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Rueda pisa na bola com o Fla

Leia o post original por Antero Greco

Direto ao assunto, como zagueiro antigo ia nas canelas do centrovante: não gostei da forma como Reinaldo Rueda deixou o Flamengo. Com a ressalva, repito: é direito dele, como qualquer cidadão livre, trabalhar onde bem entender.

E que bom que tenha mercado; muita gente padece com desemprego.

Só poderia ter escolhido outra estratégia para ir cantar em outra freguesia, no caso a seleção do Chile. Faz pelo menos duas semanas que imprensa de Santiago (e de Bogotá) trazia informações sobre as conversas entre dirigentes locais e o técnico colombiano. A perspectiva de ruptura crescia à medida que o tempo passava.

E Rueda em silêncio, mesmo com tentativas – segundo afirmam cartolas rubro-negros – de contato para esclarecer a situação. Nada de nada. Ele ficou num mutismo só, enquanto oficialmente curtia as férias do futebol brasileiro.

Como bola cantada, deixou a Colômbia na noite de domingo para supostamente se apresentar ao Fla nesta segunda-feira. Foi o que fez, mas para dizer adeus. Ok, pode-se alegar que, por um lado, agiu corretamente, porque veio pessoalmente se desligar. Perfeito.

Por outro, há a mancada: se estava propenso a aceitar a oferta de novo emprego, por que não antecipou a volta para liberar-se a si e ao Flamengo? Sei lá, podia ter feito isso cinco, seis dias atrás, logo após as festas de fim de ano.

Ah, mas ainda não estava certo… Ora, pelo andar da carruagem o papo com os chilenos sempre evoluiu; em nenhum momento empacou. Sendo assim, teria sido elegante Rueda deixar bem clara a tendência à ruptura.

O Flamengo também vacilou. Assim que espoucaram as notícias sobre o interesse chileno, deveria ter pressionado o treinador, sem chance para enrolação. Era encostar na parede e cobrar: vai ou fica? Com isso, ganharia tempo para buscar substituto. O Fla comeu mosca.

Vá lá, anunciou Paulo Cesar Carpeggiani agora à noite. Nome conhecido no clube e disponível. Mas teria sido a alternativa principal, se estivesse evidente que perderia Rueda? Tenho cá minhas dúvidas. Assim como prefiro ser cauteloso no prognóstico sobre o desenvolvimento do projeto com o novo técnico.

No mais, está claro que o futebol doméstico virou trampolim para os gringos se ajeitarem com “coisa melhor”. Vêm para cá, fazem uma firulinha e logo se mandam…

Flamengo sem tempo para perder

Leia o post original por Antero Greco

Tomara que nas próximas horas termine o mistério em torno do futuro de Reinaldo Rueda. O treinador colombiano neste momento (final de domingo) está no voo que o trará ao Rio na manhã da segunda-feira. E, assim que desembarcar, vai reunir-se com a direção do Fla e informar se fica para a temporada 2018 ou se baterá asas e se mandará para o Chile.

Não se discute o direito de Rueda, como cidadão livre e profissional autônomo, decidir o que pretende na vida e na carreira. Ele vai para onde lhe convier. Se permanecer no Fla, ótimo; assim cumprirá contrato que tem em vigor. Se optar pela seleção chilena, sem problema também, desde que respeite os termos do acordo com o clube carioca.

O que não pode se estender é a dúvida que paira desde a primeira quinzena de dezembro, quando se intensificaram as especulações em torno da mudança de ares. Os chilenos não escondem desejo de tê-lo num processo de recuperação da seleção local. Antes, fizeram muito barulho e todo dia deixaram vazar na imprensa novidades sobre as negociações.

Rueda é que se manteve calado – e isso desencadeou boatos e incerteza. Ok, ele estava de férias e, portanto, sem obrigação de manifestar-se. Mas, diante do zumzunzum internacional, também não custava nada mandar um comunicado oficial para o Flamengo ou colocar um filminho ou texto qualquer em mídias sociais.

Na base do “Olha, gente, nada disso é verdade e logo estarei de volta ao Rio.” Ou: “Recebi propostas e estou estudando se valem a pena ou não. Assim que houver novidades, falarei.” Simples e direto. Hoje em dia as mídias sociais são usadas para banalidades e para uma ou outra informação mais séria. Seria o caso…

Mas o que interessa mesmo é o Flamengo. Não pode passar desta segunda-feira a definição sobre Rueda. Se ele for embora, imediatamente é preciso buscar alternativa. Na verdade, se fosse dirigente rubro-negro, eu teria pressionado o técnico para que se pronunciasse logo. E, se enrolasse, sondaria o mercado na mesma hora. Teria plano B na manga.

O Fla não pode ficar à mercê de treinador, ou de jogador, ou de quem quer que seja. Ele está acima de tudo isso. E, é bom lembrar, há desafios importantes em 2018, sem tempo a perder. Planejamento, elenco, programação, tudo passa pelo crivo de uma Comissão Técnica. Se Rueda pegar o boné, o Fla já larga em desvantagem em relação aos concorrentes.

Gracias Medellín

Leia o post original por André Kfouri

Gracias Medellín. Por abrir seu estádio para que “sejamos uma só luz”.

Gracias Medellín. Por atrair milhares de colombianos a uma cerimônia em que não se chorou a morte de nenhum colombiano.

Gracias Medellín. Por convidar o mundo do futebol a uma noite de celebração de humanidade. E por nos receber com tanto afeto gratuito. 

Gracias Medellín. Por nos comover pelo que não somos, pelo que deveríamos ser, pelo que deveríamos ser capazes de fazer. Todos os dias. 

Gracias Medellín. Por uma quarta-feira de futebol em que a bola ficou imóvel, emocionada por sua capacidade de reunir pessoas em nome dela. 

Gracias Medellín. Pelo branco, pelo verde, suas cores, nossas cores, ontem, hoje e sempre. 

