Como se sentir otário*

Leia o post original por Antero Greco

Só sujeito muito insensível não ficou tocado pela atitude sagaz, irônica e inteligente de Daniel Alves, que comeu parte de banana que fora atirada na direção dele em jogo do Barcelona no final de semana. O gesto do lateral soou como resposta pacífica e desdenhosa ao comportamento covarde de um valentão de arquibancada. Mereceu aplausos e estimulou reação em cadeia mundial, com inúmeras personalidades a postar fotos nas quais comem a saborosa e nutritiva fruta.

Um dos primeiros a prestarem solidariedade foi Neymar, companheiro de Daniel no clube e na seleção brasileira. No domingo à noite mesmo, apareceu o jovem craque a segurar uma banana de verdade junto com o filhinho, que tinha uma de plástico. E, de quebra, colocou a frase #somostodosmacacos, nesse formato usado para compartilhar em redes sociais.

Sucesso fulminante, sacada de mestre do ex-santista, sinal de que está antenado em tema tão delicado e revoltante, porque segregação racial jamais deve ser justificada. Lamentei não ter visto a imagem antes, pois certamente teria feito referência a ela na crônica que dediquei ao Daniel na “Edição de Esportes” de anteontem. Agora, me sinto aliviado pelo vacilo. Caso contrário, teria embarcado em uma campanha publicitária, como milhões caímos…

Pois era disso que se tratava: uma peça de marketing. E quem revelou a artimanha não foi nenhum repórter abelhudo, mas o dono de uma agência de publicidade. Com candura, disse que havia sido procurado pelos Neymar, pai e filho, preocupados com manifestações preconceituosas que se repetem na Europa, sobretudo na Espanha e em jogos do Barça. Daí surgiu a ideia de Neymar (filho) comer uma banana na primeira oportunidade em que isso acontecesse. Questão de tempo.

Pelo visto, esqueceram de combinar com Daniel Alves, que aparentemente não sabia de nada. Como o impacto inicial foi quebrado por outro protagonista, se optou por desencadear a campanha a toque de caixa. O negócio era não deixar a onda baixar, fundamental surfar nela enquanto estivesse no auge.

Não foi só Neymar quem se deu bem. Na segunda pela manhã, já estava disponível para compra, pela internet e por R$ 69, camiseta da grife de um astro televisivo com o slogan. Provavelmente, vai vender muito, para alegria do empresário empreendedor. E que velocidade para colocar o produto na vitrine!

A sensação de logro, de tapeação veio com a declaração do agente de mídia. Daí quebrou o encanto. Já que Neymar estava empenhado em combater o aleijão do racismo, por que não detonar logo a campanha, uma vez que o assunto não sai de cena, infelizmente? Seria estupendo da mesma maneira _ ou mais, porque mais espontâneo. Ou pensaram que, talvez, não causasse impacto, se não tivesse a dramaticidade, o detalhe do jogador oprimido a abaixar-se e triturar o objeto da injúria?

Depois disso, dou-me o direito de fazer nova interpretação (quem sabe, errada?) do episódio. Seria mais um factoide para promover quem já tem tanta visibilidade? Seria um jeito de burilar a imagem de um jogador que teve nome envolvido em polêmicas pelas recentes críticas ao dinheiro real gasto na contratação e pelas simulações de faltas e pênaltis?

Neymar não precisa disso. Mas, se for assim, lamento. A luta contra segregação racial deve ser intensa, incessante e séria. Uma bandeira sem dono e com todos a empunhá-la. Ninguém tem direito de usurpá-la em favor próprio. Sinceramente, me sinto com cara de otário. Porém, prefiro jogar no time dos crédulos do que passar para o lado dos espertos.

Muito barulho… Paulo Nobre se desgastou, Carlos Aidar flertou com a grosseria, por causa de um Alan Kardec. E pensar que os dois clubes já tiveram mais bom gosto na disputa por jogadores. Sinal dos tempos.

Que surra! O Real Madrid triturou o Bayern, nos 4 a 0 de ontem. Exagero até para quem tem Cristiano, Bale, Di Maria, Modric. Irretocável.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, quarta-feira, 30/4/2014.)