Serginho e seus golpes mortais

Leia o post original por Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportiva de 20/04/1981

Serginho Chulapa no São PauloE Serginho continua aparecendo. Destacando-se da melhor maneira possível: marcando gols. E gols importantes, decisivos, vitoriosos e coloridos. A sua característica na comemoração já é conhecida: mãos agitadas, pedindo que a torcida comemore junto com ele. Sapateando e aguardando os abraços aquecidos dos companheiros. Correndo para o banco de reservas e descarregando sorrisos. Esse é o Serginho de hoje. Um novo Serginho como ele mesmo faz questão de ressaltar: “Aquele Serginho irresponsável não existe mais…”.

E Serginho não está mentindo ou jogando palavras ao ar. Ontem, no início do jogo, uma bola sobrou para o centroavante do São Paulo, do jeito que ele gosta. Preparou-se para o chute… então, Arnaldo César Coelho marcou uma posição de impedimento. Serginho elevou a perna e num passado não muito distante daria um chute na bola e fim de conversa. O novo Serginho controlou-se, pegou a bola com as mãos e entregou ao árbitro. Arnaldo César Coelho sorriu e o jogo continuou. Nestes pequenos detalhes fica figurada a presença de um Serginho disciplinado, agradável, engraçado, sorridente, amigo e goleador.

Este é o Serginho que todos queriam. Carlos Alberto Silva considerando-se responsável por boa parte da recuperação da imagem do atacante e isso é uma verdade. A diretoria do São Paulo, satisfeita, afinal suportou as rebeldias  do moço Serginho Bernardino.

A torcida do São Paulo também entende ter colaborado com Serginho, não deixando de apoiar o seu artilheiro em nenhum momento. Há algum tempo, quando os atritos com Serginho eram muitos, muitas faixas eram vistas no Morumbi: “SERGINHO, NÓS ACREDITAMOS EM VOCÊ” – o texto de uma delas.

Várias as vezes em que os companheiros suportavam os momentos de desequilíbrio de Serginho. Diversos os momentos em que Serginho prejudicou o São Paulo e os companheiros entenderam, apoiaram.

Serginho ainda recorda uma pitada de mágoa aquele dia em que deu um pontapé em Vandevaldo Rangel, em Ribeirão Preto, e foi punido por 14 meses. Recorda a anistia pela visita do Papa. Não pode esquecer o dia que agrediu o preparador físico do Corinthians, Nicanor de Carvalho. Não consegue lembrar todas as suas expulsões ou todos os momentos em que foi advertido.

Jamais poderá esquecer que ficou muito tempo distante do selecionado brasileiro pelo seu temperamento agressivo e ouviu isso do próprio técnico Telê Santana.

Mas este Serginho negativo faz parte do passado. Não é um jogo de palavras ou mesmo o pronunciamento de alguém que pretende defendê-lo. As atitudes do centroavante provam que nasceu um novo jogador e não seria arriscado dizer, um novo Sérgio Bernardino.

Um Sérgio Bernardino vitorioso. Acostumado a marcar gols, gostando de marcá-los e procurando-os desesperadamente. Há partidas em que Serginho é útil do início ao fim, outras em que “só” marca gols. Mas a sua eficiência é indiscutível e ontem ele provou isso mais uma vez para os descrentes.

Tem um ótimo relacionamento entre os componentes do grupo. Os torcedores devem estar lembrados em que todos os jogos em que a vitória está certa para o São Paulo – ontem aconteceu novamente – Serginho pede para sair. Simula um início de dor no joelho ou na virilha, ou mesmo na coxa, para a entrada de um outro jogador. Todos sabem que quando um jogador entra, ele recebe um prêmio pela vitória, além de aparecer também diante da torcida e da imprensa. Esse é Serginho, sem nenhuma vaidade, admitindo que costuma dominar bolas com a “canela”, que sua perna direita não é precisa, que necessita treinar muito e que Reinaldo é o melhor centroavante do Brasil.

Esse Serginho, chega a entusiasmar. Alguns garantem que ele é o sinônimo de gol, outros o taxam como o ponto mais importante do São Paulo, uns preferem ficar com o artilheiro demolidor. Serginho deseja apenas que “a boa fase continue. Centroavante que não marca gols, é igual a um advogado que não sabe falar”.

É o artilheiro do time do São Paulo, distante de conquistar o título de “goleador do Campeonato Brasileiro”, mas Serginho sabe que daqui para frente, mais do que nunca, o São Paulo depende dos seus gols. Terá o Botafogo pela frente, depois mais jogos difíceis e é assim que um goleador aparece.

Certamente, se o São Paulo precisar de gols e não marcá-los, Serginho será crucificado. Todos esquecerão os gols que ele marcou até agora. Hoje, a diretoria do são Paulo sequer admite conversar sobre o preço do seu passe. O Internacional não esconde o desejo de contratá-lo e Serginho é sincero o suficiente para dizer que “está na hora da independência financeira”. Mas, se o São Paulo não conquistar o título nacional, se os gols não surgirem, Serginho não “será tão importante”, principalmente com a presença de Éverton no elenco do Morumbi.

De qualquer maneira, falando do presente, Serginho é um bem para o futebol paulista e brasileiro. Os gols dele são verdadeiras injeções revitalizantes. A presença de Serginho em campo pode ser comparada à presença de um animal feroz pronto a atacar. E seus golpes são mortais. Ele não perdoa. Quando vê o gol pela frente, não encontra outra alternativa. É uma espécie de vida ou morte, vencer ou morrer, o novo ou o antigo Serginho.