A moça dos milhões

Leia o post original por flavioprado

Ela era apenas mais uma pessoa circulando entre tantas, naquela tarde de domingo, de começo de dezembro, no Aeroporto do Galeão. Andava de um lado para o outro, fazia ligações e demonstrava tédio com o que ouvia. Uma televisão ligada a atraiu. Perguntou a um dos que assistiam, indiferente, que jogo era aquele e mostrou decepção com a resposta. Voltou a ligar. Passava das 16 horas e ela agora estava no balcão de embarque, perguntando com que antecedência poderia fazer o check in. O voo para Montevidéu sairia pouco depois da 18 hs. Ela deu mais uma volta, ajeitou os óculos escuros, retocou discretamente a maquiagem, como convém a uma executiva de ponta, fazendo, mesmo que no domingo, um trabalho estratégico. O investimento em marketing de 2014 da sua importante empresa, parecia depender daquela viagem. Voltou a olhar para o telefone. Ligou para alguém demonstrando tensão, especialmente quando falava em números. “20 milhões”, confirmava  ela. E com a resposta positiva, mesmo meneando a cabeça seguia esperando a ordem de embarque. Passava das 5 da tarde. Ela pedia paciência ao pessoal da empresa aérea que sorria, lembrando que o voo estava quase vazio. Aí o telefone tocou. O rosto da moça ficou vermelho. Ela estava claramente nervosa. Anotou um nome. Depois mais um. Não parava de escrever. Foram mais de dez anotações com as devidas confirmações. Checou tudo outra vez, guardou na bolsa, que ficou presa embaixo do braço, como se quisesse esconder, lá dentro, o segredo de vida ou morte que levava consigo. Foi ao balcão de embarque. Passagem executiva, mesmo que para uma viagem tão curta. No momento que ela entrou no avião e sentou-se  aliviada, as pessoas, que viam aquele jogo na tevê do saguão, faziam comentários em altos brados. Acabara o Campeonato Brasileiro. Eles, como botafoguenses, sorriam pela volta à Libertadores. Nas redações dos jornais as teclas batiam fortes criticando vexames de outras equipes cariocas. A executiva era servida de champanhe. O comandante pedia que se desligassem todos os aparelhos eletrônicos. Ela ainda teve tempo de rechecar a missão, enquanto ouvia a informação de que o tempo de voo até Montevidéu seria de duas horas e cinco minutos. Lá embaixo saiam os primeiros jornais esportivos. Lá no alto a moça sorria maliciosamente, enquanto ordenava melhor os nomes, que anotara as pressas.

OBS: Essa é uma história de ficção. Acabei de fazer um curso para escrever romances e com a devida licença dos leitores, estou usando esse espaço para ver se aprendi algo.