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A grande lição

Leia o post original por Antero Greco

Há 35 anos que a lembrança pontualmente ressurge, no dia 5 de julho. Data especial para quem ama o futebol em geral, o do Brasil em particular. Sim, a folhinha nos recorda da fatídica partida com a Itália, na segunda fase do Mundial da Espanha.

Para quem acompanhou o episódio e para os jovens que só ouviram falar ou assistiram pela tevê, é o momento de recordar dos 3 a 2 que eliminaram a seleção de Telê. Maldito Paolo Rossi! Que de maldito não tinha nada. Apenas fez o que se esperava de um centroavante – gols, três de uma vez.

Para mim, a “Tragédia do Sarriá” como o duelo ficou conhecido – por causa do nome do antigo estádio do Espanyol – tem significado decisivo. Foi um marco profissional e uma lição de vida. Quero dividir a experiência com os amigos, sobretudo com os que são ou sonham em ser jornalistas.

A Copa de 82 foi a primeira das sete que cobri ao vivo – em outras três fiquei na redação. Na época, já não era um iniciante (“foca”, na nossa gíria), tampouco muito rodado. Tinha acompanhado um pouco times brasileiros na Libertadores e contava com o Mundialito do Uruguai (80/81) no currículo. Mesmo assim, a turma do “Estadão” botou fé em mim e decidiu me mandar para aquela grande cobertura.

No entusiasmo de quem tinha 20 e tantos anos, topei a parada. E mais: fui um mês antes do pontapé inicial e voltaria só um mês depois. Quase 90 dias fora de casa – e tinha um filho de apenas três meses. O primeiro ensinamento: aguentar saudade da família. Para piorar, eu fiquei a maior parte do tempo sozinho, pois minha missão era seguir os passos da Itália.

O ambiente entre os italianos era péssimo. Os jogadores não falavam com a imprensa, irritados com críticas que recebiam e até insinuações maldosas. Era um sufoco obter notícia – e não tinha internet, smartphones, tevês a cabos e novidades do gênero. Era máquina de escrever, gravador e telex. Alguém ainda sabe o que seja um telex?

Mesmo assim, deu pra fazer coisa boa, digna da tradição do jornal. Ruim era o futebol da Itália, que passou de fase com empates com Polônia, Peru e Camarões. Por pouco, a equipe africana não tira a “Azzurra” do páreo. A certeza de todos, incluído o técnico Enzo Bearzot, era de que penariam diante de Argentina e Brasil na etapa seguinte.

A Itália saiu do nada, derrubou os argentinos (então campeões do mundo) e atropelaram o Brasil, na última vez em minha carreira em que vibrei e fiquei triste com a “amarelinha”. Para não tomar mais seu tempo precioso, chego ao ponto central desta crônica.

Na tribuna de imprensa do estádio, eu estava sentado entre Nelson Cilo, companheiro de muitas batalhas, grande repórter, e Luiz Carlos Ramos, na época o chefe de Esportes do “Estadão”. Tão logo acabou o jogo, Cilo e eu nos olhamos sem saber como reagir, tal a decepção, a incredulidade diante do que acabáramos de assistir.

Assim que me viro para o Luiz Carlos, que passou o jogo todo batucando na máquina de escrever, ouço o seguinte: “Bem, estamos todos tristes, mas amanhã o jornal sai.” Reagi: “Vai à merda, Luiz! Você tem toda razão.”

Entendi, naquela hora, que minha missão ali era contar a História e não chorar como torcedor. O jornal me mandara para o “front” por avaliar que estava preparado para qualquer situação anormal. E aquela derrota era totalmente fora do comum, um choque.

Só que eu não tinha direito de me abater. Ao menos enquanto estivesse em atividade. Deveria manter equilíbrio e serenidade para relatar para os leitores o que havia acontecido ali, por que, como, e o que aquilo representaria para nosso futebol. As pessoas confiavam que, no jornal do dia seguinte, encontrariam uma luz – e ela viria dos profissionais enviados para tal tarefa.

Levantei-me da tribuna, fui à entrevista de Telê Santana (aplaudido pelos estrangeiros), conversei com jogadores, escrevi meu material e ainda dei uma ajuda pro Cilo, que continuava abalado. Depois, sem pressa, fomos andando até nosso hotel, nos trocamos, saímos para jantar. Tomei uns dois copos de vinho (o que era um despropósito pra mim, abstêmio convicto) e só então me emocionei. Permiti que algumas lágrimas rolassem.

Na volta para o hotel, como estava difícil conciliar o sono, fui conferir a crônica do Luiz Carlos, nosso guia e experiente homem de imprensa. Ela dizia que a “história iria julgar” aquela seleção. E a História a colocou dentre as melhores do futebol.

