COLUNA DOMINICAL

Leia o post original por André Kfouri

(publicada ontem, no Lance!)

BOM SENSO V.C.

Em dezembro do ano passado, Bruno Rezende, levantador da seleção brasileira de vôlei, procurou Paulo André para se informar sobre o Bom Senso FC. O histórico movimento de jogadores de futebol chamou a atenção de Bruninho, que se identificou com a postura, as reivindicações e enxergou muitos problemas em comum entre o futebol e o vôlei no Brasil. À época, Bruno jogava no RJ Vôlei e Paulo André era zagueiro do Corinthians. Hoje, por situações distintas, ambos dão prosseguimento às suas carreiras no exterior.

Bruno foi para a Itália em janeiro porque seu clube não lhe pagava salários. Após quatro meses de atraso, decidiu voltar a jogar no Modena. Assim como se vê no futebol, meses de noventa dias ou mais são comuns nos times que disputam a Superliga, apesar da imagem de organização e estabilidade que os dirigentes que comanda(va)m a modalidade faziam questão de alardear.

Se no final do ano passado Bruno já tinha a intenção de criar uma associação de jogadores de vôlei, calcule o que lhe passa pela cabeça após as reportagens do jornalista Lúcio de Castro, da ESPN. O “Dossiê Vôlei” mostrou em que direção jorra o dinheiro injetado na Confederação Brasileira, enquanto clubes não conseguem honrar os contratos assinados com jogadores do nível de Bruno. Imagine o que se passa com atletas de menor visibilidade, e como eles reagem ao descobrir que malandros bem relacionados enriquecem com comissões de patrocínios.

Talvez não se encontre, no esporte brasileiro, um contingente mais vitorioso do que jogadores e jogadoras de vôlei. São os atletas que vestem a camisa da seleção brasileira pelo mundo. Os atletas que vencem com ela. A seleção brasileira representa o vôlei do país, administrado por uma confederação que será investigada pela Controladoria-Geral da União. O órgão determinou que a Secretaria Federal de Controle Interno analise as denúncias consistentes apresentadas no dossiê. O que seria da CBV se os jogadores e jogadoras que a representam se organizassem e se fizessem ouvir?

Ary Graça Filho tomou o caminho de outros dirigentes esportivos envolvidos em irregularidades: ausentou-se. Renunciou ao cargo de presidente da CBV e quer que você acredite que a decisão nada tem a ver com os descalabros que aconteceram em sua gestão. Em nota de esclarecimento distribuída ontem, Graça Filho se preocupou em informar que sua administração pagou bônus generosos a funcionários, e cometeu a indelicadeza de divulgar que os atletas das seleções brasileiras receberam 118 milhões de reais em direitos de imagem e premiações por desempenho nos últimos anos. O ex-presidente – atual comandante da Federação Internacional de Vôlei – deve acreditar que pagar quem merece justifica práticas que serão objeto de investigação.

Mas o melhor trecho da nota é o que diz que “as informações que vêm sendo divulgadas causam dano irreparável à imagem do voleibol brasileiro, que tem reconhecidamente uma gestão vencedora dentro e fora das quadras”. Parece um adepto do “rouba mas ganha”, alguém que jamais perceberá que o efeito das informações é exatamente o oposto.

TERMÔMETRO

Um bom medidor da saúde de uma sociedade é a quantidade de gente “importante” atrás das grades. Nesta semana, a Alemanha mandou para a cadeia o dirigente do maior clube de futebol do país. Uli Hoeness, presidente do Bayern de Munique, cometeu o crime de sonegação de impostos. Foi condenado a três anos e seis meses de prisão por um tribunal que não quis saber quem ele era, quanto dinheiro ou quanto poder tinha. O cidadão comum alemão não tem dúvidas sobre o que acontecerá com ele, se fizer o mesmo.

SUSTO

A semana ruim dos clubes brasileiros na Copa Libertadores fez lembrar o que aconteceu três anos atrás, quando quatro dos nossos times foram eliminados do torneio na mesma noite. Felizmente a atual edição ainda está na fase de grupos, e todos os brasileiros poderão chegar à próxima. Mas as lembranças de 2011 foram assustadoras