STJD e o mundo do faz de conta

Leia o post original por Luiz Nascimento

Confesso que tentei evitar ao máximo saber o que diria o procurador-geral do STJD, Paulo Schmidt, após oficializar a denúncia à Portuguesa pelo ocorrido na primeira rodada da Série B do Campeonato Brasileiro. Porém, tanto por gostar de acompanhar tudo que envolve a Lusa quanto por simplesmente não conseguir ficar à margem das notícias pelas redes sociais, deparei-me com as declarações. Foi-se o tempo em que eu ficava nervoso ao ouvir tanta coisa que, além de não ter sentido, atenta sem pudor ou medo contra o que é certo e justo.

Após o circo em forma de julgamento que retirou os quatro pontos da Portuguesa e a rebaixou à Série B no ano passado, nada mais me impressiona no meio do futebol. Um tribunal gerido como um feudo, composto na base de indicações nada justificáveis, mantido por uma entidade que deveria ser julgada, com uma regulamentação conveniente e cujas decisões são colocadas acima das próprias leis que regem o país. Isso mesmo. A decisão de um tribunal administrativo vale mais que a decisão da Justiça. Vivemos em uma realidade na qual o trecho abaixo vale mais que a decisão de uma Juíza de Direito.

Isto posto, ciente de que o poder econômico e de influência vale mais que qualquer direito propriamente dito, não valeria a pena dar atenção aos que denunciam e aos que vão “julgar” a Lusa. Afinal, é por momentos como esse que muitos deles esperam por um ano inteiro. Uma câmera ligada, um microfone aberto, um caderninho na mão são tudo. Porém, uma declaração em especial realmente assusta. O procurador-geral Paulo Schmidt disse que tudo que ocorreu naquela noite em Joinville não se passou de uma “fraude”.

A 3ª Vara Cível do Foro Regional da Penha, em São Paulo, não existe? A Juíza de Direito, Dra. Adaisa Bernardi Isaac Halpern, não existe? O torcedor Renato de Britto Azevedo não existe? A liminar concedida no dia 10 de abril, que constava no site do Tribunal de Justiça de São Paulo, não existia? As tentativas de derrubada da liminar antes do início do campeonato por meio da CBF não existiram? O pedido da Portuguesa por adiamento da partida, divulgado à exaustão nos meios de comunicação, não existiu? Ou pior: aquele documento que o delegado da partida leu à beira do campo em Joinville, cujas imagens do SporTv mostram nítida e claramente do que se trata, não existiu? Foi ilusão de ótica?

.

.

Enfim, essa denúncia prova o quanto as coisas estão erradas não apenas no futebol brasileiro, mas no país como um todo. A mesma entidade que derruba uma liminar durante a madrugada é aquela que se acha no direito de afirmar que uma decisão judicial não existe ou não tem eficácia. Como bem disse uma advogada colega de arquibancada: se um cliente precisar de uma liminar para realizar um transplante de coração durante a madrugada, morre; se a Confederação Brasileira de Futebol precisar fazer a bola rolar em algum campo por aí, consegue.

Se as coisas fossem minimamente sérias a Lusa sequer seria denunciada. Quando a decisão judicial vale menos que o desejo de uma entidade ou de um tribunal administrativo, vê-se a falência do Judiciário. A Portuguesa deveria prestar esclarecimentos sim, mas à Justiça por ter descumprido uma decisão e entrado em campo. Nem no gramado os jogadores deveriam ter pisado. E se houvesse uma sombra de seriedade não apenas no futebol, mas no país, a CBF é que deveria se explicar por tantas mazelas nesse caso.

Porém, o sistema é tão viciado que não há mais pudor algum. Sabe-se que os poderes econômico e de influência resolvem tudo. Portanto, coloca-se acima do bem e do mal aquilo que alimenta o sistema. E atropela-se Justiça, Constituição, Lei Federal, Estatuto do Torcedor, vergonha na cara, dignidade e afins. Porque a certeza de que o poder manda é inabalável. E, com isso, o feudo permanece incólume na Rua da Ajuda, na região central do Rio de Janeiro. Ali funciona o STJD e o interesse. Ali jaz a Justiça e a vergonha na cara.