Odirley: “é um desafio”

Leia o post original por Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportiva de 27/11/1981

OdirleyPara chegar à praia salvadora e macia restam apenas algumas braçadas e a Ponte Preta nem pensa em morrer na areia. Mais uma vez, ela está próxima de uma conquista que será a mais importante de sua história. Tem títulos, de torneios, de turnos, mas nunca alcançou um título de campeão paulista da mais importante divisão. Parece que é destino da Ponte Preta sentir a dor de perder títulos disputados. Até para subir à primeira divisão – há muitos anos atrás – a Ponte não ganhou, foi favorecida pelo regulamento.

Mas há limite para tudo. A Ponte Preta não admite mais ser figura importante, só aceita a idéia de assumir o papel principal do futebol do São Paulo. Chega de sofrer. A cidade já  teve um campeão brasileiro: o Guarani. A rivalidade não permite que a Ponte Preta perca mais um título. Os jogadores estão em concentração permanente, voltados inteiramente para a luta contra o São Paulo. Sonham com a vitória, alguns pensam até em encerrar a carreira em caso de tornar-se campeões.

Pelas ruas e alamedas de Campinas os torcedores dizem abertamente: “E agora, ou nunca…”

A maior torcida de Campinas, uma cidade forte, está tensa, esperançosa, sonhando com uma alegria suprema. Ela tem um time valente, de jogadores perseguindo insistentemente um momento de glória. 

O lateral esquerdo Odirley é um dos mais importantes instrumentos que a Ponte tem que chegar no objetivo final. As suas investidas pela esquerda continuam preocupando todos os adversários. Odirley tem um incrível poder de penetração.

Ele gosta do que faz. Empurra o time da Ponte Preta, como se fosse um chefe da ala, numa escola de samba. Os passistas sambam, gingam, cantam, mas precisam recorrer objetivamente a passarela e para isso há necessidade de alguém que os empurre. Odirley é assim.

“Gosto de atacar e sempre que possível tento marcar um gol. Acho que a obrigação de todo jogador é chutar, tentar, pressionar, apertar o adversário e disputar um título tem um sabor especial para todos os jogadores da Ponte Preta.”

“É claro que entre os jogadores o assunto mais atuante é a conquista do título. Chega de ser segundo… A Ponte Preta tem time para ser campeã, tem experiência para ficar com a Taça, tem jogadores vacinados para decisões, tem atletas sofridos e responsáveis.”

“E tem mais, os laterais da Ponte podem atacar e dificilmente o ponteiro poderá utilizar-se deste fato. Há cobertura constante e diante deste quadro tático, a Ponte Preta fica mais forte, mais ofensiva com mais alternativas de jogo.”

“A presença do Jair como técnico da Ponte Preta é um fator importante para a chegada da equipe até este ponto. Ele jogou futebol, conhece os problemas, as virtudes e os defeitos de todos. Dá liberdade, faz com que ninguém sinta-se prisioneiro e no mundo de hoje isso é primordial.”

“Ninguém comete excessos ou abusa da amizade com o Jair. Há bom senso no grupo. Há consciência de que somente unidos e trabalhando sério poderá ser alcançado o título paulista.”

“É uma espécie de desafio, já que há dezenas de anos, desde sua fundação a Ponte não consegue um título paulista.”

“Jogamos e por muito pouco não ganhamos do São Paulo dentro do Morumbi. Provamos que temos time para ganhar de qualquer adversário. Futebol não se ganha com nome ou torcida. Nomes e torcidas ajudam, mas não são os fatores mais importantes.”

“Numa decisão de título prevalece tudo: garra, fôlego, categoria, habilidade, sorte, frieza e segurança.”

“Quero lembrar que a Ponte Preta está na frente. Empatou com o São Paulo e o empate favorece a Ponte. No próximo jogo, todos tem que vencer é claro, mas o empate favorece o meu time.”

“Acredito que o São Paulo não entrará em campo tão tranqüilo…”

“Sinto que a cidade apoia a Ponte Preta. Até mesmo os torcedores do Guarani, não todos é claro, estão apoiando a Ponte. Afinal, uma conquista reforça o futebol de Campinas.”

“O futebol do interior fica sensivelmente reforçado.”

“Através dos tempos uma equipe do interior  não inspira muita confiança quando entra num confronto decisivo, mas Campinas vem mostrando que a tradição foi feita para ser rompida. O Guarani já foi campeão brasileiro e por muito pouco não conquistou um título paulista. A Ponte Preta vem brigando nas suas últimas decisões em igualdades de condições e isso é indiscutível. Estou dizendo muita coisa porque sinto que o time chega mais forte que das últimas vezes.”

“A vivência do Jair, repito, ajuda muito. Era o lateral direito da Ponte Preta em 77 e naquele ano quase todos entendiam que o time era tecnicamente perfeito. Tanto é verdade que foram dezenas os comentários de que a derrota diante do Corinthians foi injusta, dolorida e confusa.”

“Depois da fracassada experiência de 79, o Jair tem a missão agora de da ou comandar a conquista do título. A Ponte Preta fracassou na sua ânsia de conquistar um título paulista mas agora chegou a hora…”

Vem aí outro desafio, e a Ponte Preta promete vencê-lo.