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Pelé estava emocionado

Leia o post original por Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportiva de 15/06/1982

Pelé durante o sorteio da Copa do Mundo de 1982SEVILHA (De Wanderley Nogueira, especial para A GAZETA ESPORTIVA) – Entre os brasileiros havia um torcedor bastante especial, Pelé. O rei do futebol chegou bem cedo ao Estádio Sanchez Pizjan. E, como sempre, foi logo cercado pelos repórteres e torcedores de modo geral. Pelé estava otimista: “Fico contente em ver o estádio completamente lotado por torcedores brasileiros. Eu fui jogador  e sei muito bem o que isso representa. A presença da torcida dá um novo ânimo aos jogadores.”

Pelé estava emocionado, mas prefiro não falar em placar: “Estou contente, claro. E como todos os brasileiros, torcendo para o Brasil conseguir uma vitória excelente. Fácil agente sabe que não vai ser, pois a União Soviética é uma equipe que pratica um bom futebol. Mas se o Brasil jogar aquilo que sabe chegará a uma vitória, tenho certeza. Nem precisa praticar um futebol fora do normal, basta apenas jogar aquilo que sabe e jogou sempre.”

Serginho: jogo de qualquer maneira

Leia o post original por Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportiva de 14/06/1982

Serginho Chulapa pela Seleção BrasileiraSEVILHA (De Wanderley Nogueira especial para A GAZETA ESPORTIVA) – Os momentos de tensão vividos por todos que estavam no Estádio de Mairena, onde treinava a Seleção Brasileira, quando da contusão de Serginho, já foram mostrados por todos. Jogadores assustados, centenas de torcedores brasileiros envolvidos por enorme expectativa. Telê Santana gritando contra fotógrafos que queriam registrar o flagrante de Serginho caído e chorando. O médico Neylor Lasmar, trêmulo, medindo as palavras. Jornalistas e radialistas correndo de um lado para o outro em busca de informações quentes e precisas. Os espanhóis, olhando para todos os lados, querendo saber maiores detalhes sobre toda aquela correria. Quando Serginho fugiu pela porta dos fundos, o receio de que ele também estivesse fora da Copa aumentou ainda mais. Tudo isso foi escrito, dito e mostrado. As lágrimas de Serginho ao sair de campo, foram ressaltadas q que aumentou ainda mais o temor de ver a seleção perdendo mais um centro-avante.

Médico, treinador, preparador físico anunciando “somente depois de 24 horas poderemos dizer alguma coisa sobre o estado de Serginho”. Um enorme mistério foi elaborado pelos componentes da comissão técnica.

Ao chegar ao Parador Carmona, levado por um automóvel particular< Serginho já podia andar normalmente, embora estivesse calçando um chinelo e carregando numa das mãos o par de chuteiras. Foi direto para o seu apartamento e lá o massagista Paulinho – auxiliar de Nocaute Jack – iniciou um tratamento conhecido e eficiente; aplicação de uma bolsa de gelo no local atingido, o calcanhar de Aquiles.

Serginho jantou no quarto e em seguida, cansado, adormeceu. Mas ao lado dele, por muitas horas, o massagista ficou substituindo o gelo derretido por novas pedras. Os jogadores conversaram entre si sobre as contusões, mas todos demonstraram entusiasmo: “Acho que nada vai tirar aquele crioulo do primeiro jogo…”

O dia amanheceu e o local atingido pelo jogador do Alcala não estava inchado e Serginho não sentia nenhuma dor. Foi uma alegria geral. No café servido aos jogadores, foi o principal assunto e Careca fez questão de dar um apoio ao Serginho: “Levei um susto quando soube que você tinha saldo do treino…Mas você está andando bem, calçando o tênis… Ainda bem, estou torcendo por você. Quero vibrar com seus gols.”

Telê Santana, Gilberto Tim, Moraci Santana, Neylor Lasmar, Ricardo Vivacqua, Nocaute Jack, Paulinho, estavam satisfeitos pela boa disposição de Serginho, mas queriam esperar um pouco mais. No treinamento que seria realizado, mais uma vez, no Estádio Mairena. Serginho seria submetido a um teste pelo preparador físico e pelo médico.

Não treinou com bola, mas foi exigido fisicamente. Fez alongamento, foi forçado a movimentar o tornozelo e o calcanhar e nada sentiu. O doutor Neylor sorriu, Moraci Santana também, Serginho voltou a cantar baixinho os sambas que aprende na Casa Verde, um bairro de São Paulo. Foi abraçado por Sócrates, recebeu um tapa nas costas por parte de Falcão e Oscar não conseguiu resistir: “Ainda bem, negrão. Pensei que você ia deixar a gente na mão…”

Telê, Neylor e Vivacqua não conseguiam esconder o otimismo, mas mesmo assim preferia deixar para “instantes antes do jogo a confirmação de  Serginho…” Oficialmente, a dúvida permanece, entretanto, ao lado de Gilberto Tim a frase de Serginho simplesmente defina a sua escalação:

“Graças a Deus, professor, não está doendo absolutamente nada e só não jogo se me prenderem na concentração ou se o pessoal me algemar…”

Dirigindo-se para o vestiário, orientado pela comissão técnica para não falar nada, não confirmar a sua presença, para provocar preocupação nos adversários e deixar a torcida do Brasil vivendo uma enorme ansiedade, o centro-avante diria umas palavras como se fosse gravação: “Tudo bem… vamos ver… amanhã é outro dia… o doutor é que vai decidir…” Mas num dos corredores do Parador Carmona, logo após entre Bélgica e Argentina, Serginho, foi claro:

“Fiquei apavorado quando tomei o pontapé, por trás e senti o local inteiramente adormecido. Inicialmente, pensei que fosse uma fratura, depois, pensei que meu calcanhar de Aquiles tivesse sido estourado. A dor diminuiu um pouco, mas quando vi todos os jogadores formando uma rodinha e com expressões de preocupação, comecei a chorar. Foi uma mistura de dor, medo e decepção…”

Eu lutei muito para chegar a esta Copa. Cometi erros, e em determinado momento pensei que o Telê não desejasse mais contar com o meu futebol tive problemas particulares sofri expulsões, atritei com companheiros de profissão, lembrei da contusão do Careca, do corte de meu companheiro, da tristeza que ele sentia e continua sentindo. Naquele instante imaginei ficar de fora da Copa…”

“Hoje estou certo que jogarei, não sinto mais nada, quero marcar gols na União Soviética, isso não sai da minha cabeça. Descansei um pouco esta tarde e com a cabeça no travesseiro continuei pensando sobre a participação de um jogador decisivo. É uma espécie de desafio, não como deixar para outro dia.  Já pensou seu fosse tirado do time por uma contusão, um dia antes da estréia da seleção? Confesso que seria melhor nem ter viajado.”

“Mas os momentos em que eu passei naquele treino, jamais irei esquecê-lo. Foi um instante de medo. Ficou provado que ninguém deve pensar que é o dono da posição, que é insubstituível, que é intocável. Um problema físico pode liquidar ou arranhar uma carreira.”

