Calendário e bom senso

Leia o post original por Mauricio Noriega

Acho louvável a iniciativa do Bom Senso Futebol Clube em se posicionar, como grupo representante de uma parcela importante dos atletas profissionais, no debate pelo futuro do futebol no Brasil.

Toda proposta merece ser debatida e discutida e, como ainda estou otimista com o mundo, sigo acreditando na boa vontade do ser humano e nos seres humanos de boa vontade.

Existem pessoas no movimento Bom Senso, como o Alex, do Coritiba, e o Prass, do Palmeiras, o recém-aposentado Juninho Pernambucano, entre outros, cuja seriedade e coerência ao longo da carreira emprestam credibilidade. Não quero dizer que não haja outros participantes sérios e coerentes, longe disso. Deixo apenas exemplos de momento.

Como qualquer movimentação, existe o ingrediente político, muitas vezes oculto, disfarçado, que também é saudável, desde que não extrapole e deixe para escanteio a verdadeira discussão.

Li as reportagens sobre a proposta de calendário que deve ser apresentada pelo Bom Senso. Existem coisas interessantes. A preservação da pré-temporada é uma delas. O Fair Play financeiro não é ideia nova, está em implantação na Europa, com acompanhamento da Uefa, há algum tempo, embora sem adesão total.

Lembremos que na Europa existem muitos times que são tocados à base do mecenato por milionários com fortunas cujas origens e destinações são para lá de suspeitas. Além das inúmeras denúncias de evasão fiscal. Fato que deixa absolutamente sem muita credibilidade momentânea o futebol de alguns países, como a Itália, por exemplo. Até o Bayern andou pisando na bola, pelo que leio.

Mas voltemos ao calendário sugerido pelo Bom Senso.

De cara, Brasileirão de fevereiro a dezembro. Dez meses de campeonato. Um mês para os estaduais, que seriam disputados no meio do ano e, pelo que entendi (posso estar errado ou as reportagens não foram claras quanto a isso) simultaneamente ao Brasileiro. Ou haveria uma parada? Misturar estaduais com Brasileiro já foi o caos lá pelos anos 70 e 80. Voltaríamos a isso? Espero ter entendido errado.

Uma divisão extra, a E, com 430 clubes!

A proposta básica seria poupar os grandes clubes de excesso de jogos e dar aos pequenos mais datas nos calendários.

A verdade não é propriedade de ninguém. Todos os pontos de vista são válidos e merecem respeito. É do debate saudável entre propostas que surgem as melhores ideias.

Dirigentes não sabem tudo. Jornalistas também não. Assim como marqueteiros, empresários, jogadores e os torcedores.

Claro que tenho minha visão sobre o tema, que é complexo.

Não sou contra os estaduais. Mas acho que como estão sendo feitos, atiram no próprio pé. Vejo os estaduais como uma extensão da pré-temporada, uma maneira de recolocar a máquina do futebol em movimento após as férias.

Não adiante debater o futebol brasileiro tendo como base a realidade da Europa. A solução não está em copiar modelos, nem em adaptá-los. Penso que está em criar uma situação adequada à realidade de um País com dimensões territoriais e cultura regionalista enraizada. Há diversos Brasis espalhados pelo Brasil.

Se fácil fosse, era só mudar a mão de direção para o lado direito que teríamos índices de segurança no trânsito compatíveis com os da Inglaterra.

A realidade dos grandes clubes europeus e, também, dos médios, não tem paralelo com a dos times brasileiros.

Honestamente, não sei até que ponto é interessante e atrativo um campeonato de dez meses. Não discuto a fórmula de disputa, porque tenho minhas preferências, já expostas aqui há muito tempo. Discuto o tempo que se demora para resolver um torneio e a capacidade de atrair a atenção do torcedor, que tem ainda a oferta da Libertadores, da Copa do Brasil e de uma muito mal resolvida Copa Sul-americana.

