Arquivo da categoria: Sem bola

Feliz dois mil e hexa!

Leia o post original por Rica Perrone

Em 2018 eu quero que você reuna seus amigos o máximo de vezes que puder. Que faça churrascos com muita cerveja, risadas sem noção e futebol sempre que puder. Quando não puder, dê um jeito.
 
Não precisa ser a picanha mais cara. Se não der, pega aquela de 30 reais. Tudo bem. Compra latão, tanto faz. Mas junta gente, brinda coisas sem sentido, abraça os amigos e promete qualquer merda mesmo que seja só um conhecido.
 
Sorria. Aliás, gargalhe. Morra de rir.
 
Não brigue com seus amigos por causa desses filhos da puta da política. Discuta, mas quando a chapa esquentar, muda de assunto. “E o Corinthians?!”. Pronto, foda-se o Lula, o Bolsonaro, o Doria….
 
Se veste de amarelo. Pinta a cara. Curta a Copa e não seja um idiota que reclama do pão e circo no mes de junho. A gente precisa de circo pra vida ter sentido e pão pra ela continuar. Uma coisa não exclui a outra.
 
Se juntas pessoas para celebrar, cantar o hino, sentir orgulho e confraternizar não é motivo para parar o país, cancela a porra do Natal.
 
Vai ter hexa! Tem que ter.  
 
Não importa onde, mas sempre com quem. E se for com os nossos, o lugar tá ótimo.
 
Um ano cheio de muita risada gostosa, amigos leais, romances surreais, jogos memoráveis do seu time, churrascos com mais pão de alho que picanha e, ainda assim, os melhores churrascos do mundo.
 
Pára de esperar ficar rico. Ser feliz custa menos de 100 reais.
 
Um 2018 do caralho pra vocês! Inclusive pra quem vive aqui só pra me encher a porra do saco.
 
Aos meus, em especial, e quem é sabe, um beijo enorme e obrigado por mais um ano de amizade e tudo que citei acima. Eu tenho os melhores amigos do mundo. Agora pega o cavaco, bota a cerveja pra gelar, acende a churrasqueira chega de papo!
 
Feliz 2018
abs,
RicaPerrone

Jornalistas não são especialistas

Leia o post original por Rica Perrone

Você deve estar se deparando pela web com desabafos de jornalistas “revoltados” com os vários convidados especiais para comentar Olimpíadas enquanto o desemprego toma as redações.  É previsível no país onde o taxista agride o motorista de Uber que a reação seja essa. Mas… peraí.

Eu fiz faculdade de jornalismo. Em 4 anos nenhuma vez, em nenhuma aula, alguém me ensinou algo sobre futebol, por exemplo. Eu aprendi a colocar virgulas (não muito), talvez a me comunicar, a levar informação, a como tratar uma apuração, mas em momento algum me tornei especialista em NADA.

A função de comentarista, me parece claro, é para alguém preparado a opinar sobre um assunto. Logo, deve ter conhecimento sobre este assunto. E nenhum jornalista sai da faculdade credenciado a comentar futebol, por exemplo. Você sai dali pra levar informação. A sua opinião não tem qualquer motivo para ser mais ou menos respeitada que a de alguém que assiste jogos toda semana como você.

Os convidados a comentar são especialistas seja por ter praticado ou por terem estudado aquilo. Mas não tem absolutamente nada a ver com “jornalismo”.  Absurdo seria coloca-los para fazer reportagem.  Não é o caso.  Talvez tão absurdo a eles seja ver alguém que aprendeu ontem a escrever se achar no direito de opinar nacionalmente sobre um esporte que nunca teve contato.

O cargo de comentarista nunca foi, e nem deveria ser, um privilegio jornalístico.

Na faculdade você aprende a usar virgulas. O que vai ser colocado entre elas são outros 500.

abs,
RicaPerrone

20 anos de Rica Perrone

Leia o post original por Rica Perrone

Era 11 de março de 1997 e, portanto, faz 20 anos. Eu entrei na Band FM em São Paulo a convite de um vizinho que era diretor da rádio, nem me lembro o nome. Morreu já.

Cheguei umas 17h. A primeira pessoa que vi na Band foi Luciano do Vale, que passava na catraca na minha frente.  Fiz Palmeiras 7×1 River-PI pela Copa do Brasil, 3 gols do Viola.

Foi a primeira vez que “trabalhei com futebol” na vida.

Pouco depois fui demitido e, puto, resolvi que faria o material e venderia pronto pra emissoras.  Veja você, moleque folgado, aos 19 anos, querendo produzir jogo pra Sportv, Rádio Globo, Rádio Record e Tv bandeirantes. Nem faculdade eu fazia ainda.

Fiz pra todos. Todos eles usaram. A Band me contratou pra TV após isso. Eu fiquei dois dias, pedi demissão.

