Renato lavou a alma

Leia o post original por Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportva de 30/11/1981 

Renato Pé MurchoO clima no Morumbi, antes do jogo, era realmente de decisão. A Ponte Preta receosa de entrar no gramado antes do São Paulo. Sabia que seria recebida com uma vaia terrível e esperou o adversário entrar. Quando o estádio tremeu, tocado pela explosão dos rojões, a Ponte Preta entrou em campo, misturando-se ao barulho e escondida pela fumaça. Odirley dizia que o seu time estava “vacinado” e que não estava abatido psicologicamente pela recepção que a torcida do São Paulo promoveu para Renato, Serginho, Mário Sérgio, Waldir Peres…

A partida começou e desde o início Renato passou a cria grandes problemas para a defesa da Ponte Preta. A agilidade, a criatividade, a força e a vontade do atacante do São Paulo fez com que a torcida acreditasse ainda mais numa conquista.

Ao ver Renato correndo atrás da bola, passando com precisão, enganando os marcadores com toques de bola sutis e endiabrados, o torcedor passou a sentir dentro do peito a certeza que o título estava próximo. Era só uma questão de minutos.

O time demonstrou garra, vontade de liquidar o adversário e não diminui o entusiasmo, nem mesmo quando a Ponte surgiu com contra-ataques rápidos, quase mortais, fazendo Waldir Peres ratificar a sua condição de goleiro do selecionado brasileiro.

E foi exatamente Renato que subindo com enorme impulsão, soube aproveitar o cruzamento forte e alto do lateral-direito Getúlio. A defesa da Ponte foi colhida de surpresa, ficou gelada quando percebeu a penetração de Renato. O jogador da São Paulo testou forte, com os olhos abertos, impedindo que Carlos fosse mais rápido que a bola. Um gol que foi comemorado com sorrisos lágrimas, explosões, abraços e gritos. O Morumbi tornou-se pintado de preto, vermelho e branco. A torcida da Ponte ainda tentou arrancar um esboço de reação, mas percebeu que estava engolida pela alegria da torcida do São Paulo.

Renato foi invadido pelos companheiros, uns, pulando nas suas costas, outros agarrando as suas pernas, e os que restaram re3solveram puxá-lo pelo braço. Renato, na opinião de todos, tinha começado a desequilibrar o jogo  e marcando o gol, então estava prestes a se tornar um herói.

Foi Renato que confundiu Juninho e Nenê, foi ele que enervou Odirley, foi o mesmo Renato que impediu as entusiasmadas avançadas de Edson. Renato, caindo pela direita e pela esquerda, avançando pelo meio tabelando com Serginho e Mário Sérgio, que provocou suspiros nos corações tricolores.

A chuva começou intensamente e Renato lavou a alma. Às vezes com jeito de indecisão, demonstrando para muitos uma falsa consciência do domínio de bola, Renato impediu que a Ponte Preta fosse a frente.

Cada vez que Renato descia com a bola, a torcida vinha com ele, os milhares de torcedores pareciam estar do lado de Renato. Foi comum ver nas arquibancadas homens e mulheres socando o ar, pareciam estar tomados pela vontade de vencer do atacante Renato.

E assim, e isso foi dito por muitas vezes, que o torcedor quer ver um jogador. Quer sentir a vibração, o respeito, o carinho, a garra, ao lado da técnica e da inteligência. Renato foi assim, ontem.

O moço de Morungaba, casado, dois filhos, considerado bom moça e introvertido, tornou-se o astro da decisão do futebol paulista de 1981. Recebeu faltas, ás vezes pontapés desferidos contra ele, sua camisa foi agarrada, seus braços foram laçados, mas nunca desistiu nem reclamou. Em nenhum momento Renato optou por um futebol mais cômodo, menos vibrante, menos decisivo.

Naturalmente, passou a ser aplaudido pelos próprios companheiros dentro do gramado. Todas as participações de Renato foram criativas e perigosas, mesmo aquela que não tiveram um sucesso maior. O futebol dele foi ao nível de uma decisão de campeonato.

Renato conseguiu até afastar de Serginho a imagem de “péssimo” dentro de campo., numa partida tão importante. Quase no final do jogo, um passe mágico, permitindo que o centro avante ganhasse do goleiro Carlos e marcasse um gol cinematográfico.

Antes disso, Renato perdeu dois gols, quase feitos. Ou melhor, ele não perdeu, Carlos foi brilhante. Aliás, o mesmo Carlos que defendeu até uma penalidade chutada por Getúlio.

Neste momento em que o São Paulo conquista o bi-campeonato, Renato merece esta homenagem. Ele venceu e conquistou paralelamente. Há algum tempo atrás, um jogador sem vibração, com uma enorme deficiência ao chutar, apesar do domínio de bola e da criatividade nata. Corrigiu as falhas através de intensos treinamentos e está colhendo dentro de campo os frutos de seus esforços.

Renato foi carregado, alguns torcedores ajoelhados diante dela choraram e agradeciam pelo seu futebol. Renato não disse nada, não conseguiu dizer alguma coisa. Apenas os seus olhos ficaram brilhantes, um pouco avermelhados, , e os lábios tremeram um pouco. Renato estava tão emocionado quanto os torcedores. Já sem camisa, apenas com as meias e os calção branco. Inteiramente molhado, com água e suor. Renato com o futebol de ontem, lavou a alma da bola…