Finanças: o outro lado da cultura

Leia o post original por Bruno Maia

crédito: Úrsula Nery/FERJ

Vamos ao fim da trilogia que marca minha entrada aqui neste espaço. Tentando cavar linhas entre a raiva do torcedor que sou e uma análise mais ampla sobre o que vem acontecendo – ainda que saiba ser inútil tecê-la.

A pergunta derradeira sobre a final do Carioca 14 é: quem paga a conta do erro? E, acredite torcedor de outros times, é uma pergunta fria, desprovida de paixão. O fato do assistente escalado pela Federação do Estado do Rio de Janeiro não ter visto um impedimento de 69cm custou R$ 2,5 milhões ao clube prejudicado direto. Ali, na bucha, só na premiação do campeonato. Perdeu, pleibói! E gerou R$ 2,5 milhões de receitas indevidas ao clube favorecido. Errar faz parte, mas sei que se um funcionário da minha empresa gera um desfalque desse para um cliente – sim, os clubes são os CLIENTES das federações de futebol -, eu sou responsabilizado pela decisão de tê-lo escalado para determinada função. Seria um caso que tenderia a tomar rumos jurídicos e gerar responsabilidades. Mas no futebol, não.

Imaginem vocês, leitores, independente do time que mova seu coração, se os erros de arbitragem gerassem algum tipo de responsabilidade para as federações, sejam elas quais fossem, como acontece no resto do mundo? “Ah, a Fifa é uma entidade muito tradicional”. Xongas! Tradicional porque não dói no bolso. Se os prejuízos financeiros causados por suas decisões de manter árbitros despreparados em seus quadros, ou, de não recorrer à ajuda eletrônica para situações em que evidentemente o corpo humano não é capaz de ser o melhor juiz, fossem imputadas à digníssima FIFA, o chip na bola seria coisa de 1967 e não de 2014.

A tradição só pode ser entendida em um contexto. Quando o futebol foi criado, não envolvia os milhões e milhões que, não só envolvem hoje mas como, o mantém sendo possível de existir. Tudo se resolvia ali na cancha. Futebol não é sustentado pelo mero interesse na partida in loco há muitas décadas. São os interesses externos, televisão, patrocinadores, etc, que ainda pagam a conta que o torna viável. E essa conta não é paga quando um time é prejudicado em R$ 2,5 milhões por conta de um erro deste tipo. Neste caso, o prejuízo em relação ao rival é R$ 5 milhões, já que estamos falando de um jogo de 6 pontos. É menos R$ 2,5 milhões de um lado e mais R$ 2,5 milhões para o outro. É um time que vai ficar sem pagar sua folha e outro que vai se reforçar ainda mais. É impôr uma distância injusta entre eles e ninguém ser responsabilizado ou achar que “essa é a beleza do futebol”. Acreditem, não é mais. Isso sem falar nos valores indiretos e bonificações envolvidas em todos os contratos dos clubes com as marcas que ainda viabilizam suas existências.

R$ 2,5 milhões é o valor estimado de toda a folha salarial do Vasco, enquanto o clube briga para se manter adimplente e reverter uma situação de grave crise financeira. Um lance num jogo e… pá! Mais um atraso de salário. E jogadores vão embora. E um planejamento é comprometido. E vem derrotas que derrubam um treinador, começa-se de novo do zero e a coisa não anda. Conhecemos bem esse filme, ou alguém esquece o que aconteceu após a perda da Libertadores 2012 no Vasco e o que aconteceu com o Corinthians com aquela vitória? Quando o lance é responsabilidade do clube que escalou o Diego Souza, tudo bem, a responsabilidade é nossa. Mas e quando é de quem escalou um árbitro? E isso não acontece só envolvendo o Vasco. Acontece aos milhões porque as Federações não são responsabilizadas pela sua responsabilidade que é arbitrar os jogos. As coisas estão interligadas.

Neste caso específico do Campeonato Carioca, como falei no texto sobre a cultura do futebol, a quantidade de vezes em que as decisões arbitrais em momentos decisivos favoreceu o Flamengo, ajuda a criar uma injusta diferença entre os clubes. Bem como, o que se viu com pró-Corinthians nos últimos 6, 7 anos, em termos nacionais. Isso aumenta o número de torcedores de um lado, aumenta a cota TV de um time em relação ao outro, se reflete nos elencos, na estrutura e nos resultados futuros. E ainda assim, quando no campo a beleza do time com menos investimento pode vencer o de mais grana se impõe, vem um novo erro, aumenta essa diferença e tá tudo serto. SERTINHO! Quem paga a conta? É suspende o bandeirinha por um mês e vamos em frente. Às vésperas de um novo campeonato brasileiro, ainda nos apoiamos à teórica equivalência dos grandes clubes do país para valorizar nosso certame, sem nos atentar a série de pequenas “coisinhas” (ou irresponsabilidades, se você for mais realista) que nos encaminham para virarmos tudo que a gente se orgulha de não ser. Junte a cultura forjadas, com as finanças direcionadas, com o cinismo e teremos tempos ainda mais dias desleais.

Que venha o resto do ano, enquanto inauguram-se Itaquerões, celebram-se tapetões e cortejam-se federações. A súmula do jogo é alterada e o Maracanã tá faturado, e a pauta do dia é a eleição do novo presidente da CBF. Tá cheio de gente com a mão amarela por aí, enquanto o Vasco é só a bola da vez. Mais uma vez.