Ninguém acreditava. “Maluco! Saiu da Band com 2 dias! Puta chance!”.

Chance o caralho. Se era pra fazer aquilo eu preferia ser veterinário. Odiei. Só filha da puta, ego pra caralho, panela pra cacete, nego veterano tratando mal quem chegou. Peguei um ambiente péssimo, era a época da Traffic. Enfim, não era aquilo.

Sai. Fui cobrir F-1 para um site do Deva Pascovic na AOL. Deva morreu no acidente da Chape. De reporter de F-1 fui fazendo, fazendo, até vender pra America On Line um site de Fórmula 1. Ele se tornou de automobilismo, depois foi pra outros parceiros e em um momento, acho que 2003, eu asseguro que tinha o maior site de automobilismo em lingua portuguesa no mundo. Era bizarro! Tinha transmissão ao vivo de Nascar, irmão!

Dali fiz a Rádio F-1 na WEB, há quem diga que foi o primeiro “programa de rádio” sobre o tema na web. Nunca confirmei. Em seguida começou a ter “blog” de menininha postando a vida delas. Eu fui o idiota que pensou: Porque as colunas semanais não viram blogs e postamos quando queremos sem data fixa?

Fiz isso. O primeiro. E voltei atrás com uns 3 meses porque não entendiam aquele mecanismo. Em 2006, quando já tinham alguns, voltei e está até hoje. Mas quem transformou a “coluna” em blog pela primeira vez entre os jornalistas foi esse cara aqui.

E de 2005 pra cá eu fiz SPnet, criei a Rádio SPNET, fiz a Estação Tricolor, fechei o F1naWEB, fiz do meu blog referência na web e passei por um período onde o blog foi parceiro da Globo.com. Note: Eu jamais TRABALHEI lá. Fizemos parceria, ao contrário do que pensam.

Minha carteira de trabalho está em branco. Eu abri uma empresa com 19 anos. Nunca tive um décimo terceiro, férias, nem mesmo uma indicação pra prêmio ou algo do tipo.

Batalhei todos os meus patrocínios, consegui meus views, escrevi meu livro e fui o único jornalista sem um grupo de mídia credenciado pela FIFA na Copa do Mundo. A sugestão da própria FIFA.

Não fiz grandes amigos no meio porque não gosto do meio. Não frequento, não ando em bando, pouco os conheço. Não sou “jornalista”.  Trabalho com entretenimento.

Mas nos clubes, entre os treinadores, profissionais, jogadores e gente que de fato faz a coisa girar, tenho amizades e o respeito que gostaria. Não tenho inimigos no futebol. Só na imprensa esportiva.

Conheci os meus ídolos, o Zico lê meu blog. Na Copa os jogadores compartilhavam meus textos no grupo deles de whatsatp. E a CBF me pergunta o que acho sobre algumas coisas.

Fiz o texto dos 19 clubes da série A para a Chapecoense a convite deles, lido pelo Galvão na Globo.  Fiz textos que rodaram a internet, que viraram do Verissimo, de outros tantos. Mas eram só do Rica.

Briguei pra ser o Rica enquanto o Ricardo já existia no UOL, na Folha, na Placar. Adotei o apelido e hoje sabem que tem dois Perrones. E as diferenças.

Eu não fiquei rico. Continuo sendo apenas “Rica”.  Conheci muita gente legal, muita gente escrota.  Vi jogos memoráveis, 95% da arquibancada mesmo credenciado. O 7×1 eu vi de imprensa. Talvez porque eu como torcedor não merecesse aquilo.

Passei por umas rádios. A última, a BET 98, onde fiz por 3 anos um programa de humor e futebol com Marcelo Adnet, Gustavo Pereira e Paulo Beto.

Eu não sou sortudo. Eu trabalhei pra caralho.

Eu tenho 20 anos de independência “jornalistica”, falando o que bem entendo e NENHUM processo contra mim.  Eu jamais criei uma crise, jamais menti sobre uma transferência, cravei uma notícia por ejaculação precoce ou causei mal a alguem do futebol.

“Chapa branca”. Não… honesto. É diferente.

Acrescente também a coerência do que prego em ter feito 2 cursos de treinador e um estágio com o Espinosa pra aprender e melhorar o meu conhecimento sobre o tema e me tornar, de fato, “especialista” em alguma coisa.

As vezes nego pergunta de onde vem o blog, o sucesso, etc.  E eu respondo: “Sou sortudo”.  Mas é só preguiça de contar tudo isso.

Eu abri um mercado. Eu criei uma alternativa que será usada por diversos novos jornalistas e até os atuais.  Não porque sou gênio, nem melhor do que ninguém. Mas porque fui maluco, teimoso e abusado.

