Uma bandeira brasileira.

Leia o post original por Mauro Beting

Ele viveu sonhando, suando, sofrendo, sendo primeiro. Prazer virou profissão. Dever no Dia do Trabalho. Primeiro de maio. Morreu o tri mundial. Número um na Williams. Primeiro na idolatria brasileira de grandes pilotos. Dos primeiros na idolatria mundial.

Ayrton Senna do Brasil.

Do mundo que parou há 20 anos na manhã de domingo. Como tantas para ver ele correr sem carro. Sem braço. Sem nada. Com tudo.

Há 20 anos, o mundo parou naquele muro. Morreu na Tamburello muito da melhor imagem do Brasil. Se construída, falsa, exagerada, messiânica, mediúnica, midiática, não importa.

O mundo se importou com aquela tragédia ao vivo e em dolorosas cores. Era um JFK atingido em Dallas. Seriam as torres caindo em NY. Foi Ayrton imolado para o mundo chorar o que não chorara um dia antes com Roland Ratzenberger. Duas corridas. Último colocado na prova anterior. Morto em acidente nos treinos no sábado, em Ímola.

Ayrton estava com uma bandeira da Áustria para homenageá-lo em mais que possível pódio.

O mundo tem bandeiras brasileiras hoje para homenageá-lo 20 anos depois. Algumas que tremularam quando o féretro chegava ao cemitério Morumbi. Quando os fiscais de prova de Interlagos fizeram questão de dar as últimas bandeiras. Das mais tocantes de tantas imagens daqueles dias de sol e tristeza.

Na época, dormi de sábado para domingo ao lado do edifício onde moravam os pais de Senna. Fui acordado pelo telefone da chefia de reportagem da Globo perguntando se meu pai tinha algum telefone da família de Ayrton. Grogue de sono, não entendia o motivo. Mas logo imaginei o pior. Depois do acidente de Rubinho na sexta, da morte de Ratzenberger no sábado, era dia de tragédia.

Mas não com ele. Desci correndo, meio de pijama, para os colegas de trabalho contarem o que não tinha visto. Todos à frente da casa dos pais de Senna. Todos devastados como fiquei. Ele era não só um cara vencedor. Não apenas um brasileiro que dava certo. Ele era um cara normal que parecia fazer coisas anormais. Quase um herói. Ainda que fizesse manobras nem sempre louváveis, ele era o nosso cara que corria pra ser primeiro. Não segundo. Não pensava em pontos. Só vitórias. Não tinha estratégia. Só vitória.

Era o piloto por excelência. Por isso era meio que um herói venerado em um país que ama vencedores. Não necessariamente o esporte. Um Brasil que ama detonar quem vence. Brasileiro que chora de alegria e da desgraça. Faz piada enquanto chora.

Comentei o velório de Senna pela TV Gazeta. Dias depois de ter ido ao enterro de Dener. Eram dias de luta. De luta para trabalhar. Ouvia “Philadelphia” de Neil Young. Usei como trilha fúnebre na Rádio Gazeta. Era tudo doido. Doído. Triste.

Era perder alguém querido. Da família. Nem a alegria da vitória de virada contra o São Paulo, no Morumbi, que encaminhou o bi paulista palmeirense, consolava.

Apenas o aperto no peito quando as duas torcidas gritaram por Senna superou. Quando são-paulinos e palmeirenses cantaram juntos pela única vez em um Choque-Rei em estado de choque. Quando as duas torcidas gritaram por um corintiano confesso.

Ayrton Senna do Corinthians. Do Brasil. Do Japão. Da Argentina. Sim, de todos os argentinos. No museu de Fangio, em Balcarce, a atração mais vista é um carro de Senna. Amigo e fã do grande campeão argentino. Craque do volante que ensina que todos devem tentar ser sempre os melhores. Mas jamais se sentir como tais.

Tal qual Ayrton.

Ele é de casa. Da nossa casa. E das outros também.

Bandeira verde amarela na pista.

Todo dia uma bandeira como a dele merecer ser desfraldada.

Em um pais cheio de fraudes, bom lembrar Senna.

Um que viveu para ser o primeiro. E conseguiu. Um que morreu fazendo o que amava. Onde mais queria e era querido. Um vencedor.