Os fiéis

Leia o post original por Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportiva de 21/12/1981 

As principais torcidas de São Paulo acolhem dentro do peito muitas esperanças. Desde os bicampeões sãopaulinos até os sofridos corintianos, esperam momentos mais agradáveis em 1982.

Depois de um ano repleto de instantes surpreendentes, os torcedores aguardam ansiosos que o futebol paulista sofra muito menos na próxima temporada.

O futebol recebeu pontapés desleais, acusou ferimentos profundos, foi hutorcidamilhado. Esteve longe de ser respeitado e por muito pouco não tombou ante os politiqueiros com intenções cinzentas.

Os torcedores pouco puderam fazer para auxiliar o ferido futebol nesta luta desigual. Se limitaram a ficar nas arquibancadas suspirando, lamentando, voltando aos olhos, cobrindo os ouvidos. Foram muitos os torcedores que preferiam abandonar os estádios, cansados de presenciar os cortes sofridos pelo futebol.

Mas como todos os fiéis – e fiéis são todas os torcedores de futebol – acreditam num ano melhor.

E claro que a conquista de mais um título pelo São Paulo, fez de seu torcedor um homem mais feliz. As discussões na justiça e torno de um confuso campeonato não afetam o torcedor, apesar de deixá-lo intrigado.

Mas não é esse o futebol que o torcedor gostaria de ver do “seu São Paulo”. Com os inúmeros jogadores acima da média, o espetáculo mostrado foi decepcionante. Uma equipe irregular, geradora de sustos no torcedor.

A diretoria promete novos “astros”, acena com um time imbatível, mas o torcedor prefere ver simplesmente a equipe de hoje jogando um grande futebol. O torcedor olha cismado os acordos publicitários e ouve as inflamadas orações dos dirigentes do clube.

O torcedor do São Paulo quer ter a certeza de que seu time é bom. Ele não quer ouvir mais os outros dizerem ouvir que o São Paulo é o menos ruim.

A Taça de Prata chegou para o torcedor do Corinthians como um objeto contundente. Um ano cheio de atritos, indefinições, incertezas. Uma equipe desarrumada e quase sem filosofia. Ao longo desse ano não mostrou bom futebol e nunca inspirou confiança. O torcedor começou, então, a fugir dos estádios.

Luta entre os dirigentes, contratações precipitadas e compras sem nenhum entusiasmo. Ninguém sofreu mais que o torcedor do Corinthians. É triste ver o time abatido por pequenas forças do interior. E doloroso ver o Corinthians sem forças para reagir, quando envolvido.

O torcedor espera que 1982 faça o seu Corinthians ressurgir muito mais forte. Chega de apanhar, basta de chorar.

O Corinthians sempre foi forte, sempre lotou estádios, sempre representou a parcela maior do povo paulista. Quando não vai bem, decepciona e frusta milhares de corações. O Corinthians de obrigação de deixar o seu torcedor sorrir em 1982.

Outra vez o torcedor do Palmeiras é obrigado a suportar a Taça de Prata. Pontos perdidos, falta de entendimento, pouca luz entre jogadores e dirigentes, levaram o Palmeiras a uma campanha vexatória em 1981.

Resta ao torcedor a esperança de ver seu time chegar ao título da Taça de Prata e voltar a ser considerado forte e conquistar. O torcedor do Palmeiras acostumou-se a carregar títulos e de um instante para o outro passou a vê-los em outras mãos. Quem nunca sentiu o sabor de um título não pode dizer quanto é duro e amargo não conquistá-lo.

Mudaram os jogadores, técnicos e dirigentes, mas o Palmeiras não conseguiu as vitórias necessárias. O torcedor do Palmeiras exige momentos vitoriosos em 1982. Ele não aceitará “meias soluções”. É missão da diretoria resolver todos os problemas e colocar em campo um time que possa lembrar a “Academia”. O torcedor não permite ver em campo um Palmeiras acanhado, introvertido, aceitando passivamente as derrotas.