Falo demais. Mas ainda assim, nunca me deu problemas o que falo.

Sou a falsa bomba relógio que os velhos acham que é questão de tempo pra “se explodir”. Mas não explode. E nem vai.

Porque atrás dessa marra toda tem alguém que sabe exatamente o que está fazendo. E que embora tenha tido sorte, teve bem mais do que isso pra ser a referência, o alvo ou o “filha da puta que eu odeio” de tanta gente.

Não vão ter mais 20. Eu fiz da minha meta parar com o hexa em 2018 e fazer outra coisa dentro do futebol que não mais “jornalismo”.  Talvez você tenha notado com os textos sobre outros temas.

A melhor coisa que fiz foi o Cara a Tapa. A pior foi o Futebol na WEB, um site que não vingou.

E a que mais me orgulho é de ter todo dia um e-mail na minha caixa de alguém dizendo que não concorda comigo sempre, mas que corre pra me ler quando o time dele é campeão ou ganha algo épico.

Era isso que eu queria. Mais nada.

Obrigado a quem ajudou, me desculpe com quem fui injusto e um abraço pra quem duvidou.

Porque eu tô escrevendo esse post? Porque poder escrever o que eu quero, quando quero, da forma que sinto e ter quem leia é a maior conquista da minha carreira.

Abs,
RicaPerrone

20 anos de Rica Perrone

Leia o post original por Rica Perrone

Era 11 de março de 1997 e, portanto, faz 20 anos. Eu entrei na Band FM em São Paulo a convite de um vizinho que era diretor da rádio, nem me lembro o nome. Morreu já.

Cheguei umas 17h. A primeira pessoa que vi na Band foi Luciano do Vale, que passava na catraca na minha frente.  Fiz Palmeiras 7×1 River-PI pela Copa do Brasil, 3 gols do Viola.

Foi a primeira vez que “trabalhei com futebol” na vida.

Pouco depois fui demitido e, puto, resolvi que faria o material e venderia pronto pra emissoras.  Veja você, moleque folgado, aos 19 anos, querendo produzir jogo pra Sportv, Rádio Globo, Rádio Record e Tv bandeirantes. Nem faculdade eu fazia ainda.

Fiz pra todos. Todos eles usaram. A Band me contratou pra TV após isso. Eu fiquei dois dias, pedi demissão.

Ninguém acreditava. “Maluco! Saiu da Band com 2 dias! Puta chance!”.

Chance o caralho. Se era pra fazer aquilo eu preferia ser veterinário. Odiei. Só filha da puta, ego pra caralho, panela pra cacete, nego veterano tratando mal quem chegou. Peguei um ambiente péssimo, era a época da Traffic. Enfim, não era aquilo.

Sai. Fui cobrir F-1 para um site do Deva Pascovic na AOL. Deva morreu no acidente da Chape. De reporter de F-1 fui fazendo, fazendo, até vender pra America On Line um site de Fórmula 1. Ele se tornou de automobilismo, depois foi pra outros parceiros e em um momento, acho que 2003, eu asseguro que tinha o maior site de automobilismo em lingua portuguesa no mundo. Era bizarro! Tinha transmissão ao vivo de Nascar, irmão!

Dali fiz a Rádio F-1 na WEB, há quem diga que foi o primeiro “programa de rádio” sobre o tema na web. Nunca confirmei. Em seguida começou a ter “blog” de menininha postando a vida delas. Eu fui o idiota que pensou: Porque as colunas semanais não viram blogs e postamos quando queremos sem data fixa?

Fiz isso. O primeiro. E voltei atrás com uns 3 meses porque não entendiam aquele mecanismo. Em 2006, quando já tinham alguns, voltei e está até hoje. Mas quem transformou a “coluna” em blog pela primeira vez entre os jornalistas foi esse cara aqui.

E de 2005 pra cá eu fiz SPnet, criei a Rádio SPNET, fiz a Estação Tricolor, fechei o F1naWEB, fiz do meu blog referência na web e passei por um período onde o blog foi parceiro da Globo.com. Note: Eu jamais TRABALHEI lá. Fizemos parceria, ao contrário do que pensam.

Minha carteira de trabalho está em branco. Eu abri uma empresa com 19 anos. Nunca tive um décimo terceiro, férias, nem mesmo uma indicação pra prêmio ou algo do tipo.

Batalhei todos os meus patrocínios, consegui meus views, escrevi meu livro e fui o único jornalista sem um grupo de mídia credenciado pela FIFA na Copa do Mundo. A sugestão da própria FIFA.

Não fiz grandes amigos no meio porque não gosto do meio. Não frequento, não ando em bando, pouco os conheço. Não sou “jornalista”.  Trabalho com entretenimento.

