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Vocês nunca vão entender

Leia o post original por Rica Perrone

Dizem que eu sou muito bom em conseguir cativar torcedores. Eu só gostaria de conseguir enxergar alguma coisa apaixonante no futebol atual, e assim atingiria um público enorme que hoje não entende o que escrevo, sobre o que escrevo e pra quem escrevo.

Talvez eu pudesse ser comercialmente genial escrevendo sobre o Ibra. Falando com amor por Messi e Cristiano. Mas, entendo quem só viu isso, e entendo que quem não viu nunca vá me entender. Mas esse futebol que se aproxima não me interessa. Meu futebol é um elo de pai e filho. Uma história familiar presencial de estádio. O da tv, por um time gringo, pra mim tem o mesmo apelo emocional do MasterChef.

O que eu queria, sem birrinha, que essa garotada entendesse é que o futebol que nós vimos há 30 anos era jogado pela técnica. O que hoje se joga é físico, tático, psicologico e também técnico.  Os jogadores que nós vimos prezavam por um tipo de jogo que não existe mais. Então é óbvio que hoje não haveria espaço pra eles fazerem o que faziam.

Mas também não haveria a menor chance de você chamar o Robben de craque.  O nível de talento puro do que víamos era simplesmente brilhante. Jogadores que você nem ouve falar hoje seriam titulares e ídolos de uma geração com facilidade.

Vou ser simples no exemplo. Houve um meia na década de 80 que se chamava Pita. Jogou no Santos e no São Paulo.  Se o Pita jogasse no time do Barcelona de 3 anos atrás, ele seria o Iniesta. E você nem sabe quem é o Pita. Mas vai morrer idolatrando o Iniesta.

Essa discrepância técnica e midiática faz de quem só viu o futebol recente um alienado sem culpa.  Não é demérito do rapaz ter 20 anos de idade. Mas pra quem tem 40 por exemplo soa absolutamente surreal ouvir que o futebol com 5 times voando e 200 se arrastando é um puta negocio mais bem administrado que antes.

Eu vi PSV, Ajax, Roma, Napoli, Valencia, La Corunha. Eu vi 20 times do Brasil podendo ganhar de qualquer outro do mundo. Vi uns 30 times europeus grandes disputarem título de Champions League. Vi um mundo com 40 ou mais craques simultaneos em atividade.

E vocês assistem um futebol de 5 times com 3 craques em atividade e tá otimo. Afinal, a referência do passarinho que nasceu na gaiola é só a gaiola.

Respeitem Zico, Socrates, Falcão, Careca, Cerezo, Pita, Muller, entre tantos outros. O Van Basten, pra não dizer que só citei brasileiros, jogava mais futebol que a soma do Suarez, o Benzema e a porra do Isco. E você nunca mais vai ouvir falar dele.

Não é porque vocês são burros. Mas é porque vocês não tem idéia do que já foi o futebol, do que ele representou em nossas vidas, do quanto era próximo de nós e da diferença técnica brutal entre antes e hoje permitida pelo modo de jogar.

Façam dos seus idolos heróis. Mas não ridicularizem quem fez o futebol chegar a ser essa doença mundial que é hoje. Porque esse futebol atual não apaixonaria o mundo ao ponto de transforma-lo no que é. O que nós vimos trouxe o futebol até aqui.

O Biro Biro jogava tanto quanto o Mascherano. E nós o chamávamos de “grosso”. Vocês, de craque.

abs,
RicaPerrone

Deixa a gente em paz

Leia o post original por Rica Perrone

Dá aqui minha taça! Me deixa correr na volta olímpica com ela.  Não me faça ser campeão no sofá, nem mesmo atrele a zona que era isso aqui ao formato.

Deixa o menino entrar com a bandeira, policial!  Ele não vai fazer nada que não seja torcer. E se fizer, aí sim, você o pune.

Sinalizador não faz mal a ninguém.  Fez uma vez, em jogo onde ele era PERMITIDO e foi um acidente, queiram ou não aceitar, só porque partiu de um grupo marginal.

Papel picado não machuca.

O que machuca é ver a taça que “conquistamos” com nosso time ser dada no teatro de terno onde nem estaremos.  O que nos machuca é a entrada dos dois times com uma música que tenta ofuscar meu grito.

É o protocolo a troco de nada que me impede de vaiar o adversário e pressiona-lo na entrada.  É a justiça que julga inteligente punir meu time porque um ou outro animal identificável cometeu um erro na arquibancada.

Tira esse hino! Você tem que ser muito desrespeitoso com a pátria para fazer milhares de pessoas com enorme expectativa em algo receberem seu time e segundos depois terem que parar uma festa para ouvir um hino de mãos no peito. Não é o momento. Não tem ambiente. É um pedido pra que ele seja desrespeitado.

“Ah mas no mundo todo é assim”.  Então me dá a escola da Suiça, a polícia do Canadá, depois enche o saco do meu futebol como ele é.

O mundo nos copia quando a bola rola. Nunca o contrário.  A gente não quer que vocês façam nada por nós, apenas que não façam nada.

A bandeira, o sinalizador, a faixa, o papel picado, nada disso machuca pessoas. Pessoas machucam pessoas. Basta cumprir a lei e prende-las quando necessário.

Não é o formato com finais que faz do futebol brasileiro uma zona. São as pessoas como Eurico Miranda e suas urnas misteriosas que faziam isso. Se fosse pontos corridos, a zona seria exatamente como foi.

Ser europeu não é uma qualidade, mas sim uma característica. Ser brasileiro idem. Mas a gente não é mais.

Deixa a gente em paz. Só precisamos de um pernil na entrada, uma bandeira com um tambor durante o jogo e de uma taça no fim.  O resto vocês que inventaram. Nós nunca pedimos.

abs,
RicaPerrone