E o futuro?

Leia o post original por Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportiva de 11/12/1981

O Estado de São Paulo tem quase vinte e seis milhões de habitantes e na opinião de muitos possui o futebol mais forte do Brasil. Como explicar então, a média assustadora de 7.785 torcedores por jogo realizado, envolvendo clubes da Primeira Divisão?

A Federação Paulista de Futebol defende-se com evasivas, os clubes culpam o infidelidade dos torcedores, enquanto os jogadores preferem acusar os árbitros. Certamente, todos – FPF, clubes e jogadoreEstadios – estão distantes da verdade.

São muitos os motivos que provocaram o afastamento do torcedor. Eis alguns deles: a péssima fórmula do campeonato, a planejamento falho da maioria dos dirigentes dos clubes, a queda do nível técnico por parte dos jogadores, e algumas catastróficas arbitragens.

O torcedor é visto e tratado como um simples objeto. Algo inquebrável. É tratado com grossura, indiferença e violência. De quando em quando, seus bolsos são atacados por majorações sem motivos justos. E não tem jamais  o direito de reclamar. Deve apenas aceitar, concordar, aplaudir, sorrir… Contestar nunca!

Quando o torcedor se afasta, decepcionado, machucado, desgostoso, é chamado de infiel pelos levianos dirigentes. Mas há limites para tudo, até para o amor dedicado ao clube.

Os números provam a falta de robustez do futebol paulista. O futebol carioca apresentou um público médio bem superior ao de São Paulo, e com metade de números de jogos realizados. Alguns dirão “os jogos finais do Rio, ajudaram a média carioca, sensivelmente…”

Mas e daí? Aqui em São Paulo também foram realizados os jogos finais. O campeão paulista fez uma festa para entrega de faixas e recebeu o expressivo número de 8 mil convidados num estádio que comporta quase 130 mil pessoas.

Chega de pronunciamentos políticos! Quais são os planos de Nabi Abi Chedid para a próxima temporada? Quais as fórmulas mágicas do candidato de oposição de José Maria Marin? Uma resposta que serve para os dois: nada, absolutamente nada. Ambos estão preocupados em conquistar votos, comprados ou convictos. Não importa para nenhum deles.

E o futebol? E o futuro? Não há pesquisas, não há planos imaginativos, ninguém apresenta idéias atraentes ou eficientes. Há décadas que o torcedor vai ao estádio, senta, levanta e vai embora. Feliz ou abatido dependendo daquilo que seu clube apresentou. Mas será que só isso satisfaz o consumidor? As maiores organizações do mundo cerca os seus produtos com atrativos, com embalagens coloridas, promoções irrecusáveis. Mas quem vende o futebol, prefere colocá-lo no mercado com “casca e tudo…”

A festa do São Paulo – entrega de faixas – é um exemplo recente da falta de previsão ou ausência da sensibilidade. O clube convidou o torcedor para ir ao estádio assistir uma partida amistosa e ao mesmo tempo convidou-a para ficar em casa, assistindo á partida pela televisão…

É um grave erro do presidente da FPF afirmar que “os clubes fizeram a fórmula do campeonato.” Quem recebe a parcela para administrar o futebol? A resposta: a Federação. É ela que deve montar sistemas agradáveis e eficientes. Cabe a FPF promover o futebol, afinal, não é ela quem possui milhões de cruzeiros em caixa? E é válido lembrar que ela não precisa pagar os salários de Sócrates, Luís Pereira, João Paulo, Daniel Gonzales, Zé Sérgio e tantos os outros…

Não é um erro de Nabi. É um erro do sistema. Há anos que isso vem acontecendo e os clubes – os eleitores – não tomam nenhuma posição. Os dirigentes se preocupam – todos – neste período pré-eleitoral em ouvir as propostas de Nabi e de Marin. Depois decidirão em quem irão votar. Na base do “quem dá mais”.

Mas e o futuro? Um Estado com 26 milhões de habitantes não pode ter estádios semidesertos. Há coisas erradas e certamente não são a bola e o gramado os grandes culpados.