Para que serve o apoio da torcida?

Leia o post original por Luiz Nascimento

Em qualquer meio da sociedade, conseguir apoio unânime em torno de uma ideia é praticamente impossível. Sempre haverá – e é bom e saudável que sempre haja – quem discorde. Isso em qualquer lugar. Seja país, condomínio, paróquia, empresa ou até mesmo um clube de futebol. Nesse último, por exemplo, somos escaldados. E nós, lusitanos, sabemos que no caso da Portuguesa essa dificuldade ganha proporções gigantescas. União, conciliação e unanimidade são palavras que poucas vezes frequentaram as alamedas do Canindé.

Elas seguem sem frequentar. Porém, um tema em especial tem chamado atenção. A ida ou não do clube à Justiça Comum após a vergonha protagonizada pela (in)justiça desportiva ao final da Série A do Campeonato Brasileiro de 2013. Desde os tempos em que fechamos a Avenida Paulista para protestar, vejo pouquíssimos torcedores sendo contra a luta do clube por seu direito conquistado em campo. Os poucos que eram contrários, como eu fui durante um tempo, já são favoráveis. Talvez eu conte nos dedos, até pela participação neste blog, quantos apoiam a não-ida à Justiça Comum.

Não chega a ser uma unanimidade plena – ainda bem, porque elas são perigosas –, mas chegamos a uma situação raríssima no clube. Um apoio massivo nunca antes visto. Indo à Justiça Comum, a direção do clube contará com um apoio que, sem medo de errar, poucas diretorias tiveram desde 1920. Quem o corpo diretivo do clube representa senão a própria torcida? Sejamos mais burocráticos então: o associado. Sim, aquele que elegeu os conselheiros. Sim, aqueles que aprovaram sem restrição a ida do clube à Justiça Comum. E então, o que temer? É cansativo e redundante voltar a um tema sobre o qual a visão da torcida é clara, mas já que o presidente do clube justificou a indefinição a respeito da Justiça Comum em entrevista na última semana, reflitamos.

Entendo que a pressão nos bastidores, por parte de CBF, FPF e outros tantos, seja enorme. As ameaças de desfiliação e de ter que começar o zero caso haja insucesso na Justiça Comum são justificativas usadas. Juridicamente, posso ser leigo. Porém, é possível que uma entidade privada impeça que uma associação busque seus direitos no Judiciário? Ou punir uma associação porque ela recorreu a um de seus mais básicos direitos previstos na Constituição Federal? Em meio a toda essa polêmica, vimos juristas respeitados tratando isso como uma brincadeira de mau gosto. Como regras administrativas podem se sobrepor a leis federais?

Fala-se também em represálias desportivas. O clube será perseguido, garfado, ignorado, mal tratado e farão de tudo para empurrá-lo ladeira abaixo pelas divisões do futebol brasileiro. E por um acaso não somos prejudicados por arbitragens? Por um acaso não somos vistos em uma Série A de Brasileirão como o time que lá está para cair? Por um acaso não recebemos as cotas mínimas em tudo que disputamos? Por um acaso não somos ignorados? E uma coisa é ser perseguido combatendo, tentando sobreviver aos olhos de todos. Outra é ser pisoteado, escondendo-se quieto até morrer.

Em entrevista ao programa Gazeta Esportiva na última semana, o presidente Ilídio Lico usou as justificativas acima caso o clube não entre na Justiça Comum. Creio que poucos torcedores encontraram algum sentido nas palavras dele. “Seria muito mais fácil livrar minha responsabilidade e ir à Justiça, porque aí eu teria o apoio total. Se eu não for, tenho a certeza de que não terei o apoio total”, foi uma das frases. Quem ele representa? Se ele próprio admite que os torcedores o apoiam, qual o temor? Se perdermos, perderemos todos, oras!

Que fique claro – e é bom enfatizar porque no clube há a mania de se levar tudo para o lado pessoal – que não tenho nada contra o presidente Ilídio Lico. Não sou envolvido na política do clube e não o conheço pessoalmente. Porém, tenho inúmeros colegas de arquibancada, colegas profissionais e colegas pessoais que o conhecem há anos e que colocam a mão no fogo pela honestidade dele. Não me deu motivos para duvidar, portanto, ainda acredito. Digo isso porque até hoje tive muito poucas evidências para fazer um mau juízo do presidente. Porém, não entrar na Justiça Comum seria a primeira delas.

Na mesma entrevista, ouvimos que “do jeito que está hoje a Portuguesa, infelizmente estamos quebrados. Somos homens que não gostamos de atrasar salários. Nas minhas empresas não atraso salários. Infelizmente , aqui, somos obrigados. Porque não podemos colocar todo nosso patrimônio no futebol. Se não tivermos rendas alternativas, com o dinheiro da cota, realmente não temos condições de sobrevivência”. Engano meu ou temos aí mais uma justificativa para lutar pela Série A? Ora, só se a CBF realmente vai pagar a cota da elite para disputarmos quietinhos a Série B. Ou seja, caso nos vendamos. A CBF estaria tão medrosa assim? Não é o que parece. Daria milhões assim, do nada? Até parece.

Que o clube está quebrado sabemos todos. Que não apenas falta dinheiro, como sobram dívidas, não é segredo. Que homens da colônia injetam dinheiro para o clube sobreviver é fato. Todos que vivem a realidade do clube sabiam, desde o início do Brasileirão de 2013, que ficar na Série A era questão de sobrevivência. Que os cerca de 20 milhões eram o único meio de o clube respirar e manter-se de pé. E se ficarmos quietos, encolhidos e disputarmos a Série B?

Receberemos pouco menos de 3 milhões de reais. Teremos um time igual ou inferior ao que temos. Na melhor das hipóteses, o clube consegue se segurar na Série B. Nada além disso. Certamente haverá salario atrasado e caos interno. Ou vão aprender a plantar dinheiro até lá? Na Série B, de onde a grana virá? Perdoem, mas aceitar a Série B é aceitar o fim. A chance de degringolar divisões abaixo é a mais provável. Ou seja, sumir do mapa do futebol. O dinheiro vem como? De patrocínio? É, investir em um clube escondido, ignorado, que vai de mal a pior e cuja honestidade está em xeque por ter aceitado covardemente uma punhalada daquelas não me parece alentador.

Enfim, é chover no molhado. De acordo com o presidente, haverá uma reunião com o corpo diretivo do clube para definir a entrada ou não na Justiça Comum. Estão entre lutar e entre enfiar o rabo no meio das pernas. Quero muito acreditar que o papel de coitadinho seja proposital para despistar sobre uma ação surpresa às portas do campeonato. Quero muito acreditar que no clube ainda há homens capazes de representar, lutar e amar a Lusa sem medo. Quero muito acreditar que a vergonha na cara ainda é o bem maior da nossa gente. Quero muito acreditar que a diretoria não vai dizimar de vez a torcida. Porque a Portuguesa, meus caros, não é do Manoel ou do Joaquim. A Portuguesa somos nós. Nós, os torcedores. E não queremos muito, queremos apenas dignidade.