Gracias Medellín. Pelo auxílio, pelo cuidado, pelo esforço, pela solidariedade, pelo exemplo, pela lição. 

Gracias Medellín. Por recolher os mortos e tratar os feridos, estejam eles nos seus hospitais ou em Chapecó, em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Brasil. 

Pois feridos, de uma forma ou de outra, todos ficamos, todos somos. Gracias Medellín. 

Gracias Medellín. Também por uma dose de constrangimento provocada pela dúvida se seríamos assim. E pela impressão de que não seríamos. 

Gracias Medellín. Pela lembrança do verdadeiro significado do futebol, e das sensações que ele nos proporciona. 

Gracias Medellín. Pela mensagem aos corações mais afetados por essa tragédia indescritível, a de que eles não estão sozinhos, apesar de se sentirem perdidos. 

Gracias Medellín. Por nos apontar o caminho que provavelmente não seguiremos. E é por isso que também choramos. 

Gracias Medellín. Muchíssimas gracias. 

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O Celtic apanhou do Barça. Sem perder a linha

Leia o post original por Antero Greco

O Barcelona deitou e rolou pra cima do Celtic Glasgow, nesta terça-feira, na abertura da fase de grupos da Champions. Fez 7 a 0 sem grande esforço e, para variar, mostrou que não entra na competição como brincadeira.

Ok, a expressão “deitou e rolou” é chavão. Mas cabe aqui, porque o Barça aplicar surras também é lugar-comum.

Mas o que me chamou a atenção foi o comportamento dos jogadores do time escocês. Entraram na roda, ouviram olé! da torcida catalã, cansaram de buscar bola na rede. Porém, não perderam a elegância, o prumo, o fairplay. Não  distribuíram botinadas, ninguém saiu de campo falando em “falta de respeito”.

Ao contrário, eles mostraram respeito pelos rivais e por si próprios. Porque, se apelassem para a ignorância, se rebaixariam, passariam  recibo de incompetentes e desleais. Para usar outra palavra que você nunca ouviu: foram “machos”, ao apanharem sem reclamar.

Também pudera, não havia o que fazer. Messi, Neymar, Suarez & Cia estavam impossíveis. Neymar, em especial, teve desempenho muito bom, ao participar de mais da metade dos gols. E ainda deixou o dele. Solto, atrevido e objetivo.

Para quem não viu, o resumo da farra. Messi abriu a porteira, aos 3 minutos e fez o segundo aos 27. Antes, Dembele perdeu a chance de empatar, ao desperdiçar pênalti aos 24, defendido por Der Stegen.

Na etapa final, foi aquela enxurrada: Neymar aos 5, Iniesta aos 14, Messi aos 15, Suarez aos 30 e aos 43. Para desconsolo da turma do Glasgow, que percebeu o quanto é duro ser sparring desses artistas, quando estão dispostos a dar espetáculo.

Acontece…

É só o começo

Leia o post original por André Kfouri

A ênfase foi tamanha no “duelo pessoal” entre Mourinho e Guardiola, que convém ressaltar os dois cumprimentos entre os técnicos no dérbi de Manchester: antes, um sorridente Mourinho, no papel de anfitrião, em um semi-abraço em Pep; depois, fisionomias contidas, em um “até a próxima” que se repetirá ao menos duas vezes por ano nas próximas três temporadas. 

Além de uma ameaça ao que de fato importa, a quantidade de tempo e tinta investidos na rivalidade entre eles parece ser dramaturgia exagerada. Enquanto se tenta transmitir um clima de animosidade, Guardiola revelou que conversou normalmente com Mourinho no recente encontro de técnicos da Premier League. O primeiro enfrentamento no Campeonato Inglês se deu em um ambiente de menor tensão fora do campo. 

A narrativa do “duelo de estilos” também erra na dose. Sim, Mourinho e Guardiola pregam ideias de futebol distintas na essência, mas seus encontros não são eventos especiais em que tais ideologias se chocam. Pelo simples fato de não haver muitos outros times – especialmente neste nível – que praticam o tipo de jogo que o City apresenta hoje. 

Guardiola é a diferença e, quando seus times jogam, do outro lado sempre haverá um plano “oposto”. A presença de Mourinho realça o perfil do evento, relembra os dias neuróticos na Liga Espanhola, oferece muito a se dizer e escrever sobre o que não pisa no gramado. Mas no que se refere a futebol, é o de sempre.

Esperava-se um jogo com mais possibilidades para o Manchester United. O sistema de Mourinho é menos elaborado e requer menos tempo para ser compreendido e aplicado com bons resultados competitivos. O foco na precipitação e exploração do erro do oponente parecia promissor diante de um time naturalmente mais propenso a falhar. 

No entanto, em um primeiro tempo exuberante, o City moveu a bola com precisão e velocidade espantosas, dominando o rival em seu próprio estádio e construindo uma vantagem de 2 x 0 que, se não foi pequena pelo volume produzido, certamente refletiu o desequilíbrio em campo. 

Clara ideia do que fazer, e como. Futebol fluido e técnico. Associação permanente, recuperação quase imediata. E gols. O City mostrou o que se costuma ver de um time dirigido por Guardiola, sem dar indícios de que o trabalho começou há apenas dois meses. A diferença em relação à temporada passada é tão evidente que o “argumento” de que o técnico catalão “só pega equipes prontas” – além de falta de conhecimento, uma esquizofrenia no ponto de vista futebolístico – deve passar algum tempo submersa, aguardando as derrotas que fatalmente virão. 

Muito se falará sobre o gol de De Bruyne, produto de uma bola longa da defesa e desviada pelo alto para a finalização do belga. “Futebol anti-Pep”, dirão. Equívoco. Crenças fundamentalistas não se aplicam a um jogo em que agregar conceitos leva a diferentes formas de atuação. A variação contribui para o engano e diminui a previsibilidade. Guardiola usou o contra-ataque no Bayern, investiu na bola longa nos confrontos com o Borussia Dortmund, e declarou que pretendia adaptar-se ao futebol na Inglaterra. 