Mas nos clubes, entre os treinadores, profissionais, jogadores e gente que de fato faz a coisa girar, tenho amizades e o respeito que gostaria. Não tenho inimigos no futebol. Só na imprensa esportiva.

Conheci os meus ídolos, o Zico lê meu blog. Na Copa os jogadores compartilhavam meus textos no grupo deles de whatsatp. E a CBF me pergunta o que acho sobre algumas coisas.

Fiz o texto dos 19 clubes da série A para a Chapecoense a convite deles, lido pelo Galvão na Globo.  Fiz textos que rodaram a internet, que viraram do Verissimo, de outros tantos. Mas eram só do Rica.

Briguei pra ser o Rica enquanto o Ricardo já existia no UOL, na Folha, na Placar. Adotei o apelido e hoje sabem que tem dois Perrones. E as diferenças.

Eu não fiquei rico. Continuo sendo apenas “Rica”.  Conheci muita gente legal, muita gente escrota.  Vi jogos memoráveis, 95% da arquibancada mesmo credenciado. O 7×1 eu vi de imprensa. Talvez porque eu como torcedor não merecesse aquilo.

Passei por umas rádios. A última, a BET 98, onde fiz por 3 anos um programa de humor e futebol com Marcelo Adnet, Gustavo Pereira e Paulo Beto.

Eu não sou sortudo. Eu trabalhei pra caralho.

Eu tenho 20 anos de independência “jornalistica”, falando o que bem entendo e NENHUM processo contra mim.  Eu jamais criei uma crise, jamais menti sobre uma transferência, cravei uma notícia por ejaculação precoce ou causei mal a alguem do futebol.

“Chapa branca”. Não… honesto. É diferente.

Acrescente também a coerência do que prego em ter feito 2 cursos de treinador e um estágio com o Espinosa pra aprender e melhorar o meu conhecimento sobre o tema e me tornar, de fato, “especialista” em alguma coisa.

As vezes nego pergunta de onde vem o blog, o sucesso, etc.  E eu respondo: “Sou sortudo”.  Mas é só preguiça de contar tudo isso.

Eu abri um mercado. Eu criei uma alternativa que será usada por diversos novos jornalistas e até os atuais.  Não porque sou gênio, nem melhor do que ninguém. Mas porque fui maluco, teimoso e abusado.

Falo demais. Mas ainda assim, nunca me deu problemas o que falo.

Sou a falsa bomba relógio que os velhos acham que é questão de tempo pra “se explodir”. Mas não explode. E nem vai.

Porque atrás dessa marra toda tem alguém que sabe exatamente o que está fazendo. E que embora tenha tido sorte, teve bem mais do que isso pra ser a referência, o alvo ou o “filha da puta que eu odeio” de tanta gente.

Não vão ter mais 20. Eu fiz da minha meta parar com o hexa em 2018 e fazer outra coisa dentro do futebol que não mais “jornalismo”.  Talvez você tenha notado com os textos sobre outros temas.

A melhor coisa que fiz foi o Cara a Tapa. A pior foi o Futebol na WEB, um site que não vingou.

E a que mais me orgulho é de ter todo dia um e-mail na minha caixa de alguém dizendo que não concorda comigo sempre, mas que corre pra me ler quando o time dele é campeão ou ganha algo épico.

Era isso que eu queria. Mais nada.

Obrigado a quem ajudou, me desculpe com quem fui injusto e um abraço pra quem duvidou.

Porque eu tô escrevendo esse post? Porque poder escrever o que eu quero, quando quero, da forma que sinto e ter quem leia é a maior conquista da minha carreira.

Abs,
RicaPerrone

Uber escancara a burrice

Leia o post original por Rica Perrone

Eu tenho uma teoria de que um dos maiores problemas do Brasil é como ele se trata como bebê e, portanto, não cresce. Aqui nós temos que pedir permissão pra tudo, até pra apostar nosso próprio dinheiro.

Aqui não posso fumar maconha, porque faz mal. Não posso levar um rojão no estádio, pois posso apontar pro lado errado e machucar alguém.

Não posso nada, para que sempre alguém tenha controle dos erros que eu possa cometer. Eu jamais vou aprender a arcar com as consequências do que faço se as causas são mais culpadas do que eu.

E então surge o Uber. Um tapa na cara de um país onde ser empregador ou patrão é uma função que lhe coloca imediatamente como vilão aos olhos da lei.

No país dos direitos trabalhistas, um sujeito não pode sugerir trabalhar por conta própria e ter sua condição de vida determinada pelo seu esforço. É um absurdo! Onde ficam os 20% do governo, os 20% de quem arrumou o ponto, os 20% de quem era dono da permissão pra ter o taxi, e mais os 20% daquele rolê a mais que damos com o gringo?

O brasileiro é tão domesticado a ver o mundo como um funcionário fodido que não enxerga nem as oportunidades que aparecem no seu nariz.