O Luiz (“Barriguinha” para os amigos e colegas) estava certo em tudo: na previsão e no conselho que me dera ainda no calor da hora. Nunca mais esqueci que jornalista precisa manter o sangue frio enquanto a história passa na frente dele. Deve ter nervos sob controle. Terminada a jornada, então ria, chore, grite, viva como “um ser normal”.

Porque afinal de contas, como diria o sábio, “jornalista também é gente”.

 

Uma camisa azul e lembranças de 5 de julho de 1982

Leia o post original por Antero Greco

A Copa de 1982 foi a primeira das seis que cobri ao vivo – cinco delas pelo Estadão. Pela minha ascendência, e também porque era um dos mais novos do grupo, o jornal me mandou acompanhar a Itália. A seleção brasileira era assunto para os repórteres mais experientes, não se podia correr riscos na cobertura. Antes era assim que funcionava nos jornais.

Fiquei, então, deslocado no norte da Espanha a seguir os passos da Squadra Azzurra. Me meti numa enrascada, porque os italianos estavam em pé de guerra: imprensa x jogadores. Os primeiros desciam a lenha no time, estranho e sem padrão. Os boleiros responderam com greve de silêncio. Não abriram a boca durante a competição. Só falava o capitão Dino Zoff.

A Itália seguiu adiante num sufoco danado, após empates contra Peru, Polônia e Camarões. Por isso, caiu num grupo com Argentina e Brasil. Lá fui atrás da italianada, que deixou Vigo em direção a Barcelona. O técnico Enzo Bearzot dizia: “Estamos numa encruzilhada. Enfrentaremos os atuais campeões do mundo (Argentina) e os próximos (Brasil)”.

Eu e os companheiros da imprensa internacional achávamos a mesma coisa. Pois a Itália surpreendeu, ao fazer 2 a 1 na Argentina, e ficou de boa à espera do Brasil. Tranquila e na posição de franco-atiradora, depois de ver Zico e seus amigos lascarem 3 a 1 nos hermanos. Sabiam que o empate significaria a eliminação, por saldo de gols.

No dia 5 de julho, a equipe do Estadão se preparava para ir ao Estádio Sarriá. No almoço, desci do quarto com uma camisa polo azul marinho, parecida com a oficial da Itália. Coincidência, apenas. Ou premonição do que iria acontecer? Não sei. Sei que o Gilson Menezes, divertido companheiro da sucursal do Rio do jornal, notou, ficou bravo e perguntou se eu iria torcer para os inimigos. “Claro”, respondi, na gozação. E lá fomos para o estádio.

O que rolou dentro de campo, você já sabe. Eu mesmo escrevi a respeito várias vezes, falei no rádio e na televisão. Paolo Rossi deitou e rolou, marcou os gols da vitória por 3 a 2 e entrou para a história do nosso futebol como um carrasco do nível do Gigghia, aquele de 1950. O episódio que chamamos de “Tragédia do Sarriá” dói até hoje.

Aquela partida trouxe duas consequências para mim: 1 – nunca mais vibrei com a seleção brasileira. No máximo, achei bem bacana a conquista do penta. Mas torcer, mesmo, não. 2 – tive a maior lição de jornalismo da minha carreira. Assim que o juiz apitou o jogo, bateu desânimo enorme, junto com meu amigo e colega Nelson Cilo. Ao nosso lado, estava Luiz Carlos Ramos, então editor de Esportes do Estadão. O Luiz virou-se para nós e disse: “Estamos todos tristes. Mas amanhã o jornal sai.” Devolvi com um palavrão e acrescentei: “Você está certo.”

A nossa missão lá era contarmos o que aconteceu, fazer registro para a posteridade. E sempre é assim: o jornalista coloca o coração à parte, durante o trabalho. Depois, volta a ser um humano como qualquer outro. E assim foi: depois de escrevermos tudo, saímos para jantar e afogamos as mágoas em vinho espanhol.

Ah, teve um terceiro desdobramento: acabada a partida, esbarrei no Gilson. Furioso, olhou para mim e disse: “Tá contente agora, seu….? Tá feliz por causa da Itália?” Não entendi a bronca. Depois, me dei conta que era por causa da camisa azul. Desgraça de coincidência e minha boca que não ficou calada na hora certa…

Não vi mais o Gilson, não nos falamos por quatro anos. Fomos nos reconciliar na Copa do México. Por via das dúvidas, no jogo do Brasil com a França não coloquei camisa com nenhuma cor que remetesse aos adversários. Mesmo, não deu certo… Pelo menos, não briguei com nenhum amigo.