O gol de Ibrahimovic, servindo-se de uma falha de Claudio Bravo, injetou competitividade em um jogo que até então era unidimensional. O goleiro chileno pode se considerar afortunado por ver apenas um de seus muitos equívocos ser punido. Mas a leitura sobre sua atuação deve ser feita com base no que a motivou. 

A análise correta não é a afirmação “Joe Hart não falharia tantas vezes em um jogo importante”, e sim a pergunta “Hart seria capaz de atuar como o décimo-primeiro jogador de linha?”. A resposta é não e, dessa forma, o Manchester City não estaria habilitado a controlar as ações como fez na primeira metade do clássico. 

Fortalecido pelas substituições feitas por Mourinho, o Manchester United equilibrou o encontro no segundo tempo e conseguiu desconcertar a circulação do City, que pareceu, por momentos, receoso em relação a como confrontar o ímpeto do rival. Se houve um defeito claro no time de Guardiola, foi a incapacidade de marcar o terceiro gol em um dos contragolpes que se apresentaram, o que propiciou um final de jogo emocionante pela possibilidade do empate a partir de bolas alçadas na área de Bravo. 

Mourinho criticou seus jogadores e reclamou da arbitragem, recorrendo a uma faceta de seu comportamento nas derrotas que parece ser parte de um modelo de jogo: contar com decisões do árbitro e culpá-lo por não tê-las tomado. Vindo de um técnico tão capaz e no comando de jogadores de qualidade indiscutível, a transferência de responsabilidade soa como tentativa de desviar o debate dos óbvios aspectos de jogo em que seu time foi superado em casa. 

Ainda é muito cedo, claro. Principalmente para restringir a corrida pelo título inglês à cidade de Manchester. E mesmo em um exercício hipotético que só considera o City e o United, o resultado deste sábado importa pouco. 

O troféu não será decidido pelo que acontecer entre eles, mas pelo que cada um fizer contra os outros. Pelo que cada um conseguir longe de suas casas, em campos enlameados pela chuva, em tardes e noites marcadas pelo vento cortante que acompanha as baixas temperaturas na ilha. 

A Premier League também é isso, e, para ser bem sucedido nesse tipo de ambiente, o futebol de Mourinho sofre menos do que o de Guardiola. Embora a vitória de hoje tenha apresentado uma equipe mais avançada do que se aguardava tendo em vista o jogo sofisticado que o City pretende praticar, o trabalho de Pep está apenas começando. 

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Portugal e França, tropeços na largada para Copa-18

Leia o post original por Antero Greco

Portugal e França saíram por cima, após a Euro-16. Os nossos patrícios, porque conquistaram o título pela primeira vez. Os franceses, anfitriões da competição, se contentaram com o vice. De qualquer forma, o fato de fazerem a final marcou a boa fase que atravessam.

Seria de esperar, portanto, que tivesse boa estreia no caminho para o Mundial da Rússia, mesmo fora de casa. Engano. Portugal caiu por 2 a 0 diante da Suíça, no Grupo B. A França não passou do 0 a 0 com a Bielorrússia, no A. Classificam-se os vencedores de cada uma das nove chaves europeias; os oito melhores segundos colocados jogam quatro vagas entre si na repescagem.

Portugal abriu mão de Cristiano Ronaldo, em recuperação de contusão no joelho que sofreu no jogo com a França, em julho. E sentiu demais a ausência de seu principal jogador. O técnico Fernando Santos escalou o que tem de melhor e viu a equipe emperrar contra os suíços, atentos e firmes na marcação. E que souberam aproveitar oportunidades aos 24 minutos (Embolo) e aos 30 (Mehmmedi), no primeiro tempo.

Fernando Santos saiu todo confiante, apesar de admitir que o time esteve aquém do esperado, na primeira derrota do time sob o comando dele, em 14 apresentações. O treinador avisou que, após a escorregada inicial, agora voltará a rotina de “ganhar, ganhar, ganhar”. Será? Ele se baseia nas sete vitórias consecutivas na classificação para a Euro.

No Grupo de Portugal, a Hungria empatou por 0 a 0 com as Ilhas Faroe, enquanto a Letônia fez 1 a 0 em Andorra. Pensando bem, com rivais desse nível, até que Fernando Santos não está tão enganado assim.

Mais preocupante foi o empate francês. A equipe de Didier Deschamps chutou 24 vezes ao gol, sem sucesso contra a Bielorrússia. Por sorte, outros dois concorrentes fortes, Suécia e Holanda ficaram no 1 a 1. A Bulgária fez 4 a 3 em Luxemburgo. Em teoria, essa chave é mais complicada do que a dos portugueses.

Em todo caso, é bom se ligarem logo…

Messi e a estAFA 

Leia o post original por André Kfouri

Não é difícil notar a carga emocional na declaração de Lionel Messi sobre abandonar a seleção argentina. Mais uma frustração na final da Copa América do centenário, desta vez com pênalti desperdiçado, o levou a um visível estado de depressão. 

Quando alguém diz “isso não é para mim”, está, de fato, sendo escuso. É quase uma admissão de que existem objetivos inalcançáveis e que sua presença compromete os sonhos dos outros. Tente aplicar isso a Messi e qualquer time de futebol do qual ele faça parte. É simplesmente insano. 

Tentar responsabilizar um jogador específico por uma derrota em um esporte feito para ser praticado coletivamente é infantil. É uma proposta tão fútil quanto dizer que “Maradona ganhou a Copa de 86”, ou que existem “jogadores de clube e jogadores de seleção”. Mitologia. 