Sou taxista. Eu pago diária, impostos, uma taxa pro ponto, outra grana pra ter o direito de ser taxista, já que as permissões legais estão nas mãos de uma máfia há décadas e décadas.

Um cara do meu lado abre uma possibilidade de eu comprar meu carro e trabalhar livre disso tudo e ganhar meu dinheiro honesto sem ter que dividir com tanta gente que não merece.

O que eu faço?

Enxergo a oportunidade de barganhar com isso no meu trabalho e melhoro minha renda ou reclamo da concorrência e peço ajuda aos caras que me comem diárias absurdas pra distribuir na máfia dos taxistas?

O taxista não consegue entender que, embora seja justo que o Uber seja cobrado com impostos, o que está acontecendo é a abertura do mercado que ele trabalha.

Na cabeça do brasileiro médio as coisas não funcionam com fins lucrativos mas sim com algum ideal.

O Uber é a libertação do taxista. E ele, limitadíssimo em sua visão de negócio, fecha com a máfia que o extorque para protegê-la.

Os taxis vão ganhar ainda algum tempo, afinal, é nas mãos dos praças dos governantes que estão a porra das licenças. Mas a vitória dos taxis será a maior derrota dos taxistas, que imploram por pagar as taxas e serem estuprados pela máfia ao invés de receber bem a oposição a ela.

Falta ao brasileiro o direito de ganhar dinheiro, o prazer em tê-lo e a não ostentação em se foder.

abs,
RicaPerrone

365 dias no Rio

Leia o post original por Rica Perrone

Versão em inglês.


 

Faz 1 ano. Desembarquei com esposa, cachorro e umas malas. A mudança veio no dia seguinte.  Levei 33 anos imaginando “como seria”, e agora tenho 1 pra contar “como foi”.

O Rio de Janeiro é a minha Paris. Eu não sonho com a tal de torre, nem me importo com o Louvre e nem acho do cacete tomar café naquela tal de Champs-Élysées. Eu acho charmoso ir a praia de Copacabana, tomar cerveja de chinelo no leblon e ir a um samba numa grande escola.

Sou paulista, nunca tive rivalidade bairrista em casa. Nunca me ensinaram a odiar o estado vizinho, ao contrário, sempre me foi dada a idéia de que estando no Brasil, estou em casa.

Ouvi mil mentiras e outras mil verdades sobre o Rio enquanto morei em São Paulo. Todas justas no final das contas.

Carioca exagera tudo, pra baixo e pra cima. Se elogiar a praia, ele exalta dizendo que é “a melhor praia do mundo”. Se falar que é perigoso, ele não nega. Diz que é “perigoso pra caralho”.

Trata sua cidade como filho. Só ele pode falar mal.

Cariocas não marcam encontro. Simplesmente se encontram.

A confirmação de um convite aqui não quer dizer nada. Você sugere “Vamos?”, eles dizem “Vamo!”. O que não implica em ter aceitado a sugestão.

Hora marcada no Rio é “por volta de”. Domingo é domingo. E relaxa, irmão. Pra que a pressa?

Em 5 minutos são amigos de infância, no segundo encontro te abraçam e já te colocam apelidos.

Não te levam pra casa. Te convidam pra rua. É curioso. Mas é que a “rua” aqui é tão linda que se trancar em casa é desperdício.

Cariocas andam de chinelo e não se julgam por isso.  São livres, desprovidos de qualquer senso de sofisticação.

Ao contrário, parecem se sentir mal num ambiente formal e de algum requinte.

“Porra” é um termo que abre toda e qualquer frase na cidade. Ainda vou a uma Igreja conferir, mas desconfio que até missa comece com “Porra, Pai nosso que estais…”.

Cariocas são pouco competitivos. Eu acho isso maravilhoso, afinal, venho da terra mais competitiva do país. E confesso: competir o tempo todo cansa.

Acho graça quando eles defendem o clube rival pelo mero orgulho de dizer que “o futebol do Rio” vai bem. Eles nem notam, mas as vezes se protegem.

Eles amam essa porra. É impressionante.

Carioca é o povo mais brasileiro que há, mas que é tão orgulhoso do que é que nem parece brasileiro.

Tem um sorriso gostoso, um ar arrogante de quem “se garante”.

Papudos, malandros, invocados. Faaaaalam pra cacete. E sabem que estão exagerando.

Eles acham que sabem  o que é frio. Imagine, fazem fondue com 20 graus!

A Barra é longe. Buzios, logo ali!

Niterói é um pedaço do Rio que eles não contam pra turista. Só eles aproveitam.

Nilópolis é longe. Bangu também.

Madureira é um bairro gostoso. O Leblon, vale os 22 mil por metro quadrado sugeridos pelos corretores.