“De que adiantaria a um jogador ter sido o mais brilhante jogador dos treinamentos da seleção, ter marcado dezenas de gols, ter sido aplaudido por companheiro de dentro e de fora, concedido centenas de entrevistas? Nada, absolutamente nada… Se ele um dia antes do jogo for vetado, será esquecido, simplesmente.”

Foi mais um capítulo escrito na vida desta seleção que começa hoje uma nova participação brasileira num Mundial, pela décima segunda vez ficou provado que o homem importante. Ficou claro que o homem é sim insubstituível. Esquemas são importantes, mas não são primordiais. No esporte tudo gira em torno do atleta.

Um pontapé desferido por um desconhecido jogador de uma equipe de terceira divisão espanhola poderia ter diminuído sensivelmente o poder de fogo da seleção do Brasil, a favorita em todas bolsas de apostas do mundo. Por muito pouco, aquele moço do Alcala, pequena cidade há 14 quilômetros do Parador de Carmona, não arrancou gols dos brasileiros. Os bons e maus momentos são feitos pelos homens e isso valoriza ainda mais a vida, a vontade de viver, de participar, de ultrapassar, obstáculos, de enfrentar emoções, de vencer, de ser forte no segundo da derrota.

Waldir Peres: perto do momento maior

Leia o post original por Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportiva de 13/06/1982

Waldir PeresSEVILHA (De Wanderley Nogueira, enviado especial de A GAZETA ESPORTIVA) – Sob o comando do técnico Osvaldo Brandão, em 1975, o goleiro Waldir Peres jogou pela primeira vez na seleção nacional, contra o Peru, em Lima. Naquele dia, o Brasil venceu por dois a zero e começava então a carreira dentro de seleções daquele que hoje é considerado titular absoluto da posição, no gol da seleção de Telê Santana.

Foi um começo difícil, repleto de obstáculos, várias ações estranhas de companheiros, critérios incompreensíveis nas escalações e as falhas próprias dos goleiros: a entrada de bolas, na opinião de muita gente, defensáveis.

Hoje, com 31 anos de idade, Waldir é o mais velho do grupo. Restam poucos fios de cabelo e uma afoita funcionária do credenciamento insistia em não credenciá-lo: “Você não é jogador… vocês estão querendo brincar comigo, não é?”

A moça pensou que Waldir era membro da comissão técnica, talvez preparador físico, administrador, roupeiro ou responsável por alguma assessoria, mas goleiro não…

Waldir Peres sorriu esperou que o mal entendido fosse superado e respondeu com um autógrafo ao equívoco daquela espanhola linda e simpática, mas um pouco precipitada.

E ultimamente tem sido assim. Antes de sair do Brasil, Waldir teve que ouvir muitas vezes inúmeras pessoas clamando pela presença de um goleiro – Leão o mais buscado, esta na Espanha, mas como comentarista de um jornal gaúcho – ou muitos lutando para que qualquer um jogasse no gol, menos “esse Waldir Peres”. Os mais radicais iam fundo: “não sei o que o Waldir viu no Waldir, não tem pinta de goleiro, não inspira confiança…”

Mas essa não é a opinião de Telê e de todos os jogadores. Eles acreditam no goleiro Waldir Peres como atleta, jogador e homem. Waldir salvou a seleção do Brasil inúmeras vezes na viagem á Europa: França , Inglaterra e Alemanha – foi talvez o mais importante destaque do time, segundo palavras do próprio técnico Telê Santana. Mas é difícil ultrapassar certas barreiras.

“Admito que muitas pessoas contestam minha presença aqui na seleção mas quem escala é o Telê e a ele eu agrado. Não sou um goleiro perfeito pois isso não existe, mas nunca decepcionei ninguém. Absorvi experiência ao longo dos últimos anos, sofri gols incríveis, bolas defensáveis eu deixei passar, mas qual o goleiro que não passou por isso?”

“Se você conhecer um goleiro que não sofreu um frango, não deve confiar nele, pois irá tomar um dia e pode ser que seja num jogo decisivo.”

“De 75 para cá muita coisa aconteceu. Joguei, fui barrado, errei, acertei, defendi penalidades, fiz defesas milagrosas. Acho que formei uma estrutura de goleiro. Um goleiro se forma assim com falhas e virtudes. Estou aqui porque sou o melhor goleiro do Brasil. Quero jogar e vou jogar e se depender de mim o Brasil já é campeão.”

“Quando encosto a cabeça no travesseiro, aqui no Parador Carmona, lembro-me do instante em que quase parei de jogar futebol. As coisas foram se acumulando: eu treinando de ponteiro-esquerdo em seleções, sem a menor chance de jogar. Muito menos no São Paulo, a saturação se aproximando naturalmente.”

Mas Waldir resolveu reagir, resistir a tudo:

“Devo muito à imprensa. Ela alertou-me com suas críticas ressaltando a minha pouca disposição, talvez aceitando uma situação ruim para um profissional. Então dei um basta…”

“Disse, agora vai ser comigo… entreguei-me por inteiro aos treinamentos, busquei o maior aprimoramento possível e os resultados começaram a aparecer nos jogos. Defesas importantes, aplausos dos companheiros, elogio dos treinadores, a imprensa mostrando os meus bons momentos e o entusiasmo foi aumentado. Não sou nenhuma criança, mas fiquei feliz com a luz que começava a reaparecer diante de mim.”

“Senti que a Seleção não era algo impossível e que os critérios de Telê Santana eram justos. Fui chamado, treinei, ganhei a posição. Hoje, horas antes de uma Copa do Mundo, admito que a minha responsabilidade é muito grande. Sou goleiro da seleção que os computadores, os brasileiros, e os espanhóis mostram como favorita.”

“Claro que não posso falhar nessa Copa, aliás, quem pode falhar um dia?”

“Hoje, o futebol brasileiro está se aproximando de um instante maior. Será o início de mais um Mundial. Isso para o povo brasileiro é decisivo. Não creio que seja motivo de vida ou morte, mas sei que pode abater um homem que torce pelo seu time, pelo selecionado brasileiro.”

“Foram muitos meses de treinamentos, sacrifícios necessários para que um atleta fique com seus reflexos em ordem, que as possibilidades de falhas sejam mínimas.”

“Quando o Careca se machucou fiquei muito triste… Sei o que significa para um jogador ser cortado ou estar de fora de todos os planos de um treinador. Ele sente-se pequeno inútil, com vontade de abandonar tudo. Mas isso passa… Dias depois, com a cabeça mais fria o jogador começa a entender que para se chegar a um dia feliz, para se tocar numa taça, não há outro caminho a não ser aquele que apresenta inúmeros e surpreendentes obstáculos.”

“Contra a União Soviética a Seleção do brasil sabe que vai encontrar um futebol forte, com rápido contra-ataque e que uma falha poderá ser fatal. Depende só do nosso time…”

Waldir Peres demonstra muita frieza, e seguro, sorri quando os outros estão tensos. Oscar fala a este respeito:

“Há momentos em que não consigo entender como o Waldir pode ser tão frio… Isso é ótimo. Em momentos de pressão ou perigosos há de ter alguém que não se altere suas reações e Waldir é assim. Acho que o seu temperamento é o ideal para um goleiro, principalmente da seleção.”