O Santos está na Taça de Ouro, mas sem grande brilho. Também o fiel torcedor do Santos enfrentou dissabores ao longo de 1981. Foi aos estádios , gritou, incentivou, aplaudiu, mas não viu um time que pudesse aproximar-se das suas gloriosas tradições.

Nem mesmo a filosofia adquirida há alguns anos – por insuficiência de recursos – que propunha a revelar valores, andou dando certo. O Santos comprou e vendeu erradamente. O santos mudou técnicos, alterou a movimentação em campo, mas não deu certo…

A Vila Belmiro – um monumento sagrado – passou dias tristes e tensos. E com as constantes vistas de Pelé, as lembranças de passado vencedor ficaram ainda mais afloradas.

O Santos é outro grande que precisa alegrar o fiel torcedor. Não há alternativa: ou volta a ganhar e mostrar seu futebol ofensivo e alegre, ou vai perder o torcedor.  O próximo ano precisa arrancar aplausos do torcedor santista.

A Portuguesa de Desportos é considerada uma equipe grande, mas infelizmente ela não acredita nisso. Prefere ficar num bloco intermediário. Com mais de 80 mil associados e uma limitada torcida no futebol, ele parecer insistir em não fazer nada para atrais os torcedores.

O torcedor da Portuguesa não sabe a filosofia do seu clube com relação ao futebol. Futebol que perdeu Enéas, o grande astro, e não contratou ninguém.

Mudou técnicos, não prestigia jovens, contrata sem fundamentos e vive em eterna disputa política. Até o nome do clube querem mudar.

O ano de 1982 é decisivo para a Portuguesa que vai participar da Taça de Prata. Ou se reforça, ou compete, ou conquista pontos de uma vez por todas, ou seu torcedor vai procurar novos rumos. O amor é bom quando os dois se amam. Não é justo o torcedor dar o seu apoio e receber derrotas como retribuições.

Apesar de possuir o artilheiro paulista de 1981, o Guarani não agradou seu torcedor. Os motivos foram vários: andou vendendo ótimos jogadores e contratando razoáveis; caiu de produção técnica e além disso permitiu que a grande rival, Ponte Preta disputasse mais um título paulista.

O Guarani através de sua diretoria promete chegar ao título de 1982. Para isso afirma que manterá Jorge Mendonça, Careca, e contratará outros ótimos jogadores. Pensa em até mesmo conquistar mais uma vez  o Campeonato Brasileiro.

O torcedor do Guarani reclama das arbitragens, contesta a administração da Federação Paulista de Futebol, mas admite que o futebol do time em momentos decisivos, decepcionou o fato da grande rival ter prosseguido no Paulistão, enquanto o Guarani descansava, fez com que o torcedor ficasse irritado, machucado. O torcedor quer um Guarani verdadeiramente grande em 1982.

E mais uma vez a Ponte Preta não chegou. A intenção do torcedor era eliminar o tabu que vem mostrando a Ponte Preta como eterna vice-campeã. Quase chegou em 70, em 77, em 79 e em 81. Enquanto o Guarani – seu rival cotidiano – já chegou ao título nacional , a Ponte Preta mostrada por alguns como possuidora do melhor futebol deste Estado, não consegue colocar ao mãos no título regional.

Isso é demais para o seu torcedor. Esse fato derrubou o presidente nas últimas eleições. O torcedor está desesperado. Ele não quer aceitar como normal as quatro perdas

O torcedor da Ponte Preta, já começa a sonhar com a disputa de 82, garantindo mais uma vez que todo será diferente. A diretoria não venderá ninguém e ainda vai contratar bons jogadores. Disputar o título em Campinas e sem roubalheiras.

Um elenco perseguido, é assim que o torcedor da Ponte reta se sente, mas o próximo ano será o instante da redenção. Ele crê nisso.