Deixa a bola com o Vagner!*

Leia o post original por Antero Greco

O título do Ituano foi pra lá de merecido, o jogo decisivo teve catimba, divididas duras, jogadas feias pra chuchu, lance polêmico no gol do Santos, um pouco mais de futebol no segundo tempo e o campeão só saiu depois de muitos pênaltis. Ao Santos, restou o consolo de ter chegado em seis finais consecutivas, com três conquistas e três vices. Vamos falar de tudo isso.

Mas o que me fez saltar da cadeira foi uma cena rápida, assim que terminou o jogo. O goleiro Vagner defendeu a cobrança de Neto, transformou-se no herói da conquista e ficou tão entusiasmado com a proeza que não soltou a bola nem após o apito. Teve colega que quis arrancar-lhe o troféu das mãos. Em vão. O moço dizia: “É minha!” Para ele, a gorduchinha era valiosa tanto quanto a taça oficial que o time receberia em seguida. Igual nada, maior. Afinal, ao aninhá-la garantiu o clube no topo do Paulistão. Justo, portanto, que a levasse pra casa.

Daí, no meio das entrevistas ainda no campo, no calor da hora, com adrenalina a mil e emoção à flor da pele, aparece um sujeito e toma a bola de Vagner sem direito a apelos. O rapaz ficou com uma cara de tristeza que deu dó. O estraga-prazeres investiu-se da autoridade de representante da Federação Paulista de Futebol e, zeloso guardião do material da entidade, tratou de recolhê-la à insignificância dos objetos velhos. Por norma, não seria reutilizada em jogos de ponta. Sei lá, poderia ser repassada para agremiações inferiores ou ser doada para instituição de caridade. O certo é que não entraria mais ação em jogos da elite.

Ou seja, voltaria a ser apenas mais uma esfera de couro (não é bem couro, mas a imagem é poética), semelhante a tantas fabricadas em série. Só que não é igual, tem significado especial, incomparável para a turma do Ituano e, mais especificamente, para o Vagner. Se ela tivesse beijado a rede, talvez não ocorresse a explosão de alegria. Mas, no momento em que brecou no corpo do goleiro, virou símbolo do sonho realizado, de glória, de graça alcançada.

Aquela bola não poderia consumir-se em qualquer campinho da vida. Não seria correto terminar esfacelada, arranhada, atirada num contêiner de recicláveis. Merece lugar de destaque, no mínimo na casa do Vagner, que vai olhar para ela com encanto a vida toda. Que levassem a medalha dele embora – e goleiro costuma ter azar danado para medalha a que tem direito parar em bolsos alheios -, mas não deviam ter-lhe tirado a bola do colo. Injustiça!

Quase invadi a telinha para dizer muitas e bravas para o homenzinho. Ele ficou sem graça, porém não quis arriscar-se a ouvir bronca do patrão. Na tentativa de emendar a crueldade, garantiu a Vagner que lhe entregaria a bola no vestiário. Ufa, e assim o fez! Mas fica a dúvida: é a mesma e não outra das tantas que, durante o jogo, entraram e saíram de campo com a falta de identidade das bolas de hoje em dia? Pois houve época em que bola do jogo era única, tinha caráter, temperamento. Só merecia substituição se murchasse ou se furasse. E a bola de ontem, a do pênalti derradeiro, era inigualável. Tomara que o Vagner tenha levado a bola certa. Garanto que vai colocá-la num pedestal, quem sabe ao lado da imagem do santo de devoção. Abençoada bola.

Bola que apanhou durante o jogo. O primeiro tempo foi sofrível, com o Ituano a preocupar-se em segurar a todo custo a vantagem do 1 a 0 de domingo passado. E dá-lhe catimba. O jogo não fluiu, raras as ocasiões de emoção e perigo, Vagner e Aranha apareceram pouco. O Santos ainda saltou na frente, com pênalti sofrido e aproveitado por Cícero, impedido no lance. (E, pra mim, dividida dura e normal de Alemão.)

A segunda parte foi digerível, porque o Ituano optou por jogar, adiantou-se, incomodou a defesa alvinegra, arriscou-se. Os santistas sentiram a pressão e, como no duelo anterior, encontraram enorme dificuldade para impor o ritmo agressivo da maior parte da competição. Viu-se conformado a tirar a sorte nos pênaltis. E quebrou a cara. Festa em Itu.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, segunda-feira, 14/4/2014.)