Aliás, corretores no Rio são bem irritantes.

Carioca, num geral, acha que está te fazendo um favor mesmo se estiver trabalhando. É tudo absolutamente pessoal, informal.

Se ele gostar de você, te atende bem. Se não, não.

Tá com pressa? Vai se irritar. Eles não tem pressa pra nada.

Sabe aquela garota gostosa que sabe que é gostosa? Cariocas sabem onde moram.

O bairrismo deles é único.  Nem separatista, nem coitadinho. Apenas orgulhoso.  Ao invés de odiar um estado vizinho, o sacaneiam e se matam de rir de quem se ofende.

Cariocas tem vocação pra ser feliz.

São tradicionais, não gostam que o mundo evolua. Um novo prédio no lugar daquele casarão antigo não é visto como progresso, mas sim com saudades.

São folgados. Juram ser o povo mais sortudo do mundo.

E quem vai dizer que não?

No Rio você vira até mais religioso.  Aquele Cristo te olha  todo santo dia, de braços abertos. Não dá! Você começa a gostar do cara…

E aí vem a sexta-feira e o dom de mudar o ambiente sem mexer em nada.  O Rio que trabalha vira uma cidade de férias. As roupas somem, aparecem os sorrisos a toa, o sol, o futebol, o samba, o Rio.

Já ouvi um cara me dizer um dia que o “Rio é uma mentira bem contada pela mídia”.  Ele era paulista, odiava o Rio, jamais tinha vindo até aqui.

E é um cara esperto. Se você não gosta do Rio de Janeiro, fique longe dele.

É a única maneira de manter sua opinião.

Em quase toda grande cidade que vou noto uma força extrema para fazer o turista se sentir em casa. Um italiano em São Paulo está na Itália dependendo de onde for. Um japones, idem. Um argentino vai a restaurantes e ambientes argentinos em qualquer grande cidade.

No Rio de Janeiro ninguém te dá o que você já tem.  Aqui, ou você vira “carioca”, ou vai perder muito tempo procurando um pedaço da sua terra por aqui.

Não é verdade que são preconceituosos. É preciso entender que o carioca não se diz carioca por nascer aqui. Carioca é um perfil.

Renato, o gaúcho, é um dos caras mais cariocas do mundo.

Tem todo um ritual, um jeitinho de se aproximar.

Chame o garçom pelo nome, os colegas de “irmão”. Sorria, abrace quando encontrar. Aceite o convite, mesmo que você não vá.

Faça planos para amanhã, esqueça-os 10 minutos depois. Faça amigos, o máximo de amigos que conseguir.

Quanto mais amigos, mais cerveja, mais risadas, mais churrascos, mais carioca você fica.

E quanto mais carioca você é, mais você ama o Rio. Como eles.

Gosto deles. Gosto de olhar pra frente e não ver onde acaba.  Gosto de sol, de abraço, de rir muito alto e de não me achar um merda por estar sem grana.

Gosto de como eles se viram. Gosto da simplicidade e da informalidade que os aproxima do amadorismo.

A vida não tem que ser profissional.

Tem que ser gostosa.

E de gostosa, convenhamos, o Rio tá cheio.

Ops! Desculpa, amor! Escapou.

abs, merrrrmão!
RicaPerrone

(O Shopping não me pagou nada. Nem sei onde fica. A propaganda é que diz muito do que quero dizer e não sei como)

Eu odeio o Natal

Leia o post original por Rica Perrone

Não entendo essa alegria de vocês.

Só porque no Natal a gente come e bebe sem culpa as melhores comidas do ano em fartura e em família?

Só porque se repete sem cerimônias e nem parecer coisa de pobre a ceia do dia anterior no outro dia e então podemos comprovar sem culpa que tem alguns pratos que ficam melhores no outro dia do que feitos na hora?

Porque?

Porque ligamos pros nossos amigos e dizemos a eles o quanto eles são especiais sem parecer idiotas?

Porque a sociedade se esquiva do escudo do ódio, ignora as dificuldades e nesse dia abraça todo mundo, sorri pra todos, enche a cara e sai declarando amor por aí?

Porque crianças atingem o limite da fantasia esperando um velho de trenó dar um presente numa lareira que 99% das casas não tem e mesmo assim eles nem desconfiam?

Porque seu tio tira o terno e se veste ridiculamente de papai Noel pra tirar sorriso de crianças?

Ou porque nessa data você é menos egoista e acaba doando algo a mais pra ver alguém feliz?

Porque o taxista se despede não só devolvendo o troco mas também te dando a mão e desejando a quem mal conhece um ótimo ano e uma noite feliz?

Porque quem te ama te dá presentes?

Porque aquela pessoa que você teve um mal entendido no ano te manda mensagem e quebra sua raiva do nada nesse dia?

