Que fiquem com tudo, menos a dignidade

Leia o post original por Luiz Nascimento

Quando a Portuguesa entrou na Justiça Comum para reivindicar o direito legítimo de disputar a Série A, qualquer um no clube sabia que a briga ia muito além do cumprimento de uma lei federal. As recentes derrotas sofridas por Ministério Público Estadual e pela Lusa escancaram uma realidade que já deveria ser conhecida. O cerne da questão não é jurídico, mas político. Não se luta contra uma simples ilegalidade. Luta-se contra um dos corpos jurídicos mais fortes e bem estruturados do país. E mais, de uma confederação que neste ano crê chegar ao seu ápice com a Copa do Mundo no Brasil. Isso em meio ao contexto de hipocrisia que o país vive para agradar a FIFA.

A estratégia sorrateira, planejada e certeira de derrubar todas as liminares de torcedores e entidades na mesma tarde em que era divulgada a tabela do Campeonato Brasileiro de 2014 já evidenciava a influência. Quando a Portuguesa entrou na Justiça Comum, tentou-se esbanjar da força do corpo jurídico para derrubar a liminar na própria Vara que a concedeu. Caíram do cavalo. Porém, em terras como a que vivemos, o poder político dita as normas. O mesmo desembargador da mesma Comarca que negou o recurso do MP em sequer notifica-lo, suspendeu a liminar lusitana. Exato, suspendeu. Porque a tentativa da suspensão ocorreu no momento certo para que uma tentativa de reversão da Lusa só fosse analisada quando o campeonato tivesse começado.

Quando o presidente da Portuguesa, Ilídio Lico, afirmou em entrevista “demos o primeiro passo e agora vamos até o fim”, não mentiu nem se quisesse ter mentido. Em caso de se acovardar, é o fim do clube. Em caso de seguir lutando, é enfrentar o poder nos tribunais, nos bastidores, nas federações, nos campeonatos e nos gramados. Tanto que o corpo jurídico da Confederação Brasileira de Futebol já sinaliza pedir indenização pelos danos causados pela Portuguesa com essa “aventura”. Exato, é assim que chamam a simples reivindicação de direitos previstos, inclusive, na Constituição Federal.

A CBF é prejudicada junto a seus patrocinadores com a ação da Portuguesa. Porém, a Lusa não é prejudicada com relação a patrocínios após o tapetão? A CBF pode entrar com ação na Justiça Comum alegando que o Estatuto do Torcedor pode ser infringido com uma vitória da Portuguesa nos tribunais. Porém, a Lusa não pode entrar na mesma Justiça Comum para denunciar um descumprimento grave, evidente e escancarado do Estatuto do Torcedor por parte do STJD e da CBF para derrubá-la à Série B?

A luta é contra um sistema forte, estruturado e já incrustado nos bastidores do poder. Todos sabiam que assim seria. Sejam torcedores, conselheiros, diretores ou presidente. E a Lusa irá até o fim de qualquer modo. Sendo o fim do clube ou o fim dessa luta jurídica. Um recurso só pode ser julgado após o início das competições e, caso a Portuguesa não entre em campo na Série B, perde por W.O. e dá à CBF e ao STJD um prato cheio para trucida-la. Quando o vice-presidente jurídico do clube, Orlando Cordeiro de Barros, explica a fala do presidente à mídia em nota no site oficial, diz mais ou menos isso.

Talvez até em termos de oratória nosso último grande presidente tenha sido Oswaldo Teixeira Duarte. Porque nas últimas duas décadas, quando o presidente do clube começava a falar em algum microfone, dava calafrios. Ilídio Lico atende a todos e fala com todos, isso é bom. Porém, por não ser nem de longe um bom orador, vira uma arma poderosa para quem precisa de apenas uma frase para estampar em manchete. A Portuguesa entrou na Justiça Comum e, fosse qual fosse o preparo da ação, enfrentaria a influência de um corpo jurídico fortíssimo, como enfrentou. São artimanhas jurídicas, não há força bruta que resolva. E todos sabiam disso. O momento não dá mais brechas a nada no clube que não seja a união.

Muitos torcedores afirmam que se fosse para entrar na Justiça Comum para perder ou para disputar uma Série A com o time fraco que temos, que não entrássemos. Discordo. O que estava e ainda está em jogo nessa ida à Justiça Comum é a dignidade do clube. Mesmo que disputássemos a elite e perdêssemos todas as partidas, jogaríamos com dignidade cada rodada pela qual conquistamos o direito de participar. E mesmo que agora joguemos a Série B, disputaremos com a mesma dignidade. A dignidade de um clube cuja torcida foi às ruas, fechou a Av. Paulista e entrou na Justiça. E cujo próprio clube não vendeu sua dignidade em troca de lutar por seu direito conquistado.

Desde o início até o fim, sempre estivemos e sempre estaremos sozinhos. O papo de co-irmãos e simpatizantes, de uma vez por todas, foi para o ralo. As exceções são tão raras que mal se fazem perceber. Na terra do poder, da influência e do dinheiro, somos quem tem dignidade. E ter dignidade por essas bandas é raro demais. Podemos ter perdido ou ainda perder tudo, mas ninguém nos tira a cabeça erguida e o orgulho de ser Portuguesa.

**Devido aos excessos dos torcedores adversários, que não souberam lidar com o espaço que sempre tiveram, a partir de agora somente serão aceitos comentários de lusitanos.