O único caminho (digno) para sobreviver

Leia o post original por Luiz Nascimento

O tamanho, a presença, a atitude e o sofrimento da torcida da Portuguesa são temas debatidos há décadas pelos lados do Canindé. Já se discutiu mudança de nome para atrair pessoas de fora da colônia, anistia para recuperar o associado, promoção no valor dos ingressos, atrativos para levar o torcedor à arquibancada, ações voltadas a crianças em ambientes educacionais, planos de inserção social com o objetivo de atrair jovens e até mesmo ideias de aproximar a colônia boliviana que vive no entorno do clube.

Já tivemos e tomara que ainda tenhamos vários momentos para cada uma das discussões. Porém, o momento é tão crítico que o debate precisa ser voltado àquilo que está debaixo de nosso nariz. Até mesmo os insanos cegamente fanáticos que vão ao estádio com o time em qualquer situação, em qualquer divisão e a qualquer preço estão deixando o clube. Se o Campeonato Paulista de 2014 provou alguma coisa para a Lusa, foi isso. Mesmo os gatos pingados estão cansando de apanhar.

Pelo menos desde que tinha 10 anos, vou a todos os jogos que posso no Canindé e até mesmo fora dele. Portanto, conheço inúmeros torcedores lusitanos, sejam amigos, conhecidos, gente que reconheço de vista etc. Porém, nunca imaginei que fosse chegar ao ponto que chegamos. Hoje, conheço muito mais torcedores que não vão ao estádio do que aqueles que estão lá jogo após jogo. Os próprios loucos pela Lusa estão deixando de frequentar o clube. Por isso digo que a discussão é muito mais delicada do que simplesmente debater mudança de nome e afins.

Mesmo tendo uma diretoria – como a anterior – que destratava e até xingava o torcedor, nitidamente querendo vê-lo distante do Canindé, os loucos iam. Atualmente, não vão mais. Entre todos os torcedores que ao longo dos vários anos foram largando mão do clube pode até haver os que muitos chamam de preguiçosos, folgados, omissos, fracos – sem contar a maioria que cansou de apanhar mesmo. Porém, não é o caso dessa gente que estou falando. Falo dos que ao ver o clube cair no tapetão não esmoreceram – tanto que escreveram um dos capítulos mais bonitos da história da Lusa na Avenida Paulista –, mas que cansaram de ser feitos de trouxa com o que veio depois.

Onde quero chegar? Claro que precisamos discutir séria e profundamente políticas para recuperar os milhares de torcedores que se afastaram do Canindé nas últimas décadas. Porém, a situação é tão crítica que nossa preocupação tem de se voltar primeiro a recuperar aqueles que jamais imaginávamos longe do estádio. Se até aqueles loucos, insanos, cegamente apaixonados e fanáticos que iam com chuva ou sol, na terça ou sexta, em São Paulo ou no nordeste, estão deixando o clube, precisamos abrir o olho.

O amor pelo clube e o orgulho de ser Lusa não morreram. O que acontece é que se feriu o que é primordial para nossa torcida, para nosso povo, para nossa história: a dignidade. Ir à Justiça Comum e punir severamente os integrantes do clube responsáveis pelo tal do “caso Héverton” são questões ao redor das quais não deveria pairar qualquer tipo de dúvida. Afinal, como podemos reclamar da (in)justiça desportiva de STJD e CBF se nós mesmos não nos damos o respeito? Como cobrar justiça colocando o rabo entre as pernas, jogando o lixo para baixo do tapete e engolindo falcatruas?

Sinceramente, a demora para a entrada na Justiça Comum não me incomoda, desde que entrem. Para mim, mesmo sendo jornalista e não advogado, parece muito evidente que dar entrada na ação às portas do campeonato é uma tática jurídica básica. A luta não é para uma vitória em julgamento – até porque uma audiência nesse país demora anos. A luta é por uma liminar. Como a do Gama, conquistada há mais de década e que ainda está de pé. A liminar, mesmo que fosse derrubada não cairia antes do certame, atrapalharia o início do torneio e, na pior das hipóteses, pelo menos mostraria para os mandachuvas da bola que a Portuguesa não é mulher de malandro. Mas, para isso, tem que entrar!

Outro ponto: a punição interna aos culpados. Novamente compreendo que tocar nesse assunto neste momento pode atrapalhar uma última tentativa jurídica do clube para permanecer na Série A. Perde-se o apoio que ainda se tem na opinião pública, na imprensa e mesmo na própria torcida. Porém, mesmo que depois desse golpe de misericórdia, o clube tem a obrigação de punir. E que puna severamente os envolvidos. Coloque o dedo na cara, divulgue os nomes e expurgue no Canindé. É gente que não merece mais pisar por ali. É gente que não merece nosso respeito. Muitos sequer mereciam ocupar os cargos que ocupavam.

Entendo e partilho do desespero e da revolta da torcida. Inúmeras notícias – muitas plantadas, algumas inventadas e outras tantas duvidosas – vão piorando a situação no momento em que o clube silenciou. Como escrevi no post anterior, a Portuguesa só vai acabar quando não tiver mais uma torcida apaixonada ao seu lado. Não é por entrar na Justiça Comum que o clube vai fechar as portas, mas sim caso não entre. Porque aí perderá de vez a sua torcida. Temos orgulho de ser Lusa sim, mas a Rubro-Verde de verdade. A Portuguesa da dignidade, da tradição, da história, da luta pela justiça. Que a demora valha a pena e não seja apenas uma melancólica espera para o nosso fim.