A Viagem

Leia o post original por Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportiva de 31/10/1981

Uma viagem tem o poder de mudas pessoas. Consegue alterar comportamentos, reformular filosofias e amadurecer os espíritos. A Seleção Paulista de Novos viajou milhares e milhares de quilômetros pelo misterioso continente asiático. Os jogadores absorveram costumes, venceram barreiras naturais, dobraram os sentimentos pessoais. Conheceram terras e mares. Viram como vivem as pessoas na Ásia. Sentiram o pesado silêncio de um rio cortando uma densa floresta e viveram a loucura fervilhante de um porto livre. Conviveram com pessoas seguidoras de todas as religiões. Depararam com dezenas de idiomas, dialetos e assistiram a conflitos raciais. Observaram a presença de pobres e ficaram frente a frente com a fartura gerada pelo petróleo. Sentiram emoção ao ouvirem “Aquarela do Brasil” numa discreta emissora de rádio malaia e comemoraram o “7 de setembro” numa embaixada brasileira ainda em formação. Os costumes orientais atingidos por sintomas ocidentais foram discutidos pelos jogadores da Seleção Paulista de Novos. Jogaram em estádios distintos, com públicos distintos e com recepções entusiasmadas, afinal, os paulistas estavam sendo mostrados como representantes do futebol brasileiro. O futebol que teve Pelé, Rivelino, Tostão, Gérson,…  

O futebol de São Paulo tem 18 jogadores vacinados contra situações difíceis. Um grupo com média de 21 anos e com enorme talento. Revelaram-se eficientes e o futebol de São Paulo – da Primeira Divisão – pode ficar muito mais forte. Depende apenas dos dirigentes. Por bons preços, as grandes equipes de São Paulo, tem a possibilidade de encontrar soluções para problemas crônicos.

A campanha de 16 jogos – treze vitórias, dois empates e uma derrota – pode ser vista como excelentes seleções mais fortes da Malásia, Nova Zelândia, Índia, Emirados Árabes, Indonésia e Singapura, Tailândia, Coréia e Iraque foram enfrentadas e vencidas. Os clubes campeões nacionais também tombaram diante do jovem time paulista.

Hoje, todos estão muito mais calejados. Estão fortalecidos dentro do futebol e com grande dose de cultura adquirida de uma viagem que eles mesmos taxaram de “um verdadeiro sonho, mesclado com alguns pesadelos importantes”.

Estádios lotados, o nome do “BRAZIL” no placar luminoso, arbitragens facciosas e gramados irregulares: tudo foi vencido pela Seleção Paulista de Novos  que foi acompanhada pela A GAZETA ESPORTIVA.

Foi um processo de amadurecimento intensivo que durou 60 dias. A Seleção voltou com jogadores aptos para qualquer teste ou disputa.

Se estivéssemos tratando de assuntos militares, este grupo poderia ser chamado de “especial”.

Os jovens passaram pela densa floresta que corta de norte a sul a Malásia. aquele país tropical foi desbravado. A Malásia está em franco desenvolvimento e o Brasil começa a implantar uma representação diplomática em Kuala Lumpur. O Mar da China banha o leste do país.

É uma monarquia diferente: o rei, reina por cinco anos. Depois, outro, entre os  onze sultões, é eleito pelo grupo.

O selecionado passou também pela libera Bankok, na  Tailândia; pela tristonha Bombay; na Índia; pela flotida e limpa Singapura; pela efervescente Hong Kong; pela islâmica Jedá, na Arábia Saudita; além de muitos países e ilhas encontradas pelo caminho….

As grandes torcidas de São Paulo podem acreditar que hoje já há alternativas de compras no mercado. Quando um dirigente afirmar daqui para frente que “não há ninguém para ser comprado”, ele estará faltando com a verdade. Os produtos estão “próximos”: no interior de São Paulo. São infinitamente superiores aos jogadores comprados em centros distantes e menos avançados no futebol. E há outro aspecto incrivelmente importante: os preços não são exorbitantes.