Do ponto de vista futebolístico, essas são tentativas de aplicar a cultura de ignorância de arquibancada à análise de desempenho. Campos distantes. Essas tolices podem sobreviver nas redes antissociais ou nos programas midiáticos que não pretendem ser levados a sério. No mundo real, felizmente, não têm valor algum. 

O que a seleção argentina precisa descobrir é por que, na decisão de um torneio em que exibiu um jogo associado até então inédito, voltou a insistir no “bola para Messi e que Deus nos ajude”. Esse é um mistério maior do que a dúvida sobre a sequência do melhor jogador do mundo em seu time nacional. 

A anunciada renúncia de Messi à seleção também tem forte conotação política. Está relacionada ao caos na AFA, uma organização que consegue ser pior do que a CBF. O futebol argentino está, há tempos, afundado na incompetência e na corrupção. O sentimento dos jogadores se reflete no anúncio de Messi, posição na qual ele está acompanhando por Mascherano e Aguero. Certamente não são os únicos, apenas os mais vocais. 

A crítica aberta que Messi publicou em seu perfil no Instagram, durante o atraso do voo da seleção argentina para New Jersey, é um exemplo de atitude coletiva. Quando alguém como ele adota esse tipo de postura, fala em nome de todos. 

Por que um jogador, seja qual for, deve carregar em seus ombros a culpa por uma decepção, enquanto os culpados por derrotas mais graves seguem rindo em seus escritórios confortáveis?

Um dos grandes fracassos da AFA reside na nacionalidade dos responsáveis pela transformação da seleção chilena. 

Bielsa revolucionou os métodos de treinamento e instituiu noções de jogo coletivo. Sampaoli aprimorou o trabalho de seu mentor, fortalecendo a mentalidade dos jogadores no caminho para o primeiro título da seleção, no ano passado. Pizzi, apesar de um início reticente, dirigiu um time confiante e vencedor nos jogos que comemoraram o centenário da Conmebol nos Estados Unidos. 

Os três são argentinos. Como Messi. 

Pensar na Argentina sem seu melhor jogador leva a sensações de desperdício e desgosto. Quando a tristeza não estiver mais estampada em seu rosto – Aguero disse que nunca viu Messi tão devastado como no vestiário do MetLife Stadium – e disseminada por suas palavras, Messi pode reconsiderar seus planos e ajudar a levar a Argentina à Copa da Rússia. Este, sim, deve ser seu torneio definitivo pela seleção. 

Ou talvez a estafa o tenha consumido. Neste caso, aqueles que não sabem apreciá-lo têm motivos para estar muito mais preocupados do que com uma final perdida. 

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Pizzi, outro técnico argentino em alta

Leia o post original por Antero Greco

Os técnicos argentinos continuam cheios  de moral.

O mais novo nessa constelação é Juan Antonio Pizzi, o Lagarto, apelido dos tempos de jogador de futebol.

Pois o Lagarto, aos 48 anos, anda exibindo sorriso enorme pelos campos norte-americanos, neste centenário da Copa América. Por causa da campanha do Chile, seleção sob o comando dele, que passou pela Colômbia e vai à decisão diante da Argentina de Messi & Cia., domingo, em Nova Jersey.

“… Uma Roja indestrutível. A máquina ruge. Esta seleção, a chilena, parece um bólido perfeito…” , sentenciou na primeira página o jornal El Mercurio, após os 2 a 0 marcados logo no início do jogo da noite de quarta-feira, posteriormente paralisado por duas horas e meia, em virtude de uma trovoada que caiu sobre Chicago.

Quando Pizzi foi confirmado como substituto de Jorge Sampaoli, em janeiro, muita gente ficou desconfiada. Afinal, Sampaoli tinha desempenho brilhante com a equipe vermelha e até se chegou a falar dele na seleção brasileira.

E o Lagarto, quem era?

Esclarecimentos são necessários: embora ainda jovem, e com a carreira de técnico no início, tinha uma história de artilheiro, que passava pela Argentina e pela Espanha, com títulos pelo Barcelona, de 1996 a 98, época em que jogou ao lado de Rivaldo. Também naturalizado espanhol, jogou pela “Fúria” o Mundial da França, em 1998, com direito a um gol marcado.

Sendo assim, era alguém de nome, com títulos já como técnico pela Universidade Católica do Chile e pelo San Lorenzo, da Argentina.

Uma tentativa ousada dos dirigentes chilenos, que foram buscá-lo no Leon, do México, no começo do ano. Chegou e já ficou com moral.

A participação chilena na Copa América diz tudo. Como escreveu o jornalista Enzo Garrido, de El Mercurio: “A Roja está outra vez onde lhe agrada: a uma partida da eternidade.”

Que venham os argentinos!

(Com participação de Roberto Salim.)

Sobre “bobinhos” e culturas

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O repórter Isaac Lluch (Twitter: @isaac_lluch) cobriu o período de Pep Guardiola no Bayern para o diário catalão ARA. 

Já reproduzimos aqui sua conversa com Manel Estiarte, braço direito do técnico. 

Abaixo, a tradução da entrevista de Lluch com Domènec Torrent, assistente de Guardiola. 

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Domènec Torrent: “A variação tática é o principal legado que Pep deixa na Alemanha”.

Quando Domènec Torrent sai de um de seus restaurantes favoritos em Munique, a dona começa a chorar. Guardiola e sua comissão técnica deixarão muitos amigos na Baviera. O ex-auxiliar técnico do Bayern se move pelo centro da capital bávara com a naturalidade de quem por três anos se sentiu em casa. Torrent conta como viveu a transformação do campeão alemão na era Guardiola e como ele evoluiu como técnico.

Lembra-se como foi o primeiro rondo [“roda de bobinho”, no jargão futebolístico brasileiro] que vocês introduziram no Bayern?

Na primeira sessão de treinamento no Allianz Arena, diante de 20 mil pessoas, fizemos alguns rondos e alguns jogos de posição que são muito típico de Pep. No Bayern, entendiam os rondos como algo lúdico, mas, para Pep, eles têm uma importância fundamental e assim logo os fizemos entender. Há muita diferença sobre como os jogadores os percebiam antes e agora. Aqui podemos ver a essência da contribuição de Guardiola no Bayern.

