Era preciso mendigar e implorar?

Leia o post original por Luiz Nascimento

Implorar pelo óbvio, duvidar dos próprios representantes e não confiar sequer naquilo que vê. Difícil a vida do torcedor lusitano. Revolta pensar que na Portuguesa é preciso implorar tanto por um punhado de dignidade – o que deveria ser o mínimo. Desanimador ouvir o presidente do clube mostrar, em um mesmo dia, duas posições antagônicas: a subserviência e a coragem. Tão complicado que não se consegue sequer acreditar naquilo que vê, afinal, viu-se a Lusa permanecer na Série A do Brasileirão de 2013 e, como feito de trouxa, o lusitano também viu o clube ser afundado à Série B.

No final da manhã da última segunda-feira (31), o presidente Ilídio Lico deu à ESPN uma declaração avassaladora para a torcida da Portuguesa. O clube, afundado em dívidas e sem perspectiva de receita, foi novamente mendigar à CBF – aquela que não se importa minimamente com nossa sobrevivência. “A situação nossa está muito difícil. Não há muito o que fazer. Fui mais uma vez pedir ajuda para a CBF. O que eles me disseram foi que só vão negociar comigo se eu aceitar a Série B. Não vou ter muita opção. Seria mais fácil entrar na Justiça, pois tenho muito apoio. Mas acho que não vai ser o melhor”, afirmou o mandatário.

No final da tarde do mesmo dia, o próprio Ilídio Lico disse à Folha de S. Paulo que voltou atrás. Recebeu centenas de mensagens de torcedores revoltados e ameaça de renúncia de parte da diretoria caso não fosse à Justiça Comum. “Você não sabe a pressão que recebo. É pressão de todos os lados. Recebi mais de 400 e-mails. Eu estou temeroso mesmo. A torcida da Portuguesa é muito radical. Eles [os diretores] dizem que vão sair. Como vou administrar o clube sem o restante da diretoria? Em qualquer lugar que a gente vai, a pressão é muito grande. As pessoas não se conformam. O jeito agora é acreditar na justiça dos homens”, disse o cartola.

 

Ficam algumas perguntas. Era mesmo preciso receber pressão de torcedores, conselheiros e dirigentes para decidir entrar na Justiça Comum? Era mesmo preciso mendigar à CBF e depois ouvir membros do clube para constatar que, de um jeito ou de outro, a esmola deles não nos ajudaria? Era mesmo preciso curvar-se novamente? Havia necessidade de expor o clube ao ridículo na mídia? É tão difícil perceber que a torcida não aguenta mais sofrer há décadas e que, sem a Justiça Comum, o torcedor se afastará de vez do Canindé? E, ainda mais, que sem o torcedor não há nada?

O torcedor quis muito acreditar que todas as declarações desencontradas eram um simples despiste para surpreender CBF e STJD com uma ação às portas do Campeonato Brasileiro. Porém, ficou claro e evidente que não. Será que foi preciso todo esse alvoroço para a gestão Ilídio Lico perceber que, sem ter culpa no “caso Héverton”, iria passar a fazer parte do maior vexame da história do clube ao se omitir? O presidente, na Justiça Comum, tem o apoio de quase toda a torcida. Algo raro e que poucos dirigentes tiveram até hoje. O que é mais importante? Agradar um punhado de sanguessugas do clube ou fazer a vontade daqueles que representa e daqueles que fazem o clube existir?

A torcida está apoiando e grande parte dela acreditou que Lico poderia ser a mudança no clube. A torcida conhece os riscos. É incerto? A torcida sabe disso. Se ganharmos, ganhamos todos. Se perdermos, teremos lutado todos. Jogar a Série B sabendo que a torcida está do lado da Portuguesa pela dignidade é diferente de jogar para arquibancadas vazias que, por vergonha, dificilmente se encherão novamente. A torcida sabe que a situação econômica do clube é dificílima e que o trabalho de Ilídio Lico é árduo, ingrato e amargo. Porém, se há alguma chance de sobrevivência é com a pequena, mas apaixonada torcida ao lado. Sem ela, não há nada. E sem Justiça Comum, não há torcida.

Neste 1° de abril, poderemos enfim acreditar nas palavras do presidente de que a Portuguesa vai à Justiça Comum? Repito: fica difícil até de dizer que só se acredita vendo. Porque, no Canindé, até o que se vê não é digno de confiança. Vide a Série A roubada. Porém, que os homens que comandam o clube não nos decepcionem novamente e mostrem que realmente têm coragem, dignidade e palavra. À Justiça Comum, presidente! Que agora não tenha volta!