João Carlos de Oliveira: os pulos podem parar

Leia o post original por Wanderley Nogueira

* Publicado na Gazeta Esportiva de 23/12/1981

passat-joao-do-puloApós o acidente de ontem, entre os inúmeros desabafos e lamentos, ouvia-se muito esta frase: O que será do atletismo brasileiro sem o João do Pulo?

O atletismo é o único esporte que não se faz um campeão da noite para o dia. Aquele que consegue aparecer é porque foi vencedor de uma batalha árdua e cansativa contra o cronômetro .

Agora, João do Pulo está ferido, sofreu fraturas e sua recuperação será demorada. Dizem alguns que jamais João Carlos de Oliveira voltará as competições.

A fama foi tamanha que seu salto foi para revistas, rádios, televisões. João do Pulo era o gênio da raça no atletismo e sobre ele começaram a recair as esperanças nacionais em termos épicos.

Foram consultados 50 órgãos de imprensa internacionais da América Latina e Caribe para que a decisão sobre o melhor esportista latino-americano de 81 fosse a mais democrática possível: João Carlos de Oliveira, o escolhido.

O garoto magro, lavador de carros, nascido em Pindamonhangaba, tornou-se uma figura admirada em todo o mundo.

E com muito mérito, diga-se de passagem.

Ontem ele sofreu um desastre. Ele está lutando e sofrendo contra a morte, depois tentará voltar as pistas.

É um drama que começou na última madrugada. Imaginem um planista com as mãos fraturadas, pensem em um pugilista com o braço quebrado. As eficientes e vencedoras pernas de João do Pulo foram atingidas duramente. Só resta dizer que para sua condição de super-atleta supere também algo considerado impossível, neste momento.

JoaodoPuloO recordista mundial e tricampeão mundial dessa modalidade, João Carlos de Oliveira, o “João do Pulo”, está gravemente ferido em decorrência do acidente ocorrido na madrugada de ontem, na altura do Km da Via Anhanguera. Ele trafegava sentido Campinas-São Paulo com seu Passat placa MG 1828 quando uma variante chapa RF 1413 (Campinas), em posição contrária provocou a colisão.

O motorista da Variante faleceu no local. “João do Pulo”, que estava acompanhado de seu irmão Francisco Carlos de Oliveira e do seu primo Luís César, foi internado em estado grave num hospital de Campinas.

O acidente, segundo informações da Polícia Rodoviária, aconteceu por volta das 2h30. Entre os destroços do carro de João do Pulo os policiais encontraram uma medalha ganhada por ele no dia anterior em Campinas.

Seria Mesmo João do Pulo?

As primeiras informações sobre o acidente foram totalmente desencontradas. Até as 5 horas da manhã de ontem, João do Pulo, não havia sido encontrado e confirmado como vítima de acidente. Até a Polícia Rodoviária encontrar os documentos do carro com o seu nome.

Mas das vítimas removidas do hospital, apenas estavam devidamente identificadas – seu irmão e seu primo.

Foi preciso que uma atleta de Campinas – Sandra Domingues – fosse até o hospital para ver se era, de fato, João do Pulo, uma das vítimas até então não identificada. E ela confirmou.

João do Pulo foi submetido a uma prolongada intervenção cirúrgica. Ele sofreu fraturas nas pernas e até o início da manhã o hospital não havia fornecido maiores informações sobre o seu estado de saúde.

O acidente com João Carlos de Oliveira aconteceu exatamente 24 horas depois dele ter sido apontado com o ESPORTISTA LATINO-AMERICANO  de maior destaque deste ano, segundo pesquisa realizada pela agência cubana “Prensa Latina”. Ele foi escolhido como o melhor do ano por sua atuação na Copa Mundial de Atletismo, em Roma.

Muito Grave

Enquanto o motorista da Variant, João Mariano da Silva, que teve morte instantânea era levado para o necrotério em Campinas, o médico Nubor Fakoury, neuro-cirurgião que operou João do Pulo, dizia que o estado do atleta era indefinido.

– Não podemos fornecer quadro perfeito. Mas quem conhece os antecedentes de João tem que ser otimista. Ele é um homem muito forte e tem um poder de recuperação.

– João está politraumatizado. Ele tem um trauma de crânio com lesão cerebral difusa, contusão de tórax, fratura exposta de tíbia e perônio direito, apresenta perda de sangue pela urina. Está em coma, na unidade de terapia intensiva.

Hipótese

Segundo alguns policiais rodoviários há uma hipótese para o acidente: “Há uma saída para a pista Sul, junto ao trevo de Valinhos e ao posto de “Saci”. Talvez a Variant tenha saído daquele posto, ganhando a pista na contramão, e provocando assim o acidente. O motorista teve morte instantânea…”

A luta pela vida

Muitos repórteres perguntaram ao médico que operou João Carlos de Oliveira “se o campeão voltaria a pular”. Visivelmente abatido e com o semblante preocupado, o neurocirurgião Nubor Fakoury repondeu:

“Este moço é muito forte… Ele está na unidade de terapia intensiva e em primeiro lugar deve vencer, esta luta que está travando para viver. Depois sim, os médicos poderão dizer se ele voltará as pistas para representar o atletismo brasileiro ou não… A UTI tem na verdade um super homem, um atleta acima da média, com enorme resistência e claro que isso é importante num instante decisivo…”

CBA lamenta

No Rio de Janeiro, o presidente da Confederação Brasileira de Atletismo, Hélio Babo, ficou chocada com a notícia do acidente e lamentou bastante o ocorrido.

