Minutos de Talento

Leia o post original por Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportva de 07/12/1981

Brasil 58O Estádio Municipal “Dr. Paulo Machado de Carvalho”, no Pacaembu, viveu na noite do último sábado, um momento histórico. A Secretaria Municipal de Esportes mostrou oficialmente ao público, três placas de bronze – cada uma relacionando os campeões mundiais de cada conquista – instaladas ao lado dos portões principais do estádio. Estiveram presentes todos os ex-jogadores, inclusive Pelé. O Dr. Paulo Machado de Carvalho compareceu a solenidade com a mesma roupa que usou quando o Brasil conquistou o título mundial de 1958 – paletó marrom (com distintivo da antiga CBD), calça cinza, camisa branca e gravata verde.

Foram muitos os jogadores que choraram durante a solenidade. Afinal, nunca tinham sido reunidos num só momento. Nem mesmo a CBD ou a CBF tinham conseguido tal feito. Alguns se abraçavam, outros sequer reconheciam seus velhos companheiros, tal a transformação fisionômica. Mas nenhum deles esqueceu as conquistas maravilhosas.

Depois de homenageados, assistiram à partida inaugural da 14ª Taça São Paulo de Futebol Junior (Corinthians 0, Santos 2) e em seguida resolveram premiar a população com uma “pelada”, aliás, uma sofisticada “pelada”… Uma partida sem compromisso maior, mas contando com verdadeiros ídolos.

Gilmar foi chamado para formar as equipes, um técnico duplo. O ex-goleiro campeão do mundo foi assessorar as equipes pelo meio campista Zito e ainda recebeu palpites de Coutinho (hoje, técnico da equipe Junior do Santos). Pelé não pode ficar até o final, nem Garrincha (ainda em recuperação clínica), Joel (ponteiro direito) funcionou, segundo ele, como observador tático.

CAMISA AMARELA: Félix, Jair Marinho, Jurandir, Oreco, Altair, Pepe, Joel Camargo, Jair da Costa e Dario Maravilha.

CAMISA AZUL: Ado, Djalma Santos, Bellini, Wilson Piazza, Nilton Santos, Clodoaldo, Vavá e Paraná.

O time de Nilton Santos venceu por dois a um, gols marcados por Paraná e Vavá e Jair da Costa assinalou para a equipe de Félix.

O jogo teve a duração de 40 minutos, coma arbitragem de Emídio Marques de Mesquita, e com excelente nível técnico, apesar das deficiências físicas de cada um dos jogadores, exceto Dario (que está em atividade. Idem, o goleiro Ado).

O público aplaudiu durante todo  o tempo. A maioria dos campeões mundiais, estão obesos, com fios de cabelos brancos, as rugas são visíveis, mas não perderam a habilidade. O toque de bola ao longo tempo. Ado e Félix seguros, Jair Marinho chutando forte, Jurandir impondo pela presença, Oreco muito hábil ao lado de Altair, a potência do arremate de Pepe, a imponência de Joel Camargo, a agressividade de Jair da Costa, o oportunismo de Dario. Tudo isso permaneceu…

A categoria de Djalma Santos, a seriedade de Bellini, o futebol simples de Wilson Piazza, a maestria de Nilton Santos, a agilidade de Clodoaldo, a força de Vavá, a rapidez de Paraná. Tudo isso permaneceu…

Colados nos alambrado, pessoas de todas as idades. As expressões eram as mais diversas e emocionadas possíveis. Os mais velhos lembrando as alegrias que os “velhinhos” proporcionaram a todos os brasileiros. Os mais entusiasmados: os meninos. Falavam de Clodoaldo, de Dario, afirmaram terem lido e assistido “tapes” das seleções de 58, 62 e 70 e sentiam felizes em sentir de perto a presença daqueles homens.

Nenhuma vaia foi ouvida, nenhum comentário irônico aconteceu. Nem mesmo quando as pernas dos campeões mundiais não obedeciam o cérebro. A exibição foi feita diante de grande respeito. Simbolicamente, as pessoas estavam curvadas diante daqueles reis… Eles fizeram este Brasil viver instantes inesquecíveis. O sentido patriótico foi aflorado com o trabalho deles em gramados da Suécia, Chile e México.

A história do futebol brasileiro foi revivida dentro do Pacaembu. Personagens dos nossos principais momentos, das nossas mais importantes conquistas estiveram jogando. Uma espécie de aula prática. Alguns jovens, sorrindo, diziam: “É a mesma coisa que ler um livro… Guardada a devida proporção, seria a mesma coisa que Rui Barbosa voltar à ativa e ler um discurso…”

“Seria uma aula maravilhosa, um momento histórico que jamais foi esquecido pelos assistentes. Foi exatamente isso, na minha opinião, que estes jogadores fizeram. Ninguém que os assistiu se importou com a obesidade, com a falta de condição física, coma presença dos cabelos brancos. Afinal, o mais importante, o mais sublime, o mais caro esteve presente como nos velhos tempos: o talento.”

O Pacaembu realmente apresentou 40 minutos de talento. O mais importante não foi a quantidade do tempo, mas a qualidade exibida. Todos acima de tudo, “homens respeitáveis” – como fez a questão de ressaltar o velho e vitorioso Paulo Machado de Carvalho.

Foi emocionante vê-los, suados, cansados, voltando pelo túnel em direção ao vestiário. Pareciam jovens, saltitantes sorridentes, entusiasmados, vitoriosos, sinceros. Os abraços dos meninos tiveram o condão de rejuvenescer, já que o talento jamais envelhecerá.