Os erros que não se excluem

Leia o post original por Luiz Nascimento

Em meio a tantos absurdos envolvendo Portuguesa, CBF e STJD é preciso analisar cada situação de forma isolada para não gerar interpretações completamente distorcidas de quem defende, acima de tudo, a dignidade e a história do clube.

Portuguesa – A escalação de Héverton na última rodada escancarou um erro crasso da diretoria da Portuguesa. A gestão de Manuel da Lupa é inteiramente responsável pelo pretexto perfeito encontrado por CBF e STJD para limar a Lusa da Série A. Se proposital – com favorecimento a B ou C a partir de entidades/clubes – ou displicente – deixando de cumprir um dos mais básicos deveres de um clube de futebol – o erro aconteceu. Isso quase ninguém nega. E prova, inclusive, o amadorismo com que os dirigentes lusos geriam o Departamento Jurídico do clube.

CBF e STJD – Não é preciso sequer citar a desproporcionalidade da pena imposta à Lusa ou o próprio artigo do CBJD que fala sobre validade de pena no primeiro dia útil após a decisão. Basta analisar a hierarquia da legislação brasileira e constatar que o Estatuto do Torcedor, como lei federal, está acima de uma regulamentação administrativa. E a lei federal é clara com relação à publicidade das penas no site da entidade organizadora, o que não ocorreu. Para o próprio Ministério Público Estadual abraçar a causa é porque, definitivamente, não se trata de uma interpretação oportunista das regras. Se decisões na Justiça Comum foram proferidas nesse sentido, idem. Atropelaram descaradamente o Estatuto do Torcedor e, pior, provaram tanto a fragilidade do CBJD quanto sua completa desarmonia com relação à legislação brasileira.

Histórico – Afirmar que durante todo o campeonato, ao longo de anos, as decisões proferidas pelo STJD às sextas-feiras foram cumpridas pelos clubes nos finais de semana e que, deste modo, a Portuguesa deveria ter feito o mesmo, não faz o menor sentido. Não é porque todos desrespeitam a legislação que se deve aceitar uma ilegalidade. Se essa é a linha de raciocínio, o ‘caso Héverton’ sequer deveria ser levado ao STJD pelo procurador Paulo Scmidt. Afinal, sob o pretexto de que “o resultado de campo deve ser preservado” o mesmo procurador ignorou um caso de escalação irregular do então campeão Fluminense. Cadê o histórico? O que vale para um não vale para o outro?

Independentes – Defender a tese de que a Portuguesa foi vítima de uma injustiça não é isentar o clube de culpa e muito menos se fazer de coitadinho. Dizer que o STJD e a CBF agiram com oportunismo e de forma ilegal não é choro de perdedor, é constatação. Uma coisa não exclui a outra. Assim como a Portuguesa errou, o STJD e a CBF não apenas aproveitaram brechas de uma regulamentação própria como se colocaram acima da Justiça e da Constituição que regem o país. Se há inocentes e prejudicados nessa história, esses são os torcedores/cidadãos que simplesmente foram colocados à margem de todo o processo.

Punição – A atual diretoria da Portuguesa, que em princípio não tem responsabilidade sobre o erro da escalação de Héverton, é obrigada a investigar e punir os culpados internamente. Os responsáveis pelo caso, que podem ainda estar em atividade na Lusa, merecem a expulsão dos quadros do clube. Quem permitiu que isso acontecesse não merece mais pisar no Canindé. Não punir é fazer parte do absurdo por meio da omissão. Ignorar é ser tão responsável quanto quem participou do caso. E mais: em tempos de “pacificação” política, não fazer nada é provar rabo preso.

Fim – Se o clube realmente está próximo de fechar as portas – seja pela crise financeira ou por uma nova punição totalmente descabida da CBF e do STJD – os únicos a não terem culpa serão os torcedores. Já há quem diga que a torcida está fechando o caixão da Portuguesa. Ora, desde quando lutar até o fim pela dignidade e pelo que é certo é matar o clube? Aceitar a Série B goela abaixo, rasgando regulamentos, curvando-se a quem tem poder, com uma cota financeira ridícula, ignorando os culpados do clube, manchando a imagem da Lusa na mídia, não é matar o clube? O oportunismo que vive fora dos muros do Canindé não basta?

Orgulho – A atitude da torcida durante todo esse processo orgulha sim o verdadeiro lusitano. Ir à Avenida Paulista reivindicar o direito do clube, defender a dignidade e condenar a injustiça que manda no futebol brasileiro representou um dos mais nobres capítulos da história da Portuguesa. A enxurrada de ações na Justiça Comum, a pressão para que a diretoria fizesse a sua parte e até mesmo essa última que tirou o time de campo foram sim demonstrações de uma torcida que quer ver o clube vivo, forte e digno. Não um clube fraco, curvado e vendido. Se os homens que geriam a Lusa se venderam no ano passado, eles é que são vendidos. A Portuguesa nunca foi sua diretoria, mas sempre foi sua torcida. E mesmo se o clube for absurdamente punido pela saída de campo em Joinville – respeitando uma decisão judicial, contra a qual ninguém pode ir – a culpa nunca será da torcida. Afinal, ela é a única coisa boa que a Portuguesa ainda tem…