“Estamos acostumados a jogar juntos e nos entendemos até por alguns olhares. Sei quando ele vai sair ou quando espera que um zagueiro corte a trajetória da bola. O Leandro, o Luisinho e o Júnior gostam de jogar com o Waldir  e todos os outros também.”

Waldir Peres, segundo o técnico de goleiro Waldir Joaquim de Morais é um dos goleiros que mais treinam no Brasil:

“Existem muitos dedicados, mas o Waldir treina até chegar próximo da exaustão. Ele faz questão de consumir todas as suas energias nos treinamentos e por isso nos jogos ele demonstra que está seguro e tranqüilo.”

Quem será o homem?

Leia o post original por Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportiva de 06/01/1982

Marin e NabiTodos querem saber quem será indicado para dirigir a próxima Assembléia Geral da FPF. Muitos nomes foram citados, mas todos vetados por ambas as partes.

Henry Aidar foi chefe da Casa Civil de Laudo Natel, vetado por Marin; José Ermírio de Moraes Filho já se declarou favorável a Nabi, vetado por Marin; Armando Ferrentini, amigo de Márcio Papa, vetado por Nabi; Mário Amato, presidente da CRD, amigo de Marin, vetado por Nabi; Ulisses Gouveia. Membro da CRD, defende Marin, vetado por Nabi; Nélson Duque, diretor do Palmeiras e votou em Nabi, vetado por Marin; Esmeraldo Tarquinio, dirigente do Santos, opositor de Rubens Quincas, vetado por Nabi; Osvaldo Teixeira Duarte, ex-candidato à presidência da FPF, mas hipotecou apoio a Marin, vetado por Nabi… Muitos outros nomes “menos votados” foram lembrados, mas todos vetados por Marin ou por Nabi.

Talvez a solução seja um homem de outro Estado, mas quase todos os esportistas já tomaram uma posição, contra ou a favor… Caberá à CBF indicar o futuro presidente da Assembléia Geral e será quase impossível Giulite Coutinho encontrar no fundo da cartola um nome que seja neutro, que agradece aos dois lados. Quem será o homem?

João Carlos de Oliveira: os pulos podem parar

Leia o post original por Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportiva de 23/12/1981

passat-joao-do-puloApós o acidente de ontem, entre os inúmeros desabafos e lamentos, ouvia-se muito esta frase: O que será do atletismo brasileiro sem o João do Pulo?

O atletismo é o único esporte que não se faz um campeão da noite para o dia. Aquele que consegue aparecer é porque foi vencedor de uma batalha árdua e cansativa contra o cronômetro .

Agora, João do Pulo está ferido, sofreu fraturas e sua recuperação será demorada. Dizem alguns que jamais João Carlos de Oliveira voltará as competições.

A fama foi tamanha que seu salto foi para revistas, rádios, televisões. João do Pulo era o gênio da raça no atletismo e sobre ele começaram a recair as esperanças nacionais em termos épicos.

Foram consultados 50 órgãos de imprensa internacionais da América Latina e Caribe para que a decisão sobre o melhor esportista latino-americano de 81 fosse a mais democrática possível: João Carlos de Oliveira, o escolhido.

O garoto magro, lavador de carros, nascido em Pindamonhangaba, tornou-se uma figura admirada em todo o mundo.

E com muito mérito, diga-se de passagem.

Ontem ele sofreu um desastre. Ele está lutando e sofrendo contra a morte, depois tentará voltar as pistas.

É um drama que começou na última madrugada. Imaginem um planista com as mãos fraturadas, pensem em um pugilista com o braço quebrado. As eficientes e vencedoras pernas de João do Pulo foram atingidas duramente. Só resta dizer que para sua condição de super-atleta supere também algo considerado impossível, neste momento.

JoaodoPuloO recordista mundial e tricampeão mundial dessa modalidade, João Carlos de Oliveira, o “João do Pulo”, está gravemente ferido em decorrência do acidente ocorrido na madrugada de ontem, na altura do Km da Via Anhanguera. Ele trafegava sentido Campinas-São Paulo com seu Passat placa MG 1828 quando uma variante chapa RF 1413 (Campinas), em posição contrária provocou a colisão.

O motorista da Variante faleceu no local. “João do Pulo”, que estava acompanhado de seu irmão Francisco Carlos de Oliveira e do seu primo Luís César, foi internado em estado grave num hospital de Campinas.

O acidente, segundo informações da Polícia Rodoviária, aconteceu por volta das 2h30. Entre os destroços do carro de João do Pulo os policiais encontraram uma medalha ganhada por ele no dia anterior em Campinas.

Seria Mesmo João do Pulo?

As primeiras informações sobre o acidente foram totalmente desencontradas. Até as 5 horas da manhã de ontem, João do Pulo, não havia sido encontrado e confirmado como vítima de acidente. Até a Polícia Rodoviária encontrar os documentos do carro com o seu nome.

Mas das vítimas removidas do hospital, apenas estavam devidamente identificadas – seu irmão e seu primo.

Foi preciso que uma atleta de Campinas – Sandra Domingues – fosse até o hospital para ver se era, de fato, João do Pulo, uma das vítimas até então não identificada. E ela confirmou.

João do Pulo foi submetido a uma prolongada intervenção cirúrgica. Ele sofreu fraturas nas pernas e até o início da manhã o hospital não havia fornecido maiores informações sobre o seu estado de saúde.

O acidente com João Carlos de Oliveira aconteceu exatamente 24 horas depois dele ter sido apontado com o ESPORTISTA LATINO-AMERICANO  de maior destaque deste ano, segundo pesquisa realizada pela agência cubana “Prensa Latina”. Ele foi escolhido como o melhor do ano por sua atuação na Copa Mundial de Atletismo, em Roma.

Muito Grave

Enquanto o motorista da Variant, João Mariano da Silva, que teve morte instantânea era levado para o necrotério em Campinas, o médico Nubor Fakoury, neuro-cirurgião que operou João do Pulo, dizia que o estado do atleta era indefinido.

– Não podemos fornecer quadro perfeito. Mas quem conhece os antecedentes de João tem que ser otimista. Ele é um homem muito forte e tem um poder de recuperação.

– João está politraumatizado. Ele tem um trauma de crânio com lesão cerebral difusa, contusão de tórax, fratura exposta de tíbia e perônio direito, apresenta perda de sangue pela urina. Está em coma, na unidade de terapia intensiva.

