Comparação amarga*

Leia o post original por Antero Greco

A Uefa Champions League, ou a Copa dos Campeões como era tradicionalmente conhecida antes de agigantar-se, teve etapa com duelos intensos nesta semana. Tão imponentes que mandaram para o espaço tubarões da bola como Barcelona e Manchester United. A Copa Libertadores, nos mesmos dias, igualmente apresentou rodada decisiva, que desembocou na desclassificação de brasileiros como Atlético-PR, Fla e Botafogo.

Por causa do fuso horário, os jogos na Europa terminaram antes do início dos combates desta linda e sofrida América. Como muita gente acompanhou o que rolou no lado de cima do Equador (além das tevês a cabo, a Globo também entrou no circuito e ampliou o público), foi inevitável comparar, na sequência, o que aconteceu na banda de cá. E, claro, com desvantagem em todos os sentidos – da qualidade dos elencos à organização dos eventos – para as antigas colônias.

Alguns aspectos podem ser cotejados, seguidos e copiados. A segurança nos estádios, por exemplo. Não há justificativa, hoje em dia, para considerar normais, corriqueiros e folclóricos incidentes que coloquem em risco integridade de torcedores, jogadores e comissões técnicas. Atirar rojões e objetos no campo são coisas da Idade da Pedra da bola. Assim como brigas entre atletas são gestos de neandertais. Há muito a Conmebol deveria ter agido com seriedade, e não só no faz de conta, para combater atitudes desleais, antidesportivas, covardes e chinfrins.

O paralelo injusto se refere ao nível das disputas. Não há equivalência entre os clubes daqui e os de lá, o que não impede de sul-americanos eventualmente se darem bem em tira-teimas com europeus. (Corinthians x Chelsea de 2012, um exemplo que nos é muito caro e simpático). Se você, caro leitor, contra-argumentar que exceções ocorrem, vou concordar, para não estender a polêmica. Mas o foco é outro.

Sul-americanos e europeus vivem realidades distantes, mundos opostos, no que se refere à administração esportiva e à capacidade de investimento. Por extensão, ao retorno técnico e financeiro. A região de onde vieram nossos senhores de antanho historicamente sempre teve maior poder econômico – no futebol, bem entendido, para não ampliarmos o universo da abordagem.

Desde que me conheço por gente (e já tem um belo tempinho…), Milan, Real Madrid, Barcelona, Inter, Juventus, Atlético de Madrid, Benfica, Porto e daí por diante foram importadores de talento. Com dinheiro farto, não se cansam de garimpar pérolas brasileiras, argentinas, uruguaias, peruanas, colombianas. E, de umas décadas pará cá, também acham joias africanas, muitas das quais das possessões de outrora.

Com a liberalização das fronteiras na Europa, até timecos de Terceira Divisão viraram legiões estrangeiras. Os grandes se transformaram em multinacionais multirraciais, com interesses e seguidores no mundo todo. Repare como ingleses e espanhóis invadiram o mercado asiático. Note como, mesmo no nosso “país do futebol”, cresce o número de seguidores de City, Barça, Liverpool, United e similares.

O negócio tem potencial de expansão tão forte que aguçou a cobiça de bilionários dos mais variados cantos, dos EUA à Rússia, da Islândia à Tailândia. Está cheio de magnata que não sabe o que é uma bola, mas botou grana preta pra comprar time europeu e contratar gente de peso.

Para facilitar os projetos hegemônicos, há a precariedade das agremiações da zona “descoberta” por Américo Vespúcio. Com singulares exceções, vivem na pindaíba, ou com orçamentos apertados. Então, pulam de alegria ao receber ofertas europeias e não ensebam para entrar em acordo. Vivem da venda de talentos e, por mistérios insondáveis, não tiram o pé da lama e o pires da mão.

O desdobramento é manjado: enfraquecimento das equipes, campeonatos tecnicamente frágeis, plateias reduzidas, consumidor insatisfeito, que prefere torcer à distância por europeus do que ver de perto seus patrícios. O círculo vicioso se eterniza.

 *(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sexta-feira, 11/4/2014.)