Que diferenças?

Para eles era algo para começar ou terminar o aquecimento. Era quase só por diversão: a bola poderia sair dez metros do círculo, enquanto não tocava o chão. Era outra maneira de compreendê-lo. Mas desde o primeiro dia Pep lhes disse que dava muita importância à forma como eles se colocavam, como recebiam bola, se o controle estava bom com a perna direita ou esquerda. Já era um exercício técnico e tático, já fazia parte do treinamento. Pep tinha claro que muitas coisas são melhoradas com os rondos. Os jogadores imediatamente compreenderam. Um dia tivemos a curiosidade de comparar os rondos do primeiro treinamento, quando custava a eles praticá-lo, com os do segundo ano. Não tinha nada a ver. A bola voava ao final, os jogadores se desafiavam com qualidade. E passavam muito bem.

Você pode dizer que o jogo de posição no campeão alemão ainda usava fraldas?

Nunca tinham feito. Desconheciam o sentido dos jogos de posição. Para Pep, para a escola do Barça, é um hábito, mas na Alemanha pensavam a princípio que era um jogo para manter a posse da bola. Mas era um jogo de posição, para você saber como se posicionar quando tem a bola, onde estão os espaços livres e onde você deve pressionar quando não tem a bola. Era um exercício meramente tático com seu componente físico. Lorenzo Buenaventura [preparador físico] media as pulsações e estavam muito altas. É um exercício muito completo em que Pep acredita muito para dar velocidade e sentido ao jogo. Depois de um ou dois meses, ele os fez entender que não se tratava apenas de preservar a bola, mas de como se devia jogar.

Demorou para entenderem a ideia?

Entenderam rapidamente. Philipp Lahm adorava e se um dia não fazíamos no treinamento, ele pedia. E o goleiro Manu Neuer sempre queria estar nos exercícios de posição porque melhorava muito o jogo com os pés. Até nos dias de recuperação, em que não precisava treinar, ele perguntava se ele podia participar. Os jogadores viram que o jogo de posição os beneficiava, que em campo tudo era mais fácil e que havia sentido no que faziam.

Como foi o processo de convencer os jogadores?

Os jogadores se convenceram rapidamente. Outra coisa é a ideia que podia aparecer na mídia local. Os futebolistas sempre foram muito abertos às ideias Pep e imediatamente as incorporaram. É uma maneira de entender o futebol que Cruyff fomentou e tomara que perdure no Barça. Há outras pessoas que preferem um futebol mais direto, mas no Barça e no Bayern o jogo de posição deu frutos. Os jogadores alemães ficavam parados diante da intensidade do trabalho. Além de um esforço físico brutal, o que eles praticavam era a essência do futebol: perda de bola, pressão, recuperação, voltar a se abrir e querer a bola.

Que nuances tiveram de introduzir por causa do perfil dos jogadores que tinham?

Talvez aqui tenha havido mais intensidade após a perda da bola, porque eles são jogadores físicos e rápidos na recuperação. O jogo de posição lhes foi muito útil, porque não só serve quando você tem a bola, mas quando você a perde. A questão não é pressionar por pressionar, mas saber em que zonas precisamos ir, que buracos temos de tampar. Com Pep, com uma defesa 40 metros adiantada, o Bayern bateu o recorde de menor número de gols sofridos [17 gols] na Bundesliga e o jogo de posição tem muito a ver com isso.

As equipes de Guardiola sempre são ofensivas, mas dá a impressão de que ele dá a mesma importância para a defesa.

Pep se protege com a bola. Durante os quatro anos no Barça, seu time foi o que sofreu menos gols. E a mesma coisa aconteceu durante os três anos na Bundesliga. E ninguém pode dizer que tivemos os melhores defensores, porque nesta temporada batemos o recorde de menor número de gols sofridos jogando 80% do tempo sem centrais natos. Pep inventou Kimmich, Alaba e até Rafinha jogando como centrais. Sua ideia defensiva funciona. É curioso que ninguém tenha pensado que em sete anos de carreira na elite suas equipes sempre foram as que sofreram menos gols.

Qual foi a chave para encontrar uma identidade conjunta na equipe?

Quando você chega, conhece as qualidades reais dos jogadores. A princípio, você imagina que este ou aquele jogador pode fazer algo, mas, em seguida, você percebe que ele não pode. E você vê qualidades que não enxergava à distância. Por exemplo: Lahm chegou a ser nosso Xavi por sua inteligência, pausa e controle. Guardiola colocou as melhores qualidades dos jogadores a serviço da equipe. Sem trair a sua ideia de domínio do jogo, evoluiu muito: ele colocou os laterais por dentro, três jogadores que trocavam de posição pelos lados e a equipe foi capaz de mudar três vezes de sistema em um jogo, sem que se notasse. Nós não tivemos Messi, Iniesta, Xavi ou Busquets, mas em três anos o Bayern não perdeu a porcentagem de posse para nenhum rival. No Barça, Guardiola teve grandes jogadores. Ele inventou falso 9, os dois extremos que atacavam o espaço, mas mudou o sistema apenas uma vez, quando Cesc [Fàbregas] chegou para se juntar à qualidade de todos. No Bayern, por sua vez, jogamos com tudo: 5-3-2, 3-4-3, 4-2-3-1, 4-3-3, 4-4-2 com diamante, 4-4-2 em linha … Agora, quando um rival apresenta a defesa de três, quatro ou cinco, Pep já tem em sua cabeça como agir. Ele tem sido muito flexível. Nunca disse: “Como o meu nome é Pep Guardiola, só vou jogar dessa forma”.

Você acha que o principal legado que Guardiola deixa é a variação tática?

