Engolindo o racismo*

Leia o post original por Antero Greco

Corinthians “se despediu” do Pacaembu com resultado bacana em cima do Flamengo. O São Paulo salvou-se da derrota para o Cruzeiro no último lance. O Botafogo, com Emerson Sheik, parecia destroçado no primeiro tempo, mas reagiu e ficou nos 2 a 2 com o Inter, no Rio. O Chelsea retrancado ganhou do Liverpool e esquenta a corrida pelo título inglês na arrancada final. Momentos importantes do futebol no domingo.

Mas o que me chamou a atenção pra valer foi a atitude de Daniel Alves. O lateral titular do Barcelona e da Seleção teve presença de espírito genial ao comer a banana que um energúmeno atirou na direção dele, enquanto se preparava para cobrar escanteio no jogo com o Villarreal. Alimentou-se do fruto do racismo e deixou o imbecil anônimo com cara de tacho.

O gesto de Daniel não anula a gravidade do ato, não mascara a intenção de humilhá-lo, muito menos a premeditação. O covarde que se escondeu na multidão provavelmente saiu de casa com a banana no bolso com a intenção de provocar alguém do Barça. E consciente de que, ao comportar-se daquela maneira, atingiria a autoestima do rival. Imaginou o quanto castiga moralmente essa tentativa de rebaixamento social, explícita nas campanhas educativas que se espalham pelo mundo. Inutilmente.

Mas se deu mal. Daniel poderia parar o lance, pegar a banana, levá-la ao juiz, espernear, vociferar. Seriam reações normais e compreensíveis. No entanto, foi além, com criatividade, fair-play e inteligência. Mostrou que pouco se lixava para a agressão, que não perderia a concentração, muito menos a confiança, com a banana (pela tevê, parecia até bem mixuruca). Mandou pro estômago, tocou a vida e ainda ajudou o time a virar o placar nos minutos derradeiros.

O Barcelona ganhou por 3 a 2, o Villarreal continua a toada sem brilho, assim como a da besta que jogou a banana, que foi pra casa frustrado. Admiro o Daniel Alves pelo futebol, pelo atrevimento na forma de vestir-se – que denota muita personalidade e alegria. Virei fã pela resposta altiva, de quem tem dignidade, perspicácia e ousadia. O bobão da arquibancada recolheu-se à mediocridade do dia a dia dele.

Até mais. O Corinthians armou um fuzuê divertido em torno do jogo com o Flamengo, sob o argumento de que se tratava da despedida oficial do Pacaembu, mesmo que venha a jogar lá contra o Nacional de Manaus, se não o desclassificar antes, pela Copa do Brasil. Há chance também de pegar Atlético-PR e Cruzeiro no estádio que agora deixa. Valeu como homenagem simbólica e como motivação para atrair o público.

Barulho à parte, no Pacaembu que viu episódios importantes da vida alvinegra, a equipe de Mano Menezes venceu a primeira no Brasileiro de 2014. Os 2 a 0 diante do Fla revelaram um grupo mais ligado do que no 0 a 0 com o Atlético-MG, porém ainda com muito a melhorar. Bota muito aí. Se serve de consolo, não há esquadrões na Série A.

O Corinthians oscilou de novo, o que o levou a ter dificuldade diante de um Flamengo de futebol de pobreza franciscana e que ficou com 10 antes do intervalo (Léo Moura foi expulso). Na segunda parte, o goleiro Cássio apareceu mais do que Felipe, sinal do esforço rubro-negro e da dificuldade alvinegra para sustentar regularidade no desempenho.

Sem levar em conta o resultado, o que decepciona é constatar, ainda uma vez, que faz tempo que não há um grande duelo entre os times de maior torcida no Brasil. Chato isso.

Salvo pelo gongo. O São Paulo deu sono, diante do Cruzeiro. A vibração dos 3 a 0 da semana passada sobre o Botafogo desapareceu contra o campeão nacional. O trio Ganso, Pato, Luís Fabiano não empolgou, e Muricy Ramalho berrou a todo fôlego para corrigir erros deles e dos demais. Quase em vão. Por sorte, o Cruzeiro, com a cabeça na Libertadores, esteve contido, aéreo, a ponto de perder a vantagem no lance final, em que prevaleceu o oportunismo do zagueiro artilheiro Antônio Carlos.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, segunda-feira, 28/4/2014.)