O futebol precisa mudar

Leia o post original por michellegiannella

Nelson Perez/FFC

Nelson Perez/FFC

O atacante Fred, do Fluminense, um dos prováveis eleitos de Felipão para defender a seleção brasileira na Copa, divulgou um desabafo comprando uma briga com as torcidas organizadas. O jogador disse que ao sair do trabalho teve o carro rodeado, pisoteado e chutado por furiosos torcedores, que ele chamou de “desocupados”. Fred disse que ao acelerar o carro quase atropelou esses agressores e poderia ter batido num caminhão.

Infelizmente, a relação torcida organizada-futebol virou um problema dos grandes no Brasil. As torcidas não tem controle sobre seus integrantes, a polícia não sabe como agir, o Ministério Público uma hora morde, outra assopra, os clubes são coniventes, os políticos protegem e a justiça permite a impunidade… Enfim, quem paga a conta são os torcedores apaixonados que não vão aos estádios com as famílias por medo dos vândalos que se infiltram na massa e também os atletas, reféns dessa violência. Fred questiona muitas coisas em seu manifesto e conta com a minha solidariedade (separei o desabafo dele abaixo).

Não podemos mais aceitar que o Brasil seja o país da impunidade. Isso não pode mais ser praxe. Os caras invadem um CT, quebram tudo e são soltos. Agridem um jogador e ninguém é preso, matam alguém que caminha pela rua e NADA! Nada? Como assim? Chega! O futebol precisa mudar ou a festa vai acabar.

Veja o que o jogador Fred disse:

“Após o “recado” dado no último fim de semana – quando um bando de marginais, travestidos de torcedores, foi para a porta das Laranjeiras ameaçar os jogadores do time -, o futebol brasileiro está prestes a viver mais uma tragédia anunciada nesta quinta-feira, caso o Fluminense não elimine o Horizonte pela Copa do Brasil.

Sábado passado, ao sair do meu trabalho, me deparei com cerca de 20 desocupados rodeando meu carro em cima do passeio, praticamente dentro do clube. Os cinco seguranças do time até tentaram conter a fúria desses bandidos… Mas foi em vão! Minha reação, e única defesa, foi acelerar o carro, mesmo correndo o risco de machucar quem estivesse na frente, tendo em vista que começaram a bater no vidro e na lataria do meu veículo. Pra completar, quase provoquei um acidente, pois vinha um caminhão e não vi. Graças a Deus, nada de mais grave aconteceu.

Fui embora indignado, revoltado, pensando se realmente vale a pena tanto esforço e dedicação diários para esse clube que aprendi a respeitar e a gostar. Só no domingo me dei conta de que apenas 20 pessoas (geralmente, as mesmas) estavam matando a minha vontade de dar alegria a milhões de torcedores de verdade, aqueles que vibram com as conquistas e sofrem com as derrotas, mas sem partir pra agressão, pois entendem que nem sempre é possível vencer. Em 2011, vivi uma situação parecida aqui mesmo no Fluminense e, desde então, optei por não aceitar esse tipo de intimidação.

Esse bando de à toa deveria se reunir para protestar contra a falta de segurança pública, educação, saneamento básico, saúde… Ameaçar não trabalhadores e pessoas de bem como eu, mas, sim, os políticos COMPROVADAMENTE corruptos. Eles prestariam um serviço muito maior à sociedade. Mas, em vez disso, surgem do nada às 15h30 de uma quinta-feira – como ocorreu na semana passada – para xingar atletas. Isso quando não conseguem o número do telefone dos jogadores e ficam mandando mensagens com ameaças de morte.

Quantos “Kevins” ainda terão de pagar com suas próprias vidas? Quantos centros de treinamentos terão de ser invadidos? Mais quantos inocentes terão de ser espancados até a morte? Ou será que somente quando um jogador for espancado alguma providência mais enérgica e eficaz será tomada contra esses bárbaros? Ficam as perguntas. O esvaziamento dos estádios de futebol não pode ser uma mera coincidência. As bandeiras que antes tremulavam nas arquibancadas, hoje se transformaram em armas brancas nas mãos desses bandidos.

Quando a imprensa publica tais atos de agressão e vandalismo cometidos pelas organizadas, essas matérias são exibidas entre elas como troféus e, quem os pratica, são tratados como “heróis” internamente. O enfoque deveria ser outro. É preciso questionar os prós e os contras dessas facções, que exploram de maneira ampla a imagem dos times sem pagar royalties; são as principais responsáveis pelas mortes nos dias de jogos e perdas de mandos de campo por seus times; possuem marginais infiltrados; afastam os verdadeiros torcedores dos estádios; e que, por fim, ganham ingressos e até transporte gratuito das diretorias da maioria dos clubes, que insistem em manter uma relação obscura com esse tipo de organização.

Resumidamente, na minha opinião, os integrantes de torcidas organizadas não tem direito sequer de reclamar quando o time perde – tendo em vista que nem ingresso eles pagam -, quanto mais de agredir ou intimidar jogadores. Ser membro de torcida organizada no Brasil já virou profissão, meio de vida. Há casos de presidentes de facções que se elegem ou conseguem cargos políticos.

Lutarei com a arma que tenho. Por isso, a partir de hoje, as comemorações dos meus gols não serão mais para as torcidas organizadas. Meus gols serão dedicados exclusivamente aos verdadeiros torcedores do Fluzão, a não ser que a lei seja mais rigorosa ou os responsáveis por essas facções revejam o papel que elas deveriam exercer, que é apoiar o time do coração incondicionalmente, principalmente nos momentos de dificuldade, pois é quando mais precisamos de incentivo”