Tradição traída*

Leia o post original por Antero Greco

Memórias de infância marcam como ferro em brasa. Todos carregam pra sempre as lembranças dessa fase, boas ou ruins. Elas moldam o adulto. No futebol, minha geração ficou impregnada pela grandeza do Santos de Pelé e súditos do quilate de Gilmar, Zito, Coutinho, Mengálvio, Pepe, Dorval. Impossível não arrepiar, até hoje, só à simples menção dos nomes do rei e de nobres da bola. Quem os viu em ação, simpatizantes ou adversários, não esquece.

Indestrutível, também, o impacto provocado pela primeira versão da Academia, time que o Palmeiras montou nos anos 1960 e que encarava a fabulosa trupe santista com altivez. Ambas dividiam corações, craques e títulos. A molecada daquele tempo se encantava com as passadas de Ademir da Guia, que inspiravam acólitos do jaez de Valdir, Djalma Santos, Djalma Dias, Dudu, Julinho, Servílio, Vavá.

O Palestra deu-se o luxo, ainda, de reeditar o esquadrão enciclopédico na década seguinte, com Leão, Luis Pereira, Leivinha, César, Nei, Edu e, claro, os imortais Ademir e Dudu. Houve uma terceira edição, já nos anos 1990, com Cleber, Roberto Carlos, Zinho, Mazinho, Velloso, Edmundo, Evair, Alex, Rivaldo. Parecia que o Palmeiras adormecido entre os 70 e 80 despertava para retomar lugar de destaque. Ilusão, que secou com o leite da gestora.

Após aquele hiato magistral, o Palestra voltou a recolher-se a plano inferior ao qual o relegaram sucessivas gestões de visão estreita e antiquada. Perdeu terreno, viu o salto de qualidade dos rivais – sobretudo São Paulo e Corinthians – e assumiu o papel de coadjuvante. Neste milênio ainda jovem levou para casa uma taça do Campeonato Paulista, uma Copa do Brasil e nada mais. Quer dizer, tem dois troféus da Segundona Nacional, que mais simbolizam fiascos anteriores do que feitos.

O Palmeiras nesse período acostumou-se a contratar jogador meia-boca, de preferência de baciada, e por onde escorreu muito dinheiro. Para contrabalançar, trouxe um ou outro acima da média, que deu no pé na primeira oportunidade, para alegria de cartolagem, investidores e empresários. E o pobre fã se viu obrigado a concentrar esperança em atletas limitados e que passaram ser deixar saudade. Grandes, pra valer, só história, camisa e torcida verdes.

A carência de astros, e de iniciativas atrevidas, é tão acentuada que agora se criou desgaste, insatisfação e decepção por causa de Alan Kardec. Bom rapaz, jogador razoável, que no máximo seria banco em qualquer uma das antigas Academias. Mas que, no momento, virou um dos pontos de referência da equipe, ao lado de Valdivia e Prass. E, por isso, profissional a ser mantido.

No entanto, a permanência ficou por um fio, por diferença salarial. O clube não abre mão de política de contenção e pode ver o artilheiro pular o muro e transferir-se para o São Paulo. Não entro em juízo de valor a respeito de Paulo Nobre e José Carlos Brunoro. Não duvido da honestidade deles. Claro que é importante ter finanças equilibradas, sob control e manter crédito no mercado. Mas vem o impasse: o clube sai do vermelho para o azul no balancete, reforma a sede, ganha estádio novo e corre o risco de ficar sem time. O que o torcedor prefere? Alguém pensou nisso?

O palmeirense sofre humilhações seguidas, e há muito tempo. Terá de submeter-se a mais uma, justo no ano do centenário? Quando será varrida do Parque a maldita mentalidade de mascate que há tempos prevalece por lá? Quando o Palestra vai livrar-se de mortos-vivos que teimam em trair a tradição empreendedora do “alviverde imponente” e dos nonninhos que o fundaram?

Casa demolida. A Lusa não encontra saída: no fim do ano, foi punida por não cumprir as regras do Brasileiro, ao escalar jogador sem condições. Agora, pode sofrer sanção por cumprir determinação judicial, ao sair de campo diante do Joinville por força de liminar. A ameaça é mandá-la para a Série C. Pagará preço amargo por peitar a CBF? A ver.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, domingo, 27/4/2014.)