Cláudio (Palmeiras de São João da Boa Vista), Toni (Rio Preto), Quequi (Velo Clube Rio Claro), Antônio Carlos (Nacional), Jarbas (Rio Preto), Zecão (Aliança), Wilson Gotardo (União Barbarense), Ari (São Carlense), Zanata (SAAD), João Luís (Independente de Limeira), Arnaldo (Santo André), Danial (Pinhalense), Redigulo (Rio Branco de Americana), Barbosa (União Barbarense), Cabinho (Velo Clube de Rio Claro), júlio César (Lemense), Tuico (Portuguesa Santista), e Waltinho (Votuporanguense).

Estes são os produtos que podem ser considerados de ótima qualidade. Há alguns clubes de outros estados começando uma movimentação para contratar essas revelações, estas autênticas realidades.

Entre os nomes citados, há alguns que seriam titulares absolutos em algumas das principais equipes da capital: o médio volante Zanata; o goleiro Cláudio; o zagueiro central Jarbas; o meia Arnaldo; o ponteiro direito Barbosa.

Neste final de ano, os dirigentes terão grandes oportunidades de reforçarem suas equipes. Ainda há tempo para todos os jogadores citados serem observados. A Segunda Divisão está num momento decisivo, um bom instante para análises.

Estes profissionais – há alguns amadores – jogaram e venceram seleções muito fortes e motivadas por milhares de dólares. Os paulistas cumpriram o ritual do prato feito de cada dia (arroz, bife, salada) durante dois meses e sem nunca ter o direito de repetir a dose de comidas ou de refrigerantes. Viagens cansativas e jogos sucessivos.

Destacamos muitos aspectos, mas a saudade não pode ser esquecida. A maioria dos jogadores sequer tinha viajado para a capital de São Paulo. Então, o grupo invadiu aviões e invadiu continentes.

Em determinado instante um deles comentou abatido: não sei onde estou, que horas são, que dia é hoje, para onde vou. Só sei que meu nome é Arnaldo…

Na medida em que os dias foram passando nesta viagem desbravadora e corajosa, a saudade ia crescendo e as lágrimas surgiram. Mas no campo de jogo, tudo era esquecido e o futebol brasileiro, excepcionalmente, bem representado.

Nenhum problema disciplinar ocorreu e o relacionamento foi talvez a arma mais importante para o aparecimento de tantos resultados positivos. No campo da cultura, todos os jogadores estão fortalecidos e o ângulo de análise e observação é muito mais amplo.

A GAZETA ESPORTIVA faz questão de bradar que o futebol paulista continua revelando jogadores. O interior e a capital possuem meninos de talento. A deficiência não está na produção – que poderia ser maior – mas no critério de observação daqueles que são taxados de “olheiros”.

A maioria dos dirigentes preferem contratar jogadores desconhecidos da primeira divisão de um estado distante, que observar e comprar o passe de um jovem da segunda divisão de profissionais.

Não é aceitável, num regime profissional e mostrado como sério, que por exemplo, um médio volante como Zanata, com pouco mais e vinte anos de idade – há cinco no SAAD – não tenha tido uma chance numa equipe da primeira divisão. Zanata está perdendo com isso, mas a divisão nobre paulista, muito mais…

Fica a esperança que após esta viagem longa, com vitória memoráveis, com o nome do futebol brasileiro ainda mais reforçado, com todos os obstáculos naturais sendo ultrapassados e vencidos, ocorra uma mudança de ares providencial e produtiva. Construtiva.

Os jogadores não perderam a oportunidade que foi acenada. Os clubes tem a obrigação de agir da mesma maneira.

Os caminhos da floresta malaia e da fervilhante Hong Kong devolveram jovens vividos dentro e fora dos estádios. Uma viagem que jamais será esquecida, uma viagem que foi capaz de mudar pessoas…