Hipótese

Segundo alguns policiais rodoviários há uma hipótese para o acidente: “Há uma saída para a pista Sul, junto ao trevo de Valinhos e ao posto de “Saci”. Talvez a Variant tenha saído daquele posto, ganhando a pista na contramão, e provocando assim o acidente. O motorista teve morte instantânea…”

A luta pela vida

Muitos repórteres perguntaram ao médico que operou João Carlos de Oliveira “se o campeão voltaria a pular”. Visivelmente abatido e com o semblante preocupado, o neurocirurgião Nubor Fakoury repondeu:

“Este moço é muito forte… Ele está na unidade de terapia intensiva e em primeiro lugar deve vencer, esta luta que está travando para viver. Depois sim, os médicos poderão dizer se ele voltará as pistas para representar o atletismo brasileiro ou não… A UTI tem na verdade um super homem, um atleta acima da média, com enorme resistência e claro que isso é importante num instante decisivo…”

CBA lamenta

No Rio de Janeiro, o presidente da Confederação Brasileira de Atletismo, Hélio Babo, ficou chocada com a notícia do acidente e lamentou bastante o ocorrido.

Assim que soube de tudo, ele telefonou para Campinas e falou com o médico responsável pelo atendimento de João do Pulo e recebeu a informação adicional de que João Carlos de Oliveira também havia sofrido fratura da mandíbula.

Hélio Babo acredita na recuperação do atleta: “temos que ter fé em Deus”. Disse ainda que João Carlos de Oliveira era o grande trunfo brasileiro para os jogos Pan-Americanos em 1983, e para as Olimpíadas de Los Angeles, em 1984.

Osvaldo, o primeiro técnico

Outro que comentou bastante o acidente foi o primeiro técnico de João Carlos de Oliveira, o professor Osvaldo Gonçalves. Ele teve o primeiro contato com o atleta em 1971, na cidade paulista de Cruzeiro. João queria treinar salto em altura, mas depois de examinar o tipo físico do atleta, Osvaldo encaminhou para os treinamentos específicos do salto triplo, modalidade em que alcançou o recorde mundial até hoje conservado de 17,89m nos jogos Pan-Americanos do México em 74.

Em 76, em Montreal, nas Olímpiadas, ganhou medalha de bronze e no ano passado, em Moscou, medalha de prata.

Aliás em Moscou ele obteve a marca de 16.90, inferior ao seu próprio recorde. Disse depois:

“A verdade é que toda aquela pressão de que eu era maior  esperança do Brasil, que já tinha ganho medalhas de ouro e todas aquelas entrevistas me perturbaram. Além disso, houve a contusão do nervo ciático”.

Ainda neste depoimento João Carlos de Oliveira chegou a pensar em parar:

“Fui injustiçado. Perfil amizades estupidamente e pensei que o recorde mundial só aconteceu para me prejudicar. Falaram até que competi drogado e outros absurdos. Por isso, sinceramente, pensei em largar tudo. E não tive também uma vida depravada depois do recorde, como ainda insinuam”.

Sargento do Exército, há alguns anos João Carlos de Oliveira foi transferido para a unidade em Três Corações, cidade do interior de Minas, notabilizada por ter sido o berço de Pelé. João Carlos, assim, não pode, durante um certo tempo, treinar no Pinheiros, clube de São Paulo, do qual recebia uma proposta financeira.

Mas nem assim desanimou:

“Eu posso treinar sozinho. Sei exatamente os exercícios que tenho que praticar. É lógico que esse treinamento isolado está longe de ser o ideal”.

João Carlos de Oliveira demonstrava grande preocupação com as Olimpíadas de Moscou. Precisava se recuperar e mostrar  que o resultado de Montreal poderia ser superado. E conseguiu. Ganhou a medalha de prata. Numa ascensão que, certamente, acabaria com a medalha de ouro. Em Los Angeles. Mas a seqüência foi interrompida nessa trágica madrugada.

Ainda em 77 ele dava uma declaração importante:

“A minha cabeça ficou confusa depois daquele salto. Não tive nem mais um minuto para pensar. Não fui mais o João de antes. Sou uma pessoa simples demais e fui forçado a mudar”.

Antes do desastre

O jornalista Valter Bellenzani, do Correio Popular, de Campinas, esteve com João do Pulo antes do acidente:

“Ele estava em Campinas como patrono da turma de educação física da PUC. O que mais impressionou o pessoal da PUC, foram as poucas palavras que João pronunciou, mas que refletiam realmente o quanto ele depositava esperanças nos professores que ali se formavam”.

“Disse o João que apesar de todos os nossos problemas, o Brasil, ainda seria uma potência Olímpica. Afirmou que não falta condições e material humano. Garantiu que a falta de organização é prejudicial. Faz um apelo para que nossos professores lutem por um trabalho bem planificado para fazer do esporte olímpico brasileiro a grandeza que ala merece”.

“Quando as coisas tem que acontecer, não há força capaz de evitar. João não queria ficar. Explicava que tinha urgência de retornar para São Paulo. Foi para atender o apelo dos amigos, dos formandos da PUC, e da sua amiga Conceição Geremias, que ficou. A certa altura da festa, quando a animação era bem grande… demonstrando toda sua descontração e que era realmente uma pessoas espetacular, junto com os formando que faziam uma roda no meio do salão, foi convidado a dançar um samba com Conceição Geremias. No final, ele deveria presidir o sorteio de uma bicicleta como prêmio ao casal mais animado. Mas sem que ninguém percebesse, ele e Conceição haviam saído da Vila Rica, para ir jantar no Restaurante Saci”.

Acidente com outro atleta

Rochester, Estados Unidos (AP) – O lançador Mike Jones, dos Reais de Kansas City foi hospitalizado com graves ferimentos no pescoço em conseqüência de um acidente automobilístico. Deve como comparecer ante o Tribunal no dia 7 de janeiro, acusado de conduzir um veículo em estado de embriaguez.

O carro de Jones chocou-se contra uma árvore, e o lançador sofreu um deslocamento entre a quarta e a quinta vértebras cervicais.

Nos próximos dias serão examinados as conseqüências do acidente e a gravidade das lesões, para se determinar se ele será ou não operado, disseram porta-vozes do Hospital Strong, do Rochester.

João Paulo venceu

Leia o post original por Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportiva de 22/12/1981

DaltroMenezes

Daltro Menezes começou a cair quando criou uma briga com João Paulo. Os últimos tempos na Vila Belmiro serviram para uma medição de forças. De um lado um técnico trabalhador, tático, disciplinador, agressivo; de outro, um jogador rápido, hábil, artilheiro das duas últimas temporadas. Ídolo da torcida, tem muitos amigos do time. Quando a luta entre os dois começou , já sabia-se que no último assalto, João Paulo seria apresentado como o grande vencedor. Era só uma questão de esperar o tempo passar…

Os pronunciamentos de Daltro Menezes desagregaram o elenco. Mas é válido afirmar que Daltro ao longo dos últimos meses falou muitas verdades. Pode até não ter sabido colocá-las bem, mas não mentiu…

Havia necessidade de mais união, mais companheirismo, maior empenho, maior honestidade. Todos sabiam disso e até aceitaram as observações do treinador.

Mas quando Daltro Menezes resolveu mudar o estilo de jogo, determinado pura e simplesmente que os astros do time marcassem os adversários, o estopim foi aceso para explodi-lo. Para alguns jogadores, principalmente o ponteiro João Paulo, isso era demais. Afinal, marcar é com os zagueiros… atacante tem que marcar gols e é o que estou fazendo…

João Paulo foi mais além: não jogo mais no time do Santos enquanto ele for treinador… a gente não se entende e o artilheiro fica terrível.

