Gilmar: o goleiro que parou no ar

Leia o post original por Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportiva de 08/08/1981

GilmarGilmar promoveu uma noite inesquecível. Os corações palmeirenses quase não resistiram de tantas alegrias e emoções. Os mais entusiasmados afirmaram que “nos últimos 20 anos, nenhum goleiro jogou tanto…”. O goleiro do Palmeiras simplesmente parou por inteiro o time do Corinthians. Foram 90 minutos de perfeição, coragem, precisão, levitação…

Há muito tempo não se via uma exibição tão perfeita de um goleiro. Gilmar foi considerado o melhor jogador da partida entre Palmeiras e Corinthians e conseguiu atrair para si todas as atenções. Desesperado, o Corinthians atacou de todas as maneiras e foi sempre vencido pelo goleiro do Palmeiras. Defesas consideradas impossíveis, colocação magnífica, agilidade felina, um verdadeiro fator decisivo.

A apresentação de Gilmar foi tão entusiasmante que um dirigente do Palmeiras confortavelmente instalado nas tribunas do Pacaembu, não resistiu: “Ele está sem contrato, mas garanto que renovará amanhã…”.

Minutos depois do árbitro encerrar a partida, Jorge Vieira foi taxativo: “Na minha opinião o Gilmar tem que renovar seu contrato ainda hoje…”.

A segurança de Gilmar irritou o frio Sócrates, alterou o comportamento do exímio chutador Zenon, enervou o oportunista Mário e abalou todo o time do Corinthians. Até a acalorada torcida do Corinthians ensaiou aplaudir o goleiro inimigo, mas preferiu substituir os aplausos por vaias e refrões, tentando enervá-lo. Mas a noite era de Gilmar, só dele, impossível vencê-lo, fora de cogitação brilhar mais do que ele. Gilmar jogou como num sonho.

Só num sonho alguém consegue estar em dois lados distintos e em muitos momentos Gilmar estava num canto e apareceu no outro, com a bola dominada.

Parecia estar levitando. Conseguiu fazer flutuar no ar o seu corpo pesado. Sem nenhum exagero, foi constatado um enorme grupo de opiniões mostrando a noite de Gilmar, como uma das mais felizes vividas por um jogador.

Gilmar começou praticamente nos juvenis do Palmeiras. Trabalhou com o velho Godê, profundo conhecedor das coisas do futebol e logo mostrou que tinha capacidade técnica para subir dentro do clube. Waldir Joaquim de Moraes, treinador de goleiros do Palmeiras e da Seleção do Brasil, também deu uma atenção total a esse menino, pois viu nele qualidades inatas: muita frieza, bons reflexos e uma enorme dedicação aos treinos.

Gilmar acabou saindo dos juvenis e passou a figurar como reserva de Emerson Leão no time titular do Palmeiras. Uma época difícil para um goleiro que esperava chance de aparecer porque Leão era o titular absoluto e já tinha deixado para trás outros goleiros como Raul e Bernardino que acabaram abandonando a carreira, quem sabe desiludidos pela falta de oportunidade.

Mas essa falta de oportunidade não era exatamente por culpa de Leão. Era apenas uma circunstância profissional onde o titular não cede o seu posto.

A vida determinou novos rumos para a carreira de Gilmar, pois Leão se viu desgastado no clube em 1978 quando, depois do primeiro jogo decisivo contra o Guarani, foi expulso de campo e nem esteve colocado para defender uma penalidade, fator determinante da vitória.

No segundo jogo, em Campinas, surgia Gilmar. E o Palmeiras voltou a perder ficando com o vice-campeonato brasileiro. Apesar disso, Gilmar foi considerado uma das melhores figuras em campo. Seu trabalho foi elogiado pela imprensa e ele acabou por definir sua posição de titular do time, aos 20 anos de idade.

Mas a falta de vivência era um fato indesmentível e as falhas de Gilmar foram muitas. O Palmeiras começou a pensar em outros goleiros, “alguém que pudesse realmente fazer a torcida esquecer o mito Leão”. Gilmar foi resistindo às pressões, às vaias, às críticas, aos falsos amigos, aos tapinhas nas costas. Entretanto, pecou quando diminuiu o ritmo dos treinamentos e quase foi “enterrado vivo”.

O Palmeiras contratou João Marcos, um bom goleiro, e a disputa nos treinamentos tornou-se algo agradável e sadio.

Aos poucos foi voltando aos seus melhores dias, muito mais treinado, sensivelmente mais experiente, orientado, sem exagerada empolgação e segundo o técnico de goleiros Waldir Joaquim de Moraes: “É o momento dele firmar-se definitivamente”.

Voltou o técnico Jorge Vieira, o mesmo que o escalou para disputar o título brasileiro em 1978 e esse também foi um fator importante na ascensão de Gilmar. Alguém que ele confia inteiramente voltou a chefiá-lo.

E na noite da última quinta-feira ele fez lembrar o mito Gilmar dos Santos Neves, o seguro e experiente Manga, a malícia e a frieza de Waldir Peres. Gilmar conseguiu encarnar, enfim, um pouco das virtudes dos melhores goleiros do futebol brasileiro.

Cercado por dezenas de repórteres e torcedores, Gilmar foi recebendo os cumprimentos to técnico Julinho, do Corinthians – que também é treinador de goleiros – de César, goleiro do Corinthians, de Tadeu, goleiro reserva do Corinthians, de todos os jogadores reservas do Palmeiras e de Luis Pereira – que não jogou por estar suspenso.

A torcida ficou esperando ele entrar no túnel de acesso ao vestiário para saudá-lo como são saudados os heróis, os corajosos, os vencedores.

No corredor, longe dos abraços, demonstrando personalidade, Gilmar comentou:

“Admito que esta noite foi talvez a mais feliz de minha vida. Tudo deu certo. Fiz defesas difíceis e quase impossíveis. Mas não posso entusiasmar-se. Um goleiro nunca deve ser empolgado. Hoje eu sei disso…”.

Gilmar parecia estar admitindo também erros cometidos num passado não muito distante:

“Um goleiro tem que saber que é aplaudido hoje e pode ser crucificado amanhã. É uma posição marcada”.

“Aproveito para recordar as críticas feitas ao goleiro Birigui. Ele foi acusado de ter falhado num dos gols feitos pela Ponte Preta e fiquei sabendo que estão pedindo a cabeça dele. Isso é terrivelmente injusto. Ele é jovem e foi taxado de ótimo, perfeito, com enorme futuro e numa decisão de título em que seu time marca dois e o adversário marcar três, um jogo equilibrado, bonito, então alguns entendem em crucificar mais um goleiro. Isso é um exemplo para que ninguém fique confiante demais…”.

“Espero que a diretoria do Palmeiras reconheça o meu trabalho e aceite fazer um bom contrato comigo”.

Autógrafos, abraços, sorrisos, formaram as últimas horas de Gilmar. Mas ele garante que isso tudo é passageiro, é cíclico. Um jogador que pretende manter a boa fase não deve incorrer no erro e pensar que os bons momentos não terminarão.

Gilmar em alguns momentos, na última quinta-feira, pareceu ter conseguido ficar parado no ar, esperando a bola chegar – aquilo que Dadá Maravilha diz fazer.

O goleiro foi sério, projetou confiança nos companheiros, gerou receio aos jogadores do Corinthians e promoveu um festival de emoções, algo raro no atual futebol paulista.