Assim que soube de tudo, ele telefonou para Campinas e falou com o médico responsável pelo atendimento de João do Pulo e recebeu a informação adicional de que João Carlos de Oliveira também havia sofrido fratura da mandíbula.

Hélio Babo acredita na recuperação do atleta: “temos que ter fé em Deus”. Disse ainda que João Carlos de Oliveira era o grande trunfo brasileiro para os jogos Pan-Americanos em 1983, e para as Olimpíadas de Los Angeles, em 1984.

Osvaldo, o primeiro técnico

Outro que comentou bastante o acidente foi o primeiro técnico de João Carlos de Oliveira, o professor Osvaldo Gonçalves. Ele teve o primeiro contato com o atleta em 1971, na cidade paulista de Cruzeiro. João queria treinar salto em altura, mas depois de examinar o tipo físico do atleta, Osvaldo encaminhou para os treinamentos específicos do salto triplo, modalidade em que alcançou o recorde mundial até hoje conservado de 17,89m nos jogos Pan-Americanos do México em 74.

Em 76, em Montreal, nas Olímpiadas, ganhou medalha de bronze e no ano passado, em Moscou, medalha de prata.

Aliás em Moscou ele obteve a marca de 16.90, inferior ao seu próprio recorde. Disse depois:

“A verdade é que toda aquela pressão de que eu era maior  esperança do Brasil, que já tinha ganho medalhas de ouro e todas aquelas entrevistas me perturbaram. Além disso, houve a contusão do nervo ciático”.

Ainda neste depoimento João Carlos de Oliveira chegou a pensar em parar:

“Fui injustiçado. Perfil amizades estupidamente e pensei que o recorde mundial só aconteceu para me prejudicar. Falaram até que competi drogado e outros absurdos. Por isso, sinceramente, pensei em largar tudo. E não tive também uma vida depravada depois do recorde, como ainda insinuam”.

Sargento do Exército, há alguns anos João Carlos de Oliveira foi transferido para a unidade em Três Corações, cidade do interior de Minas, notabilizada por ter sido o berço de Pelé. João Carlos, assim, não pode, durante um certo tempo, treinar no Pinheiros, clube de São Paulo, do qual recebia uma proposta financeira.

Mas nem assim desanimou:

“Eu posso treinar sozinho. Sei exatamente os exercícios que tenho que praticar. É lógico que esse treinamento isolado está longe de ser o ideal”.

João Carlos de Oliveira demonstrava grande preocupação com as Olimpíadas de Moscou. Precisava se recuperar e mostrar  que o resultado de Montreal poderia ser superado. E conseguiu. Ganhou a medalha de prata. Numa ascensão que, certamente, acabaria com a medalha de ouro. Em Los Angeles. Mas a seqüência foi interrompida nessa trágica madrugada.

Ainda em 77 ele dava uma declaração importante:

“A minha cabeça ficou confusa depois daquele salto. Não tive nem mais um minuto para pensar. Não fui mais o João de antes. Sou uma pessoa simples demais e fui forçado a mudar”.

Antes do desastre

O jornalista Valter Bellenzani, do Correio Popular, de Campinas, esteve com João do Pulo antes do acidente:

“Ele estava em Campinas como patrono da turma de educação física da PUC. O que mais impressionou o pessoal da PUC, foram as poucas palavras que João pronunciou, mas que refletiam realmente o quanto ele depositava esperanças nos professores que ali se formavam”.

“Disse o João que apesar de todos os nossos problemas, o Brasil, ainda seria uma potência Olímpica. Afirmou que não falta condições e material humano. Garantiu que a falta de organização é prejudicial. Faz um apelo para que nossos professores lutem por um trabalho bem planificado para fazer do esporte olímpico brasileiro a grandeza que ala merece”.

“Quando as coisas tem que acontecer, não há força capaz de evitar. João não queria ficar. Explicava que tinha urgência de retornar para São Paulo. Foi para atender o apelo dos amigos, dos formandos da PUC, e da sua amiga Conceição Geremias, que ficou. A certa altura da festa, quando a animação era bem grande… demonstrando toda sua descontração e que era realmente uma pessoas espetacular, junto com os formando que faziam uma roda no meio do salão, foi convidado a dançar um samba com Conceição Geremias. No final, ele deveria presidir o sorteio de uma bicicleta como prêmio ao casal mais animado. Mas sem que ninguém percebesse, ele e Conceição haviam saído da Vila Rica, para ir jantar no Restaurante Saci”.

Acidente com outro atleta

Rochester, Estados Unidos (AP) – O lançador Mike Jones, dos Reais de Kansas City foi hospitalizado com graves ferimentos no pescoço em conseqüência de um acidente automobilístico. Deve como comparecer ante o Tribunal no dia 7 de janeiro, acusado de conduzir um veículo em estado de embriaguez.

O carro de Jones chocou-se contra uma árvore, e o lançador sofreu um deslocamento entre a quarta e a quinta vértebras cervicais.

Nos próximos dias serão examinados as conseqüências do acidente e a gravidade das lesões, para se determinar se ele será ou não operado, disseram porta-vozes do Hospital Strong, do Rochester.