O ponteiro tinha dado o veredito: CULPADO. Aparentemente para os menos avisados, estava encerrada a carreira de João Paulo jogando pelo Santos. O jogador tinha cometido uma grave indisciplina rompendo publicamente com o treinador e até mesmo promovido um desafio. O preço do seu passe começou a ser divulgado e até alguns interessados ousaram pedir o preço…

Desfilando pelas alamedas da Vila Belmiro, o forte e baixo Daltro Menezes preferia não comentar o assunto, mas seus olhares revelam que considerava-se um vencedor: João Paulo estava saindo da Vila…

Mas no futebol o “quase” é muito importante. Um técnico quase conseguiu realizar o seu trabalho… um jogador quase marcou um gol… o goleiro quase defendeu a penalidade… o Zico quase saiu do Flamengo… o Sócrates quase não assinou o contrato… o João Paulo quase deixou a Vila Belmiro…

E foi exatamente João Paulo que provocou a queda do treinador. Querendo livrar-se do ponteiro, o mais rápido possível, o treinador passou a oferecê-lo “por um bom preço ou a base de troca”.

Para a diretoria do Santos isso foi uma ofensa. O treinador oferecendo o artilheiro time, um jogador selecionável, como se oferece um simples juvenil? Era o “gancho” que os dirigentes queriam, o motivo (?) que eles estavam buscando. Valeu a demissão do treinador.

Ninguém pode esquecer que a própria diretoria na tentativa irônica de apoiar o treinador, quando a equipe ainda disputava jogos do Paulistão, disse que João Paulo era vendável.

Mas terminada a disputa, com o título não conquistado, com as pressões de torcedores e conselheiros, a diretoria executiva retirou o apoio “irrestrito” ao Daltro Menezes e preferiu transferi-lo para João Paulo. O Santos precisa de ídolos, o Santos vive de Pita, de João Paulo…

O ponteiro estabelece em campo a verdadeira filosofia do Santos: um futebol agressivo, rápido, rompedor, insinuante, atacante…

Ontem, aconteceu o que já era esperado desde o dia em Daltro e João Paulo brigaram. Sempre foi assim no futebol. Num confronto de prestígio entre um “astro” e um treinador (por melhor que seja), aquele que marca gols aparece como vencedor. E nos raros casos em que o técnico vence, dias depois o clube mostra-se arrependido. Assim é o futebol. A demissão de Daltro Menezes apenas faz parte da rotina…

Daltro caiu!

Cabe ao Santos a grande surpresa desse final de ano. Ontem, após reuniões no último final de semana os dirigentes resolveram exonerar o técnico Daltro Menezes, afastado do cargo de treinador do time profissional, impedindo dessa maneira que o trabalho planificado para a temporada de 1982 pudesse ser realizado.

Com isso todo esquema deixado com vistas ao Campeonato Brasileiro deverá sofrer alterações, o mesmo ocorrendo em relação a compra e venda de jogadores. Outro fato que merece destaque é a reintegração definitiva do ponteiro João Paulo que está de acordo com o vice-presidente José Antônio dos Santos, não mais será vendido e deverá continuar na equipe, jogando o seu futebol habitual sem sofrer críticas por parte do técnico com relação a sua postura tática dentro do gramado.

Segundo os dirigentes santistas a demissão do técnico foi provocada pela impossibilidade do clube em atender às exigências em relação aos novos reforços para a temporada. Daltro teria feito uma relação de uma série de contratações que deveriam ser realizadas, para que o clube pudesse lutar pela conquista do título do Campeonato Brasileiro, conforme os comentários existentes nos bastidores do clube.

A maior parte desses jogadores pretendidos pelo técnico estava numa faixa de preço bastante elevada coma qual o clube não poderia dispor no momento, depois de ter gasto cerca de 150 milhões de cruzeiros em contratações no ano passado.

Sem essas contratações, o treinador admitiu que não seria capaz de desempenhar o mesmo trabalho, exigido pelos dirigentes em termos de ambições em relação a conquista de títulos no próximo ano. Com isso o presidente Rubens Quintas e toda a diretoria resolveram demiti-lo contratando um treinador que consiga trabalhar com o plantel atual, talvez com um ou dois jogadores como reforço para o Campeonato Brasileiro.

A Segunda versão

Mas a versão apresentada pelo dirigente, tende apenas a acobertar a realidade dos fatos, já que segundo os comentários existentes na Vila Belmiro, o técnico, em férias por Porto Alegre, tentou negociar alguns jogadores do clube por sua própria conta, falando com os clubes gaúchos e do sul do país, como se estivesse autorizado a desempenhar essas funções.

Comenta-se que Daltro em Porto Alegre teria proposto a troca de João Paulo que não estava nos seus planos, por Baltazar, troca que teria sido aceita pelo Grêmio, mas recusada pelos dirigentes santistas, quando tomaram conhecimento das entubulações do técnico do Rio Grande do Sul. Outros jogadores também foram oferecidos para clubes do sul pelo técnico santista.

Todos aqueles que não estavam nos seus planos eram oferecidos, segundo os comentários, e isso desagradou profundamente os dirigentes santistas que já haviam afirmado que não venderiam algumas de suas principais estrelas, principalmente o ponteiro João Paulo, com o qual o técnico viveu um permanente conflito, enquanto esteve na Vila Belmiro.

Lógico que, essas informações não foram confirmadas pelo vice-presidente José Antônio dos Santos que tinha uma preocupação muito maior com a repercussão que o fato teria no dia de hoje em São Paulo, já que foi o principal responsável pela contratação de Daltro, sendo o seu grande defensor dentro da Vila Belmiro.

– Eu já estava até aborrecido de receber telefonemas semanais de Porto Alegre, com o Daltro perguntando as novidades em termos de contratações para a próxima temporada. Eu sempre respondia que as coisas estavam difíceis, os jogadores pretendidos estavam com os preços bastante elevados e que ele teria que trabalhar com o mesmo elenco, ou então pedir demissão, já que seus planos para o próximo ano não poderiam ser concretizados em termos de contratação de novos jogadores.

Jogadores com nova perspectiva

Não apenas o ponteiro esquerdo João Paulo deve ter ficado satisfeito com mais essa vitória sobre o treinador, mas quase todos os profissionais, principalmente aqueles que estavam com a situação ameaçada na Vila Belmiro, terá uma nova possibilidade de mostrar o seu valor para outro técnico que vier a dirigir a equipe.

Esse é o caso de Toninho Vieira que estava insatisfeito com a reserva de Chicão. E Washington, também passando férias, no Rio de janeiro, e sem contrato poderá ter uma nova chance na equipe, o mesmo acontecendo com os próprios jogadores da Taça São Paulo de Júniors que conquistaram o vice-campeonato recentemente.