Eu acho que sim. Os principais beneficiários de sua riqueza tática são os jogadores, que apreciaram a sensação de jogar com diferentes tons. O trabalho de Pep se espalhou entre colegas, talvez porque eles sofreram com as variações táticas quando enfrentaram o Bayern.

Em que outras equipes você acredita que Pep deixa a sua marca?

O treinador do Borussia Dortmund, Thomas Tuchel, se declarou admirador de Pep e fez sua equipe evoluir muito com base em um jogo de controle da bola. Tuchel acredita na ideia de Guardiola e a sente como sua. O Borussia Monchengladbach, com André Schubert, mostrou que queria jogar mais saindo de trás e não ser tão direto, assim como o Hoffenheim de Julian Nagelsmann. Vimos também que há umas dez equipes que marcam por zona as jogadas de estratégia do rival, quando antes eram duas ou três. Eles gostaram da idéia de Pep e viram que era eficaz. Também na seleção alemã se vê uma contribuição de Pep, mas isso só será valorizado com o tempo e a distância.

E de que forma você acredita que foram “alemanizados”?

Ao também jogar com transições muito mais rápidas. Pelo perfil, os jogadores do Bayern talvez não sejam tão brilhantes com a bola no pé como os do Barça, mas com espaço e velocidade, fazem muito mais danos. Ao valorizar essas qualidades, nós tentamos fazer transições rápidas. Se podemos fazer com três toques, é melhor do que com cinco.

E muitos jogadores se “Guardiolizaram”…

Pep viu em sete ou oito exercícios que Lahm poderia jogar no meio. Não perdia bolas e tinha pausa.

Foi possível  “guardiolizar” Thomas Müller, essência do Bayern?

Müller é um jogador diferente. Nos primeiros meses, quando me perguntavam quem ele me lembrava, eu dizia que era Julio Salinas, porque era um jogador alto e magro, que fazia gols, que aparecia por aqui e por ali. Müller é um jogador que certamente será o artilheiro da história das Copas do Mundo. Ele mesmo admite que evoluiu, que compreendeu muito mais coisas do jogo. Não corre tanto para todas as posições, está mais quieto porque sabe que receberá a bola. E essa é uma contribuição de Pep.

Contribuição contracultural.

A contracultura teve mais a ver com a imprensa ou os torcedores, porque os jogadores logo acompanharam Pep. Depois de três anos, eles comentaram que nunca tiveram a sensação de dominar tanto a Bundesliga. Até mesmo no ano do triplete, quando muitas vezes chegavam igualados [com o adversário] aos últimos minutos e tiravam forças de dentro para resolver o jogo a seu favor. 

Faltou alguma coisa a fazer?

Foi a primeira experiência longe de casa e nós adaptamos. Nos servirá. 

E a Liga dos Campeões?

Faltou chegar à final. Eu acho que neste ano a Champions foi injusta conosco, embora o Atlético [de Madrid, vice-campeão] deva pensar o mesmo. Nem contra o Madrid e e nem contra o Barça, nos anos anteriores, nós merecemos passar, mas neste ano sim. Mas noto que as pessoas nos agradecem muito por esses anos fantásticos. Nos despedimos com bem estar. 

E agora a Premier League.

Acho que a mensagem quando Pep chega aoutras ligas é errada. Dizem que ele vai mudar o estilo e não é assim. Pep traz novas idéias e se adapta ao futebol de cada país. Eu diria que a ideia de Pep não é mudar nada, mas acrescentar sua maneira de entender o futebol, que não é melhor ou pior, é diferente.

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Conversa rara

Leia o post original por André Kfouri

Nota do blog: Manel Estiarte é uma lenda do esporte olímpico e braço direito de Pep Guardiola. Assim como o técnico, ele não costuma dar entrevistas. Nesta conversa com Isaac Lluch, repórter do diário catalão ARA, temos uma amostra interna do trabalho de Guardiola em três temporadas no Bayern.

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A experiência ensinou Manel Estiarte a estar sempre em alerta ao lado de Pep Guardiola em um mundo midiático “de malucos”. Nos abrir sua casa em Munique diz muito sobre a “paz interior” com que se despede da etapa no Bayern. Estiarte não concede uma entrevista desde junho de 2014. A última também foi para o ARA. Aqui não fala como um porta-voz de Guardiola, mas como Manel Estiarte. O que não é pouco: ele é o único espanhol na lista dos 100 melhores atletas da história dos Jogos Olímpicos, elaborada pela [rede de televisão norte-americana] NBC.

De 1 a 10. Como era feliz em Munique?

Ufa! Você não pode fazer uma pontuação única. Há o tema esportivo, o social… mas no geral foi uma experiência muito positiva. Noto nestes últimos dias, em que sei que me vou. Estou muito acostumado com a palavra nostalgia, porque desde pequeno eu tinha que ir de Manresa [cidade em que nasceu] para Barcelona e só voltava para casa no domingo depois do jogo. E aos 22 anos fui para a Itália para jogar como profissional e estava feliz, mas também sentia nostalgia. Em Munique, eu não podia estar com a minha mulher, porque ela tinha de administrar sua empresa na Itália. E minhas filhas são grandes e já querem viver sozinhas. Eu sinto a nostalgia doce delas, mas sei viver de nostalgia positiva.

Por isso se sentiu bem em Munique.

Na Alemanha foi muito bem. Agora que eu estou indo me sinto querido e satisfeito. Eu diria que tenho uma sensação ainda maior de paz do que quando saí de Barcelona. Talvez porque Pep decidiu no último momento, talvez porque foi a primeira vez e pensávamos que a partir de então nos olhavam de uma maneira diferente, talvez porque deixávamos nossa casa. Se dizia e se lia coisas que não eram verdadeiras. Eu estava dentro e sabia que eram falsas. E te causavam um pouco de dano. Era a primeira vez. Agora é a segunda vez em que nos vamos. Não nos mandaram ir. Deixamos Munique com grande paz. Esportivamente tudo correu muito bem e fomos muito bem tratados. Claro, houve pequenas coisas. Se não houvesse, não seria real. Eu, que disputei seis Jogos Olímpicos, estive em mil vestiários, nunca me canso de repetir a Pep: “É um milagre que não tenha havido mais incêndios nos vestiários em que estivemos, tanto no Barcelona quanto no Bayern.”