Porque os cachorros ganham petiscos “proibidos” e ficam alucinados com tanta gente em casa pra fazer carinho?

Porque as ruas tão vazias e não tem transito? Porque ?

Porque vocês gostam tanto de Natal?

Eu não gosto.  Então me deem licença, eu vou me arrumar, ligar pros irmãos, desejar tudo de bom a todos que amo, depois comer bem, beber, estar com quem gosto, sorrir, não ter hora pra acordar, alimentar o sonho de algumas crianças por aí e tentar suportar essa noite que vocês tanto gostam e eu não sei porque.

Afinal, eu odeio natal.

Ah! Feliz Natal.

abs,
RicaPerrone

Isso é sobre o que devemos ser

Leia o post original por Rica Perrone

Isso é sobre pessoas, amigos, namorados e parentes.  Sobre a índole, a ética, o direito ao olhar direto e reto nos olhos que nos dá a certeza da dignidade em nosso abraço.

É sobre chegar onde está todo mundo e não ter que escolher sorrisos e nem se camuflar de tapas nas costas.

Sobre ter valores, leva-los adiante e e fazer com que a vida se torne ainda mais difícil, mas o sono mais fácil e leve.

É sobre amigos. Sobre saber que se tropeçar quem tá do seu lado te segura, nunca empurra.

Sobre lealdade. Sobre o código de ética jamais escrito e tão bem seguido pelos que carregam a honra de seus sobrenomes.

Sobre viver em paz. É sobre o inestimável abraço que se dá nos amigos com toda a verdade que o alcool te leva a dizer sobre ele naquele fim de noite. “Tamo junto!”

Esteja.

Leva-se dessa merda nenhum dinheiro, nenhum troféu, mas o abraço de todos eles em volta do seu caixão.  Deixe o seu caixão o mais bem rodeado que puder ainda em vida.

Confie. Duas, três, dez vezes se precisar.  Cada tombo não te faz mais forte, mas faz deles mais insignificantes.

Levanta, sai andando que vem mais. É sobre isso a vida.

Não brigue com o ódio. Se ele é real, que exista e se assuma.  Ainda é melhor sentir ódio de verdade que afeto de mentira.

Eu não quero morrer com alguém enumerando o que eu tinha ou o que fiz.  Quer apenas uma lágrima sincera de quem vai poder dizer que “esse cara era do caralho”.

Então seja do caralho.

abs,
RicaPerrone

Diferentes

Leia o post original por Rica Perrone

Em nenhum lugar do mundo 400 km podem ser tão distantes como os da via Dutra.

Paulistas e cariocas são vizinhos que se completam, mas não podem aceitar isso por mera vaidade. Enquanto um cuida da piscina, o outro chega de terno e pensa: “Vagabundo…”.

De bermuda e chinelo, o outro retruca de boca fechada: “Criado pela vó… “.

Mas convivem em paz. Porque todo “criado pela vó” quer ir na piscina e todo “vagabundo” precisa ganhar dinheiro.

Paulistas contam orgulhosos na sexta-feira o quanto não puderam curtir a semana pelo tanto que trabalharam. Cariocas contam na segunda de manhã o quanto se divertiram.

Em São Paulo nos vestimos pra tudo. No Rio, pra quase nada.

No transito, paulistas são mais educados. Até pelo tempo que passam nele pra aprender a ser. Cariocas tentam tirar vantagem em qualquer troca de pista sem seta.

Paulistas não trocam de pista. Se trocar, matam um motoboy.

Amizade em São Paulo tem etapas. Você conhece, se aproxima, ganha confiança, intimidade até que um dia se tornam grandes amigos e então não se desgrudam mais.

Cariocas te conhecem e se tornam grandes amigos em 15 minutos. Depois, somem e voltam a te encontrar daqui 6 meses. Ainda assim, jurando ser seu grande amigo.

Paulistas saem pra comer. Cariocas, pra beber e petiscar.

Cariocas preferem o dia. Paulistas, a noite. Natural. O Rio mal funciona a noite. São Paulo não funciona entre as 4h32 e 4h35 aos domingos. Só.

“Funcionar” é um termo mais em moda em São Paulo do que no Rio.

“Meu” é o “porra” dos paulistas. “Irmão”, o “velho” dos cariocas.

São Paulo te permite passar uma vida sem ver a pobreza a sua volta. No Rio você não vai a padaria sem nota-la.

Tão longe, tão perto. Tudo tão caro.

Cariocas sorriem mais fácil. Paulistas buzinam na mesma intensidade. Quando um problema não é resolvido, paulistas ficam até resolver. Cariocas resolvem amanhã.

Os dois gostam de Shopping. Só paulistas assumem isso.

Na terra da garoa, garoa. Pra caralho.