Um novo técnico

O vice-presidente José Antônio dos Santos garantiu que um novo técnico será contratado até o início da próxima temporada e essa contratação acontecerá o mais breve possível, já que a diretoria pretende apresentar um plano de trabalho juntamente com a comissão técnica, antes do dia 7 de janeiro, data marcada para o retorno das atividades.

Os dirigentes não confirmaram o técnico de qualquer treinador, mas admitiram que entre Diede Lameiro, Carlos Alberto Silva, Jair Picerni, Pepe e o próprio Formiga do São Paulo poderá sair novo técnico.

– Vamos primeiramente nos reunir com todos os membros da diretoria para estudar nome por nome. Até que um desses técnicos seja contratado, nós não faremos nenhuma contratação de jogadores para o time. Vamos esperar uma definição dos planos do novo treinador e sua avaliação sobre as necessidades da equipe.

Eron Beresford continua

O mais importante para os dirigentes santistas será a manutenção do preparador físico Eron Beresford na direção da equipe no aspecto físico e atlético.

– Trata-se de um profissional da mais alta competência e que não tem nada a ver com a demissão de Daltro. Já conversamos com ele e pretendemos contar com o seu trabalho por muito tempo na orientação da equipe, independente do técnico que venha a ser contratado – comenta o vice-presidente.

Os fiéis

Leia o post original por Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportiva de 21/12/1981 

As principais torcidas de São Paulo acolhem dentro do peito muitas esperanças. Desde os bicampeões sãopaulinos até os sofridos corintianos, esperam momentos mais agradáveis em 1982.

Depois de um ano repleto de instantes surpreendentes, os torcedores aguardam ansiosos que o futebol paulista sofra muito menos na próxima temporada.

O futebol recebeu pontapés desleais, acusou ferimentos profundos, foi hutorcidamilhado. Esteve longe de ser respeitado e por muito pouco não tombou ante os politiqueiros com intenções cinzentas.

Os torcedores pouco puderam fazer para auxiliar o ferido futebol nesta luta desigual. Se limitaram a ficar nas arquibancadas suspirando, lamentando, voltando aos olhos, cobrindo os ouvidos. Foram muitos os torcedores que preferiam abandonar os estádios, cansados de presenciar os cortes sofridos pelo futebol.

Mas como todos os fiéis – e fiéis são todas os torcedores de futebol – acreditam num ano melhor.

E claro que a conquista de mais um título pelo São Paulo, fez de seu torcedor um homem mais feliz. As discussões na justiça e torno de um confuso campeonato não afetam o torcedor, apesar de deixá-lo intrigado.

Mas não é esse o futebol que o torcedor gostaria de ver do “seu São Paulo”. Com os inúmeros jogadores acima da média, o espetáculo mostrado foi decepcionante. Uma equipe irregular, geradora de sustos no torcedor.

A diretoria promete novos “astros”, acena com um time imbatível, mas o torcedor prefere ver simplesmente a equipe de hoje jogando um grande futebol. O torcedor olha cismado os acordos publicitários e ouve as inflamadas orações dos dirigentes do clube.

O torcedor do São Paulo quer ter a certeza de que seu time é bom. Ele não quer ouvir mais os outros dizerem ouvir que o São Paulo é o menos ruim.

A Taça de Prata chegou para o torcedor do Corinthians como um objeto contundente. Um ano cheio de atritos, indefinições, incertezas. Uma equipe desarrumada e quase sem filosofia. Ao longo desse ano não mostrou bom futebol e nunca inspirou confiança. O torcedor começou, então, a fugir dos estádios.

Luta entre os dirigentes, contratações precipitadas e compras sem nenhum entusiasmo. Ninguém sofreu mais que o torcedor do Corinthians. É triste ver o time abatido por pequenas forças do interior. E doloroso ver o Corinthians sem forças para reagir, quando envolvido.

O torcedor espera que 1982 faça o seu Corinthians ressurgir muito mais forte. Chega de apanhar, basta de chorar.

O Corinthians sempre foi forte, sempre lotou estádios, sempre representou a parcela maior do povo paulista. Quando não vai bem, decepciona e frusta milhares de corações. O Corinthians de obrigação de deixar o seu torcedor sorrir em 1982.

Outra vez o torcedor do Palmeiras é obrigado a suportar a Taça de Prata. Pontos perdidos, falta de entendimento, pouca luz entre jogadores e dirigentes, levaram o Palmeiras a uma campanha vexatória em 1981.

Resta ao torcedor a esperança de ver seu time chegar ao título da Taça de Prata e voltar a ser considerado forte e conquistar. O torcedor do Palmeiras acostumou-se a carregar títulos e de um instante para o outro passou a vê-los em outras mãos. Quem nunca sentiu o sabor de um título não pode dizer quanto é duro e amargo não conquistá-lo.

Mudaram os jogadores, técnicos e dirigentes, mas o Palmeiras não conseguiu as vitórias necessárias. O torcedor do Palmeiras exige momentos vitoriosos em 1982. Ele não aceitará “meias soluções”. É missão da diretoria resolver todos os problemas e colocar em campo um time que possa lembrar a “Academia”. O torcedor não permite ver em campo um Palmeiras acanhado, introvertido, aceitando passivamente as derrotas.

O Santos está na Taça de Ouro, mas sem grande brilho. Também o fiel torcedor do Santos enfrentou dissabores ao longo de 1981. Foi aos estádios , gritou, incentivou, aplaudiu, mas não viu um time que pudesse aproximar-se das suas gloriosas tradições.

Nem mesmo a filosofia adquirida há alguns anos – por insuficiência de recursos – que propunha a revelar valores, andou dando certo. O Santos comprou e vendeu erradamente. O santos mudou técnicos, alterou a movimentação em campo, mas não deu certo…

A Vila Belmiro – um monumento sagrado – passou dias tristes e tensos. E com as constantes vistas de Pelé, as lembranças de passado vencedor ficaram ainda mais afloradas.

O Santos é outro grande que precisa alegrar o fiel torcedor. Não há alternativa: ou volta a ganhar e mostrar seu futebol ofensivo e alegre, ou vai perder o torcedor.  O próximo ano precisa arrancar aplausos do torcedor santista.

A Portuguesa de Desportos é considerada uma equipe grande, mas infelizmente ela não acredita nisso. Prefere ficar num bloco intermediário. Com mais de 80 mil associados e uma limitada torcida no futebol, ele parecer insistir em não fazer nada para atrais os torcedores.

O torcedor da Portuguesa não sabe a filosofia do seu clube com relação ao futebol. Futebol que perdeu Enéas, o grande astro, e não contratou ninguém.

Mudou técnicos, não prestigia jovens, contrata sem fundamentos e vive em eterna disputa política. Até o nome do clube querem mudar.

O ano de 1982 é decisivo para a Portuguesa que vai participar da Taça de Prata. Ou se reforça, ou compete, ou conquista pontos de uma vez por todas, ou seu torcedor vai procurar novos rumos. O amor é bom quando os dois se amam. Não é justo o torcedor dar o seu apoio e receber derrotas como retribuições.

