CBF rica, clubes pobres*

Leia o post original por Antero Greco

A reportagem que abre o noticiário da seção de Esportes retrata o nosso futebol, e sintetiza um pouco, também, o que ainda é o País. O repórter Almir Leite relata o aumento fabuloso de arrecadação da CBF, sobretudo com a seleção, há muito a galinha de ovos de ouro. Joia rara vendida a bom dinheiro para comerciantes e plateias estrangeiras, e pouco acessível ao público doméstico, por não render.

Os defensores da CBF – e os há, acredite, caro amigo – podem alegar que qualquer entidade privada busca o lucro para sobreviver e expandir-se. Muito justo. Não vejo o dinheiro como algo sujo ou símbolo do Coisa-ruim. O meu, o seu, o da maioria das pessoas, vem da honrada dedicação ao trabalho, e com ele tocamos a vida.

A entidade instalada na Barra, em belo prédio erguido pelo ex que se escafedeu e vive no exílio, tem uma particularidade: administra um dos bens culturais mais caros da nação. O futebol não é febre passageira por aqui, não chama a atenção por acontecimento extraordinário e depois some. Não é sucesso de verão nem um case de publicidade.

O joguinho de bola pode ter sido inventado pelos ingleses – há controvérsias, mas deixa eles viverem na ilusão -, porém encontrou requinte por aqui. Nesta região do Atlântico surgiram os maiores astros, os craques, os semideuses – e incluo argentinos e uruguaios, por questão de justiça e obviedade.

Não preciso repetir que o futebol está no sangue do brasileiro e outras constatações seculares e consolidadas. Isso tudo pra dizer que, mais importante do que seleção, são os clubes, e para o bem-estar deles que deveriam existir Federações e CBF. Essas entidades têm obrigação de servir às agremiações e jamais de servir-se delas.

Mas aqui é o que ocorre. Vemos a CBF enricar, a troco de quê? O que fará com o dinheiro? De que adianta forrar cofres e termos times com pires na mão? Ah, observarão seguidores de Marins e Del Neros, destina parte dos recursos em ajuda a entidades locais e banca despesas de equipes de Séries C e D. Pouco, e não mais do que obrigação.

A CBF deveria ter como prioridade a organização de competições rentáveis, ou ocupar-se em encontrar recursos para os clubes. Estimular, enfim, o fortalecimento da base, e não usá-la só como massa de manobra política. A saída seria uma Liga independente. Mas é outra história, e quem tem coragem?

Somo todos… A luta contra segregação racial e preconceitos generalizados deve ser incansável e terminar só no dia em que não houver mais ninguém a sofrer humilhação por origem, padrão econômico, classe social, cor da pele, credo religioso, orientação sexual. A campanha desencadeada por Neymar repercute com furor e, espero, não se limite outro modismo, como tantos, consumidos com voracidade em tempos em que novidades duram enquanto houver curtidas nos fêices e tuítes…

Jogador, agência de publicidade que bolou o slogan, astro televisivo/empresário que lançou camiseta com a banana garantem que tudo foi feito sem interesse de promoção pessoal, institucional ou financeira. A intenção foi escancarar assunto que incomoda e envergonha.

Acreditemos. E torçamos para que tanta gente que fez barulho com o movimento não vire a cara para injustiças que trombam conosco no dia a dia. Não olhe para negros como suspeitos por definição, não veja pobres como vagabundos, não classifique gays como doentes ou pervertidos, não enxergue o migrante como inimigo, não enxote o refugiado como uma chaga, não satanize quem segue outra religião – para ficar em alguns exemplos. Pratique o slogan “somos todos humanos”.

Covardia punida. José Mourinho apostou na tática da retranca desavergonhada do Chelsea, no primeiro jogo com o Atlético de Madrid, alegrou-se com o 0 a 0, fez pouco dos “filósofos do futebol” e o time dele está fora da final da Champions. Arrogantes às vezes caem da mula e dão com o rosto no murinho.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sexta-feira, dia 2/5/2014.)