No Rio faz calor. Pra caralho também.

Cariocas tem orgulho do Rio por ser bonito. Paulistas tem orgulho de São Paulo pelo PIB. Em Sampa a vida pode ser explicada em números quase sempre.

São Paulo não pára. O Rio pára. Aliás, basta um artista vir cantar aqui que pára tudo.

Paulistas se orgulham da pizza do italiano, do filé argentino, dos restaurantes japoneses, mexicanos e árabes. Paulistas são o mundo em menor escala. Tem tudo. Mas tudo de todos.

Cariocas se orgulham do Rio. Nem se importam em “não ter” uma cantina por bairro. Desde que tenha um boteco, é claro. Um mundo só deles, que não copia quase nada dos outros. É muita marra.

Cariocas se abraçam mais vezes. Paulistas abraçam mais forte.

Aqui, no Rio, o pobre mora no alto. Aqui, não se separa tão fácil. Aqui, o pobre e o rico trocam de papel muito rápido. O patrão paga a empregada e corre pra vê-la sambar mais tarde. É inacreditável.

O maior evento da cidade é quando um morro desce e passa para os aplausos dos patrões e gringos. Pobre, no Rio, é protagonista.

Em são Paulo a pobreza fica longe. Podemos passar uma vida sem ver nada disso de perto e sem saber como é. Lá, na periferia, se canta o ódio contra a “burguesia”.

No Rio, um funk sensual para a morena descer até o chão.

Carioca competem menos. Perdem mais quando competem.

Em São Paulo você sabe onde e quando oferecer uma ajuda a alguém mais humilde. No Rio, não. Ele pode estar apenas mal vestido, o que não implica em ser necessitado.

Roupas dizem muito sobre você em São Paulo. Cariocas precisam tira-las para se julgar.

Futebol no Rio é diversão, ainda. Em São Paulo, competição.

“Negão”, no Rio, é um negro grande. Em São Paulo, já é ofensa.

Sempre a frente, paulistas antecipam tendências. Inclusive as ruins.

Ketchup na pizza é de foder. Mas eles colocam aqui no Rio. É tipo “gelo no sorvete”. Mas, vai entender… Cariocas não ligam tanto para “o que” comem. Talvez para “quem”.

Mulheres paulistas são bonitas. Cariocas, gostosas.

Paulistas vivem olhando pro relógio. Cariocas, pro céu. Não a toa um se atrasa e o outro se estressa.

Ao ler isso aqui, Paulistas contestarão os fatos. Cariocas darão risada deles.

abs,
RicaPerrone

Relaxa, negão!

Leia o post original por Rica Perrone

Caro Lewis Hamilton e demais membros da equipe Mercedes;

Como brasileiro, lamento. Como jornalista, faço cara de surpreso. Como conselho, lhes peço que relaxem.

Assalto aqui é normal. O alarde é porque é com vocês e a gente morre de vergonha de quando um gringo descobre a merda que vivemos todo santo dia. A dona Maria, que lava roupa pra fora, é assaltada toda hora por homens armados e ninguém se importa.

Negão, a gente se amarra em você. Por isso também ficamos incomodados com o assalto. Mas essa parada de “arma na cara” que vocês estão aterrorizados, numa boa, nem é pra tanto.  A gente tem aplicativo pra desviar de arrastão, irmão.  Deixa de ser Nutella.

O máximo que ele ia fazer é dar um tiro e mandar um pai de familia ingles pro cemitério. Nada além disso. Uma mãe inglesa ia chorar, umas crianças em Manchester, mas só. Não vamos fazer alarde a toa né?

Afinal, não sei se você sabe, mas esses caras tiveram uma infância fodida. E você, responsável por isso, devia entende-los e não desejar mal a quem te ameaça com uma arma.

Aproveito pra perguntar se vocês os ofenderam. Espero que tenham entregado tudo com educação e respeito, até porque eles não tem obrigação de ouvir desaforo de trabalhador honesto.

Negão, se liga. Não briga com os caras, não fala mal deles. Aqui agora é maneirão ser bandido, do caralho ser pedófilo, e cult desejar adota-los.

Eu sou parte dos ignorantes estúpidos que não pensa assim.  Não sou artista, não tenho essa capacidade ímpar de entender as questões sociais do bandido entre um baseado e outro.  Eu trabalho, não dá tempo.

Mas se liga! O importante é vocês estarem bem e, principalmente, eles também.

Sei que estão soltos e em casa. O que já nos alivia. Já pensou que tragédia se um de vocês dá um tiro e machuca um dos meninos de fuzil? Porra… não quero nem pensar.

Boa corrida pra vocês!  E cuidado na volta! Ouvi falar que vocês tem problemas com terrorismo lá …  Eu hein?

abs,
RicaPerrone