Milagre ou sucesso?

É pela qualidade dos jogadores do Barça e do Bayern e pela bravura de Pep. Terminada a temporada, todos quiseram mostrar seu afeto. Quando chegamos de Marienplatz após a comemoração da Copa, fomos rapidamente ao vestiário da cidade esportiva do Bayern para uma última saudação aos jogadores. E te juro que é uma dessas coisas que você pensa que deveria ter gravado. Te procuram para te abraçar, de verdade. Todos os jogadores, um por um, à procura de Pep para dizer algo pessoal a seu ouvido. Todos, os que jogaram mais e os que jogaram menos.

Isto vale como títulos…

Eu sempre digo que Pep terá de carregar para sempre a palavra triplete. É como uma maldição não negativa. Antes de Pep coincidir com Messi, Puyol, Xavi, Iniesta, Busquets, Valdes… a palavra triplete não estava estabelecida no jargão jornalístico, porque nunca tinha acontecido em Barcelona. Pep sempre terá essa condenação. Leo [Messi], que tem que ganhar dez mundiais em um, também. E o Barça, por tudo o que conseguiu, também. Pediram um triplete a Pep em Munique, e vão pedir em Manchester.

Se o City estiver na Liga dos Campeões…

Dê tempo ao tempo. Os jornalistas falarão. Porque ao final de mil palavras, mil debates e mil histórias, todo o mundo gostaria de estar em nosso lugar. Todo o mundo gostaria de ser o Barça, Messi, o jogador da cantera que triunfa, Guardiola. E o que acontece? Como muitos não podem ser, criticam. Está bem: liberdade de expressão! Mas haverá sempre essa maldição positiva.

E isso é justo?

Você acha justo que exijam uma Copa do Mundo ou um triplete? Aqueles que dizem isso não sabem bem o significado da palavra maravilhosa que é esporte. Enquanto você, como esportista, está realmente treinando, preparando-se, visualizando o jogo, os outros também sonham em fazê-lo. Eu sempre digo que em Barcelona 92 perdi a melhor final da história, em casa. Eu sempre digo que ninguém treinou mais do que nós, porque foi uma loucura. Mas perdemos depois de seis prorrogações. No final, eu fico em paz, lembrando que os italianos treinaram igual. E venceram por um pelinho. Não importa. Então, quando você não vence o Atlético de Madrid após um grande jogo, em que perdeu um pênalti, aquilo não pode ser transformado em um “sim, mas…”. Às vezes você ganha, às vezes você perde. Mas o atleta é obrigado a estar lá, ser constante. E é isso que Pep tem. As provas são os vinte e um títulos em sete anos.

Há quem diga que perder nas semifinais da Champions é um fracasso.

Eu sempre odiei essa palavra no esporte. Para mim, o fracasso é o jogador que não treina bem, o treinador que se solta, a equipe que se abandona. Mas não aquele jogo perdido por um gol, por uma falha da arbitragem ou por um centímetro a mais ou a menos. Fracasso seria Pep perder todo o relacionamento com sua equipe, ou não administrar bem o dia a dia. As pessoas podem pensar que eu digo isso porque sou amigo de Guardiola. Repito: Pep não é perfeito, mas no que diz respeito ao profissionalismo, o conhecimento do futebol, atitude, generosidade e honestidade, ele está bem perto. É claro que ele tem suas coisas. Mas depois exigimos que ele ganhe tudo. Por quê? Bem-vinda maldição! Você diz que não acontecerá em Manchester? Acho estranho. Pep carrega isso. Mas somos privilegiados.

Ficou complicado, no Bayern, depois do triplete de Heynckes.

A história mostra que quando eles ganharam as Copas da Europa, no ano seguinte perderam ligas e tudo era um desastre. Na primeira semifinal da Liga dos Campeões, contra o Real Madrid, falhamos; na segunda, o Barça estava no máximo nível, e, quando é assim, eles estão em outra órbita. E, mesmo assim, os únicos que puderam competir com eles fomos nós, mas estávamos com poucas forças. Neste ano, contra o Atlético, os detalhes não nos ajudaram.

Por outro lado, como explica tantos recordes na Bundesliga?

Eu participo de todas as reuniões táticas antes dos jogos. Há um fato curioso: em uma jornada qualquer de liga, em que você joga em casa contra o décimo ou décimo-primeiro, Pep também demonstra que tem muito respeito pela partida. Eu acho que essa maneira de abordar o jogo sabendo que a qualquer momento que você pode perder vem de Santpedor [cidade em que Guardiola nasceu]. Ele não transmite medo ao time, mas mostra imagens da qualidade do rival e avisa que os outros são bons.

E se os jogadores não acreditam?

Pep inventa outra coisa, se não com imagens, com seus gestos. Pep te transmite que se você realmente não fizer bem, cuidado, porque sofrerá dano. Ele tem a capacidade de fazê-lo a cada três dias, a cada três dias. Pam, pam, pam.

Viver com essa intensidade deve gerar desgaste…

Este é o outro lado da moeda. Isso me preocupa como amigo, mas não como profissional. As pessoas fariam de tudo para estar onde Pep está. Trabalhar tantas horas é o que ele tem que fazer, pelo que cobra, pelo que é, pela responsabilidade que tem, pela educação de seus pais, que lhe ensinaram que a vida é esforço. Me preocupa como amigo porque às vezes o vejo vazio, não pela quantidade de horas dedicadas a preparar um treinamento ou uma partida, mas pela mediocridade do entorno. Tão claro como isso. Nós já nos distanciamos do entorno, e não lhe damos a importância que muitos pensam que tem. Às vezes, até fazemos piada com nomes ou situações jornalísticas. Mas isso não impede que, hoje em dia, tudo chegue a você. É o de sempre: aceito que esse peso é parte da louca paixão pelo futebol. Mas não compro a mentira. Trata-se de má informação ou má fé. A primeira significa que você não é válido para este trabalho jornalístico; a segunda, que você não é uma boa pessoa.