Apesar de possuir o artilheiro paulista de 1981, o Guarani não agradou seu torcedor. Os motivos foram vários: andou vendendo ótimos jogadores e contratando razoáveis; caiu de produção técnica e além disso permitiu que a grande rival, Ponte Preta disputasse mais um título paulista.

O Guarani através de sua diretoria promete chegar ao título de 1982. Para isso afirma que manterá Jorge Mendonça, Careca, e contratará outros ótimos jogadores. Pensa em até mesmo conquistar mais uma vez  o Campeonato Brasileiro.

O torcedor do Guarani reclama das arbitragens, contesta a administração da Federação Paulista de Futebol, mas admite que o futebol do time em momentos decisivos, decepcionou o fato da grande rival ter prosseguido no Paulistão, enquanto o Guarani descansava, fez com que o torcedor ficasse irritado, machucado. O torcedor quer um Guarani verdadeiramente grande em 1982.

E mais uma vez a Ponte Preta não chegou. A intenção do torcedor era eliminar o tabu que vem mostrando a Ponte Preta como eterna vice-campeã. Quase chegou em 70, em 77, em 79 e em 81. Enquanto o Guarani – seu rival cotidiano – já chegou ao título nacional , a Ponte Preta mostrada por alguns como possuidora do melhor futebol deste Estado, não consegue colocar ao mãos no título regional.

Isso é demais para o seu torcedor. Esse fato derrubou o presidente nas últimas eleições. O torcedor está desesperado. Ele não quer aceitar como normal as quatro perdas

O torcedor da Ponte Preta, já começa a sonhar com a disputa de 82, garantindo mais uma vez que todo será diferente. A diretoria não venderá ninguém e ainda vai contratar bons jogadores. Disputar o título em Campinas e sem roubalheiras.

Um elenco perseguido, é assim que o torcedor da Ponte reta se sente, mas o próximo ano será o instante da redenção. Ele crê nisso.

E o futuro?

Leia o post original por Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportiva de 11/12/1981

O Estado de São Paulo tem quase vinte e seis milhões de habitantes e na opinião de muitos possui o futebol mais forte do Brasil. Como explicar então, a média assustadora de 7.785 torcedores por jogo realizado, envolvendo clubes da Primeira Divisão?

A Federação Paulista de Futebol defende-se com evasivas, os clubes culpam o infidelidade dos torcedores, enquanto os jogadores preferem acusar os árbitros. Certamente, todos – FPF, clubes e jogadoreEstadios – estão distantes da verdade.

São muitos os motivos que provocaram o afastamento do torcedor. Eis alguns deles: a péssima fórmula do campeonato, a planejamento falho da maioria dos dirigentes dos clubes, a queda do nível técnico por parte dos jogadores, e algumas catastróficas arbitragens.

O torcedor é visto e tratado como um simples objeto. Algo inquebrável. É tratado com grossura, indiferença e violência. De quando em quando, seus bolsos são atacados por majorações sem motivos justos. E não tem jamais  o direito de reclamar. Deve apenas aceitar, concordar, aplaudir, sorrir… Contestar nunca!

Quando o torcedor se afasta, decepcionado, machucado, desgostoso, é chamado de infiel pelos levianos dirigentes. Mas há limites para tudo, até para o amor dedicado ao clube.

Os números provam a falta de robustez do futebol paulista. O futebol carioca apresentou um público médio bem superior ao de São Paulo, e com metade de números de jogos realizados. Alguns dirão “os jogos finais do Rio, ajudaram a média carioca, sensivelmente…”

Mas e daí? Aqui em São Paulo também foram realizados os jogos finais. O campeão paulista fez uma festa para entrega de faixas e recebeu o expressivo número de 8 mil convidados num estádio que comporta quase 130 mil pessoas.

Chega de pronunciamentos políticos! Quais são os planos de Nabi Abi Chedid para a próxima temporada? Quais as fórmulas mágicas do candidato de oposição de José Maria Marin? Uma resposta que serve para os dois: nada, absolutamente nada. Ambos estão preocupados em conquistar votos, comprados ou convictos. Não importa para nenhum deles.

E o futebol? E o futuro? Não há pesquisas, não há planos imaginativos, ninguém apresenta idéias atraentes ou eficientes. Há décadas que o torcedor vai ao estádio, senta, levanta e vai embora. Feliz ou abatido dependendo daquilo que seu clube apresentou. Mas será que só isso satisfaz o consumidor? As maiores organizações do mundo cerca os seus produtos com atrativos, com embalagens coloridas, promoções irrecusáveis. Mas quem vende o futebol, prefere colocá-lo no mercado com “casca e tudo…”

A festa do São Paulo – entrega de faixas – é um exemplo recente da falta de previsão ou ausência da sensibilidade. O clube convidou o torcedor para ir ao estádio assistir uma partida amistosa e ao mesmo tempo convidou-a para ficar em casa, assistindo á partida pela televisão…

É um grave erro do presidente da FPF afirmar que “os clubes fizeram a fórmula do campeonato.” Quem recebe a parcela para administrar o futebol? A resposta: a Federação. É ela que deve montar sistemas agradáveis e eficientes. Cabe a FPF promover o futebol, afinal, não é ela quem possui milhões de cruzeiros em caixa? E é válido lembrar que ela não precisa pagar os salários de Sócrates, Luís Pereira, João Paulo, Daniel Gonzales, Zé Sérgio e tantos os outros…

Não é um erro de Nabi. É um erro do sistema. Há anos que isso vem acontecendo e os clubes – os eleitores – não tomam nenhuma posição. Os dirigentes se preocupam – todos – neste período pré-eleitoral em ouvir as propostas de Nabi e de Marin. Depois decidirão em quem irão votar. Na base do “quem dá mais”.

Mas e o futuro? Um Estado com 26 milhões de habitantes não pode ter estádios semidesertos. Há coisas erradas e certamente não são a bola e o gramado os grandes culpados.

Quatro brasileiros na Copa-82

Leia o post original por Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportiva de 09/12/1981

1 – Telê Santana com o Brasil

2 – Tim com a seleção do Peru

3 – Parreira e a “zebra”: Kuwait

4 – Evaristo e a África: Nigéria

Quarteto 82Quatro técnicos brasileiros estarão disputando a Copa do Mundo de Futebol de 82, na Espanha: Carlos Alberto Parreira (Kuwait), Elba de Pádua Lima Tim (Peru), Evaristo de Macedo (Nigéria) e Telê Santana (Brasil).

Com forças consideradas deficientes, Parreira, Tim e Evaristo reforçaram ainda mais que envolvem treinadores brasileiros nos últimos tempos, quando passaram a ser procurados por dirigentes de clubes e seleções de todos os continentes. Para Kuwait, Peru e Qatar, participar do próximo campeonato mundial significa uma enorme injeção moral no futebol de cada um deles. Hoje, os treinadores do Brasil são vistos como solução para os problemas do futebol.

Ficou provado que para um treinador ter sucesso, há necessidade de segurança. Parreira, Tim e Evaristo foram apoiados e prestigiados. Telê Santana foi pressionado, atacado, agredido e ninguém pode negar o mérito da CBF, que aliviou as pressões que cercaram o treinador do selecionado, escorou ataques e agressões. Resultado: o trabalho de Telê Santana deu certo.

