Democracia Corinthiana e do Brasil

Leia o post original por Mauro Beting

Foi muito além do Parque São Jorge.

Não apenas pelo muito que jogou aquele time bicampeão paulista em 1982-83. Mas pelo que ajudou alviverdes, tricolores, outros pretos e brancos, rubro-negros, celestes, colorados, roxos de paixão e de hematomas de anos de chumbo e ferro de ditadura. Amarelos da esperança das Diretas-Já, em 1984. Verde-amarelos cidadãos democratas. Todas as cores dessa aquarela foram pretas e brancas como nunca como naquele Corinthians Paulista que, a partir de 1982, foi o mais brasileiro mesmo por ter dado o pontapé inicial na democracia do Brasil a partir de 1985.

Não aquela dos sonhos, das utopias. Também por aquele timaço do Timão não ter conquistado mais coisas. Tinha o grande Flamengo de Zico, em 1982-83. O competente Fluminense de 1983-84. Poderiam Sócrates, Zenon, Casagrande, Wladimir, Zé Maria e grande elenco ter conquistado muito mais coisas e causas. Poderia aquele elenco ter plantado muito mais do que plantou não só no Parque. Uma administração mais arejada e antenada. Mais aberta, ainda que com erros, exageros, imprecisões. Mas um ponto de partida para novos jogos e lutas.

Assim como nos palanques animados por Osmar Santos. Diretas-Já que juntavam no grito por democracia todas as espécies e sopas de letrinhas. Alhos, bugalhos e bagulhos misturados fazendo barulho pelas praças. Saco de gatos, ratos e todo o tipo de bichos, dos escrotos e escroques aos craques que jogavam pelos bagres, gente que era tratada como bicho que rugia pelas ruas que berravam pela mudança urgente:

– Vote para presidente!

A democracia alvinegra também conseguia fazer jogar junto personalidades distintas, profissionais distintos, craques distintos, gente distinta. Corajosa. Até os que pensavam diferente. Como um craque como Leão, bicampeão essencial em 1983. Gente que acertou, pessoal que errou. Mas tudo junto e misturado. Tudo por todos. Gente que fez errado depois, dentro e fora do clube, como um de seus mentores. Gente até que se perdeu dentro e fora de campo. Mas tudo gente que ganhou independente do placar. Fez história.

Esse timaço deu muito certo por ser muito bom, dos melhores da história corintiana. Não tivessem essas feras todas, abutres, urubus e outros iriam fazer horrores. Dom Mario Travaglini fez ótimo meio-campo no banco. A direção segurou as pontas. Serviram de escudo para o bombardeio do CCC – Comando de Caça aos Corintianos (democráticos). Tinha muita gente jogando contra dentro do clube. Muita gente detonando de fora para dentro com catapultas de azedume, de manchetes frias como as notas, de um conservadorismo tacanho de tão de antanho, de quem queria preservar garrotes como queria perpetuar empregos. Gente do poder constituído que era contra só por ser ideia nova. Gente velha que ainda está constituída no poder por ser velhaca de tantas batalhas.

A democracia deu muito certo. Um exemplo para tantos. Um urro de rebeldia em todos os campos. Como o rock que em 1982 invadia todas as praias com a Blitz. Depois Barão Vermelho. Paralamas do Sucesso. Titãs. Ira! Gritos na multidão de uma geração que jogou junto com os democratas corintianos.

Gente que revê e se emociona com o trabalho de Pedro Asbeg:

“Democracia em preto e branco”.

O filme que ele dirigiu e está lançado.

Sou suspeito para falar do diretor. Pedro é muito amigo de meu primo Thiago, ovelha alvinegra dos palmeirenses Zioni. Meu primo que ia comigo torcer pelo Corinthians dele que, naqueles anos, sempre nos vencia.

Sou ainda mais suspeito por admirar o trabalho do pai dele. José Carlos Asbeg dirigiu “1958 – O Ano Em Que o Mundo Descobriu o Brasil”, admirável documentário que narra o que o Brasil fez em 1958 na Suécia. E o que os suecos e outros rivais viram daquele Brasil de todos os tempos e campos.

Pedro Asbeg também montou “Cidadão Boilesen”, corajoso documentário sobre anos de chumbo e choques, ferro e pau-de-arara.

Agora, o rubro-negro dirige o documentário que mostra a força da democracia, de palavras e pensatas, jogo de bola e de cena. A força do jovem e da música. Trabalho de fôlego, raça e talento de pesquisa, produção e edição. Forte como a locução de Rita Lee. Tocante como as palavras de Casagrande. Arrepiante como ouvir e ver novamente o querido Sócrates, doutor honoris causa de futebol e política.

Sou ainda mais suspeito por falar algumas frases no filme. E ainda mais suspeito por ser dos poucos não-corintianos em uma obra que, graças a Deus, vai muito além do Parque São Jorge.

Eu era jovem e ingênuo em 1982. Sou menos jovem e ainda meio ingênuo. Mas sei que o Brasil melhorou, ainda que não seja aquele. Como aquele time era para ter vencido muito mais. Mas certas conquistas não se contam. São vividas.

Feliz por ter vivido aquilo. Ainda mais feliz por reviver aquele tempo em um trabalho que vai durar como aquele time e aqueles caras.

Pena que outros não deram sequência à obra dos democratas em preto e branco. Pena que uma obra como esta do Asbeg não terá sequência. Não teve uma Democracia em qualquer clube parte 2.

Se não precisamos fora de campo lutar pela democracia que a classe de 1982 conseguiu, que ao menos consigamos virar o jogo nos clubes. Todos eles.