Mentiras em Munique ou Barcelona?

É global. Mas vou dizer uma coisa: aguentamos que, em Madri, depois de um 2-6 ou um 5-0 ou três ligas vencidas, maus jornalistas ou más pessoas digam alguma mentira. Mas na sua casa? O que Pep fez no Barcelona? Trabalhar, fazer o melhor possível e tomar uma decisão pessoal de anunciar que era o momento de experimentar outras coisas. Às vezes me pergunto por que, no Barça, nos custa tanto deixar de lado o que pode incomodar as pessoas e apreciar as coisas boas. E já não falo de Pep, mas de Kubala, Cruyff, que descanse em paz, ou Ronaldinho…

Munique te desgastou menos do que Barcelona?

No Barça, ficamos um ano a mais. As últimas três semanas não foram fáceis em Barcelona, inclusive pela mentira de que Pep e Leo não estavam bem. Em Munique, a imprensa sabia desde dezembro que íamos embora e tudo foi mais dilatado. Também não foi fácil, mas, como em Barcelona, fico com a relação com os jogadores, que foi excelente. Fizemos tudo e algo mais para terminar bem. Em Munique, as pessoas nos querem, temos notado nas ruas.

Agora que fecham esta etapa, até que ponto se sentiram como quem sai de casa pela primeira vez?

Sim, essa foi a primeira aventura fora de casa. Nos equivocamos em algumas coisas, acertamos em outras. Nos servirá muito para a experiência em Manchester. Talvez nos primeiros meses tenhamos querido mostrar tudo o que somos: a nossa ideia, o fato de sermos catalães. Faltou pouco para que, nos jantares, disséssemos: “Experimente o pão com tomate, os ovos, nós misturamos com batatas”. Queríamos agregar, agregar e agregar e nos esquecemos um pouco de receber. Este é o aprendizado. Houve um momento em que vimos que tínhamos que encontrar um equilíbrio.

Tampouco quiseram implementar tudo.

Não! Mas isso te anima a pensar: “Vamos fazer isso, vamos aproveitar aquilo”. Não forçávamos nada. Perguntávamos a Lahm [o capitão] como ele via. Era a primeira vez que estávamos fora, e em nossa bagagem havia uma cultura nossa, de La Masia, de como somos. Aos poucos a experiência de vida vai te enriquecendo. Por isso imagino que Pep disse que agora é um treinador melhor: ele absorveu coisas da Alemanha.

Foi necessário encontrar o equilíbrio com os serviços médicos.

Falou-se disso muitas vezes, mas não foi tanta polêmica. Sim, havia uma maneira diferente de ver as coisas. Pep explicou que, para ele, os médicos tinham de estar no clube, diariamente, nos treinos, e não fora.

E o que você aprendeu na sua transformação profissional?

Eu sigo vivendo muito o esporte e fico mais nervoso do que quando jogava pólo aquático. Antes eu sentia os nervos antes do jogo, mas quando a bola rolava, tudo desaparecia completamente. Agora fico nervoso antes e durante o jogo. Mas, para mim, é um grande orgulho ter a confiança absoluta de Pep Guardiola. Me entusiasma estar nos treinamentos e nas reuniões. É maravilhoso estar no escritório de Pep na Allianz Arena depois de um jogo, e ver como ele já prepara o seguinte. Meia hora ali falando de futebol, ele vai para o quadro negro e as peças começam a se mexer. Eu acompanho tudo o que ele diz e compreendo, mas ele move as peças na velocidade de seu cérebro e às vezes eu tenho que dizer para ir com calma, pois seus movimentos com as mãos não acompanham o que ele diz. [risos]

Qual será o seu papel no City?

Lá, com Txiki Begiristain e Ferran Soriano terei mais responsabilidades. Mas não falarei sobre o projeto do City, Pep deve fazê-lo primeiro.

Você foi incluído na lista dos 100 melhores atletas na história dos Jogos Olímpicos. O que guarda daquilo?

[Longo silêncio] Eu não tenho nenhuma medalha em casa. As crianças que hoje jogam pólo aquático não sabem quem eu sou, é a lei da vida. Eu admirava meu irmão, depois Joan Jané [ex-jogador e técnico de pólo aquático espanhol]. Amo loucamente meu passado e o pólo aquático. Não lhe dou as costas. Me deu tudo, mas eu também lhe dei a última gota de suor. Eu tinha 6 anos, me jogaram em uma piscina e saí quando tinha 40! O que eu guardo daquilo? Amigos que, quando nos encontramos, rimos como se tivéssemos 15 anos. Eu tenho boas lembranças e muita tristeza por Jesus Rollán, [campeão olímpico pela Espanha no pólo aquático, falecido em 2006] que ele descanse em paz. Mas eu não posso viver no passado, não posso lembrar que era um bom jogador para voltar a me sentir vivo.

Nada de nostalgia pela velha glória?

Em um jornal muito importante, depois que tivemos uma discussão, talvez equivocadamente, para tentar convencê-los de que o melhor para o time era não fazer o que eles queriam que fizéssemos, retiraram uma foto minha do corredor da redação. Isso me machucou? Se eu fosse alguém que vive do passado, sim, mas não tenho nem o ouro olímpico em casa, então imagine. Eles podem retirar uma foto, mas não podem me tomar tudo o que vivi, todo o privilégio de ter competido, lutado, perdido e ganhado.

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