Infelizmente esses exemplos não serviram aos clubes brasileiros. A alucinante gangorra dos treinadores continua mais ativa do que nunca. Até treinadores campeões estaduais sentem-se inseguros nos “empregos”.

Todos integrantes da Associação brasileira de Treinadores de Futebol, seção em São Paulo, concordam em um ponto: é preciso segurança para poder trabalhar. Os treinadores sempre citam um outro exemplo: “Na Europa, técnico de futebol assina contrato por três anos. No Brasil, perder um clássico significa perder o emprego…”

Já tramita pelo Ministério do Trabalho o projeto que visa a regulamentação da profissão. Na próxima segunda-feira será eleita a nova diretoria da ABTF (a atual é presidida por Flávio Costa) e os treinadores esperam da direção nacional da associação force o projeto que pode entregar aos técnicos a sua mais sonhado aspiração: a segurança.

Além de uma seleção comprovadamente competitiva, o Brasil terá na Copa da Espanha, quatro treinadores de enormes qualidades. É mais um aspecto para elevar o respeito que o mundo tem pelos profissionais brasileiros, cada vez mais disputados.

Os europeus perderam a liderança do mercado. Sempre que um clube ou uma seleção pensa em contratar um treinador, nomes brasileiros constam na lista. E quando, nesse instante, fica definida a presença de quatro profissionais brasileiros dirigindo as seleções na próxima Copa do Mundo, certamente a procura será ainda maior.

Minutos de Talento

Leia o post original por Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportva de 07/12/1981

Brasil 58O Estádio Municipal “Dr. Paulo Machado de Carvalho”, no Pacaembu, viveu na noite do último sábado, um momento histórico. A Secretaria Municipal de Esportes mostrou oficialmente ao público, três placas de bronze – cada uma relacionando os campeões mundiais de cada conquista – instaladas ao lado dos portões principais do estádio. Estiveram presentes todos os ex-jogadores, inclusive Pelé. O Dr. Paulo Machado de Carvalho compareceu a solenidade com a mesma roupa que usou quando o Brasil conquistou o título mundial de 1958 – paletó marrom (com distintivo da antiga CBD), calça cinza, camisa branca e gravata verde.

Foram muitos os jogadores que choraram durante a solenidade. Afinal, nunca tinham sido reunidos num só momento. Nem mesmo a CBD ou a CBF tinham conseguido tal feito. Alguns se abraçavam, outros sequer reconheciam seus velhos companheiros, tal a transformação fisionômica. Mas nenhum deles esqueceu as conquistas maravilhosas.

Depois de homenageados, assistiram à partida inaugural da 14ª Taça São Paulo de Futebol Junior (Corinthians 0, Santos 2) e em seguida resolveram premiar a população com uma “pelada”, aliás, uma sofisticada “pelada”… Uma partida sem compromisso maior, mas contando com verdadeiros ídolos.

Gilmar foi chamado para formar as equipes, um técnico duplo. O ex-goleiro campeão do mundo foi assessorar as equipes pelo meio campista Zito e ainda recebeu palpites de Coutinho (hoje, técnico da equipe Junior do Santos). Pelé não pode ficar até o final, nem Garrincha (ainda em recuperação clínica), Joel (ponteiro direito) funcionou, segundo ele, como observador tático.

CAMISA AMARELA: Félix, Jair Marinho, Jurandir, Oreco, Altair, Pepe, Joel Camargo, Jair da Costa e Dario Maravilha.

CAMISA AZUL: Ado, Djalma Santos, Bellini, Wilson Piazza, Nilton Santos, Clodoaldo, Vavá e Paraná.

O time de Nilton Santos venceu por dois a um, gols marcados por Paraná e Vavá e Jair da Costa assinalou para a equipe de Félix.

O jogo teve a duração de 40 minutos, coma arbitragem de Emídio Marques de Mesquita, e com excelente nível técnico, apesar das deficiências físicas de cada um dos jogadores, exceto Dario (que está em atividade. Idem, o goleiro Ado).

O público aplaudiu durante todo  o tempo. A maioria dos campeões mundiais, estão obesos, com fios de cabelos brancos, as rugas são visíveis, mas não perderam a habilidade. O toque de bola ao longo tempo. Ado e Félix seguros, Jair Marinho chutando forte, Jurandir impondo pela presença, Oreco muito hábil ao lado de Altair, a potência do arremate de Pepe, a imponência de Joel Camargo, a agressividade de Jair da Costa, o oportunismo de Dario. Tudo isso permaneceu…

A categoria de Djalma Santos, a seriedade de Bellini, o futebol simples de Wilson Piazza, a maestria de Nilton Santos, a agilidade de Clodoaldo, a força de Vavá, a rapidez de Paraná. Tudo isso permaneceu…

Colados nos alambrado, pessoas de todas as idades. As expressões eram as mais diversas e emocionadas possíveis. Os mais velhos lembrando as alegrias que os “velhinhos” proporcionaram a todos os brasileiros. Os mais entusiasmados: os meninos. Falavam de Clodoaldo, de Dario, afirmaram terem lido e assistido “tapes” das seleções de 58, 62 e 70 e sentiam felizes em sentir de perto a presença daqueles homens.

Nenhuma vaia foi ouvida, nenhum comentário irônico aconteceu. Nem mesmo quando as pernas dos campeões mundiais não obedeciam o cérebro. A exibição foi feita diante de grande respeito. Simbolicamente, as pessoas estavam curvadas diante daqueles reis… Eles fizeram este Brasil viver instantes inesquecíveis. O sentido patriótico foi aflorado com o trabalho deles em gramados da Suécia, Chile e México.

A história do futebol brasileiro foi revivida dentro do Pacaembu. Personagens dos nossos principais momentos, das nossas mais importantes conquistas estiveram jogando. Uma espécie de aula prática. Alguns jovens, sorrindo, diziam: “É a mesma coisa que ler um livro… Guardada a devida proporção, seria a mesma coisa que Rui Barbosa voltar à ativa e ler um discurso…”

“Seria uma aula maravilhosa, um momento histórico que jamais foi esquecido pelos assistentes. Foi exatamente isso, na minha opinião, que estes jogadores fizeram. Ninguém que os assistiu se importou com a obesidade, com a falta de condição física, coma presença dos cabelos brancos. Afinal, o mais importante, o mais sublime, o mais caro esteve presente como nos velhos tempos: o talento.”

O Pacaembu realmente apresentou 40 minutos de talento. O mais importante não foi a quantidade do tempo, mas a qualidade exibida. Todos acima de tudo, “homens respeitáveis” – como fez a questão de ressaltar o velho e vitorioso Paulo Machado de Carvalho.

Foi emocionante vê-los, suados, cansados, voltando pelo túnel em direção ao vestiário. Pareciam jovens, saltitantes sorridentes, entusiasmados, vitoriosos, sinceros. Os abraços dos meninos tiveram o condão de rejuvenescer, já que o talento jamais envelhecerá.