O alambicado soberano

Leia o post original por Mauro Beting

Juvenal Juvêncio é alambicado.

(Se você acha que eu quero dizer alguma coisa, faça como faz o eterno presidente eterno do Soberano: beba sabedoria no dicionário.)

Ele é alambicado. Ninguém tem motivo para tanto. Mas ele fez muito como diretor e presidente do clube. Fez parte da grande equipe campeã da segunda metade dos anos 1980 tanto quanto armou o São Paulo que não se classificou para a elite do SP-91 (mas não foi rebaixado).

Quando retornou, como um dos donos do futebol, em 2002, ajudou a manter o craque-bandeira Rogério Ceni no Morumbi. Quando assumiu a presidência em substituição ao velho companheiro Marcelo Portugal Gouveia, manteve o Tricolor campeão. Bicampeão. Pela primeira vez tricampeão. Único no Brasileirão desde 1971.

Fez Cotia. Fez o espaço Visa. Quando a visão turva e deturpada de que só existe o clube dele na cidade, no pais, na Terra e na galáxia, fez com que adversários virassem inimigos. Coirmãos virassem cúmplices. O futebol virasse guerra de vaidades e vilanias.

Ele achou que o Morumbi ruiria. Que o CT desmontaria. Que Cotia não. Pacaembu não. Só ele sim. Soberano são-paulino. Só ele é sol. Rei do Morumbi. Soberano totalitário. Autoritário que esmaga oposição e sufoca situação.

Só ele. Juvenal Primeiro. E único.

Rasgou estatuto com a legalidade que o enorme apoio político costurado concedeu. Manchou o espírito democrático do clube ao estender e ampliar o próprio mandato. Desmandou com aliados. Alienou profissionais. Nomeou inomináveis. Perdeu amigos. E o muito que conquistou como um dos homens que mais entendem de futebol. E de cavalos.

Disse que não podia deixar o São Paulo em momento tão delicado. E apenas conseguiu perder de vez a Copa para Itaquera. Não cobriu e nem reformou o estádio. Quando descobriram o mal que é a dualibização do São Paulo e a mustafização tricolor era tarde. Outros presidentes vencedores também por terem ampliado seus poderes e seus mandatos.

Juvenal mandou bem por muito tempo. E tempo demais. Claro que mandou bem. Mas de tanto mandar. De tanto querer poder. De tanto ganhar esse poder, em vez de sair como deixou o clube (ainda que pudesse deixar ainda melhor ao final do mandando anterior), Juvenal vai sair mais como um personagem risível e histriônico que rende piadas mais que algo é alguém sério. Vai sair como uma caricatura. Criatura que também somos irresponsáveis na mídia por dar tanta trela e corda.

Juvenal mandou bem. Mas desmandou demais