotelli não desperdiçou e mandou um torpedo que Neuer mal conseguiu enxergar. O maluco-beleza italiano, de origem africana, ainda tomou o amarelo por comemorar sem camisa. Foi substituído no segundo tempo por sentir cãibras.

A Alemanha sentiu o golpe, se esforçou na etapa final e só teve esforço recompensado nos descontos, em pênalti (pra mim duvidoso) cobrado por Ozil. Sem tempo para tentar o empate. Os alemães mostraram futebol digno, como haviam feito na África do Sul, e de novo caíram. Tomara que não abram mão dessa opção, em nome da eficiência. Será um golpe para quem aprecia o jogo bem jogado.

E a Itália? Bem, a Itália honrou a tradição de ser movida a crises e escândalos. Foi assim em 82 e em 2006, quando conquistou os títulos mundiais. Vinha de escândalo de loteria e jogos arranjados. Agora, a história parece que se repete. Vai se repetir também no desfecho? Talvez.

Pirlo, ou a arte de desestabilizar o rival

Leia o post original por Antero Greco

Futebol é jogo coletivo, e nele tática e conjunto contam. Isso a gente está cansado de saber. Mas o talento individual pesa, e como! A experiência, o estalo de genialidade, o atrevimento de um jogador podem definir uma partida, uma classificação, uma final.

O lampejo de arte quem teve neste domingo foi Andrea Pirlo, meio-campo da Itália. O veterano frequentador da Azzurra contribui para o sucesso de sua equipe na hora de cobrar o pênalti que lhe cabia na sequência decisiva contra a Inglaterra.

Pirlo era o terceiro batedor e a Itália estava em desvantagem de 2 a 1, pois Balottelli havia acertado e Montolivo tinha mandado para fora, enquanto Gerrard e Rooney não desperdiçaram as chances deles. Na maior cara de pau, Pirlo tocou de leve, de cavadinha, para desconcertar Hart. Gol de empate.

Mais do que isso, foi gol para desconcentrar os ingleses, para desmoralizar. A tevê mostrou o técnico Cesare Prandelli com cara de orgulho e susto. Pirlo voltou festejado por seus companheiros. Daí era a vez de Young bater e…. no travessão. A primeira parte da estratégia deu certo, o britânico acusou o golpe.

Então, Nocerino mandou ver o seu chute, marcou e a Itália saltou à frente: 3 a 2. Cole se aproximou com enorme responsabilidade, correu, chutou e Buffon defendeu. Pânico no English Team. Pânico que virou desolação, porque Diamanti cobrou o último e fez 4 a 2.

A Itália se classificou, depois de 120 minutos de 0 a 0, depois de jogar melhor do que a Inglaterra, de criar mais, de chutar muito mais a gol, e depois do susto do erro de Montolivo. Mas se garantiu porque tinha Pirlo como o divisor nos pênaltis. E porque tem história e camisa que pesam demais.

Agora, fará com a Alemanha o segundo maior clássico do futebol mundial. Como é?! O primeiro? Brasil x Argentina, sempre. Na sequência vêm Brasil x Itália, Argentina x Itália, Brasil x Alemanha e Argentina x Alemanha. Ou seja, são as quatro grandes escolas. No caso europeu, uma das duas vai para mais uma final.

A Azzurra acha rumo e avança, para azar dos rivais

Leia o post original por Antero Greco

Há jogadores dos quais não se deve duvidar. Eles podem passar um período ruim; mas, por serem bons de bola, de repente reencontram o rumo. Taí o Cristiano Ronaldo pra confirmar. Não foi bem nos dois primeiros jogos de Portugal na Euro-12, porém apareceu na hora decisiva e comandou o time na partida que garantiu a classificação para a fase seguinte, com os gols na virada por2 a1 sobre a Holanda.

Há seleções, também, para os quais não se deve torcer o nariz. Têm história, títulos e tradição – uma hora retomam o caminho certo, mesmo se a largada é duvidosa. Eis a Itália para comprovar essa tese. A Squadra Azzurra empatou com Espanha e Croácia, foi para a última rodada do Grupo C pressionada para vencer a Irlanda. E o que deu? Deu2 a0 para os tetracampeões mundiais, que assim se mantêm vivos no torneio.

A Itália contou com a qualidade de seus jogadores, melhores do que os esforçados irlandeses. E ainda teve a ajuda indireta de espanhóis e croatas, com comportamento correto e esportivo no outro confronto que fechou a chave. Se ambos tivessem empatado, de preferência por2 a2, seguiriam em frente, independentemente do que a Itália tivesse feito contra os irlandeses.

Não houve mamata, ignorou-se a possibilidade de ter “dois feridos e não só um morto”, como definiu há poucos dias o goleiro Buffon a respeito de arranjos de resultados no futebol italiano. Consequência dessa postura honesta foi a vitória da Espanha por1 a0 e a confirnação da liderança do grupo, com 7 pontos,2 amais do que a Itália. A Croácia volta para casa mais cedo, mas desta vez ganhou o futebol.

A Itália vai para as quartas (conhecerá hoje seu adversário), tende a crescer, como já ocorreu em muitas ocasiões, mas ainda tem de melhorar. O técnico Cesare Prandelli mudou o time para pegar os irlandeses, tentou fórmula mais ofensiva, optou pela pressão para encurralar os rivais e esperou para ver no que isso ia dar.

Quem livrou a cara de Prandelli e do calcio foram os dois malucos-beleza que levou para a Eurocopa: Cassano abriu o marcador, antes do intervalo, e Mario Balotelli, que entrou na segunda etapa e fechou a conta com um belíssimo gol.  Aí vem a Azzurra!

Portugal bate Dinamarca no melhor jogo da Euro-12

Leia o post original por Antero Greco

Jogo bom, pra mim, é aquele que tem muitos gols, chances perdidas, placar indefinido, nervosismo até o final. Esses ingredientes todos se combinaram na partida em que Portugal, agora há pouco, derrotou a Dinamarca por 3 a 2, em Lviv, na Ucrânia. O resultado deixa o Grupo B embolado, com as duas equipes com três pontos. Logo mais jogam Holanda (zero ponto) x Alemanha (três). Chave bem embolada, como se previa.

Velocidade e ousadia também fizeram parte da rotina do duelo. Os portugueses tomaram a iniciativa do jogo, pressionaram, fecharam espaços para os dinamarqueses e abriram dois gols de vantagem, com Pepe aos 24 e com Postiga aos 36. A situação só não ficou totalmente tranquila, antes do intervalo, porque a Dinamarca diminuiu com Brendtner aos 40. Ele só confirmou a estrela que tem contra os lusos, pois havia marcado em quatro duelos anteriores.

E foi o próprio Bendtner quem colocou pilha total, ao empatar aos 35 da etapa final, depois de os dinamarqueses terem forçado o ritmo. Aquele placar era devastador para Portugal, porque o deixava bem perto da desclassificação, após a derrota na rodada inaugural. Mas Varela, aos 42 minutos, se encarregou de manter as esperança dos vice-campeões europeus de 2004.

Até agora essa foi a melhor partida da equilibrada Euro-12.  Valeu pela entrega das duas equipes. Um confronto, porém, no qual não brilhou Cristiano Ronaldo. O astro português esteve aquém do que costuma apresentar no Real Madrid – e na própria seleção -, perdeu chance clara, antes do empate da Dinamarca, e ainda tomou um cartão amarelo. Pareceu abatido com o desempenho.