Tempos modernos*

Leia o post original por Antero Greco

O futebol é mágico, tão atraente e encantador que resiste a picaretas, falsos messias, mistificadores, aventureiros, embromadores, sanguessugas e personagens de tal quilate. O jogo de bola tem profundas raízes populares, a ponto de não morrer por modismos, violência organizada, moralistas de araque, hipócritas regras de conduta. Aguenta firma, mesmo com a ação depredadora de gente chata e metida a besta que nele se enfiou.

Como centenas de milhões de viventes, me amarro nesse esporte fascinante desde quando engatinhava. Como milhares de profissionais da comunicação, acompanho a rotina boleira com olhar crítico. Como já virei muitas folhinhas do “Sagrado Coração”, caí na estrada há um punhado de décadas, ainda na época da bola de capotão, e quase sempre no Estadão.

Por isso, amigo, fico à vontade para dividir desabafo com você: o futebol está um porre, ou pelo menos nisso querem transformá-lo. Pra início de conversa, virou ciência exata, em que jogadores são programados para executar determinadas funções em campo, e tudo sai certo ou errado de acordo com o planejamento irrefutável.

Repare na enxurrada de números que nos enfiam goela abaixo, para embasar conclusões inequívocas. Sabe-se quantos quilômetros cada atleta percorreu, em que zona do gramado e em quais períodos. Tabulam-se os chutes a gol: tantos no alto, embaixo, à esquerda, à direita do goleiro. De cabeça, de perna direita, de perna esquerda. De dentro da área, de fora, da meia-lua.

Você certamente viu dados que mostram que, com determinado goleiro, o time leva mais ou menos gols. Com certo atacante, finaliza tantas vezes. A precisão chega ao requinte de falar em média de gols com cifras quebradas – por exemplo, 5,35 gols por jogo. Gol ou é integral ou não é!

A estatística não leva em conta as circunstâncias dos jogos, que nunca são as mesmas: o horário, o campo, a preparação das equipes, a qualidade dos concorrentes, as viagens, os desfalques. Os erros humanos, o imponderável, o acaso, a fortuna! Uma equipe pode comportar-se de maneira tática perfeita. Daí, num chute de longe a bola desvia num zagueiro, deixa o goleiro vendido e vai pro gol. Jogo definido. Como isso pode ser quantificado?

O que me agrada, nas estatísticas, é o resquício de superstição, que se mantém mesmo que soem como fundamentos sérios. Ou não tem um quê de crendice quando se revela que tal equipe não perde em meio de semana? Ou não ganha sob sol escaldante? Ou que empata na estreia? Ou que se dá bem ao jogar com o uniforme número 1?

Uniforme… taí outro negócio que bagunçou. Time de respeito antes tinha o fardamento oficial e o número 2. E os mantinha intocáveis. Agora, lançam pelo menos meia dúzia de versões por ano, sob as mais variadas alegações, e por preços salgados. E dá-lhe a convencer o fã de que é necessário comprar. Assim como proliferam modelos de chuteiras e de bolas. Sei, sei, você vai alegar que o mercado exige, etc.

A linguagem também ficou sofisticada para combinar com os novos ventos. Contusão virou “desconforto muscular”, mistão evoluiu para “time alternativo”, bandeirinha foi elevado à condição de “árbitro assistente”, os estádios ganharam status de “arenas”, passe pro gol é “assistência”, botinada se chama “ação temerária”, retranca subiu para “inteligência tática”. A coleção aumenta.

Politicamente correto, então… Deus me livre! Provocar, zoar, tem contorno de ofensa irreparável. Xingar juiz vai dar cadeia. Jogador que sai do “tudo fazeremos pelos três pontos, não ganhamos nada, o adversário está bem preparado” corre risco de apedrejamento. Pouco se fala dos rapazes e suas vidas (exceto de carrões, contratos, mulheres), pois o “entorno” deles impede. Destaques são empresários, cartolas, assessores, patrocinadores, técnicos. Vivam o oficialismo, o release e as coletivas!

O tempo passa, as coisas mudam, evoluem; perde-se a inocência. O futebol sobreviverá a tudo isso. Amém.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sexta-feira, 25/4/2014.)