Saudade

Leia o post original por Cristian Toledo

Sei que os três clubes tiveram mudança de diretoria, que estão negociando suas vidas com reforços, novas comissões técnicas, mudanças de estrutura, reformas e batalhas de bastidores. Que vem aí, em pouco mais de duas semanas, mais um campeonato estadual, com tudo que ele tem de ruim e de bom. E sei também que o Barcelona venceu o Santos e provocou uma reflexão em muita gente.

Mas desde o dia 15 do mês passado o futebol – e todo o resto – ficou secundário. Perdi meu pai.

Foi ele quem me ensinou a paixão pelo futebol. Há outros personagens importantes – meu irmão, meu tio, os amigos da infância -, mas foi meu pai, que tinha sido jogador nos anos 60 (no Ferroviário, e depois rodando o País por conta do serviço militar), e que parava sempre pra ver um joguinho na TV, que me acendeu a chama do esporte e que, diretamente, fez eu chegar onde cheguei.

Era ele que viajava toda semana a trabalho (com um Fusca da Eucatex pra vender madeira pelo Estado) e voltava com a Placar mais recente na bagagem. Ele sabia – era chegar em casa e a gente corria pra abrir a mala dele e encontrar a Placar por lá.

Não joguei muita bola com ele. Pode parecer estranho, mas havia um motivo: em 1985, ele teve um rompimento total dos ligamentos do joelho esquerdo – e naquele tempo não tinha esses procedimentos modernos. Ele perdeu parte dos movimentos da perna. Mas se não podia jogar, ele podia me levar nos estádios. E levava pra ver Atlético, Coritiba e Colorado jogarem. Uma vez, em viagem, fomos ver um jogo do Cascavel no estádio Olímpico Regional. Eu achava o máximo.

Mais velho, ele sempre falava com orgulho dos filhos – eu e meu irmão. Ouvi muito isso nos últimos dias, o que me dá alegria e ao mesmo tempo uma profunda tristeza. Alegria em ver que todo o esforços de meu pai e de minha mãe para dar o melhor estudo possível (e a melhor educação em casa também) teve algum efeito. E tristeza em saber que ele não está aqui pra eu poder agradecer de verdade essa ajuda de sempre.

Também não vou ter mais as ligações que vinham após os jogos do Trio de Ferro, querendo saber o resultado do jogo. E nem a companhia dos finais de semana – quando eu tinha folga. A viagem juntos, que era combinação antiga, também não vai acontecer.

Mas ele está aqui comigo, na saudade imensa que vou carregar daqui por diante, na alegria em ver minha mãe e meu irmão, na força de toda a família. Cada passo que eu der será pra tentar orgulhar ainda mais meu pai, pra servir de agradecimento por tudo que ele me deu.

***

Só tenho esse espaço por ora, a rádio tá de férias, então tenho que aproveitar o blog pra agradecer a todas as manifestações de carinho que recebi nos últimos dias. Desde os momentos em que não estava aqui – recebi a notícia em plena viagem, e sequer pude retornar pra dizer adeus (porque é impossível viajar pra fora do País e voltar em menos de 24 horas. Eu e minha esposa, que me ajudou demais nesses últimos dias, levamos 30 horas, entre voos e esperas em aeroportos, e voos cancelados também). Às pessoas que foram dar suporte à minha mãe e ao meu irmão, o meu eterno agradecimento.

Fiquei sensibilizado com a rede de amigos que se prontificou. Meus companheiros de trabalho, na 98FM e na ÓTV, a turma antiga da Tribuna (sejam bem-vindos, inclusive), os grandes amigos de fora de Curitiba, pessoal do colégio, os amigos e colegas de trabalho da minha mãe e do meu irmão. O relato deles é comovente, pois conta como professores, jornalistas, radialistas, políticos, estudantes, médicos, advogados, empresários esqueceram de suas funções e simplesmente estavam lá para oferecer um ombro pra gente chorar.

Obrigado também aos amigos que não puderam estar lá, mas que mandaram e-mails e mensagens. As palavras também ajudam a confortar o que é por enquanto uma dor que não passa.

Obrigado também a quem mandou mensagens aqui no blog, no twitter e no facebook. Peço desculpas àqueles que esperaram para ter os comentários aceitos, pois ficou tudo enrolado. Toda ajuda está sendo muito bem-vinda.

***

Se eu pudesse falar alguma coisa para o meu pai agora, usaria esses versos de Gonzaguinha.

Eu apenas queria que você soubesse
Que aquela alegria ainda está comigo
E que a minha ternura não ficou na estrada
Não ficou no tempo presa na poeira

(…)

Eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta
Que hoje eu me gosto muito mais
Porque me entendo muito mais também

E que a atitude de recomeçar é todo dia toda hora
É se respeitar na sua força e fé
E se olhar bem fundo até o dedão do pé

Brigado, pai.