Criar mais uma divisão nacional teria respaldo financeiro? Obviamente que deverá ser regionalizada, porque uma coisa é fazer torneios em países onde a viagem mais longa é de uma hora de avião e se pode ir de trem a qualquer parte. Outra é organizar competições num País em que uma viagem pode levar dias.

Parece-me claro que é preciso criar uma cadeia de sustentabilidade. Os times mais ricos deveriam ajudar os mais pobres a sobreviver, até porque desses médios e pequenos podem vir os jogadores que abastecerão o mercado (como sempre foi, aliás, até os empresários lerem direito a Lei Pelé, o que os clubes não fizeram). Mas estariam os clubes grandes dispostos a dividir uma parcela de seu precioso quinhão com os menos favorecidos? Porque o poder das grandes marcas junto ao mercado é indiscutível. E o mercado quer resultados rápidos. Raras são as empresas que fazem projetos de longo prazo, abrangendo categorias de base. Raríssimas, eu diria. Até nessa parte ainda impera um desejo por exposição, vitrine e nada mais.

Vou mais longe: estariam os jogadores bem sucedidos financeiramente dispostos a subsidiar a criação de uma associação de classe que visasse amparar seus colegas menos favorecidos?

Onde entram as categorias de base e a regulamentação da atuação de agentes e empresários?

Tenho, como todos, minha ideia de calendário, um esboço. A grande mudança seria nos estaduais, claro. Passa pela redução drástica de participantes das primeiras divisões, com a consequente redução de datas e a preservação das férias e da pré-temporada.

Alguns estaduais poderiam ser etapas classificatórias para torneios regionais que podem ser mais atraentes em termos financeiros. Mas entendo que não faz sentido para os clubes pequenos jogarem apenas entre eles, sem a perspectiva de enfrentar os grandes, ou alguns deles.

No máximo, dois meses para os estaduais. Solução rápida, formatos que estimulem o entretenimento e a promoção, uma largada para a temporada. Os torneios de verão na Argentina funcionam assim faz tempo.

A melhor divisão por parte das federações das cotas de TV é outro aspecto. A diferença é abissal. Em São Paulo, a cota da Série A-1 para os pequenos é de R$ 1,4 milhão. Para a Série A-2 cai para 80 mil. Se as federações realmente querem preservar seus produtos, deveriam pensar mais em fortalecer os clubes do que em reformar e construir sedes luxuosas e fazer grandes festas.

Acho um exagero campeonatos de dez meses. Até mesmo o Brasileirão atual, de abril/maio a dezembro, soa interminável em alguns momentos da temporada. Basta estudar com atenção as médias de público para ver que há períodos em que o torneio não desperta muita atenção. Começa atraente, esfria, e volta a esquentar no final.

Falar em tempo para excursões ao exterior me parece um devaneio. Nossos times não são atraentes junto ao mercado internacional, é preciso ter humildade para reconhecer isso. O cenário pode mudar com o tempo, mas número por número, na letra fria das cédulas, duvido que excursões ofereçam mais recursos aos grandes clubes do que as cotas pagas pelos estaduais. Esse é um quadro atual, que pode ser alterado com o tempo.

Sou adepto dos jogos decisivos, gosto de campeonato com final, de jogo eliminatório. Sempre assumi isso e não ligo para a patrulha de quem pensa diferente mas não admite posição contrária.

Enfim, há espaço para muito debate e existem propostas honestas e decentes por toda parte.

Não existe verdade absoluta, nem o time do bem contra o time do mal, os que se julgam honestos e acima de qualquer suspeita. É preciso ouvir todo mundo, inclusive os torcedores, e buscar uma solução que vise o futebol como um todo.

A título de sugestão, buscaria um especialista norte-americano. Os gringos são imbatíveis em termos de entretenimento e gestão esportiva. Até mesmo no futebol. Basta ver a evolução consistente da Major League Soccer, cuja média de público é superior à do Brasileirão. Certamente surgiriam boas ideias para engrossar o caldo da discussão saudável e democrática.