Zero de emoção*

Leia o post original por Antero Greco

Caro amigo, sei que você tem pressa ao ler o jornal no café ou ao chegar ao escritório, e vou direto ao ponto: foi feio de doer o jogo que Atlético de Madrid e Chelsea fizeram ontem pela semifinal da Liga dos Campeões da Europa. Em 99 minutos, aí computados os acréscimos do árbitro, as duas equipes acertaram meia dúzia de chutes no alvo, também conhecido como gol, e não passaram do 0 a 0. Empate enfadonho, arrastado, enjoado.

Em palavras simples, o encontro entre os times espanhol e inglês foi um bate-rebate incessante. De um lado, o Atlético – que alguns aqui agora chamam de “Atleti”, intimidade que desconhecia – a martelar com uma infinidade de chuveirinhos. De outro, o Chelsea a defender-se no sistema que, na várzea do Bom Retiro, seria definido como 9-0-1. Ou seja, retranca brava, ferrolho danado, e uma descida ao ataque só se fosse extremamente necessária, e olhe lá. Fim do resumo.

Há quem pesque argúcia, perspicácia, autocontrole, requinte estratégico nessa postura definida por José Mourinho, sujeito sempre de cara feia, de quem vê o mundo por cima, com tédio. Não é por acaso que se autointitula “The Special One”. Na ótica pragmática, o treinador português exibiu repertório genial ao criar dois paredões inexpugnáveis na retaguarda. Era o que desejava e agora vai decidir em casa.

Defender-se faz parte do futebol, empate está previsto no regulamento, o confronto tem 180 minutos, pra ficar numa fileira de lugares-comuns. Fechar-se é recurso tão velho e válido quanto o esporte. O próprio Mourinho se deu bem na Internazionale campeã europeia de 2010, e o Chelsea conquistou a Champions de 2012 com a mesma alternativa, contra o Bayern.

Muito bem, acontece, e daí?

Daí que não ameniza o jogo maçante do clube londrino. Futebol não é xadrez – belíssimo e cerebral -, mas explosão, toque de bola, lançamentos, troca de passes. Gol. E, quanto mais qualificado o conjunto, tanto maior a obrigação de atuar bem, de justificar a fama, de ter coragem. Com diversos nomes de peso, jogadores caros e de variadas seleções, quantos dribles deu o Chelsea? Quantos lances emocionantes criou? Que suspiros arrancou da plateia? Raros, perto de zero. O mesmo vale para o Atlético, incensado nos últimos tempos pela ousadia, porém que se mostrou acanhado e sem criatividade diante de rival fechadinho.

Certamente há quem discorde do que escrevo, e ainda bem que seja assim. A divergência de opiniões anima a vida e a unanimidade seria tediosa. Mas não tem como suavizar: jogo feio é jogo feio, aqui, na Espanha, na China. Retranca, igualmente. Pode ser definida com algum termo em inglês, pra ficar chique, nem assim se torna bela. Cresci com a certeza de que o gol é tudo no futebol, não penduricalho acessório. Não será nesta fase da vida que mudarei, só para mostrar-me sofisticado e moderninho.

Sem pegar no pé do Mourinho, e sem perder a oportunidade da cutucada: o que ele fez em Madri foi muito diferente do que criticamos em técnicos patrícios, como Joel Santana, Celso Roth, Mano, Tite, Muricy, Felipão e tantos outros? Digo que não. A diferença está no fato de ele ser europeu, de comandar um elenco milionário, de participar de uma competição atraente. A sovinice criativa de ontem foi a mesma que corneteamos quando são preferidas pelos professores de cá.

Minha esperança foi transferida para hoje, para Real Madrid x Bayern. Tomara não decepcionem.

Vai ou fica? Inacreditável como o Palmeiras não tem sossego. Alan Kardec é artilheiro da equipe, das escassas esperanças de gol, e há ameaça de pular o muro (São Paulo) ou ir para outro Parque (o São Jorge) por diferença salarial. Só falta virar um novo caso Barcos. Vixe!

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, quarta-feira, dia 23/4/2014.)