Corpo que para

Leia o post original por Mauro Beting

Todos ficam sabendo quando um jogador deixa o futebol. Mas só o jogador sabe quando o futebol o deixou.

Dói tanto quanto pendurar as chuteiras ao lado dos retratos da carreira. A sensação de impotência física, logo, profissional é chaga que chega aos poucos. Mas é tão definitiva quanto demitida que demora a ser admitida pelo dono dos pés castigados, das pernas cansadas, do peito que até despeita os sinais vermelhos despejados a cada atadura passada nos pés. A cada puxada de ar que não repuxa. A cada suspiro que parece o último em campo.

A sua vida te deixa prostrado no gramado. Você é atropelado por aquele moleque muitas vezes que mal sabe o que é a bola. Mas que chega antes que você em toda jogada. Por mais que os atalhos sejam cada vez mais conhecidos, a bola não te reconhece mais. Ela não te lambe os pés como o seu cachorro em casa. Ela não faz aquela festa desde garoto. Ela está arredia. Confusa. Metida. Cheia de hormônios adolescentes e curvas sinuosas que você já não entende mais. Vocês já não se dão tão bem.

E as pessoas percebem. Como sacam. E como não têm um pingo de sensibilidade para entender que o caso de amor que tantos acompanharam agora é cada um virado para um lado da cama. Mal pregando os olhos. Não mais se encostando. Se encontrando. Sem carícias. Sem toque. Quando muito uns trancos. Solavancos. Como se não fossem mais dois que pareciam um nos melhores momentos.

Quando o mundo via que havia ali comprometimento. Comunhão. Troca. Cumplicidade. Vocês se entendiam. Vocês se estendiam.

Agora, com o tempo que passou além dos acréscimos, vocês não se bicavam. Ficavam um de bico pro outro.

Isolados. Perdidos. Mal tratados até o distrato. O pior deles. O por fadiga de material. Por decurso de prazo que não tem discurso, nem preço que pague o desapreço que veio pintando até escurecer tudo. Até chegar o ponto de não haver mais relacionamento possível.

Você até pode bater uma bolinha. Isso não se esquece. Mas é só lembrança do que passou. A magia. O toque. O carinho. Esses o corpo tirou. A física castrou. A ginga jogou longe.

Murchou. A fonte secou. Os olhos, não.

A gente sabe que nada é para sempre. Mesmo a eterna lembrança. Mesmo o respeito que se tem e que se ganhou. Mas a memória um dia falha. Apaga. O bom é o que você cresceu fazendo. E que por crescer agora teu corpo não te deixa fazer. Outros corpos mais jovens, mais fortes, mais velozes, nem sempre mais técnicos, tentam fazer o que você fazia. Às vezes sabem tento quanto. Quando não sabem mais.

O duro, porém, é que eles não sabem quando o corpo vai dizer não. Quando a natureza vai pedir para parar. Quando o futebol vai deixar o jogador antes que o jogador deixe o futebol.